25.4.06

Skol Beats || Redondo, rodopiando

A Skol tem algumas raízes portuguesas – foi mão portuguesa que a criou no Brasil. Desde a década de setenta que a Skol é, além do mais, uma marca de referência – as suas campanhas publicitárias ajudam. Há uns anos, a Skol lançou a ideia de que é a única cerveja que desce redondo; as imagens do anúncio mostravam as outras cervejas descendo como um cubo pela garganta dos bebedores; só a Skol se apresentava como uma bebida redondinha, baixando com facilidade até ao estômago. Há uns Verões, há uns anos, a Ambev (o fabricante brasileiro) lançou a Skol Beats, uma cerveja «para público jovem». Eu desconfiei: as coisas «para público jovem» são todas hip-hop e de baixa qualidade ou, pelo menos, de qualidade adulterada pelo «gosto jovem» que é, geralmente, fácil e superficial. O lema da campanha era «a cerveja que desce redondo, rodopiando». Daí que a garrafa fosse, também ela, rodopiante, como se vê pela imagem. A desconfiança transformou-se em surpresa porque a Skol Beats, tirando o ar hip-hop (que nem era fundamental…), era saborosa e, ao contrário do que fazia crer a ideia «para público jovem», não se tratava apenas de uma «cerveja leve». Mantinha uma percentagem alcoólica, digamos, sustentável (5,3%) – e era uma lager, evidentemente, e de «coração frio». Ao bebê-la, depois de a boca a saborear, ficava uma sensação de geladinha bem aceitável. A sua garrafa totalmente transparente, ondulada, com mais aderência à mão, também facilitava. Utilizei várias vezes o radical «fácil»; também não me arrependo. A Skol Beats é uma cerveja fácil de beber, elegante, sem necessidade de muita preparação (como a existência de um salgadinho prévio) e pode beber-se pela garrafa, ao contrário das cervejas «sérias» (isto não é uma vantagem mas apenas uma constatação). O Verão brasileiro, mesmo quando ainda mal começou, também é um factor importante para apreciar convenientemente esta cerveja. Ela deixa um rasto de condensação do ar, um ligeiro travo cítrico e uma paleta de cores muito aceitável enquanto rodopia. Como na campanha publicitária, ela desce redondo, rodopiando. É mesmo verdade.

+MARCA: Skol Beats
Origem: Brasil
Álcool: 5,3%
Avaliação: **

Polar || Vento polar

A viagem entre Porto Alegre e Pelotas é coisa para três horas, mas quando tem na outra ponta do fio um convite para feijoada nesse fim de tarde ou noite e para um churrasquinho no dia seguinte ao final da manhã, o tempo de viagem é amenizado. A meio da viagem, inclusive, há uma paragem para provar croquetes superlativos, coxinhas bem temperadas e até bolinho de aipim que faz inveja. Luís Fernando Veríssimo fez várias viagens para encontrar o «pastel perfeito» e encontrou-o num shopping de Gramado, como conta num dos seus livros. Eu encontro bolinho de aipim em vários lugares e ainda não me decidi pela tabela classificativa. Seja como for, a velha Pelotas aguardava-me depois de percorrer a estrada que acompanha, ao longe, as lagoas originais do Rio Grande do Sul, onde açorianos antiquíssimos pensavam que estava o paraíso na terra. Uma feijoada (mais a promessa de churrasquinho gaúcho no dia seguinte) pede contenção àquela hora. Mesa resplandecente: a comidinha tinha sido preparada num fogão de lenha, temperada e apurada pelo tempo. Mas há aquele tempo de espera que uma feijoada sempre necessita – e que foi ocupado com libações exageradas com a Polar. Bênção dos céus. Tinham-me dito que era uma pilsener (embora a marca tenha acabado de lançar uma Polar Bock, mais forte e substancial), coisa que eu ignorei: fresquíssima, leve o suficiente para evocar a grande noite do Inverno austral, mas sem desmerecer de um final seco e sem o amargor das suas congéneres europeias, a Polar manteve-se até ao fim como companheira adestrada. Bebi demais, confesso. Mas nada me toldou naquela mesa familiar, cheia de riso e de noites antigas. Três vezes me servi de feijoada, umas doze de Polar. Não me arrependi, mas devo ter causado má impressão. No dia seguinte, a tranquilidade do sistema digestivo manteve-se e o churrasquinho foi recebido com mais pilsener. Saí de Pelotas com a impressão de que tinha descoberto uma cerveja muito, mas muito agradável. Sem contar com o resto.

+MARCA: Polar
Origem: Brasil (Rio Grande do Sul)
Álcool: 4,5%
Avaliação: **

Caracu || Rodeo e cervejão

Encontro muitas vezes, nas minhas andanças, cervejas más. Creio que, ao longo de um ano de crónicas, ainda não mencionei nenhuma delas, o que se explica facilmente: com tantas cervejas boas espalhadas pelo atlas, não há razão para começar pelas que caíram no saco das reprovadas. Muitas vezes, são más por causa da água que fornece as suas cubas; ou pela sua alta fermentação; ou pela sua baixa fermentação; ou pelo excesso de levedura que não filtrou; ou porque – vamos lá – me sabe mal. É certo que, para a apreciação da cerveja, não contam apenas as suas características orgânicas, o seu sabor a frio; há outros factores. Só assim se explica que eu goste de algumas cervejas absolutamente medianas, mas que evocam uma paisagem, um destino, uma hora, uma conversa que de alguma maneira está associada ao gesto de abrir uma garrafa gelada (ou não…) e de provar o líquido. Passeando pelo globo, ao acaso, encontram-se revelações e deparamos com desilusões. É a vida.
O caracu é uma raça bovina brasileira. Os criadores de gado locais identificam o caracu com o chamado «gado quatrocentão», trazido pelos portugueses, muito rústico e capaz de esforços brutais. O gado caracu, ao que me explicaram, serve para «carregar carga e puxar arado», não tendo proximidade com a raça nelore, que os carnívoros apreciam devidamente e fazem rodar no prato. Pois em 1899 apareceu uma cerveja com essas características e com esse nome, Caracu: para puxar arado e carregar peso. Há alguns anos (em 1996, e com a ajuda do actor José Wilker, que lhe deu a voz) foi rejuvenescida, mas mantém o essencial do seu aspecto rústico – cerveja escura, amarga, com poeiras de levedura, muito «alimentícia». Tendencialmente stout, portanto, se não fosse uma certa timidez na espessura, o que, aliado à sua dança com o caramelo, lhe empresta um tom doce que seria dispensável. Cai muito bem no copo e não recomendo que se beba directamente da garrafa: convém misturá-la antes de a beber. A sua espuma é volátil (outro defeito) mas muito branquinha. Os brasileiros do interior, sobretudo da zona do centro-oeste e do sudoeste, habituados ao rodeo, ao churrasco e aos duos sertanejos, dizem que ela dá pique. Esperam que compreendam o que isso significa. Não a misturem com pó de guaraná. Ela, por si só, já é pique suficiente. Deus nos livre, se posso exprimir-me assim.

+MARCA: Caracu
Origem: Brasil
Álcool: 5,3
Avaliação: **

Bohemia Weiss || Ela voltou, sensual

Foi uma excepção durante as comemorações da instalação da Cervejaria Bohemia sob o clima fresco e verdejante de Petrópolis, mal se sobe do Rio de Janeiro: nessa altura, e numa série de milhares de garrafas, apareceu no mercado a Bohemia Weiss, uma cerveja turva, de boa e acentuada fermentação, com sabor a trigo. Devemos-lhe algum destaque, uma vez que a tradição cervejeira portuguesa em terras brasileiras não é inócua ou distante: foram mãos portuguesas que criaram a Skol brasileira, e que a impuseram como a primeira cerveja vendida em lata. Hoje, é provavelmente a terceira melhor de todas as loirinhas pilsener e maisntream no mercado do lado de lá do mar. E porquê? Porque há muitas razões e eu voltarei a elas. Pois houve reivindicações e exigências do mercado: e a Bohemia Weiss regressou. Pode encontrar-se na sua garrafa de 550 ml, dose cabal e interessante para apreciadores: a sua cabeleira loira e turva ondula dentro da garrafa e cai em cascata para o copo, deixando na boca um tom amargo (para quem já consumiu a Franziskaner, por exemplo, sabe ao que me refiro) que, em princípio, não seria admissível nos trópicos do Atlântico Sul. Pois é essa surpresa que é importante distinguir: o que parece uma cerveja europeia (e é) acaba por se transformar num sabor muito apetecível. Numa das últimas vezes bebi-a nos arredores de Porto Alegre, em Nova Petrópolis, no restaurante Colina Verde. Meu Deus. O garçom avançou por entre as mesas, segurando a garrafinha de Bohemia Weiss numa das mãos, os copos na outra; serviu um bom pedaço – fez espuma. Agitou em seguida a garrafa, para que não assentassem lá dentro nenhumas matérias flutuantes, e tudo se parecesse com aquele vasto mar de sargaços de que falava Jean Rhys. Depois, completou o copo com aquela espuma turva, especiosa, danada, safada, gostosa. Enfim, cheia de libido. O preço é incomparável. O sabor, esse, não tem preço. É boa.

+MARCA: Bohemia Weiss
Origem: Brasil
Álcool: 5,6
Avaliação: ***

La Brunette || Morena e essas coisas

Os fabricantes da La Brunette, que também são responsáveis por uma ale nada negligenciável (a Schmitt Ale), advertem que o lúpulo utilizado na preparação desta cerveja é importado para o Brasil directamente da Nova Zelândia – esse é um pormenor na sua construção muito cuidadosa. Eu situá-la-ia na zona das dunkel mas a sua espuma volumosa e densa lembra-me quase uma stout. Na verdade, vista à luz, ela aproxima-se das grandes cervejas escuras alemãs ou vienenses (talvez um pouco mais), com reverberações de chocolate quando o brilho do sol incide sobre ela directamente. Chamar a uma cerveja assim La Brunette é um risco substancial que se corre – estamos no Brasil e la brunette deve ser traduzido por morena, e morena deve ser traduzido com o acréscimo colaborante de qualquer outra palavra que designe a sensualidade, a concupiscência, essas coisas. Uma cerveja assim deve ser assinalada: o sabor é acidentalmente adocicado mas, mal se afasta o copo, a boca dá-se conta de ter sido invadida por aquele tom amargo que faz as delícias do bebedor, que gosta de uma espuma prolongada e, quando está para aí virado, de uma boa densidade. Há uma certa harmonia entre a carbonatação moderada e a sensação de suavidade proporcionada pelos açúcares da fermentação e pelo amargor do lúpulo neo-zelandês. Como o Rio Grande do Sul tem Outonos temperados e tépidos, acho uma pena não ser mais fácil encontrá-la nas lojas, uma vez que é a cerveja ideal para sobremesas.

+MARCA: La Brunette
Origem: Brasil
Álcool: 4,5%
Avaliação: ***

Devassa Tropical Lager || Frescura sem frescura

Há cervejas brasileiras que me comovem. A Bohemia, a Cerpa, alguma Kaiser (sobretudo o chope da Kaiser tirado no Liliput, de Porto Alegre, em dois barris comunicantes), alguma Skol. Bebo-as sem pensar no destino da humanidade e sem outra evocação que não seja a de beber uma cerveja longe do compromisso de as beber: a maior parte delas requer uma boa dose de irresponsabilidade e de rapidez. É aquele tipo de cerveja sobre o qual reflectimos o suficiente para a aceitarmos como ela é. Não temos de dizer “oh não, hoje comi salada com demasiada cebola, não vai dar”, ou “tenho de pedir um queijo seco, oloroso, salgado, para acompanhar”. A maior parte delas, sendo apreciável, não deixa um travo amargo carregado de lúpulos de qualidade; tirando a Cerpa e a Bohemia, a maior parte das loiras brasileiras (refiro-me às cervejas, evidentemente) é agradável ao paladar (porque não o fere) e suave na boca (porque não sabe agredir e, na verdade, são bem construídas com muito poucas excepções). A Devassa Tropical Lager é, não duvido, a melhor lager de grande distribuição. Tem aquele tom amargo final, próprio das pilsener. Seca, com um levíssimo sinal da presença de frutos acidulados, a devassa loirinha merece encómios. Em chope, a espuma é mais cremosa, evidentemente, mas em garrafa não perde o essencial da sua coroa consistente e perdurável, protegendo o corpo leve e ondulante de uma musa caminhando pela Gávea em certas horas do entardecer. Podia falar da Lagoa, claro, da Lagoa Rodrigues de Freitas, e uma certa esplanada onde a bebi também, porque as cervejas ou nos fazem sonhar e desaparecer do mundo dos comuns mortais, ou não vale a pena insistir. Ela é devassa. Tem aquela frescura intensa e comovente – mas, para o idioma do Brasil, não tem frescura, se me entendem. É bem feita. Bem torneada.

+MARCA: Devassa Tropical Lager
Origem: Brasil
Álcool: 4,8%
Avaliação: ***

Schmitt Ale || Um brilho natural

Já escrevi, a propósito de outras cervejas construídas a sul do equador, que é um engano pensar que nos “países tropicais” não se encontram cervejas de “grande densidade” ou, pelo menos, distintas do paladar e da textura habitual das lager de cor clara. A Schmitt, originária de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, Brasil, é uma delas – o facto de a região ter recebido uma grande percentagem de imigrantes provenientes do norte e do centro da Europa tem a ver com as tradições das cervejarias artesanais locais, que mantêm padrões de qualidade muito aceitáveis. Esta, existe em três variedades: a Ale, a La Brunette e a Barley Wine (que não provei), e nenhuma delas é recusável sob nenhum ponto de vista. A Schmitt Ale tem uma cor ambarina, alaranjada-escura, com fermentação na própria garrafa (sendo natural que haja depósito em algumas), uma explosão de gás muito aceitável e acolhedora. O aroma é equilibrado, sem marcas de levedura, com um leve apontamento de fruta (limão ou lima), e o sabor é prolongado mas consistente. E uma surpresa: a sua espuma não se dilui imediatamente; dada o seu processo de fermentação, não é crime que se volteie o copo enquanto repousa – logo se forma um levíssimo creme que lhe dá vida e bom aspecto. Aconselho vivamente que se experimente, depois de mergulhar algumas garrafas num balde de gelo, numa tarde de calor.

+MARCA: Schmitt Ale
Origem: Brasil

Álcool: 5%

Avaliação: ***

Devassa Tropical Ale || Malandragem

Surpresa absoluta para mim, carioca algumas vezes por ano. Provei a Devassa Lager, imagine, numa feira do livro e achei graça, como toda a gente, ao slogan escolhido: “Um tesão de cerveja.” Com um objectivo destes, qual a cerveja que passaria despercebida? Nenhuma. A Lager era boa, muito boa, mas só uns dias depois provei a sua Ale, antecedida do aviso: Tropical. Seja, pois, a Tropical Ale: ruivinha, dançarina, maneirinha mas com um corpo que providencia fantasias gloriosas e indizíveis. Carioca de gema, a Devassa Tropical Ale é uma prova de que se pode fazer cerveja ruiva sem ter de evocar, invocar ou recuar até às cervejas de abadia – uma mania europeia e, agora, portuguesa. A Devassa Tropical Ale é genuinamente sensual, cremosa, ligeiramente amanteigada, escorregadia, com uma luminosidade bem conseguida nos seus ares translúcidos, derrapantes. Encorpada, sem dúvida, e com ligeiros tons de açúcar que contrastam com elementos florais, à mistura com maçã verde. A espuma? Decentíssima, esperta, fescenina, levantando voo de cada vez que o copo faz aquela viagem saborosa separando-se da boca e sendo devolvida à mesa do bar. O aroma, a princípio tem marcas de caramelo, que depois se esvai e desaparece para valorizar os lúpulos que lhe dão amargor suficiente. Lembro-me das esplanadas da zona sul do Rio nestas ocasiões – a Devassa é uma cerveja chique, digam o que disserem, sensual; tem aquela marquinha de biquini e de areia de Ipanema em entardeceres do Posto 9, quando se caminha pela Rua Farme de Amoedo em direcção às praças do interior, diante dos morros. Para cerveja carioca é excelente.

+MARCA: Devassa Tropical Ale
Origem: Brasil
Álcool: 4,8%
Avaliação: ***

Eisenbahn Dunkel || Distinção

Não tenho grande explicação para isso, uma vez que não visitei a fábrica da Eisenbahn em Blumenau, mas estas cervejas de Santa Catarina podem orgulhar-se da sua boa qualidade e da clareza com que o bebedor as reconhece num lugar logo acima da média. Isto é ainda mais surpreendente para quem acha que todas as cervejas brasileiras são claras, aparentemente leves e admitindo milho e arroz na sua fermentação. No caso da Eisenbahn Dunkel estamos diante de uma cerveja de tons ruivos escuros à luz do dia, castanhos-escuros no copo, homogénea e equilibrada – mas com um sabor intenso de noz e caramelo, um nadinha inesperado de caju no final, um pouco de baunilha na boca à mistura com café. Quanto à espuma, rescende pouco a caramelo (o que é uma surpresa nas cervejas escuras em geral) e a cor não o desmente, embora desapareça frequentemente, à boa maneira das dunkel originais, nas quais o bebedor não procurava espuma mas intensidade, o que não lhe falta. Como nota de prova suplementar, há indícios de maltes bem tostados, e, volteando a cerveja no copo as suas ondas de espuma profunda dão a impressão de uma vida interior agitada, complexa e agradável de beber. Pessoalmente, tenho-a como uma das boas cervejas do Brasil, de construção muito cuidada e com fiéis que acabam por tornar-se fanáticos. A Eisenbahn, que também produz uma Pale Ale e uma Pilsener fantásticas, está de parabéns e merece distinção.

+MARCA: Eisenbahn Dunkel
Origem: Brasil
Álcool: 4,5%
Avaliação: ***

Baden-Baden Red Ale || Do frio dos trópicos

Não sei se sabem onde fica Campos do Jordão. A cidade orgulha-se de ser a mais europeia das brasileiras; não é verdade mas serve como indicador. O que há em Campos do Jordão, quando nós estamos a suar nas praias, é isto: frio. Mais: hordas de paulistas, sobretudo, disputando todas as moléculas de frio disponíveis no ar. Não é nada que se compare à minha peregrinação a Cambará do Sul, na serra gaúcha, mas para paulista é simpático. Seja. Ora, o que me comove em Campos do Jordão, já que não pode ser o livro de Dinah Silveira de Queiroz sobre aquelas paragens, é a cerveja Baden Baden. Várias: a pilsen, fresca e agradável; a premium bock, aromática e alcoolicamente comovente; a stout dark ale, calórica e cremosa – e a red ale, talvez a minha preferida, ruivinha de se lhe tirar o chapéu (no caso de Campos de Jordão, o gorro e o cachecol). O aroma de lúpulo é transcendental, misturando-se a gomos de frutos apreciáveis, um ligeiro toque de amoras até, com um final amargo e capaz de me obrigar a pedir outra. Como gosto de bitters, daquelas inglesas sensuais sob a capa de rispidez, a red ale de Campos do Jordão, esta Baden Baden, com os seus 9,2% de álcool, pede sempre complemento: um queijinho salgado, um aroma de cozinha. Muito boa.

+MARCA: Baden-Baden Red Ale
Origem: Brasil
Álcool: 9,2%
Avaliação: ****

Eisenbahn Pale Ale || Adolescência

Dizia-me alguém que tinha tentado beber várias cervejas que eu recomendei e que não conseguira reconciliar o seu palato com os vários sabores e os vários líquidos. E não descansou enquanto não regressou à sua imperial. É isso que tem de bom a cerveja, confesso: entre uma pilsener e uma weiss, passando pela lambic ou pela porter, das lager às stout com curvas acentuadas nas melhores bitter, o bebedor muda de continente e de papilas. Eu oscilo muito nessa matéria, tanto prefiro uma daquelas fresquíssimas indian pale ale como me perco agitando as nuvens que circulam dentro de uma garrafa de cerveja de trigo. A variedade não me assusta e estou convencido de que é uma vantagem inegável. Depois, cada um escolhe o sabor mais adequado, o peso mais confortável e a ocasião mais a jeito. A Eisenbahn Pale Ale é uma das boas tentativas (tirando as canadianas e americanas) de fazer boa cerveja europeia no Atlântico sul, mais exactamente em Blumenau, Santa Catarina, Brasil. E, a meu ver, representa uma importante contribuição para definir o que é o gosto médio em matéria de cerveja: olhada à luz do sol, tem reflexos de cobre; observada a cru, directamente, o tom palha é acentuado, loirinha do sul, com aquele pique nostálgico. Já na boca, abre os seus braços oferecendo frutas delicadas, fermentações sublimes, flores de bromélia e azália ou hortênsia. Provei-a há dois anos (juntamente com a dunkel, a pilsen, a kölsch e bock) e fiquei-lhe fiel como a poucas coisas. Imagine-se, portanto. Desta vez, nem deixei que sorrisse – bastou recordar-lhe o aroma, volteando no copo alto, ligeira e libidinosa, mas de saltos rasos, adolescentes, e jaquetinha curta, de umbigo passado pelo sol. Estou a falar da cerveja, naturalmente.

+MARCA: Eisenbahn Pale Ale
Origem: Brasil
Álcool: 4,8%
Avaliação: ***
Eisenbahn Pilsen || Blumenau, Brasil


Provei, esta semana, umas tostas com compota de cebola roxa e creme de queijo, e recomendaria que isso servisse para acompanhar as primeiras cervejas da Primavera. Neste atlas das cervejas do mundo há sempre surpresas, já o tenho dito. Desta vez, apareceu uma excelente cerveja do sul do Brasil – a Eisenbahn, de Blumenau (estado de Santa Catarina) que pode entrar na colecção dos líquidos muito apresentáveis para este ano. Alguns amigos fazem excursões periódicas, atravessando as paisagens do Paraná, descendo pelas suas serras, desde São Paulo, para um fim-de-semana em Blumenau, bebendo a Eisenbahn. Como eu os compreendo. Melhor do que isso, só namorada gaúcha. Quanto à cerveja, é suave e cheia de respirações invulgares, tratando-se de uma experiência sem grandes ambições; tem um fundo de citrino que pode ser exasperante para certos palatos, estranho, mas com uma boa espuma no copo – cristalina e, ao mesmo tempo, sedosa, nada que lembre uma cerveja aguada e sensaborona. Totalmente germânica, na sua tiragem a copo (mencionar o chope brasileiro seria diminuí-la, uma vez que a sua categoria está muito acima). Excelente para beber em todas as ocasiões, a Eisenbahn é quase um mito no mundo das cervejas artesanais brasileiras, citada de Norte a Sul, do Chuí ao Oiapoque.

+MARCA: Eisenbahn Pilsen
Origem: Brasil

Álcool: 4,5%

Avaliação: ****

21.4.06

Angola: reconstrução e reinserção

José Lello (Público de Segunda, 17 de Abril de 2006)

Angola precisa de tempo para fazer as suas reformas e ajustes económicos e sociais e para refrescar a sua normalidade democrática. Por isso, em muitas das opiniões que têm sido expressas, há boas doses de intolerância e de acinte. Angola não é a Noruega. Esteve em guerra durante trinta anos e só há quatro usufrui dos benefícios da paz



A visita do primeiro-ministro José Sócrates a Angola despertou um incontido e interessante torvelinho de emoções, posições e opiniões que se misturam, por vezes, de forma um pouco confusa. Por isso, nem sempre se consegue distinguir bem onde termina uma posição ou opinião e começa a emoção. Nalguns casos, é mesmo visível que quem assim opina tem uma dupla identidade e metade do coração em Portugal e a outra metade em Angola. No fundo, as afinidades entre portugueses e angolanos são tão profundas que uns e outros não resistem, emocionalmente, a meter a foice em seara alheia. Mas não é dessa forma que dois Estados soberanos e que se respeitam se devem relacionar.
Angola tem muitos problemas. Todos sabem isso, mesmo que o conhecimento que deles têm alguns comentadores se baseie apenas naquilo que lêem nos jornais, sem conhecerem, portanto, a realidade concreta angolana, sobretudo a mais recente, que se desenvolveu ao longo destes escassos quatro anos de paz. Mas o que muita imprensa e opinion makers mais gostam de focar são os problemas de corrupção, da falta de democracia e da violação dos direitos humanos. Estão de tal forma obcecados nesse registo que não se percebe bem se estão mesmo interessados em descodificar os contornos reais da actualidade angolana e se estarão verdadeiramente determinados em apoiar a reconstrução nacional, a reinserção social e a normalização política e cívica que a paz tornou possível. Provavelmente há quem esteja interessado em dar uma imagem negativa de Angola, apenas e só porque é o MPLA que está no poder. Essa é uma postura redutoramente partidária e, por isso, pouco isenta.
Essa é, assim, uma imagem distorcida e injusta de Angola, que precisa de tempo para fazer as suas reformas e ajustes económicos e sociais e para refrescar a sua normalidade democrática. Por isso, em muitas das opiniões que têm sido expressas, há boas doses de intolerância e de acinte. Angola não é a Noruega. Esteve em guerra durante trinta anos e só há quatro usufrui dos benefícios da paz. O país ainda vive o drama sem fim das sequelas da guerra, cujos custos se estimam em 20 biliões de dólares. Permanece o drama das vidas destruídas e desmembradas, das populações deslocadas, de uma administração que desapareceu em muitas regiões, onde as infra-estruturas ficaram completamente arrasadas e o Estado se quedou globalmente desestruturado. Angola não pode, nenhum país o consegue, sair de uma guerra tão dramática e deter desde logo padrões de democracia equivalentes aos modelos europeus mais avançados. Luanda, por causa dos deslocados, tem hoje quatro milhões de habitantes, muitos deles amontoados nos musseques, quando as estruturas da cidade não suportariam, porventura, mais de meio milhão de pessoas. É o caos de um lado e o deserto nas regiões abandonadas do outro. Em muitas dessas regiões não se pode plantar a terra nem desenvolver actividades económicas por causa dos milhões de minas que aí foram abandonadas. Só o esforço de desminar o país é algo de gigantesco em termos humanos e financeiros.
Angola precisa da ajuda de todos para se desenvolver. O resto, previsivelmente, virá por arrastamento. E, por razões de afinidade histórica e cultural, quer, sobretudo, a participação portuguesa nesse projecto grandioso. Se conseguir o desenvolvimento a que aspira, estarão criadas as condições para se erguerem as devidas estruturas económicas, sociais e democráticas, o que, convenhamos, nem sempre é fácil em África.
Se uma coisa me impressionou durante a minha recente deslocação a Luanda como secretário para as Relações Internacionais do PS para contactos com diversos altos dirigentes do MPLA, foi o facto de ter constatado um empenho sério e determinado da parte dos meus interlocutores em promover o desenvolvimento económico e social do país e em consolidar as suas instituições democráticas, envolvendo todos os angolanos no difícil processo de reconciliação nacional. Além disso, o país tem feito um grande esforço de estabilização económica e financeira e nisso tem obtido bons resultados. São tudo sinais de uma vontade de mudança que não podem ser ignorados.
Por outro lado, seria interessante que quem expende tão taxativas opiniões sobre a situação política angolana se interrogasse sobre a quem imputar responsabilidades pelo facto de o recente processo de reforma legislativa e constitucional que deveria conduzir a eleições não ter avançado em tempo útil. Dei-me conta de que, ao nível parlamentar, em Luanda se pretendeu gerar amplos consensos que credibilizassem o processo. Pareceu-me, além disso, que o Governo procura estabelecer um relacionamento aberto com o Parlamento angolano, onde existe um debate político interessante e onde presta contas aos partidos políticos que nele têm assento, situação quase nunca referida nas catilinárias militantes.
Outro dos aspectos que revelaram a parcialidade de quem jamais consegue distanciar-se de uma postura de interferência abusiva nas questões internas de Angola foi essa tentativa de reduzir a viagem do primeiro-ministro José Sócrates ao mero interesse económico. Até se poderia perguntar se haverá mal nisso. Sobretudo quando se esquece que o Governo português tem uma cooperação intensa em muitos outros domínios, de onde sobressaem a educação e a saúde, nos quais ali existem necessidades dramáticas. Isto já sem contar com o facto de o ensino também ter estado presente na deslocação do primeiro-ministro José Sócrates.
É preciso bom senso nesta floresta opinativa e, por vezes, nas cortinas de fumo que se pretendem lançar sobre Angola, que só prejudicam desnecessariamente a percepção e as relações entre os dois países. Se Portugal não faz juízos de valor em relação a outros países, porque simplesmente não tem de se intrometer nos assuntos internos de Estados soberanos, por que razão havia de o fazer em relação a Angola? Ambos os países só têm de se esforçar para manter um bom nível de relacionamento e resolver os problemas de percurso que possam surgir. Portugal e Angola evidenciam a vontade expressa dos seus para aprofundarem os seus laços de amizade e de cooperação, de forma franca e sem complexos nem parti-pris. Ajudando-se mutuamente, porque ambos os países têm muito a partilhar um com o outro. secretário para as Relações Internacionais do PS

1.4.06

POIS TU FOSTE ESTRANGEIRO. Em 1975, a xenofobia nacional, herdada do salazarismo e do que o antecedeu (o provincianismo pacóvio e a Inquisição), foi mais uma vez posta à prova diante da chegada de meio milhão de portugueses vindos das antigas colónias. Deserdados e hostilizados pelo poder político-militar da época, que lhes desaprovava a biografia e as ideias, os retornados mudaram Portugal em poucos anos: evitaram que a província desaparecesse da forma abrupta, transportando consigo criatividade, energia e vontade de vencer; contribuiram para mudar os hábitos e os costumes de um país medíocre cheio de moralistas pálidos e machistas. Fizeram-no contando também com a hostilidade do cidadão comum, que os considerava portugueses de segunda. Eles, sim, os herdeiros legítimos de Afonso Henriques, eram os «portugueses». Desaprovando largamente a vinda de pretos e de emigrantes de Leste, sem falar dos brasileiros, os «portugueses» viveram os anos oitenta e noventa à sombra de muito do que os estrangeiros fizeram por eles – das auto-estradas à Expo98. Os «portugueses» não se incomodaram com o facto de milhares de trabalhadores africanos viverem em condições degradantes nos estaleiros do Alqueva, no lamaçal da Expo e nas encostas da Venda Nova. Apreciavam, até, o ponto de vista «étnico», com os bares caboverdianos e as discotecas angolanas, ou o serviço doméstico barato – mas nunca prestaram atenção (salvo quando eram atingidos) à espiral de violência que tomava conta dos subúrbios e lhes destruía os comboios de Sintra. Daí, passaram a olhar de viés os brasileiros: entre eles, os dentistas (que vieram tornar mais acessível o mercado) e os empregados de lojas e restaurantes (que atendiam melhor). Depois, vieram os emigrantes de Leste, que – mesmo sujeitos às mafias criminosas que andavam à solta pelo País – pela sua competência conquistaram lugares na construção civil, no serviço doméstico e na pequena indústria (muitos deles com qualificação superior). Isso está tudo muito bem, mas os «portugueses» também acham que eles lhes tiram o lugar (até há enfermeiros espanhóis, imagine-se), que eles acabam por subir na vida, por comprar casa e assentar família. Que eles, um dia, podem votar. Que os filhos deles, um dia, podem ir parar à administração pública, às universidades. Que um dia eles – que «vieram com uma mão à frente, outra atrás», como manda dizer a tradição – vão criar empresas e enriquecer. Esse cenário é inaceitável para os «portugueses». Que os estrangeiros e emigrantes estejam entre nós, é uma coisa (podem viver nos estaleiros, apanhar o autocarro das cinco da manhã, os seus filhos tratados pelas misericórdias e organismos de «inserção social», podem as mulheres viver aprisionadas em bordéis de «empresários da noite» pela província fora, podem correr para as filas de legalização durante a madrugada). Inteiramente diferente é que façam disto a sua terra; «eles» não passam de brasileiros, caboverdianos, russos, ucranianos, moldavos ou marroquinos e paquistaneses. Este ano podem entrar 6.500. Os cavalheiros da indústria já vieram dizer que é pouco. O governo mantém que basta. Se forem precisos mais (a expressão é chocante, não é?), já se sabe: entram ilegalmente. Sempre podem viver nos estaleiros, embebedar-se com vodca de Sacavém e com o tempo há-de ver-se. Não pensem é que podem ser «portugueses».
Quarta-feira, Janeiro 21, 2004 / AVIZ

ESTRANGEIROS & EMIGRANTES, 3. E nos guichets, nos bancos, nas repartições, nas conservatórias, incomoda-me bastante aquela pontinha de racismo vulgar: não se dão todas as informações, não se é tão atento e solícito quando são pessoas de cor, por exemplo. Aquele ar de superioridade que o mau funcionário adquire quando trata com essa gente, exaspera-me. É a pior das vulgaridades, uma maldade genética, aquela contra a qual não se pode fazer nada. É por isso que também sou contra a discriminação positiva; porque a discriminação em geral me parece um pecado sério.

Quinta-feira, Janeiro 08, 2004 / AVIZ

ESTRANGEIROS E EMIGRANTES. Vários estudos europeus têm dado conta de uma situação alarmante em relação ao nosso país. Eu tenho sérias dúvidas sobre a metodologia de alguns deles, mas reconheço que nem todos podem estar errados. Já não me comovem os estudos sobre a depressão nacional e sobre o estado de infelicidade que aparecem em algumas dessas sondagens europeias – fazem parte do chamado estilo português e são o resultado de duas décadas que, tendo sido prodigiosas em termos de transformações sociais, foram menos sérias em outros aspectos. O chamado défice (eu escrevo o chamado défice porque uma larga percentagem de portugueses desconhece do que se trata) é o resultado dessas duas décadas de asfalto, betão, fomento de uma indústria de corrupção e de subsídios, diminuição nos investimentos em ciência e educação, férias no Algarve e telemóveis ao desbarato. Isso tinha de ser pago. Estamos a pagar. É bom que não se esqueça.
Mas há um dado incómodo, ao qual os portugueses dão pouco relevo – mas que tem na sua base uma questão de carácter e uma matéria de sensibilidade geral. Tem a ver com as questões da emigração e com o racismo.
O ministro Paulo Portas acha que o império nunca foi racista, que o colonialismo português foi sempre benévolo e carinhoso. Trata-se de uma mistificação alarve e, em certa medida, criminosa. Criminosa porque, dita desta maneira, ignora parte essencial da nossa História, como se tivéssemos de esconder de nós próprios as chagas que transportámos; alarve porque tem objectivos políticos menores e banais, evidentes a olho nu. Sim, o nosso império era provinciano, a nossa crueldade foi relativa – se comparada com a brutalidade espanhola e o racismo anglófono. Mas nada nos autoriza a essa lavagem indigna do nosso passado. Nessa matéria – e como escrevi um livro com o título Lourenço Marques, em que defendi o direito de os portugueses assumirem a sua margem de felicidade africana – não deve haver preconceitos.
Mas o pormenor mais assustador tem a ver com os emigrantes que neste momento vivem em Portugal. As posições adoptadas pelo PP, nomeadamente, no que diz respeito à entrada de cidadãos estrangeiros e em matéria social e assistencial, parecem-me próprias do pior que há em nós, e que esses estudos europeus têm revelado: os portugueses têm escondido, lá no fundo, um pequeno pecado racista, e são os europeus menos receptivos a acolherem cidadãos emigrantes. Não é motivo de orgulho. Portugal, nessas duas décadas prodigiosas (retiro a expressão a António Barreto) utilizou a emigração como motor de desenvolvimento. Fez pontes e estádios com fundos europeus e emigrantes de Leste e de África. Nem sempre tratou bem esta gente. Se um dos partidos da coligação no governo se prepara para adoptar políticas de exclusão em relação à emigração e aos emigrantes, isso constitui – claramente – uma pulhice. Política e humanitária.
Portugal tem enriquecido o seu tecido social com essa presença de brasileiros, de gente de Leste, de africanos. Os brasileiros que estão em Portugal, ao contrário do velho racismo português, deram-nos lições de abnegação, de esforço, de criatividade e de alegria. Os emigrantes de Leste são uma das forças de trabalho qualitativamente mais honestas e sérias que temos entre nós. Os africanos, isolados e metidos em guetos em redor de Lisboa, são a memória desse racismo que não conseguimos controlar nem dirimir.
Ignorar essa gente, tratá-los como cidadãos de segunda categoria, diminuir os seus direitos, escondê-los, é vergonhoso. Não sou sensível ao discurso monótono da esquerda sobre o assunto, porque também acho que ser de esquerda não tem nada a ver com isso. Basta estar acordado.

Quarta-feira, Dezembro 31, 2003 / AVIZ

9.3.06

La intromisión que no pára
JAVIER MARÍAS
EL PAIS SEMANAL - 08-01-2006

Parece que en los actuales tiempos no existe Gobierno, casi ni Estado, sin tendencias totalitarias. Da lo mismo que sea de derechas, centro o izquierdas, que tenga mayoría absoluta o pelada, que sea americano, europeo, africano o asiático, que haya alcanzado el poder en las urnas o mediante un golpe. La idea antigua de que sólo las dictaduras eran totalitarias resulta ingenua, porque el totalitarismo consiste, sobre todo, en la intromisión de los Gobiernos en todas las esferas de la sociedad, en el afán de regularlo, controlarlo e intervenir en todo, de condicionar la vida de los ciudadanos e influir en ella, en no dejarles apenas márgenes de libertad y decirles cómo han de comportarse y organizarse, no sólo en lo público y común, sino asimismo en lo personal y privado. Y de la misma manera que se va perdiendo la creencia de que las diferencias entre particulares puedan dirimirse sin recurrir a un juez, y así los países se llenan de denuncias y pleitos, también se está perdiendo una noción importantísima para las sociedades libres, a saber: que no todo tiene que estar regulado y supervisado por instancias superiores; que el Estado no tiene derecho a opinar de todo y menos aún a dictar normas para cualquier actividad, iniciativa o costumbre. Y al perderse esa noción se le cede todo el campo al Gobierno de turno (lo que todo Gobierno desea), con la consiguiente renuncia de los individuos a sus criterios, su participación y su autonomía. Un suicidio.

En estas fechas ha entrado en vigor la –esta sí– dictatorial ley antitabaco, con la Ministra Salgado permitiéndose tratar a los ciudadanos como a menores de edad, al decir a los fumadores, entre otras cosas abusivas, que acabarán agradeciéndole que les prohíba fumar en tantos sitios. Con declaraciones así, esa señora se está metiendo simplemente donde no la llaman. A continuación, el Parlamento de Cataluña crea un Consejo Audiovisual político (lo es, si lo elige la propia Cámara catalana), con atribuciones para sancionar y multar a emisoras de televisión y radio, y aun para cerrarlas temporalmente y conceder o negar nuevas licencias. Y acto seguido se anuncia que también el Gobierno central tendrá su nefasto equivalente, un Consejo Estatal de los Medios Audiovisuales, que considerará "faltas muy graves" cosas tan imprecisas y vagas –es decir, tan aplicables a todo, según los intereses– como la "vulneración del pluralismo" o, aún más ridículo si cabe, la de "los principios de objetividad y veracidad" de las informaciones. Como si toda información pudiera o debiera ser objetiva y la veracidad no fuera por fuerza, casi siempre, debatible y subjetiva. Por mencionar un solo ejemplo reciente, yo no creo que deba darse "objetivamente" la noticia de que tres señoritingos barceloneses han quemado viva a una indigente por capricho, sino que han de hacerse bien explícitos el desprecio y la condena de una acción tan repugnante. He leído ya más de un artículo en contra de estos Consejos, a los que se calificaba de "peligrosos". Para mi gusto, se quedaban cortos: no es que sean peligrosos por lo que puedan hacer en el futuro y cómo puedan ser manejados. Es que son, en sí y por principio, directamente intolerables.

Pero la tendencia totalitaria no se detiene aquí, porque no se detiene nunca por sí sola, y ahora veo atónito que, con pretextos varios, el Gobierno y el Congreso (como en lo del fumar, con el insólito acuerdo de todos los partidos) pretenden modificar los horarios de la población española, esto es, sus hábitos y su utilización del tiempo. He visto en la pantalla a un tal Ignacio Buqueras, Presidente de la Comisión Nacional de Horarios, hecho un energúmeno y permitiéndose regañarnos por las horas en que almorzamos, cenamos, vemos la televisión o nos acostamos. Pero, ¿esto qué es?, me pregunté al contemplar al impertinente, y luego he tenido la inquietante sensación de ser de los pocos que se lo han preguntado, tan lamentablemente extendida está ya esa creencia de que los gobernantes pueden entrometerse en todo. Ese señor Buqueras es, además, un auténtico simple, por decirlo suave: al defender su propuesta de adelantar los horarios españoles de todo, ha declarado que "Así tendríamos mejor calidad de vida y los ciudadanos dejarían de estar tensos y angustiados". No me diga. Según Buqueras, los españoles sólo están tensos y angustiados por hacer una larga pausa para el almuerzo e irse tarde a la cama. Y el Gobierno permite que semejante razonador lo represente en algo, tenga un cargo y cobre del erario. ¿No hay más motivos de tensión y angustia? ¿Y cómo sabe Buqueras si la gente no estaría aún peor con sus horarios? El atrevimiento y la simplonería de los llamados "expertos" –en casi cualquier asunto– resultan deprimentes y a menudo insultantes. Si el Gobierno no quiere ser totalitario, haría bien en no meterse donde no lo llaman, en no opinar más de lo justo, en no entrometerse en nuestras vidas y costumbres, en administrar lo que le prestamos y en dejarnos en paz con sus vigilancias, imposiciones y manipulaciones. No se olvide que durante cuarenta años, no muy lejanos, ya fuimos tratados por los poderes como menores de edad y como vasallos. Ya basta.

5.3.06

Les professionnels de la psyché redoutent l'émergence d'« une psychothérapie d'Etat»

Le projet de dépistage précoce des troubles du comportement suscite un tollé

EN MOINS d'un mois, le texte a déjà été signé par plus de 12 000 personnes, pour la plupart professionnels de la pédopsychiatrie et de la petite enfance. Intitulée « Pas de zéro de conduite pour les enfants de 3 ans », la pétition, qui circule sur Internet, s'insurge contre l'idée d'un dépistage des troubles du comportement chez les enfants en bas âge, préconisé par un rapport de l'Inserm ( Le Monde du 23 septembre 2005).

Lancée par une dizaine de praticiens, dont Pierre Delion, pédopsychiatre au CHU de Lille, Bernard Golse, pédopsychiatre à l'hôpital Necker, à Paris, Boris Cyrulnik, neuropsychiatre, Christine Bellas-Cabane, présidente du Syndicat national des médecins de protection maternelle et infantile (PMI), Sylviane Giampino, présidente de l'Association nationale des psychologues, et François Bourdillon, président de la Société française de santé publique, la pétition a dépassé le cercle médical et circule désormais chez les enseignants et les parents.

Très controversée dans le milieu psy, l'expertise de l'Inserm préconisait « le repérage des perturbations du comportement dès la crèche et l'école maternelle » pour éviter la survenue de comportements délinquants à l'adolescence. « Faudra-t-il aller dénicher à la crèche les voleurs de cubes ou les babilleurs mythomanes ? », s'insurgent les pétitionnaires, qui récusent la « stigmatisation comme pathologique de toute manifestation vive d'opposition inhérente au développement psychique de l'enfant ». « Plutôt que de tenter le dressage ou le rabotage des comportements, il convient de reconnaître la souffrance psychique de certains enfants à travers leur subjectivité naissante et de leur permettre de bénéficier d'une palette thérapeutique la plus variée », affirme le texte.

L'expertise de l'Inserm suscite d'autant plus d'inquiétudes que ses orientations ont été reprises dans un rapport rédigé par le député Jacques-Alain Bénisti (UMP) et remis au ministre de l'intérieur, Nicolas Sarkozy, puis dans l'avant-projet de loi sur la prévention de la délinquance.

Actuellement en discussion à Matignon, ce texte souligne ainsi « l'importance de la détection précoce des troubles du comportement » pour éviter plus tard les « comportements autodestructeurs ou agressifs pouvant conduire [les enfants] à la délinquance ».

1.3.06

VERGÍLIO FERREIRA. Melo/Gouveia, 1916 - Lisboa, 1996

A neve - que virá a ser um dos elementos fundamentais do seu imaginário romanesco - é o pano de fundo da infância e adolescência passadas na zona da Serra da Estrela. Aos dez anos entra no seminário do Fundão, onde esteve seis anos - Manhã Submersa será a catarse dessa estada. Licenciou-se em Filologia Clássica em Coimbra (1940). Na sua vida de professor liceal há dois momentos fundamentais: a sua estada em Évora (1945-1958) - que entrará para o nosso imaginário através de Aparição - e a sua vinda para Lisboa (1959), onde ensinou no Liceu Camões até à sua reforma. A primeira fase do seu percurso romanesco, agora retirada da edição da Obra Completa, enquadra-se no neo-realismo então vigente. Ainda assim, Vagão J (1946) opera já uma pequena "revolução" formal. Mas foi uma revolução sem consequências: o movimento neo-realista passou-lhe ao lado, e o autor, perante a incompreensão da crítica, recuou e só viria a reincidir muito mais tarde. Com Mudança (1949) começa V. F. a conquistar a sua voz própria. Aliás, em maior rigor, dever-se-ia dizer que é a voz própria que começa a conquistar o seu autor. De facto, Mudança estava arquitectado para ser um romance neo-realista exemplar - e em muitos aspectos é-o; mas é também outra coisa, que posteriormente se veio a interpretar como sendo a deslocação do neo-realismo para o existencialismo. Tal deslocação ter-se-lhe-á imposto inconscientemente no processo de escrita, sobretudo no tratamento do tempo e da figura da infância. Na velocidade do tempo que estrutura o romance - e que decorre do modo de representação neo-realista: materialismo histórico e materialismo dialéctico -, a figura da infância, enquanto queda para o passado - e queda tanto mais desamparada quanto esse passado não é apenas uma memória mas sobretudo o sem-fundo que fecha e vela o próprio sentido do nosso trânsito pelo tempo -, a figura da infância introduz a desaceleração que toda a hipótese de um sentido arqueológico introduz. Não significa isso que essa atenção ao mais original solucione os problemas de sentido - ela desloca apenas as coordenadas da procura. Mas com esse movimento transforma-se também o modo de representação. É já de uma forma deliberada que V. F. se distancia do neo-realismo nos romances escritos antes de Aparição (1959) mas só publicados depois deste. Em Apelo da Noite (1963) reivindica-se, face ao homem de acção, o "crime de pensar"; em Cântico Final (1960) é a arte, como encontro de um "mundo original", de um sagrado ou absoluto agnóstico, que se furta a qualquer compromisso ideológico. Mas é Aparição - que juntamente com A Sibila (1953) de Agustina Bessa-Luís funda o romance português contemporâneo - que imporá o seu universo romanesco, seja naquilo a que se chamou, não sem verdade mas com alguma pressa reducionista, o seu existencialismo, seja no seu estilo ensaístico ou filosofante. Tentando descrever a experiência, no limite inenarrável, do aparecimento do eu a si próprio, e circunscrevendo-a dentro de uma problemática decididamente metafísica e existencial, Aparição é o limiar de uma agónica, mas sempre deslumbrada interrogação sobre a condição humana. Estrela Polar (1962) e sobretudo Alegria Breve (1965), onde o pathos da sua escrita atinge o ponto de máxima exacerbação mas também de máxima perfeição, além de aprofundarem e completarem a temática de Aparição, introduzem um experimentalismo que terá larga descendência na nossa ficção. A partir de Nítido Nulo (1972) o tom da sua obra começa a ser matizado pela ironia. É uma ironia que vem daquilo que o desgaste ensina. E o que ele ensina é que toda a verdade se esvazia, toda a evidência se torna opaca, todas as ideias pesam para o lado da morte. O pathos até aí predominante era o tom de quem falava do interior de uma evidência estética, de uma Stimmung umbilical. Nunca em V. F. uma árvore provoca náusea ou uma praia com sol induz um crime absurdo. Se há náusea (mas praticamente não a há) ou absurdo (este sim, mais visível), eles não começam logo na facticidade do mundo mas somente na condição humana em si mesma. O mundo apenas é, experienciá-lo esteticamente é já um limiar de sentido. Daí que os narradores vergilianos se sintam tentados a configurá-lo como uma verdade, existencial e não-sistemática, é certo, mas suficientemente segura para se afirmar contra todas as ideologias. Ora, o que acontece no "niilismo activo" de Nítido Nulo, no seu "morrer tudo", é que o tudo envolve também esta hipótese de verdade que os narradores anteriores utilizavam como escudo no combate cultural. O deslizar insensível da aisthesis para o logos é agora difícil, e sê-lo-á cada vez mais. Por isso os romances se começam a distribuir por dois espaços-tempo: um passado onde decorre o diferendo ideológico-cultural, diferendo não só incomensurável como, em última instância (revelada por aquilo que o desgaste ensina), inútil; e um presente de pura afirmação de ser. O primeiro pólo perderá progressivamente a sua capacidade de engendramento narrativo, o combate que nele se desenrola é apenas o ruído do mundo, não uma alínea de qualquer história teleologicamente configurada - daí a paralisia da história em Signo Sinal (1979). O segundo pólo, impossibilitado agora de funcionar como "fundamento mítico" de uma macro-narrativa, apresenta-se como uma espécie de justaposição de haikus, de nós de revelação que não constroem o "sentido de um final" mas uma litania de apaziguamento, uma pietas para com aquilo que mais primordialmente somos - um sujeito-casa atravessado por tudo o que vem de todos os pontos cardeais, e todavia lateral a essas múltiplas orientações, sempre não-sabendo, como em Para Sempre (1983) ou nas séries de Conta-Corrente (1980 a 1992). É este não-saber que obriga V. F. ao continuar da escrita e faz com que os narradores vergilianos envelheçam como o seu autor. Envelhecer, por exemplo, é passar de filho a pai. De Até ao Fim (1987) a Cartas a Sandra (1996), o narrador, entre outras coisas, é um pai a quem o filho morre. O que morre na morte do filho é aquela força que não suporta a suspensão da história e se auto-destrói na procura da resposta que não há. Poder-se-ia mesmo dizer que a morte do filho é a prova por absurdo de que a lateralidade axiológica em que se coloca o pai não é simplesmente a desistência do cansaço mas a sabedoria da suplementaridade, seja a do puro possível da verdade branca do mar que move Até ao Fim, seja a da ironia dos contrafactuais ontológicos que se experimenta em Na Tua Face (1993). Envelhecer é também passar da despesa do tempo à sua reinvenção no absoluto da memória. Mas esta lição (ou condição) proustiana tem em V. F. as condicionantes contemporâneas de uma sociedade tardo-capitalista, aquela em que a redescrição metafórica do que foi não pode já competir com os meios tecnológicos da representação (cinema, tv, vídeo, etc.), e por isso constrói a afectividade do acontecimento puro: "Não bem o seu corpo esbelto como um voo de ave, mas só esse voo. Não bem a sua juventude eterna mas a eternidade. Não o gracioso dela mas a graça." (Em Nome da Terra, 1990). Claro que há ainda romance, e até na sua dimensão mais consensual e acidentalmente romanesca, que é a da história de amor. Mas se, na sequência da tradição, também aqui o amor é aquilo que só se sabe depois, diferentemente dela, este depois não é a origem reencontrada mas um frágil presente que se sustenta apenas da escrita do nome amado, como em Cartas a Sandra. Neste presente, que é a perda serena de todas as estórias, desenha-se com nitidez a dificuldade contemporânea do fazer sentido. É dessa crise (de cultura e de civilização), das suas várias alíneas polemizantes (marxismo, estruturalismo, filosofia da linguagem), mas também daquilo que cria a esperança de um depois dela (a arte, os autores que se amam, a insistência do pensamento), que falam os inúmeros ensaios que V. F. também escreveu, com muito particular acerto Carta ao Futuro (1958), Invocação ao Meu Corpo (1969) e Pensar (1992).

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 1997

28.2.06













TEXTOS DE ÁLVARO VARGAS LLOSA SOBRE ERNESTO GUEVARA.

Publicados em Agosto de 2005 no diário La Nación, de Buenos Aires.



EL CHE, CADA VEZ MÁS MITO Y MENOS REALIDAD

El Che Guevara, que hizo tanto (¿o fue tan poco?) por destruir el capitalismo, se ha convertido ahora en una marca quintaesencialmente capitalista. Su imagen adorna jarros de café, encendedores, llaveros, billeteras, gorras de béisbol, sombreros, pañuelos, musculosas, bolsos, jeans, té de hierbas y, por supuesto, las omnipresentes remeras con la foto, tomada por Alberto Korda, del ídolo socialista con su boina durante los primeros años de la revolución, cuando el Che apareció por casualidad dentro del visor del fotógrafo y que aún es, 38 años después de su muerte, el logo del chic revolucionario (¿o es capitalista?). Incluso hay un jabón en polvo cuyo eslogan es: “Che lava más blanco.”
Los productos Che están comercializados por grandes corporaciones y por empresas pequeñas, como la Burlington Coat Factory, que hizo una publicidad de TV en la que aparece un joven con pantalones de fajina y una remera del Che, o la Boutique Flamingo, de Union City, Nueva Jersey, cuyo dueño respondió al enojo de los exiliados cubanos locales con este devastador argumento: "Vendo cualquier cosa que la gente quiera comprar."
Los revolucionarios también se suman a este furor comercial, desde "The Che Store", que ofrece "todas tus necesidades revolucionarias" por Internet, hasta el escritor italiano Gianni Minà, quien vendió a Robert Redford los derechos cinematográficos del diario del Che sobre su viaje juvenil por Sudamérica en 1952, a cambio de que se le diera acceso al rodaje del film "Diarios de motocicleta", para que Minà pudiera producir su propio documental.
Por no hablar de Alberto Granado, quien acompañó al Che en su viaje de juventud y asesora hoy a documentalistas, y que ahora, según El País, se queja de que el embargo estadounidense a Cuba le dificulta mucho el cobro de sus regalías.
Para dar aún más fuerza a la ironía, el edificio donde nació Guevara, en Rosario, una espléndida construcción de principios del siglo XX, estuvo hasta hace poco ocupado por el fondo de jubilaciones privadas AFJP Máxima, un hijo de la privatización de la seguridad social en la Argentina.
La metamorfosis del Che Guevara en una marca capitalista no es nueva, pero recientemente ha experimentado una reactivación? Una reactivación especialmente notable, ya que aparece años después del colapso político e ideológico de todo lo que Guevara representaba.
Esta imprevista reanimación se debe en gran parte a "Diarios de motocicleta", la película producida por Robert Redford y dirigida por Walter Salles (uno de los tres films más importantes rodados o en proceso de filmación durante los últimos dos años).
Bellamente filmada en paisajes que evidentemente han escapado a los efectos corrosivos de la polución capitalista, la película muestra al joven en su viaje de autodescubrimiento, mientras su incipiente conciencia social se enfrenta a la explotación social y económica, preparando así el terreno para la reinvención New Wave del hombre al que Sartre una vez llamó el ser humano más completo de nuestra época.
Pero para ser más preciso, el actual renacimiento del Che empezó en 1997, con el trigésimo aniversario de su muerte, cuando cinco biografías de Guevara llegaron a las librerías y se descubrieron sus restos mortales cerca de una pista de aterrizaje del aeropuerto boliviano de Vallegrande, después de que un general retirado boliviano, con un espectacular sentido de la oportunidad, revelara el lugar exacto de la sepultura. El aniversario volvió a concentrar la atención en la famosa foto de Freddy Alborta, donde el cadáver del Che se ve tendido sobre una mesa, escorzado y muerto y romántico, con la apariencia del Cristo en una pintura de Mantegna.

"No sé por qué"

Es habitual que los seguidores de un culto no conozcan la historia de la vida real de su héroe, la verdad histórica. No resulta sorprendente que los seguidores contemporáneos de Guevara, sus admiradores poscomunistas, también se engañen a sí mismos aferrándose a un mito? Excepto los jóvenes argentinos que han creado una expresión que rima perfectamente en castellano: "Tengo una remera del Che y no sé por qué."
Consideremos algunas de las personas que recientemente han esgrimido o invocado la imagen de Guevara como modelo de justicia y rebelión ante el abuso de poder. En el Líbano, los manifestantes que protestaban contra Siria ante la tumba del ex primer ministro Rafik Hariri enarbolaban la imagen del Che.
Thierry Henry, un jugador de fútbol francés que juega para Arsenal, en Inglaterra, se presentó en una fiesta de gala organizada por la FIFA, la institución mundial del fútbol, con una remera roja y negra con la imagen del Che.
En una reseña reciente aparecida en The New York Times, sobre "Land of the Dead", de George Romero, Manohla Dargis señaló que "el mayor shock que esto provoca probablemente sea la transformación de un zombi negro en un justo líder revolucionario" y agregó: "Supongo que, después de todo, el Che realmente vive".
Maradona exhibió el emblemático tatuaje del Che en su brazo derecho durante un viaje a Venezuela, donde se reunió con Hugo Chávez.
En Stavropol, en el sur de Rusia, los manifestantes que denunciaban pagos en efectivo a cambio de concesiones de asistencia social, tomaron la plaza central enarbolando estandartes del Che.
En San Francisco, City Lights Books, la legendaria cuna de la literatura beat, ofrece a sus visitantes una sección dedicada a América latina en la que la mitad de los estantes están ocupados por libros del Che.
José Luis Montoya, un oficial de la policía mexicana que combate el narcotráfico, usa una muñequera del Che, porque lo hace sentir más fuerte.
En el campamento de refugiados de Dheisheh, en Cisjordania, los pósteres del Che adornan un muro que rinde tributo a la Intifada.
Una revista dominical dedicada a la vida social en Sydney, Australia, publica la lista de los tres invitados más deseados para una cena: Alvar Aalto, Richard Branson y el Che Guevara. Leung Kwok-hung, el rebelde electo como miembro del Consejo Legislativo de Hong Kong, desafía a Pekín usando una remera del Che. En Brasil, Frei Betto, el asesor del presidente Lula da Silva que está a cargo del publicitado programa Hambre Cero, dice que "deberíamos haberle prestado menos atención a Trotsky y mucha más al Che Guevara".
Y en la ceremonia de los premios Oscar de este año, Carlos Santana y Antonio Banderas interpretaron la canción de "Diarios de motocicleta", y Santana se presentó luciendo la remera del Che y un crucifijo.
Las manifestaciones del nuevo culto al Che están en todos lados. Una vez más, el mito provoca el entusiasmo de gente cuyas causas, en su mayoría, representan exactamente lo opuesto a lo que era Guevara.
Ningún hombre carece de cualidades que lo redimen. En el caso del Che Guevara, esas cualidades pueden ayudarnos a medir la magnitud del abismo que separa la realidad del mito. Su honestidad (más bien, su honestidad parcial) hizo que dejara testimonio escrito de sus crueldades, incluyendo cosas verdaderamente feas, pero no las más feas. Su valor -que Castro describió como "su manera, en cada momento difícil y peligroso, de hacer las cosas más difíciles y peligrosas"- significó que no vivió para hacerse plenamente responsable del infierno de Cuba.
El mito puede decirnos tanto sobre una época como la verdad. Y, por eso, gracias a los testimonios del propio Che acerca de sus ideas y sus acciones, y gracias también a su prematura desaparición, podemos saber exactamente cuán engañados están tantos de nuestros contemporáneos con respecto a tantas cosas.

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

EL CHE GUEVARA: UNA VIOLENTA, SELECTIVA Y FRÍA MÁQUINA DE MATAR

Ordenó ejecutar a decenas de personas

Es posible que el Che Guevara haya estado enamorado de su propia muerte, pero mucho más enamorado estaba de la muerte de los demás. En abril de 1967 resumió su idea homicida de justicia en su "Mensaje a la Tricontinental": "El odio como factor de lucha; el odio intransigente al enemigo, que impulsa más allá de las limitaciones del ser humano y lo convierte en una efectiva, violenta, selectiva y fría máquina de matar".

Sus escritos anteriores también están condimentados con esta violencia retórica e ideológica. Aunque su ex novia Chichita Ferreira dude de que la versión original de sus diarios de viaje contengan la observación "siento que mi nariz se dilata saboreando el olor acre de la pólvora y la sangre del enemigo", Guevara compartió con [su compañero en aquella aventura Alberto] Granado esta exclamación: "¿Revolución sin disparar ni un tiro? Estás loco".

En otros momentos los jóvenes bohemios parecían incapaces de distinguir entre la frivolidad de la muerte como espectáculo y la tragedia de las víctimas de una revolución. En una carta a su madre, de 1954, escrita en Guatemala, donde fue testigo del derrocamiento del gobierno revolucionario de Jacobo Arbenz, escribió: "Aquí estuvo muy divertido con tiros, bombardeos, discursos y otros matices que cortaron la monotonía en que vivía".

La disposición anímica de Guevara cuando viajó con Fidel Castro desde México hacia Cuba a bordo del Granma queda plasmada en una carta a su esposa escrita en 1957 y publicada en el libro Ernesto: Una memoria del Che Guevara en Sierra Maestra: "Estoy en la manigua cubana, vivo y sediento de sangre".

Esa mentalidad había sido reforzada por su convicción de que Arbenz había perdido por no haber ejecutado a sus potenciales enemigos. En una carta dirigida a su ex novia Tita Infante había observado: "Si se hubieran producido esos fusilamientos, el gobierno hubiera conservado la posibilidad de devolver los golpes".

No sorprende que durante la lucha armada contra Batista, y luego de la entrada a La Habana, Guevara matara o supervisara la ejecución, con juicio sumario, de decenas de enemigos del pueblo comprobados, sospechosos y de todos aquellos que se encontraban en el lugar equivocado en el momento equivocado.

En enero de 1957, como lo indica su diario de Sierra Maestra, Guevara mató a Eutimio Guerra porque sospechaba que estaba pasando información: "Acabé con el problema dándole un tiro con una pistola del calibre 32 en la sien derecha? Sus pertenencias pasaron a mi poder". Más tarde mató a Aristidio, un campesino que expresó el deseo de abandonar la causa cuando los rebeldes siguieron avanzando. Aunque se preguntó si esta víctima "era de verdad suficientemente culpable como para merecer la muerte", no tuvo reparos para ordenar la muerte de Echavarría, hermano de uno de sus camaradas, a causa de crímenes no especificados: "Tenía que pagar el precio". En otros momentos simuló ejecuciones sin llevarlas a cabo, como método de tortura psicológica.

"Ante la duda, mátalo"

Luis Guardia y Pedro Corzo, dos investigadores de Florida que trabajan en un documental sobre Guevara, han conseguido el testimonio de Jaime Costa Vázquez, un ex comandante del ejército revolucionario conocido como "El Catalán", que sostiene que muchas de las ejecuciones atribuidas a Ramiro Valdés, quien más tarde se convertiría en ministro del Interior de Cuba, fueron responsabilidad directa de Guevara, porque Valdés estaba bajo sus órdenes en las montañas. "Ante la duda, mátalo" eran las instrucciones del Che.

Según Costa, en vísperas de la victoria, el Che ordenó la ejecución de dos decenas de personas en Santa Clara, en el centro de Cuba, adonde había llegado su columna como parte del ataque final sobre la isla. Algunos fueron fusilados en un hotel, tal como ha escrito Marcelo Fernández Sayas, otro ex revolucionario que se hizo periodista, y quien agregó que entre los ejecutados había campesinos que se habían unido al ejército sólo para escapar al desempleo.

Pero "la fría máquina de matar" no manifestó todo el alcance de su rigor hasta que, inmediatamente después de la caída del régimen de Batista, Castro lo puso a cargo de la cárcel de La Cabaña. Era una fortaleza de piedra usada para defender a La Habana de los piratas ingleses en el siglo XVIII; más tarde se convirtió en una barraca militar. De una manera que recuerda de forma escalofriante a Lavrenti Beria, Guevara fue responsable, durante la primera mitad de 1959, de uno de los períodos más oscuros de la revolución.

José Vilasuso, abogado y profesor de la Universidad Interamericana de Bayamón, en Puerto Rico, quien perteneció al cuerpo que estaba a cargo de los procesos judiciales sumarios en La Cabaña, me contó: "El Che dirigió la Comisión Depuradora. El proceso se regía por la ley de la sierra: tribunal militar de hecho y no jurídico, y el Che nos recomendaba actuar con convicción. Es decir, con la convicción de que todos eran asesinos y de que la forma revolucionaria de proceder era ser implacables. Miguel Duque Estrada era mi jefe inmediato. Mi función era legalizar profesionalmente la causa y pasarla al ministerio fiscal, sin juicio propio alguno. Se fusilaba de lunes a viernes. Las ejecuciones se llevaban a cabo de madrugada, poco después de que la sentencia fuera dictada y confirmada en forma automática por el cuerpo de apelación. La noche más siniestra que recuerdo se ejecutaron siete hombres".

Sin excepciones

Javier Arzuaga, el capellán vasco que daba consuelo a los sentenciados a muerte y que presenció docenas de ejecuciones, habló conmigo desde su hogar en Puerto Rico. Ex sacerdote católico, ahora de 75 años, recordó que en la cárcel de La Cabaña "había 800 hombres hacinados en un espacio pensado para no más de 300: militares batistianos o miembros de algunos de los cuerpos de la policía, periodistas, empresarios o comerciantes".

"El juez no tenía por qué ser hombre de leyes; sí, en cambio, pertenecer al ejército rebelde, al igual que los compañeros que ocupaban con él la mesa del tribunal. Casi todas las vistas de apelación estuvieron presididas por el Che Guevara. No recuerdo ningún caso cuya sentencia fuera revocada en esas vistas. Todos los días yo visitaba la «galera de la muerte», donde permanecían los prisioneros desde que eran sentenciados a muerte. Corrió la voz de que yo hipnotizaba a los condenados antes de salir para el paredón y que por eso se daban tan fáciles las cosas, sin escenas desagradables, y el Che Guevara ordenó que nadie fuera conducido al paredón sin que yo estuviera presente. Asistí a 55 fusilamientos hasta el mes de mayo, cuando me fui. Eso no quiere decir que no se siguiera fusilando. Herman Marks era un americano, se decía que era prófugo de la Justicia. Lo llamábamos «el carnicero» porque gozaba gritando «pelotón, atención, preparen, apunten, fuego».

"Conversé varias veces con el Che para interceder por determinadas personas. Recuerdo bien el caso de Ariel Lima, que era menor de edad, pero fue inflexible. Lo mismo puedo decir de Fidel Castro, a quien acudí también en dos ocasiones. Yo estaba muy traumatizado y a fines de mayo me sentía tan mal que me ordenaron abandonar la parroquia de Casa Blanca, dentro de cuyos límites se encontraba La Cabaña y donde yo había celebrado misa en los últimos tres años. Me fui a México para un tratamiento. Cuando nos despedimos, el Che Guevara me dijo: «Hemos fracasado los dos. Cuando nos quitemos las caretas, seremos enemigos frente a frente»."

¿Cuántas personas fueron asesinadas en La Cabaña? Pedro Corzo calcula que alrededor de 200 personas, cifra similar a la que da Armando Lago, un profesor de economía retirado que compiló una lista de 179 nombres como parte de un estudio de ocho años de duración sobre las ejecuciones en Cuba. Vilasuso me dijo que fueron ejecutadas 400 personas entre enero y fines de junio de 1959 (momento en el que el Che dejó de estar a cargo de La Cabaña). Los cables secretos enviados por la embajada estadounidense en La Habana al Departamento de Estado en Washington hablaban de "más de 500".

Según Jorge Castañeda, uno de los biógrafos de Guevara, un vasco católico simpatizante de la revolución, el fallecido padre Iñaki de Aspiazu, habló de 700 víctimas. Félix Rodríguez, un agente de la CIA que fue miembro del equipo que estuvo a cargo de la búsqueda y persecución de Guevara en Bolivia, me dijo que, tras la captura, interrogó a Guevara acerca de las "más o menos 2000 ejecuciones" de las que había sido responsable durante su vida. "Dijo que eran todos agentes de la CIA y no cuestionó la cifra", recuerda Rodríguez.

El número más alto posiblemente incluye las ejecuciones que se llevaron a cabo durante los meses posteriores al momento en el que el Che dejó de estar a cargo de la prisión. Y eso nos lleva de vuelta a Carlos Santana y su muy chic remera del Che. En una carta publicada en El Nuevo Herald el 31 de marzo de este año, el gran músico de jazz Paquito D´ Rivera criticó a Santana por su atuendo en la entrega de los Oscar, y añadió: "Uno de esos cubanos fue mi primo Bebo, preso allí por ser cristiano. El escuchaba desde su celda los fusilamientos de muchos que morían gritando «¡Viva Cristo Rey!»"

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

EL CHE, UN MEGALÓMANO CON ANSIAS DE PODER

Obsesionado por los controles, tuvo un rol clave para transformar a Cuba en un bastión del totalitarismo

El deseo de poder del Che tenía otras maneras de expresarse aparte del asesinato. La contradicción existente entre su pasión por viajar -una manera de protestar contra las restricciones oprimentes del Estado- y su impulso por convertirse él mismo en un Estado opresor resulta patética.
Cuando escribió sobre Pedro de Valdivia, conquistador de Chile, Guevara reflexionaba: "El pertenecía a esa clase singular de hombres que la especie produce rara vez, en quienes el ansia de poder ilimitado es tan extremo que para conseguirlo cualquier sufrimiento parece natural". Podría haberse descripto a sí mismo con esos términos.

En su vida adulta, su megalomanía se manifestó a través del impulso predatorio de apoderarse de la vida y la propiedad de otros, aboliendo así su libre albedrío. En 1958, después de tomar la ciudad de Sancti Spiritus, Guevara intentó, sin éxito, imponer una suerte de sharia, regulando así las relaciones entre hombres y mujeres, el consumo de alcohol y las apuestas informales? un puritanismo que no caracterizaba exactamente a su propio estilo de vida.
También ordenó a sus hombres que robaran bancos, decisión que justificó en una carta dirigida a Enrique Oltuski, uno de sus subordinados, en noviembre de ese año: "Las masas oprimidas aceptan robar los bancos porque no tienen ni una moneda". Esta idea de revolución como una licencia para redistribuir la propiedad tal como a él le parecería adecuado llevó al marxista puritano a apoderarse de la mansión de un emigrante después del triunfo de la revolución.
El impulso de despojar a otros de sus propiedades y a reclamar la propiedad del territorio ajeno fue un elemento central en la cruda política de poder de Guevara. En sus memorias, el líder egipcio Gamal Abdel Nasser registra que Guevara le preguntó cuántas personas habían abandonado su país a causa de las reformas. Cuando Nasser le respondió que no se había ido nadie, el Che replicó, furioso, que la manera de medir la profundidad de un cambio es por medio del número de personas "que sienten que no hay lugar para ellos en la nueva sociedad". Este instinto predatorio alcanzó su punto más alto en 1965, cuando empezó a hablar, como si fuera Dios, del "Hombre Nuevo" que él y su revolución crearían.
La obsesión del Che por el control colectivista lo llevaría a colaborar en la formación del aparato de seguridad que se puso en marcha para sojuzgar a seis millones y medio de cubanos. A principios de 1959, se llevó a cabo una serie de reuniones secretas en Tarará, cerca de La Habana, en la mansión a la que el Che se había retirado temporalmente para recuperarse de una enfermedad. Allí fue donde los dirigentes máximos, incluyendo a Castro, diseñaron el Estado policial cubano.
Ramiro Valdés, subordinado del Che durante la guerra de guerrilla, fue puesto a cargo del G-2, un cuerpo organizado según el modelo de la Cheka. Angel Ciutah, un veterano de la Guerra Civil española enviado a los soviets que había estado muy próximo a Ramón Mercader, el asesino de Trotsky, y que más tarde cultivó la amistad del Che, desempeñó un papel clave en la organización del sistema, junto con Luis Alberto Lavandeira, quien había desempeñado el cargo de supervisor en La Cabaña. El propio Guevara se hizo cargo del G-6, el cuerpo encargado de adoctrinar ideológicamente a las fuerzas armadas.

La oportunidad perfecta

La invasión de Bahía Cochinos, respaldada por Estados Unidos en abril de 1961, se convirtió en la ocasión perfecta para consolidar el nuevo Estado policial, con el arresto de decenas de miles de cubanos y una nueva serie de ejecuciones. Tal como Guevara le dijo al embajador soviético Sergei Kudrivtsev, los contrarrevolucionarios jamás volverían "a alzar la cabeza". "Contrarrevolucionario" es el término que se aplicaba a cualquiera que se apartara del dogma. El sinónimo comunista de "hereje".
Los campos de concentración eran una de las formas que el poder dogmático empleaba para eliminar el disenso. La historia atribuye al general español Valeriano Weyler, capitán general de Cuba a fines del siglo XIX, haber empleado por primera vez el término "concentración" para describir la política de cercar las masas de potenciales opositores con alambres de púas y empalizadas. Qué adecuado resulta que los revolucionarios cubanos retomaran esa tradición autóctona más de medio siglo más tarde.
Al principio, la revolución movilizó voluntarios para construir escuelas y trabajar en puertos, plantaciones y fábricas; exquisitas oportunidades para fotos del Che estibador, el Che recolector de caña, el Che obrero textil. Pero no transcurrió mucho tiempo para que el trabajo voluntario se hiciera un poco menos voluntario: el primer campo de trabajos forzosos, Guanahacabibes, se estableció en el oeste de Cuba a fines de 1960. Así es como el Che explicó la función que cumplía este método de reclusión: "A Guanahacabibes se manda a la gente que no debe ir a la cárcel, la gente que ha cometido faltas a la moral revolucionaria de mayor o menor grado... Es trabajo duro, no trabajo bestial".
Este campo fue el precursor del posterior confinamiento sistemático, que empezó en 1965 en la provincia de Camagüey, de disidentes, homosexuales, católicos, testigos de Jehová, sacerdotes afro-cubanos y otra escoria semejante, bajo el estandarte de las Unidades Militares de Ayuda a la Producción. Apiñados en ómnibus y camiones, los "ineptos" eran transportados a punta de pistola a los campos de concentración organizados según el modelo de Guanahacabibes. Algunos nunca regresarían, otros serían violados, golpeados o mutilados; y casi todos quedarían traumatizados de por vida, tal como lo reveló al mundo un par de décadas atrás el desgarrador documental de Néstor Almendros, Improper Conduct.
Así, la revista Time tal vez no dio del todo en el blanco en agosto de 1960, al describir la división del trabajo de la revolución en una nota de tapa que asignaba al Che Guevara la función de "cerebro" y a Fidel Castro el "corazón" y a Raúl Castro el "puño". Pero esa interpretación reflejaba el rol crucial desempeñado por Guevara en la transformación de Cuba en un bastión del totalitarismo.
El Che era un candidato improbable a la pureza ideológica, dado su espíritu bohemio, pero durante los años de entrenamiento en México y el siguiente período de lucha armada en Cuba emergió como el ideólogo comunista infatuado con la Unión Soviética, para gran incomodidad de Castro y de otros que eran esencialmente oportunistas dispuestos a usar los medios que fueran necesarios para llegar al poder. Cuando los revolucionarios en ciernes fueron arrestados en México en 1956, Guevara fue el único que admitió que era comunista y que estaba estudiando ruso. Durante la lucha armada en Cuba, forjó una fuerte alianza con el Partido Socialista Popular (el partido comunista de la isla) y con Carlos Rafael Rodríguez, un elemento clave de la conversión al comunismo del régimen de Castro. Esta tendencia al fanatismo convirtió al Che en un eje vital de la "sovietización" de esa revolución que tantas veces se había jactado de su carácter independiente.

Al borde de la guerra

Muy pronto después de que los barbudos llegaron al poder, Guevara tomó parte de las negociaciones con Anastas Mikoyan, el viceprimer ministro soviético que visitó Cuba. Se le confió la misión de promover las negociaciones cubano-soviéticas durante una visita a Moscú a fines de 1960. Su segundo viaje a Rusia, en agosto de 1962, fue aún más significativo, porque selló el pacto que convertiría a Cuba en una cabeza de playa nuclear soviética. Se reunió con Khrushchev en Yalta para ultimar detalles de una operación que ya se había iniciado y que involucraba la instalación de cuarenta y dos misiles soviéticos, la mitad de los cuales estaban equipados con cabezas nucleares, así como lanzamisiles y 42 mil soldados. Tras presionar a sus aliados soviéticos con el riesgo de que los Estados Unidos se enteraran de lo que estaba ocurriendo, Guevara consiguió que le garantizaran la intervención de la marina soviética? En otras palabras, que Moscú estaba dispuesto a ir a la guerra.
Según la biografía de Guevara escrita por Philippe Gavi, el revolucionario había alardeado de que "por defender sus principios, este país está dispuesto a arriesgarlo todo en una guerra atómica inimaginablemente destructiva".
Inmediatamente después de que terminó la crisis misilística cubana -cuando Khrushchev renegó de la promesa hecha en Yalta y negoció un acuerdo con Estados Unidos a espaldas de Castro, que incluía el retiro de los misiles estadounidenses de Turquía-, Guevara le dijo a un diario comunista británico: "Si los misiles hubieran permanecido en Cuba, los hubiéramos usado, dirigiéndolos hacia el corazón mismo de los Estados Unidos, incluyendo Nueva York, para defendernos de la agresión". Y un par de años más tarde, en las Naciones Unidas, fue fiel a sus principios: "Como marxistas, hemos mantenido que la coexistencia pacífica entre naciones no incluye la coexistencia entre explotadores y explotados".
Guevara se distanció de la Unión Soviética en los últimos años de su vida. Lo hizo por razones erróneas, acusando a Moscú de ser demasiado blanda ideológica y diplomáticamente, por hacer demasiadas concesiones. En octubre de 1964, un memorando escrito por Oleg Daroussenkov, un funcionario soviético cercano al Che, cita estas palabras de Guevara: "Pedimos armas a los checos; nos rechazaron. Después se las pedimos a los chinos; dijeron que sí pocos días después, y ni siquiera nos cobraron, diciendo que no se le venden armas a un amigo". En realidad, Guevara estaba resentido por el hecho de que Moscú les pedía a los otros miembros del bloque comunista, incluyendo Cuba, algo a cambio de la colosal ayuda y el respaldo político que les prestaba.
Su ataque final contra Moscú se produjo en Argel, en febrero de 1965, en una conferencia internacional, donde acusó a los soviéticos de haber adoptado la "ley del valor", es decir, el capitalismo. Su ruptura con los soviéticos, en suma, no fue un grito de libertad. Fue un aullido al estilo de Enver Hoxha exigiendo la subordinación total de la realidad a una ciega ortodoxia ideológica.

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

EL CHE, ANTÍTESIS BRUTAL DE ALBERDI

El gran revolucionario tuvo una posibilidad de poner en práctica su visión económica -su idea de justicia social- como director del Banco Nacional de Cuba y del Departamento de Industria del Instituto Nacional de Reforma Agraria a fines de 1959, y desde principios de 1961, como ministro de Industria. El período en el que Guevara estuvo a cargo de casi toda la economía cubana fue testigo del colapso casi total de la producción azucarera, el fracaso de la industrialización y la introducción del racionamiento en el que había sido uno de los cuatro países latinoamericanos más exitosos en el terreno económico desde antes de la dictadura de Batista.
Su período al frente del Banco Nacional, durante el que imprimió billetes firmados "Che", ha sido resumido así por su segundo, Ernesto Betancourt: "Encontré en el Che una ignorancia absoluta de los principios más elementales de la economía". La capacidad de percepción de Guevara con respecto a la economía mundial fue célebremente expresada en 1961, durante una conferencia hemisférica en Uruguay, donde predijo un crecimiento del 10% en Cuba "sin ningún temor", y para 1980, un ingreso per cápita mayor que el de "Estados Unidos hoy". De hecho, para 1997, el trigésimo aniversario de su muerte, los cubanos vivían con una dieta de dos kilos de arroz y medio kilo de porotos por mes, 120 gramos de carne dos veces al año, 120 gramos de pasta de soja por semana y cuatro huevos por mes.
La reforma agraria les quitó la tierra a los ricos, pero se la dio a los burócratas, no a los campesinos. (El decreto fue redactado en la casa del Che.) En nombre de la diversificación, el área cultivada se redujo, y la mano de obra fue derivada a otras actividades. El resultado fue que entre 1961 y 1963, la cosecha se redujo a la mitad, apenas 3,8 millones de toneladas métricas. ¿Este sacrificio fue justificado por el progreso de la industrialización en Cuba? Desafortunadamente, Cuba no disponía de materias primas para la industria pesada y, como consecuencia de la redistribución revolucionaria, no tenía una moneda sólida para comprarlas? y tampoco tenía siquiera productos básicos.
Para 1961, Guevara tenía que dar incómodas explicaciones a los funcionarios del gobierno: "Nuestros camaradas técnicos de las empresas han fabricado una pasta dentífrica? que es tan buena como la anterior, limpia lo mismo, aunque al cabo de un tiempo se convierte en piedra".
Para 1963, se abandonaron todas las esperanzas de industrializar Cuba, y la revolución aceptó su rol de abastecedor colonial de azúcar del bloque soviético a cambio de petróleo para cubrir sus necesidades y revender a otros países. Durante las tres décadas siguientes, Cuba sobreviviría gracias a un subsidio soviético que oscilaba entre unos 65.000 y 100.000 millones de dólares.
Tras haber fracasado como héroe de la justicia social, ¿Guevara se merece un lugar en los libros de historia como genio de la guerra de guerrillas? Su mayor logro militar en la lucha contra Batista -la captura de la ciudad de Santa Clara después de haber emboscado un tren cargado de refuerzos- ha sido seriamente cuestionado. Numerosos testimonios indican que el comandante del tren se rindió de antemano, tal vez después de aceptar un soborno.
Inmediatamente después del triunfo de la revolución, Guevara organizó ejércitos guerrilleros en Nicaragua, la República Dominicana, Panamá y Haití, todos los cuales fueron aplastados. En 1964, envió a la muerte al revolucionario argentino Jorge Ricardo Masetti, convenciéndolo de que debía lanzar un ataque contra su país natal desde Bolivia, justo en el momento en que se había restaurado en la Argentina la democracia representativa.
Particularmente desastrosa fue la expedición al Congo en 1965. Guevara apoyó a dos rebeldes -Pierre Mulele en el Oeste y Laurent Kabila en el Este- en su lucha contra el perverso gobierno congoleño, apoyado por Estados Unidos, así como por mercenarios sudafricanos y exiliados cubanos. Guevara pasó la mayor parte de 1965 ayudando a los rebeldes en el Este, antes de abandonar el país ignominiosamente. Luego, muy pronto, Mobutu llegó al poder e instaló una tiranía que duró décadas.

Desastre en Bolivia

En Bolivia, el Che fue derrotado nuevamente, y por última vez. Interpretó erróneamente la situación local. La reforma agraria se había realizado años atrás, el gobierno había respetado a muchas de las instituciones de las comunidades campesinas, y el ejército, a pesar de su nacionalismo, mantenía proximidad con los Estados Unidos. "Las masas campesinas no nos ayudan nada", fue la melancólica conclusión que Guevara consignó en su diario de Bolivia. Peor aún, Mario Monje, el líder comunista local, que no tenía estómago para la guerra de guerrillas después de haber sido humillado en las elecciones, condujo a Guevara a un lugar vulnerable en el sudeste del país. Las circunstancias de la captura del Che en el barranco Yuro fueron, como casi toda la expedición a Bolivia, cosas de amateur.
Guevara era sin duda audaz y valeroso, y rápido para organizar la vida sobre una base militar en los territorios bajo su control, pero no era el general Giap. Su libro "Guerra de guerrillas" enseña que las fuerzas populares pueden derrotar a cualquier ejército, que no es necesario esperar las condiciones adecuadas porque un foco insurreccional (o un pequeño grupo de revolucionarios) pueden crear esas condiciones, y que la lucha debe desarrollarse primordialmente en zonas rurales.
Sin embargo, el ejército de Batista no era un ejército, sino una corrupta banda de matones sin motivación y con poca organización, y los focos guerrilleros, con la excepción de Nicaragua, terminaron con los foquistas reducidos a cenizas.
En las últimas décadas del siglo XIX, la Argentina tenía el segundo índice de crecimiento del mundo. En la década de 1890, el ingreso real de sus trabajadores era mayor que el de los trabajadores suizos, alemanes y franceses. En 1928, el país ocupaba el lugar número doce en el mundo por su PBI per cápita. Ese logro, que las generaciones siguientes arruinarían, se debía en gran medida a Juan Bautista Alberdi. Al igual que Guevara, a Alberdi le gustaba viajar: recorrió a pie las pampas y los desiertos del Norte a los 14 años, hasta llegar a Buenos Aires. Al igual que Guevara, Alberdi se opuso a un tirano, Juan Manuel de Rosas.
Al igual que Guevara, Alberdi tuvo la oportunidad de ejercer influencia sobre un líder revolucionario en el poder? Justo José de Urquiza, que derrocó a Rosas en 1852. Y, al igual que Guevara, Alberdi representó al nuevo gobierno viajando por el mundo, y murió en el extranjero. Pero a diferencia del antiguo y nuevo mimado de la izquierda, Alberdi jamás mató una mosca. Su libro "Bases y puntos de partida para la organización de la República Argentina" fue el cimiento de la Constitución de 1853, que limitó el gobierno, abrió el comercio, estimuló la inmigración y garantizó el derecho de propiedad, inaugurando así un período de 70 años de asombrosa prosperidad. No se entrometió en los asuntos de otras naciones, oponiéndose a la guerra contra Paraguay.
Su imagen no adorna el abdomen de Mike Tyson.