11.8.06

Ficar de fora?
Vasco Pulido Valente

Ontem a polícia inglesa impediu um atentado, que teria morto centenas de pessoas, que viajavam inocentemente de Inglaterra para a América. A ideia era fazer explodir em voo um número ainda indeterminado de aviões. Foram presos 21 indivíduos, mas com certeza escaparam alguns. Para começar, é bom perceber que uma operação desta envergadura não se improvisa. Exige um conhecimento técnico avançado, liberdade de movimentos, muito dinheiro e uma extensa rede de cumplicidades. Mais do que isso, precisa para se desenvolver de uma atmosfera favorável. O Ocidente, no caso a Inglaterra, oferece tudo isto aos terroristas. Respeita o seu direito à cidadania, protege a propagação de uma doutrina de intolerância e ódio e não pune, como devia, o incitamento à violência. Não estamos perante vítimas sem defesa de uma "globalização" cruel. Estamos perante gente sofisticada, que o Ocidente educou e deixou crescer.
O fracasso da invasão do Iraque provocou, naturalmente, uma contra-ofensiva xiita. No próprio Iraque, no Irão e no Líbano, essa ofensiva paralisou o Ocidente e forçou Israel a intervir. A farsa das negociações, com a França ou sem a França, presume que a guerra com o Hezbollah pode ser localizada e contida. Não pode. Por um lado, qualquer trégua ou interposição internacional só favorece o Hezbollah, que terá tempo de recuperar e continuará fatalmente a receber armas. E, por outro, o mundo muçulmano não vai ignorar a manifesta fraqueza política e militar da Inglaterra e da América. No Afeganistão os taliban voltaram. A boa-vontade do Paquistão arrefeceu. Há sinais de confluência do terrorismo xiita e do terrorismo sunita. E o ataque, planeado em Londres, mostra até onde o islão se dispõe a ir.
Infelizmente, o homem médio da Europa e mesmo da América não acredita na realidade de um islão agressivo. A tese oficial da "minoria extremista", que a grande e virtuosa maioria muçulmana condena, encoraja a complacência e o desinteresse. Tirando o preço da gasolina, quem se importa com as querelas do Médio Oriente e do Afeganistão ou com o que dizem e não dizem em Hamburgo ou em Londres clérigos furibundos, de turbante e barba? Mas, desta vez, não basta não ver e não ouvir. O Ocidente perdeu a iniciativa e os foguetões do Hezbollah, que chegam a Haifa, também chegam a Inglaterra em forma de bomba. Não há maneira de ficar de fora.
Um mundo enlouquecido
José Miguel Júdice

O mundo está cada vez mais louco, o que não significa - infelizmente - que esteja a ter cada vez mais graça. Os exemplos abundam e muitos deles são bem mais sintomáticos e graves do que o caso que vos trago para leitura de férias. Mas, por vezes, vale a pena usar para reflexão situações menos relevantes, pois desse modo a ilustração desejada passa com mais facilidade.
Somerset Maugham escreveu um dia, provocatoriamente - pois eram tempos de acesa dominância da teoria da luta de classes como explicação para a evolução histórica -, que a grande divisão da humanidade era entre os que tomavam e os que não tomavam banho matinal. Se escrevesse no nosso tempo, provavelmente afirmaria que a grande tensão é entre os fumadores e os não fumadores. Ou melhor, entre fanáticos que transformam o tabaco na razão de todos os males e os que ousam exercer a sua liberdade saboreando um cigarro ou um charuto.
Aflorações deste fanatismo fundamentalista surgem regularmente. As mais recentes são, curiosamente, contraditórias. No famoso e iconoclasta Fringe Festival de Teatro de Edimburgo, uma peça centrada em Winston Churchill teve de ser representada sem o conhecido e icónico charuto, por causa de uma lei que impede que se fume em lugares públicos. Mas, por outro lado, a Comissão Europeia veio afirmar que é "uma discriminação ilegítima, politicamente inaceitável" que empresas recusem empregar quem tenha o hábito ou o gosto de fumar.
Tudo isto me parece supinamente ridículo e disparatado. Não sou fumador; mas, como disse a outro propósito Kennedy ("Ich bin ein Berliner"), eu sinto-me fumador de cada vez que uma lei estúpida impede a natural fruição do que é assumido como um prazer ou, pelo menos, uma decisão individual. Eu sei que a liberdade de cada um deve terminar onde começa a liberdade dos outros; por isso, concordo que se não possa fumar em aviões, por exemplo. Por isso, aceito com naturalidade que em espectáculos teatrais a assistência não deva fumar, comer, ter relações sexuais (ou simulá-las...), beber cerveja, cantar, agredir os vizinhos, berrar.
O absurdo é que todos esses actos, que os espectadores não devem fazer, são praticados - quando o enredo o justifica - pelos actores em cena. Excepto fumar, ficou agora a saber-se. Não se pode fumar em cena, mesmo que assim se destrua toda a coerência artística da peça, a simbologia do personagem, a lógica imanente ao enredo. Para mim, isto é pura e simplesmente censura. E se hoje é o tabaco, amanhã com a mesma lógica pode ser qualquer coisa que desagrade a quem mande. Podemos acabar a aturar uma lei que impeça actores e actrizes de representar com indumentárias reduzidas, dizendo certas palavras, exprimindo ideias ou sentimentos proibidos. E desse modo se destroem séculos de luta pela liberdade da criação artística!
O disparate é ainda maior se trouxermos à colação a outra história, que felizmente - pelo menos por agora - acabou bem. Realmente, não se consegue entender como é possível proibir Mel Smith de interpretar Churchill fumando um charuto e se não permite que seja recusado emprego a quem fume. O argumento subjacente a este tipo de insensatas proibições é a saúde pública (quem fuma terá mais probabilidade de adoecer), a publicidade (se não se autorizar a publicidade do tabaco o consumo diminuirá) e o incómodo causado aos que não fumam.
Estes intenções e argumentos - cuja razoabilidade ou rigor não é aqui o local nem o momento para discutir - podem ser concretizados de formas ponderadas e equilibradas: pela pedagogia das entidades públicas, pelas restrições ou regras limitativas à publicidade, pela criação de espaços reservados para fumadores. O que estou a estigmatizar não é, portanto, a existência de regras que ninguém com sensatez rejeita. Do que se trata é atacar os que pretendem levar tais regras a extremos absurdos e desnecessários, em nome da "political correctness", desse modo se lesando direitos como são o direito à cultura, à verdade histórica e ao emprego. Mas, se o fundamentalismo tiver de triunfar, sempre será possível dizer que é menos lógico e adequado proibir um charuto na peça Allegiance, Winston Churchill and Michael Collins do que seria permitir não contratar um fumador por esse "horrível" motivo.
Mas o que tudo isto tem de mais preocupante é que as sociedades modernas - que legislam de forma tenaz e radical contra o tabaco e incomodam pacíficos fumadores - convivem tranquilamente com a extrema miséria, com as mais abjectas e sanguinárias ditaduras, com a mutilação dos órgãos genitais de mulheres, com chacinas em massa de populações, com doenças endémicas como a malária a que não destinam recursos e que dizimam populações inteiras, com penas degradantes e desumanas como as que ainda se aplicam em certos países muçulmanos, como a pena de morte.
Por isso é que concluo que o mundo está louco. Como uma vez disse o meu saudoso amigo Francisco Lucas Pires, um avião fez uns disparos sobre um quartel e como resposta nacionalizaram a banca. Esta tendência para a insensatez e para o totalitarismo do pensamento único continua a crescer e temo que não fique por aqui. Hoje é o tabaco, amanhã será qualquer outra coisa. E, sempre, serão coisas muito menos merecedoras de intervenção dos Estados e de coragem de punir do que são os exemplos que atrás referi, podendo seguramente apresentar muitos mais.
O que afinal significa tão-somente que a matriz das sociedades modernas passa pela criação de temas tolos que são hipostasiados e servem para simular poder e energia, e também para com isso evitar mostrar poder e energia (e já agora coragem) para ser radical e exigente em relação aos verdadeiros horrores do nosso tempo. Vamos indo assim. Mas vamos em direcção a um abismo.

24.6.06

PRÉMIO DE ROMANCE E NOVELA

ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ESCRITORES


Discurso


Gostaria de agradecer este prémio ao júri que mo concedeu, à Associação Portuguesa de Escritores, que o organiza anualmente, e, claro, às entidades que colaboraram com a APE e o tornam possível.
Já referi antes que nunca pensei recebê-lo e que foi uma surpresa a sua atribuição. Estas palavras podem confundir-se com pura imodéstia disfarçada de desprendimento, mas quem me conhece sabe que são verdadeiras e que a surpresa também o foi. Por isso, a alegria em estar aqui é maior e até mais profunda. As minhas palavras nesta circunstância apenas podem ser de gratidão e de um certo enlevo – e de vaidade, naturalmente, porque somos humanos e devemos viver, ainda que com intensidades diferentes, cada distinção e cada desaire. Distinções e desaires compõem a vida de todos – se bem que, no caso de quem escreve, o desaire deva ser entendido como um livro que não resultou e uma distinção deva ser vista como o reconhecimento pelo trabalho realizado.
Estas designações são sempre subjectivas. Cada um sabe e conhece os caminhos do seu trabalho. Cada um conhece as penumbras e as ilusões que o guiam. Cada um, cada autor, conhece o seu próprio caminho melhor do que ninguém e, por mais que tentemos escrever ou falar sobre o método, as alegrias e as dificuldades do nosso trabalho, há sempre aspectos que não conseguimos traduzir ou descrever. Podemos falar deles, claro, e falar deles com absoluta sinceridade – mas, com alguma probabilidade, não acreditariam inteiramente.
Eu escrevo histórias. De alguma maneira, imagino histórias que me comovem e que gostaria que comovessem os meus leitores. Se há alguma definição, em teoria da literatura, para o género de romance que eu gosto de escrever, acredito que seria essa. E que a frase decisiva seria essa também: “Eu escrevo histórias.” Acho que escrevo histórias porque gosto de ler as histórias dos livros dos autores que aprendi a amar desde a infância e a adolescência. Algumas delas duram mais na memória e, também aí, os factores que levam uma história a permanecer na nossa memória são também subjectivos. Podemos tentar explicá-los, mas há sempre qualquer coisa que sobrevive numa leitura – e que não conseguimos descrever. Por isso, uma das palavras de que mais gosto é “poeira”. A poeira das estradas no meio da floresta. A poeira dos caminhos. A poeira do deserto. A poeira do céu, aquela nuvem que atravessa a geografia de todos os lugares onde estivemos. A poeira, enfim.
Eu escrevo histórias, portanto, e gosto da palavra “poeira”. Tal como gosto da palavra “perturbação”. Da palavra “paisagem”, da palavra “lugar”.
Talvez por isso, por eu gostar de escrever histórias que algum dia me comoveram, não posso falar em nome dos outros nem acho que o trabalho do escritor, seja ele contador de histórias ou não, deva ser realizado em nome de outra coisa senão da alegria de escrever e, por interpostas pessoas, da alegria de ler.
Escrevo histórias porque não acredito num mundo sem história, sem memória e sem perturbação. A história e a memória mostram-nos que vivemos com os outros e que são os outros que justificam todas as narrativas; sem os outros não teríamos ninguém para contar histórias, não teríamos ninguém para ouvir as nossas histórias, ou seja, não teríamos com quem viver. A perturbação, por seu lado, ensina-nos que a pequena verdade de cada um, a pequena verdade dos outros, pode pôr em causa a nossa verdade absoluta, aquela em que acreditamos.
No meu caso, os outros, além dos meus leitores, dos meus filhos, dos meus pais, dos meus amigos mais chegados, os outros são os meus personagens. Comecei este breve discurso agradecendo o prémio. Terei de agradecer também aos meus personagens, aos personagens dos meus livros. Sem eles eu não teria conseguido escrever nem contar histórias, nem ter vivido os momentos dessa estranha e no entanto intensa felicidade que é a de ver que, subitamente, esses personagens já não dependem de mim mas da vida inteira, da vida que vem nos livros. Conheço o inspector Jaime Ramos, o detective de “Longe de Manaus”, há algum tempo. Há cerca de quinze anos que ele vive comigo e que eu conto as suas aventuras. De alguma maneira, como vêem, nem as histórias me pertencem, mas sim aos meus personagens. É verdade que o detective Jaime Ramos só existe porque eu o inventei, ou o criei, ou o escrevi. Mas isso acontece porque ele vive, melhor do que eu, esse mundo de perturbação e de poeira onde situo as minhas histórias. Ele é um homem vulgar e céptico. Talvez um pessimista, até. Tem hábitos vulgares. A sua excepcionalidade, o que para mim se revelou excepcional no seu carácter, foi a sua capacidade de permanecer vulgar, céptico, dedicado, tranquilo, apesar da vida inteira, a sua e a dos outros. Agradeço-lhe ter aceite este papel de personagem dos meus livros. Agradeço aos outros personagens que os habitam: ao inspector açoriano Filipe Castanheira, por exemplo, que não entra neste livro, mas que começou a minha série de histórias policiais. A Daniela e a Helena, de “Longe de Manaus”, por quem me apaixonei. Ao brasileiro de Manaus, Osmar Santos, que me proporcionou muitos momentos de riso. Ao detective Isaltino, a quem admiro a sua modéstia tremenda, de homem humilde. Agradeço à namorada de Jaime Ramos, Rosa, que não me importaria de ter conhecido antes de escrever os seus diálogos. E estou grato, evidentemente, aos lugares que aparecem no livro – o Porto, Trás-os-Montes, o Douro, a Guiné, Cabo Verde, Angola e, naturalmente, o Brasil. Se não existissem esses lugares, não teria podido escrever. Graças a eles viajei bastante.
Mas sobre muitas outras coisas, estou grato à língua que usam os nossos escritores – os nossos, os escritores de língua portuguesa. Este livro tem duas ortografias, a portuguesa e a brasileira, mas serve-se de uma única língua, divertida, dramática, pueril, fantástica, sitiada, brincalhona, empertigada, humilde, e dividida por vários continentes onde já não depende de nós, portugueses, mas de todos os que a falam independentemente de nós – e essa é a sua melhor promessa, a nossa melhor herança. É por ela que falam os nossos mestres, de Luís de Camões e Fernão Mendes Pinto a Machado de Assis, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Cesário Verde ou Fernando Pessoa. Eu acho que devemos venerar os mestres e as suas lições, as que atravessam o tempo e sobrevivem às inclinações do mundo, as que vêm de Fernão Lopes a Rubem Fonseca, de Sá de Miranda a Vergílio Ferreira e José Cardoso Pires. Eles são os mestres da nossa língua e a garantia de que ela existe para lá e para além dos dicionários do presente. Se algum dia a escola tiver dúvidas sobre a nossa língua, eles estão aí. Sem eles não poderíamos falar da nossa língua.
Há também um nome que gostaria de referir aqui, o de Miguel Real, autor de “Em Nome da Terra”, um livro notável que foi finalista, comigo, nesta escolha do júri do Prémio APE. Miguel Real é um autor muito raro e de altíssima qualidade, e o seu livro é uma fantástica narrativa sobre uma parte da História de Portugal. Foi das primeiras pessoas a felicitar-me porque ambos sabemos que eu seria também uma das primeiras pessoas, senão a primeira, a felicitá-lo, como já aconteceu de outras vezes.
Não quero terminar a lista de agradecimentos sem mencionar uma pessoa a quem estou ligado por laços muito mais fortes do que a simples relação, digamos, literária. Falo do meu editor Manuel Alberto Valente. Em vários momentos em que o meu pessimismo ultrapassava o do próprio detective Jaime Ramos, o meu editor ensinou-me que vale a pena insistir, persistir, não dormir às vezes, e sobretudo não ceder ao que não devemos ceder. A sua companhia, ao longo destes últimos quinze anos, foi também preciosa e não podia esquecê-lo agora.
Um prémio agradece-se. Ele honra-nos e provavelmente traz-nos alguma responsabilidade acrescida. Agradeço-o, portanto, e sinto-me honrado. A minha única responsabilidade, no entanto, é apenas para com o meu próximo livro, para com a minha próxima história.

[Francisco José Viegas]

12.6.06

Francisco José Viegas vence Grande Prémio de Romance e Novela da APE
07.06.2006 - 19h02 Lusa

O livro "Longe de Manaus", de Francisco José Viegas, é o vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 2005.

Trata-se de um mais importantes prémios literários portugueses, no valor de 15 mil euros, e foi atribuído por maioria por um júri constituído por José Correia Tavares, que presidiu, Liberto Cruz, Luis Mourão, Luiz Fagundes Duarte, Serafina Martins e Teresa Martins Marques, informou a Associação Portuguesa de Escritores (APE).

Segundo a APE, o número de livros admitidos ao concurso (90) foi o maior desde a primeira edição do prémio, há 24 anos.

Dois dos seis membros do júri do Grande Premio de Romance e Novela da APE votaram na obra "A Voz da Terra", de Miguel Real, indicou a instituição.

O prémio é patrocinado pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, Câmara de Grândola, Fundação Gulbenkian, Imprensa-Nacional Casa da Moeda, Instituto Camões e Sociedade Portuguesa de Autores.

Francisco José Viegas é actualmente director da Casa Fernando Pessoa, tendo exercido antes cargos de direcção em jornais e revistas.

Nascido em 1962 em Vila Nova de Foz Côa, viveu na aldeia de Pocinho até aos oito anos, mudando-se então com a família para Chaves, onde fez os estudos secundários. Formado em Letras pela Universidade de Lisboa, Viegas foi professor de Linguística na Universidade de Évora.

Jornalista, escreveu para jornais e revistas como o "Jornal de Notícias", "Diário de Notícias", "O Independente", "Visão", "Ler" e "Grande Reportagem". Actualmente, apresenta com periodicidade semanal programas culturais na rádio e na televisão.

Data de 1983 a sua estreia em livro, na Poesia, com "Olhos de água", a que se seguiram "As imagens", em 1987, o ano em que publicou o seu primeiro romance, "Regresso por um rio". A sua obra poética inclui ainda títulos como "Todas as coisas", de 1988, "O Medo do inverno seguido de poemas irlandeses", de 1994, e "O puro e o impuro", de 2004.
Na ficção, Viegas escreveu "Crime em Ponta Delgada", de 1989, "Morte no Estádio", de 1991, "As duas águas do mar", de 1992, "Um crime na exposição", de 1998, "Lourenço Marques", de 2002, e o agora premiado "Longe de Manaus", de 2005.

São ainda de sua autoria uma peça de teatro, "O segundo marinheiro", de 1988, e, publicado neste mesmo ano, um livro de viagens, "Comboios portugueses".

Várias das suas obras estão traduzidas na Alemanha e em França.

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Francisco José Viegas distinguido com Grande Prémio de Romance e Novela da APE








Francisco José Viegas, galardoado esta quarta-feira com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), é um dos mais jovens escritores a receber esta distinção, atribuída a autores portugueses desde 1982.

Viegas tem 44 anos. Nasceu em 1962 em Vila Nova de Foz Côa, fez os estudos secundários em Chaves, formou-se em Letras na Universidade de Lisboa e desenvolve desde então, a par da escrita, actividades múltiplas de divulgação cultural, na rádio, nos jornais e na televisão.

Hoje, numa primeira reacção ao anúncio do prémio, disse à Lusa ter ficado "surpreendido e ao mesmo tempo contente" com a distinção, que considera "um estímulo".

Viegas estreou-se nas letras em 1983, aos 21 anos, com uma recolha poética a que deu o título de "Olhos de água".

Quatro anos depois, publicou um novo título poético, "As imagens", e lançou a sua primeira ficção, "Regresso por um rio".

"Excelente poeta", na opinião do também poeta e ficcionista Vasco Graça Moura, o anterior vencedor do prémio com o romance "Por detrás da magnólia", Viegas deu já à estampa, 23 anos volvidos sobre a sua estreia, seis livros de poesia e nove de ficção.

Graça Moura, como aliás outros dos autores contactados pela Lusa - casos de Jorge Saramago e Agustina Bessa-Luís - não leu o hoje premiado "Longe de Manaus", mas tem da obra anterior do autor opinião positiva.

São, em seu entender, livros com "um resultado muito bom" e "grande eficácia literária".

Para Lídia Jorge, distinguida com o Grande Prémio em 2002, com o romance "O vento assobiando nas gruas", "Longe de Manaus" é "o melhor livro" de Viegas.

"É - disse à Lusa - um livro estupendo, que tem um enredo policial, mas também uma natureza psicológica e mítica, e que junta dos perspectivas, a portuguesa e a brasileira".

Baptista-Bastos entende ter sido "mais do que merecido" o Prémio atribuído a Viegas, porque "Longe de Manaus" é "um belíssimo romance de um grande escritor da língua portuguesa".

"Escreve - disse o autor de "Cão velho entre flores" - um português admirável, coisa que vai sendo cada vez mais rara nos escritores e nos jornalistas portugueses".

A obra ficcional de Viegas inclui títulos como "Crime em Ponta Delgada", "Morte no estádio", "As duas águas do mar" e "Lourenço Marques", romances assentes em tramas policiais mas não se limitando a um desenvolvimento linear desse "esquema".

Escreveu ainda uma peça de teatro, "O segundo marinheiro", e um livro de viagens, Comboios portugueses".

Actualmente, é o director da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.

O Grande Prémio de Romance e Novela da APE registou na edição deste ano um número recorde de obras concorrentes, 90. O seu valor pecuniário é de 15.000 euros.

Nas anteriores edições foram distinguidos autores como José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, Saramago, Agustina Bessa-Luís, David Mourão Ferreira, Vergílio Ferreira, Mário Cláudio e António Lobo Antunes.

Agência LUSA
2006-06-07 20:32:02

6.6.06

A Sagres é a mais tradicional das cervejas portuguesas, nascida em 1940. Exactamente: durante a Exposição do Mundo Português e as comemorações do Império. Daí que, doravante, a sua história esteja, também, ligada à história do design de bebidas em Portugal e, na verdade, à história da própria cerveja entre nós. Durante anos criou-se a ideia, sem dúvida desmesurada e estranha, de que se tratava de uma cerveja pesada. Erro. A Sagres foi, quase sempre, uma cerveja bem feita, bem preparada e, enfim, razoável. Os seus apreciadores detectavam nela uma simplicidade atraente e natural que os bebedores mais jovens não conseguiram compreender. Cometeram-se algumas maldades contra a Sagres. De alguma maneira, a cerveja evoluiu e abriu mais o paladar e a sua cor. Na boca reconhece-se a suavidade do malte, um tom seco, e a presença do lúpulo. Tem algum corpo, reflexos dourados, e um tom amargo que se solta do último suspiro do bebedor; a espuma é muito aberta, o que é uma pena porque muitas vezes se perde – mas o bom apreciador sabe como obter uma espuma correcta e suculenta. Sedosa, textura bastante aceitável, nada que lembre uma cerveja aguada e sensaborona, própria para almas desinteressantes.


+MARCA: Sagres
Origem: Portugal
Álcool: 5,1%
Avaliação: ***

O mundo das cervejas pretas está a mudar em Portugal. Em primeiro lugar, uma parte dos bebedores de cerveja começa a distinguir aquilo que é uma stout de várias coisas como uma dunkel ou apenas uma vaga imitação escura de outras cervejas de tom mais marcado. O apetite pelas cervejas escuras vai aumentando à medida que a qualidade dos bebedores aumenta; ou seja, aumenta o seu interesse pelas boas cervejas que não são, apenas, refrescos com alguma intensidade alcoólica ou amargor de lúpulo. A Super Bock preta apresenta-se como uma stout, e tem razões para o fazer – a essencial tem a ver com a sua densidade, e nisso é a melhor das pretas portuguesas.
Trata-se de uma boa tentativa de fazer uma stout sem excesso de caramelo e com um leve tom de chocolate em dose aperfeiçoada; tem um tom de fruto e de licor inesperado, e uma complexidade que se revela num sabor duradouro. Harmonia entre a carbonatação moderada e a suavidade proporcionada pela fermentação. Com maior densidade, o seu aroma seria (ainda mais) recompensado e ficaria mais amarga. A espuma duradoura é um presente para os bons bebedores que apreciam aquele momento em que a cerveja cai no copo e se despede para sempre da letargia em que nos aguardou – e um prémio para a persistência.

+MARCA: Super Bock Stout
Origem: Portugal
Álcool: 5%
Avaliação: ****
A minha peregrinação em busca da ruiva ideal passa, necessariamente, pela Super Bock Abadia, que foi um sucesso de mercado, tal como a sua rival directa, a Sagres Bohemia. Eu aprecio este tipo de cervejas, onde a coloração se obtém a partir de maltes trabalhados e intensos. O resultado é uma cerveja com certo tom de caramelo, de reflexos alaranjados e vagamente amargos. A Abadia não tem o amargor de outras cervejas semelhantes; pelo contrário, é suave e muito ao gosto popular, o que nem sempre é bom, embora garanta presença e acabe por tornar os seus bebedores em cidadãos mais exigentes. Bem vistas as coisas, a Abadia regista pouca intensidade para uma ale, que poderia ser bem mais “amanteigada” e com corpo mais denso. Aquele leve piquinho de citrino acaba por se transformar em sabor de frutos maduros, o que lhe dá um certo ar exótico. Mantém uma das características da Super Bock no andamento lager – a frescura. Já quanto à sua espuma, convém agitar o copo para que ela não se perca. Ao volteá-la descobre-se uma respiração folgada e intensa (atenção aos 6,4% de álcool), muito adequada a cervejas deste tipo, que não pretendem apenas servir de refresco ou de antídoto contra o calor do Verão, mas também transmitir um sabor especial, neste caso ligeiramente adocicado e frutado.

+MARCA: Super Bock Abadia
Origem: Portugal
Álcool: 6,4%
Avaliação: ***
Aprecio nas cervejas escuras o seu apelo à contenção, o seu peso e a suavidade. Não são coisas contraditórias. Ao contrário das cervejas claras, lagers clássicas e pilseners de eleição, as cervejas escuras ou mais escuras (stouts, ales, dunkels, de ruivas a pretas) chamam por nós naquele momento em que a boca se desfaz do líquido e o deixa seguir caminho; ou seja, a cerveja vai, parte, mas nós ficamos cá do alto, vigiando a descida esófago abaixo, se é que ela desce alguma vez pelo esófago – coisa que, por elegância, acredito que não fará. A designação de cerveja preta quase nunca é muito precisa, pois abarca uma série de identidade e de categorias muito distintas. A Tagus, que é uma boa lager, lançou agora a Magna, que se junta às outras cervejas escuras portuguesas. Recomendo que se proceda à sua prova: em primeiro lugar, não se trata de uma stout, antes aparece como uma dunkel de estilo alemão, quase regulamentar e bávaro, embora com um tom mais doce ou caramelizado. Olhada à luz, faz-nos tremer ligeiramente: o copo, transparente, revela um tom rubi profundo e nada envergonhado. E, se é mediana no seu aroma (nada de profundo, de facto), o paladar compensa bastante, com uma evocação simpática de sabores em suspensão, volteando e rodopiando naquele final de boca acentuado. Só o facto de não trazer impresso «stout» no rótulo é já uma coisa honesta. De facto, é uma boa dunkel portuguesa.

+MARCA: Magna
Origem: Portugal
Álcool: 5%
Avaliação: ***
Eu não vejo grande inconveniente em fazer-se cerveja com ananás, abóbora, rabanete, gasolina de avião, álcool etílico ou com ginja. O importante é haver quem a beba; não me apanharão em campanhas de rua a exigir a pureza absoluta da cerveja ou de qualquer outra coisa. Em África já me ofereceram vinho branco com Coca Cola e eu recusei – mas havia bastante gente à minha volta a segurar na mão o copo com a mistura. De volta à pátria real, descubro uma cerveja com aroma de limão e uma campanha publicitária que fala da sua leveza e dimensão angelical. Estranhei que não a tivessem feito antes – à mistura, porque a publicidade nem era má. Nada disso me incomoda, nem acho criminoso desde que não me obriguem a bebê-la em doses normais. Basta cheirá-la. Há quem invoque o hábito mexicano de tingir a claridade radical das suas cervejas com umas gotas de limão ou, mesmo, de nela mergulhar um quarto de lima para lhe transformar o sabor, tornando-a ligeiramente doce; nem isso me parece uma exclusiva mexicanização: na Europa há cervejas com um leve toque cítrico que não desconhecem de todo o caminho do pódio – pelo contrário, são muito agradáveis. Não são aquela cerveja. Não. Mas não erguerei o cadafalso para penalizar os seus autores. Ora, por falar em campanhas publicitárias de cerveja em Portugal há uma que gostaria de recordar; diz: «É boa.» Voltar à pátria a espaços tem destas vantagens: eu já conhecia a cerveja mas tinha-me passado a campanha. Não é despropositada – a Tagus é uma cerveja muito apreciável, claramente lager, seca e com um tom colorido bastante apetitoso, cerealífero. Herdeira da tradição das pequenas indústrias locais (que produziram em Portugal marcas como a Marina, Clock, Cergal ou Topázio), é necessário saber aprender a beber a Tagus: não é vulgar nem excessivamente gaseificada, como acho que pede o gosto português; tem um aroma quase perfeito e um sabor que ronda o limão, frutos frescos e um final de noz. É boa. Quer dizer: a campanha não mente. É boa e pronto. Malte puro, água pura, lúpulo – com isso se faz uma cerveja.

+MARCA: Tagus
Origem: Portugal
Álcool: 4,5%
Avaliação: ***
Nas cervejas, como em muitas outras coisas da nossa vida, há obsessões e hábitos adquiridos com a prática. A Super Bock é um dos selos da identidade do malte & lúpulo português – e, convém esclarecer, não tem nada a ver com a designação bock, que diz respeito a uma cerveja de sabor intenso, de teor alcoólico mais elevado (chega aos 16 e, no caso das Dopplebock, aos 18%), ligeiramente mais doce, originária de Einbeck (Baixa Saxónia) e que depois adquiriu diferentes significados – todos eles relacionados com a “qualidade do fabrico”. Durante muitos anos, o principal argumento do bebedor de cerveja em favor da Super Bock tinha a ver com a sua leveza de carácter. Era um ponto a seu favor, admito: transparência mais admirável no copo, uma espuma aceitável (ainda que sem muita densidade) que protegia o borbulhar, cor mais apetitosa em meses de canícula. Na verdade, era a lager portuguesa mais fácil de beber. Essa característica não se alterou muito: a Super Bock mantém um tom de frescura, ligeiramente afrutado e que tem vindo a melhorar. Na boca, começa por ter um vigor intenso que depois passa a amargo. Os seus apreciadores detectam esse final muito equilibrado que não lhe retira peso como uma cerveja que cumpre a sua função – dessedentar, refrescar, ser uma pale lager de referência, seca de paladar e limpa quando vista diante da luz. Há cervejas que têm apenas essa característica e não vem daí mal ao mundo.


+ MARCA: Super Bock

Origem: Portugal
Álcool: 5,6%
Avaliação: ***

A cerveja brasileira tem os seus admiradores pelo mundo fora – e os portugueses aceitam, de bom grado e com santa ingenuidade, que se trata, em geral, de uma cerveja superlativa. Na verdade, há casos. Mas convém relembrar que uma cerveja é o modo como ela é construída e a circunstância em que é bebida. Portanto, num cenário idílico em que as poeiras dos trópicos transformam o nosso carácter e nos conferem uma certa dose de perturbação dos sentidos, até uma Antárctica pode parecer uma boa cerveja. Mas não é. Ora, ao contrário do que se pensa, é cada vez mais difícil fabricar más cervejas. Depois de passar dois anos a escrever sobre o assunto, semanalmente, raramente encontrei más cervejas – em todo o mundo. A Sagres, que lançou uma razoável cerveja ruiva há um ano (seguida pela Super Bock, que lançou a Abadia), acaba de disparar para o mercado com a Sagres Chopp, tentando vender a imagem de uma «cerveja brasileira», leve e suave. Não conseguiu. Não tem espessura de «chopp» (que só se obtém verdadeiramente, em todo o seu esplendor, em barril), não tem a sua gloriosa espuma, não tem o seu sabor de coração frio. O rótulo é feio e desagradável, de design cavernícola – e a “carica” nem a marca leva impressa. Aroma, quase nenhum; sabor, amargo demais mas sem personalidade. Experimentei seis garrafas em copos diferentes e foi sempre desilusão. Não tem sabor, não é – ao contrário do que a sua publicidade afirma – leve e possui uma densidade que até na cor se manifesta. Um falhanço.

+MARCA: Sagres Chopp
Origem: Portugal
Álcool: 5%
Avaliação: *
Regresso à pátria depois de uma viagem pelo sul do mundo, e encontro-a cheia de novidades; não me refiro ao futebol, à política ou à meteorologia. Falo da cerveja. Tinham-me já escapado a viseense Tagus Magna, uma dunkel que não me arrependo de gabar, e a madeirense Coral Tónica, uma aproximação ligeira à dunkel. Mas eu não queria que me fugisse a Bohemia, a nova experiência da Sagres. O leitor já sabe que essas cervejas avermelhadas me caem no goto. Aliás, caem bem sobretudo no estômago (já aqui mencionei a Murphy’s Red), são ligeiramente digestivas, afrutadas e, quando servidas de acordo com as regras, a sua espuma flutua como os pássaros num poema de Yeats. A imagem é exagerada, mas é para que o leitor compreenda. É preciso dizer, antes de mais, que não se deve beber uma red do mesmo modo como se bebe uma lager simples. Há horas para tudo. Com certeza, a Bohemia não é a cerveja indicada para refeições substanciais, pois o seu açúcar pode confundir-nos o paladar – o aroma é intenso, solta-se em vagas que nos transportam até outras latitudes. Deve beber-se com concentração e desprendimento. A Bohemia cumpre as indicações (faltando-lhe aquele tom de manteiga que a fecharia mais um pouco) e seria uma pena que passasse despercebida; devemos felicitá-la pela cor e pelo aroma, que tem um final muito apreciável, que evoca maçã e frutos em maturação. Ao servi-la, atenção!, provoque-lhe uma espuma substancial. E já sabeis, leitores, qual é a minha divisa nessas circunstâncias: «Vinde a mim, ruivas!» Já é obsessão.

+MARCA: Sagres Bohemia
Origem: Portugal
Álcool: 5,6%
Avaliação: **
Para festejar o início da produção na Cervejaria da Trindade, apareceu a Sagres Bohemia 1835, uma variante mínima da Sagres Bohemia anterior. Na verdade, trata-se de uma correcção da nova marca, com um ligeiro toque de fruto no seu carácter – mais aveludada, menos amarga no seu final de boca, e mais intensa no aroma. É uma homenagem ao interessante mito dos bons frades que amavam a cerveja e a fabricavam para prazer dos homens e glória do Divino. Não me parece mal. Se fizerem a experiência, num copo adequado, a Bohemia 1835 produz uma espuma mais densa do que Bohemia normal, o que leva a pensar que é uma pena tratar-se apenas de uma série limitada. Há uns tons (mas isso depende da imaginação do provador) de cereja e frutos maduros, muito mais indicados para uma cerveja deste género – e que a afasta definitivamente do gosto popular (o que é bom), dando-lhe notas de requinte e de exotismo, conferindo-lhe densidade e tornando-a mais apetitosa. Por instantes, num final de Primavera, pode mesmo parecer uma cerveja de bar, bebida ao balcão em copo de pint (a meu ver mais adequado, para esta Bohemia 1835, do que o formato belga) uma vez que não precisa tanto de respirar nem de correr o risco de oxidar. Pelo contrário: é uma cerveja que deve beber-se em goles cheios, fustigando as papilas e mostrando-lhes que é possível produzir uma ruiva aceitável, muito aceitável, com as cores nacionais. O bebedor não sabe como se consegue isso, mas dá-se conta de que há uma melhoria. E isso é bastante. E já é muito.

+ MARCA:
Sagres Bohemia 1835
Origem: Portugal
Álcool: 5%

Avaliação: ***
Várias vezes me têm perguntado quais são as melhores cervejas portuguesas – é um risco necessário e natural. Por sorte, mais do que por aquela natural sapiência que um cronista devia ter (e não tem), tenho podido evitar respostas. Tenho a minha lista. No topo, silenciosas, seguem as minhas três de eleição. De duas delas já escrevi há tempos, ambas lager – uma de travo agudíssimo, pilsener lusitana, leve e ligeira, como uma daquelas canções cujo ritmo não engana ninguém, é uma cerveja fácil (lembra muito aquela canção Esquece Tudo o que te Disse). A outra, lager de lei, loira intensa, perfumada de lúpulo e nada mais, com o tom amargo de quem não aparece para enganar incautos ou iniciados (e que lembra o grande hit de Tony de Matos, «o vendaval passou/ nada mais resta…»). Desta vez, porém, menciono outra lager muito apropriada, a Coral, madeirense (relembro que apareceu recentemente no mercado a Coral Tónica, que é a aventura funchalense no domínio das stout). Bebê-la a copo ou em garrafa traduz uma distinção apreciável, sobretudo se o barman sabe tirar correctamente a cerveja. No continente, para pena minha, não se encontra em barril – mas as garrafas estão por aí, e não desmerecem a tradição de uma cerveja leve, de baixíssima fermentação, refrescante e de «coração frio» (à semelhança de muitas brasileiras, por exemplo – refiro-me à cerveja), mas que não se envergonha do seu piquinho que eu atribuo ao desejo de agradar ao gosto médio nacional. E aquele tom de frescura que acalma as papilas não é um acaso.

+MARCA: Coral
Origem: Portugal / Madeira
Álcool: 5,6%
Avaliação: **
Havia um tempo em que as cervejas eram todas iguais. Minto: em que nós, inocentes, julgávamos que as cervejas eram todas iguais. Eu recordo coisas simples, como essa. O gosto do primeiro golo de cerveja – o da primeira aventura como adolescentes. Era Verão. Tínhamos quinze anos. Dezasseis. Havia um brilho imbecil nas tardes de Verão, e um reflexo alaranjado no entardecer; nada que não venha na literatura. Romances de aventuras, policiais, séries de televisão, primeiros romances a sério, choupos à beira do rio, creme Nívea na praia, areal a perder de vista, pinhais, dunas. Posso mencionar o primeiro beijo? Posso. Essas coisas têm mais probabilidade de terem acontecido durante o Verão. Tal como a primeira cerveja. Nesse tempo havia marcas como Clock, Cergal, Marina, Cuca. Hoje, há mais marcas. Mas essas eram as dos Verões de há trinta anos, vinte anos. Seriam melhores do que hoje? Não sei. Não havia essas preocupações. Era apenas uma cerveja, uma transgressão. Outro dia, no supermercado, revi a Cergal. Vi-a em latas, verdinhas, com o complemento «Holland style» ou «Holland beer». Comprei duas latas, tal como já comprei, em alfarrabistas, livros escolares de há trinta anos – para rever um tempo. Lager clara, fria, sem ademanes. Procurei um sabor antigo mas não soube reconhecê-lo. Leve e ligeira, lembrou-me apenas que o tempo passava. Tinha um sabor simpático de lúpulo suave, trabalhado com cuidado. Era o nome da Cergal, com aquele rasto de cereal flutuante, filtrado com esmero (ah, que diferença em relação à antiga Cergal), um raio de luz na minha memória traiçoeira.

+ MARCA: Cergal
Origem: Portugal

Álcool: 4,5%

Avaliação: *

5.6.06

Em que país estava a ministra da Educação?
Beatriz Pacheco Pereira
[PÚBLICO DE 5.06.2006]

O passado é negro, mas a culpa não é, seguramente, dos professores. Os que resistiram a todos estes erros da responsabilidade do Ministério que tutela são quase heróis. Que mereciam ser estimados e bem pagos para permanecer na profissão.

Sucedem-se os ataques violentíssimos aos professores como únicos responsáveis pelo desaire do ensino público (note-se, público, não privado, como se eles não fossem os mesmos...).
Caso é para perguntar à sra. ministra onde andava e que informação tinha sobre o que se passava, de há trinta anos para cá, no Ministério que agora tutela. Ninguém chega a ministro sem saber o que está para trás. Mas nada se nota. Se não está bem informada do passado, aqui ficam alguns dados que explicam bem como se pode ter chegado aos descalabro que apregoa.
Pergunta-se pois, sra. ministra, onde andava quando o seu Ministério...
1- ...aprovou cursos de professores primários em que se proibiam as cópias e a memorização da tabuada (Institutos Piaget e quejandos...)
2- ...deixou professores primários dar aulas em aldeias remotas em escolas sem água, sem luz e com alojamentos dignos de eremitas? E todos ou outros em verdadeiro trabalho missionário por esse país fora?
3- ...deixou que o concurso de professores enviasse, anos e anos a fio, pessoas com uma qualificação de nível superior (as que devia mais estimar) pelo país inteiro, à custa de suas famílias destroçadas e dos filhos que não podiam ter ou ter consigo?
4- ...ignorou ostensivamente que eles pagavam os transportes do seu bolso, viajando 100-120 quilómetros até, sempre sem qualquer ajuda de custo, diminuindo dramaticamente os que lhes sobrava no fim do mês? Não seria isto imoral e desumano?
5- ...teve inúmeros ministros que se sucediam a ritmo alucinante, cada um puxando pelos seus galões de docentes universitários, vomitando reformas continuamente e sempre sem ter em conta a sua adequação, implementação e financiamento?
6- ...deixou que a dotação financeira de uma escola secundária fossse absolutamente ridícula durante décadas, mal dando para pagar a água, luz, os edifícios escolares se degradassem de tal modo que nenhum professor se aventurava nas instalações sanitárias dos alunos, e não havia recintos desportivos ou actividades extra-escolares?
7- ...permitiu horários dos alunos que alcançam as 8-9 horas por dia, uma carga insuportável para qualquer pessoa? (tive uma turma destas este ano lectivo, e eu dava a 9º aula do dia...)
8- ...não se preocupou com o tempo de estudo dos alunos. Quantas horas sobram semanalmente para os alunos estudarem? Na escola, onde se pode estudar se não há salas de estudo organizadas e, em muitas, as bibliotecas, se funcionam, não têm espaço para tal? Será em casa, à noite, com pais que se demitem cada vez mais da sua função de vigilantes e educadores?
9- ...esvaziou o quadro das escolas de funcionários, deixando que sejam poucos, mal preparados e pouco mais do que empregados de limpeza?
10- ...obrigou os professores (especialistas nas suas matérias, não se esqueçam) a passar muitas horas extra-horário, a fazer tarefas administrativas que antes competiam aos funcionários não-docentes, ou então em reuniões absolutamente improdutivas mas obrigatórias? Não sabia que os professores já passavam muitas noites e fins de semana a preparar aulas e material lectivo?
11- ...permitiu que o Sistema Disciplinar se esvaziasse, em nome da retenção quase obsessiva de alunos dentro de portas e do aumento da população discente nas escolas, minando sistematicamente a autoridade dos professores? Este ano, sei que alunos com comportamentos irregulares, e até criminosos, com 20 ou mais participações disciplinares, não foram expulsos nem submetidos a nenhum programa de reabilitação por especialistas credenciados... Porque reduziu o Ministério o poder de sanção dos professores?
12- ...só deu atenção ao número de computadores por escola e ao acesso à Internet mas não permitiu aos alunos compreender o poder dos media? Afinal os alunos passam o resto do escasso tempo diário a ver uma televisão que lhes mostra só publicidade de telemóveis, futebol, escândalos e anedotas... Os valores dos jovens hoje são ensinados pelo matraquear de televisões mal regulamentadas. Porque não age o Ministério sobre elas também? Porque será que abdicou da sua função reguladora deixando que canais abertos dêem pornografia encapotada, publicidade que ofende os direitos humanos e dos animais, programas impróprios a horas do jantar? Porque nunca interagiu o Ministério da Educação com o da Cultura?
13- ...permitiu que se extinguissem os Exames por puras razões estatísticas? Ninguém no Ministério sabia que era preciso separar os que sabiam dos que não sabiam, e desde o início da escolaridade? Porque facilitou sempre a passagem dos que tinham níveis negativos?
14- ...deixou que as escolas tivessem apenas um psicólogo (quando o tinham, claro) que além de fazer sozinho a orientação vocacional, não tinha tempo para lidar com os casos mais graves que surgiam nos alunos? Porque, entre eles, não havia futuros desajustados da sociedade, nem doentes mentais, nem vítimas de abuso sexual, nem de violência doméstica, nem problemas de droga. Ou havia?
15- ...não se deu conta da crescente feminização das nossas escolas? Por que razão isso aconteceu, é simples - ser professor era (é) das tarefas mais exigentes, mal pagas, de carreira mais difícil e incerta. Portanto, óptima para o lado mais fraco da nossa sociedade. Depois, com algum malabarismo, ainda deixava algum tempo livre para as tarefas domésticas. Os homens, simplesmente não se sujeitavam a isto e partiam para outras profissões, mesmo dentro da função pública como para repartições e organismos de gestão do Ministério da Educação. Esta acomodação a padrões de sociedade retrógrados nunca incomodou o Ministério? (A propósito, os professores-homens estão a voltar ao ensino, não porque sintam vocação, mas porque há falta de empregos...)
Podia continuar estas interrogaçãoes que apontam para coisas que a sra. ministra, estranhamente, prefere não falar. O passado é negro, concordo, as estatísticas não se podem ignorar, mas a culpa não é, seguramente, dos professores. Porque os que resistiram a todos estes erros da responsabilidade do Ministério que tutela são quase heróis. Que mereciam ser estimados e bem pagos para permanecer na profissão. Sabe a sra. ministra porque é que, em Inglaterra, já ninguém quer ser professor e andam à procura deles em Espanha e até em Portugal? Professora do ensino secundário (bpachecop@hotmail.com)

17.5.06

PAULO JOSÉ MIRANDA SOBRE SÃO PAULO

Segunda-feira
(relato de um recolher obrigatório informal ou o dia em que a cidade que não pára, PAROU, devido aos ataques do PCC – Primeiro Comando da Capital)

Após um fim de semana de violentos ataques a esquadras da polícia, dos bombeiros, autocarros, metro e civis, revoltas em inúmeras prisões, a chegada da segunda-feira e a necessidade dos cidadãos terem de ir trabalhar, levou a que este dia São Paulo tenha assistido ao pior dia da sua história. Nunca os cidadãos desta cidade se tinham sentido reféns do terror, do medo como nesta segunda-feira. De madrugada inúmeros autocarros e carros foram incendiados, agências bancárias destruídas e havia manchas de sangue espalhadas por muitas partes da cidade. Quando os cidadãos mais pobres se dirigem à paragens de autocarros para irem trabalhar deparam-se com a inexistência de circulação de autocarros. Até ao momento tinham sido destruídos mais de 50 e as empresas não arriscaram enviar mais veículos para as ruas. Devido a isto, o rodízio municipal foi anulado (sistema de circulação de viaturas, por número de matrícula), permitindo que circulasse quem quisesse, independentemente da matrícula do carro. Depois do almoço, numa entrevista na TV, Marcola, chefe do PCC, diz ao director do DEIC, da polícia, que vai matá-lo, que ele pode entrar na sua delegacia para matá-lo, mas este não pode entrar na prisão e fazer-lhe o mesmo. A tensão atinge então a sua máxima amplitude. Ninguém se sente seguro. Os estabelecimentos comerciais fecham suas portas às 3 e meia da tarde. Os serviços públicos também param; os funcionários são enviados para casa. O metro, que de madrugada tinha sido alvo de explosões, deixa de trabalhar. Neste recolher obrigatório informal a casa, São Paulo assiste ao record máximo de fila de carros: 212 km de fila de carros, às 4 da tarde. 212! O método usado pelo PCC nos seus ataques é, fundamentalmente, através de motoqueiros; muitos deles são devedores de dívidas de droga, e se não fizerem esses ataques, morrem. Entre morrer às mãos dos traficantes ou às balas dos policiais, preferem a última hipótese, pois ela ainda pode representar uma esperança, unto do PCC. Outros ataques, são ataques mais cirúrgicos: um dos comandos se aproxima de um policial em particular e dispara a arma na sua nuca, ou nos seus familiares. Em frente a uma padaria, na zona sul da cidade, um policial, com sua mulher ao lado, ajoelhou-se diante de dois comandos e foi executado. Os bandidos comunicam as suas instruções por telemóvel; a maioria vem de dentro dos presídios. Um telemóvel mata mais que um revólver ou que uma AK.

Às 7 da tarde as ruas estão desertas e, a essa mesma hora, o comandante da polícia militar de São Paulo, Sancler, dá uma conferência de imprensa onde acusa os órgãos de comunicação social de exagerar o que estava a acontecer; acusa também os comerciantes de se precipitarem a fechar os estabelecimentos mais cedo e acusa ainda os responsáveis pelas escolas e faculdades de terem tomado a decisão de enviar os alunos para casa e fecharem as portas. Às 9 da noite a cidade está mergulhada num escuro inimaginável. Um escuro que a cidade de São Paulo desconhecia que tinha dentro dela. Na zona norte da cidade, um condomínio onde vivem vários familiares de policiais começa a ser atacados. A troca de tiros continua, as mortes aumentam Na zona oeste, onde vivo, um homem é baleado neste mesmo instante, não se sabe se policia ou bandido. Numa das zonas mais ricas da cidade, aqui perto, dois bandidos são baleados. São 185 ataques até ao momento. Até ao fim, até ao acordo que o Governo de São Paulo não admite ter feito, serão 200 ataques 200 ataque, mais de 60 autocarros queimados, 52 criminosos mortos, 43 policiais e civis mortos. Os canais de TV mantêm helicópteros a sobrevoar a cidade toda noite, em comunicação com comandantes da polícia, vamos assistindo à noite, a uma imensa noite desconhecida. Um homem, ao fim do dia, de regresso a casa, dizia “estou com medo dessa bandidagem; ninguém sabe quem é quem, essa é que é a verdade”. Num programa de debate, num dos canais, o presidente dos juízes de São Paulo diz que a legislação deve mudar, deve ser mais severa; é a favor da pena de morte. “A nossa democracia não é mais desenvolvida do que a dos EUA.” Por seu lado, o responsável máximo pela investigação policial, Rebouças, diz que “quando o bandido sente que o governo é fraco, fica forte” Oiço o apresentador do programa dizer: FORAM CONVIDADOS PARA O PROGRAMA O SECRETÁRIO DA DEFESA DO GOVERNO DE SÃO PAULO, O GOVERNADOR DE SÃO PAULO E A RESPOSTA FOI “NÃO VAMOS ENVIAR NINGUÉM!” Perante isto, não sei o que dizer disto, sinceramente. O apresentador, profundamente comovido e indignado, diz: ISTO NÃO É CRIME ORGANIZADO É QUADRILHA ORGANIZADA. Julgo excelente esta contra-posição; esta é a diferença entre as cidades de Istambul ou de Hong Kong e a de São Paulo; quadrilha organizada não poderia funcionar num estado organizado, embora crime organizado exista em estados organizados; quadrilha organizada só pode funcionar em estados desorganizados (não identificar estado organizado com país desenvolvido). Não defendo o crime organizado, mas, apesar de tudo ele é um mal menor, menor do que o das quadrilhas organizadas. O crime organizado não afecta o cidadão comum, nem os policiais. O crime organizado é organizado. “Nós temos as leis mais brandas do mundo” , acrescenta o Juiz..Termino com um curioso episódio. No dia das mães, dia 14 de Maio, no fim de semana dos motins, foram liberados 2000 presidiários para visitarem suas mães. Sei que parece piada, mas é verdade. As prisões estão caóticas, a cidade sitiada e 2000 presos vão festejar este dia especial com as mães. Assim que saíram dos estabelecimentos prisionais onde se encontravam, foram directamente ao PCC buscar armas para poderem combater. Dos 39 bandidos mortos, no fim de semana, 15 eram parte desses visitantes de mães. Por conseguinte, 15 só no domingo. Perante tudo isto, entre comedia e tragédia, o problema é que os pensamentos de direita e de esquerda mais radicais começam a emergir, parecendo fazer sentido a que os escuta. Perante tudo isto, entre comedia e tragédia, é muito difícil pensar contrariá-los, quer á direita, quer à esquerda. A segunda-feira de São Paulo.

NOTA: PCC começou na prisão como time de futebol e chamava-se Comando da Capital. Mais tarde, passaram a ser uma organização de defesa dos direitos dos presos e das usas famílias. Por fim, já enquanto quadrilha, adicionaram o Primeiro, tornando-se o PCC.

Paulo José Miranda

São Paulo, 16 de Maio de 2006

25.4.06

Skol Beats || Redondo, rodopiando

A Skol tem algumas raízes portuguesas – foi mão portuguesa que a criou no Brasil. Desde a década de setenta que a Skol é, além do mais, uma marca de referência – as suas campanhas publicitárias ajudam. Há uns anos, a Skol lançou a ideia de que é a única cerveja que desce redondo; as imagens do anúncio mostravam as outras cervejas descendo como um cubo pela garganta dos bebedores; só a Skol se apresentava como uma bebida redondinha, baixando com facilidade até ao estômago. Há uns Verões, há uns anos, a Ambev (o fabricante brasileiro) lançou a Skol Beats, uma cerveja «para público jovem». Eu desconfiei: as coisas «para público jovem» são todas hip-hop e de baixa qualidade ou, pelo menos, de qualidade adulterada pelo «gosto jovem» que é, geralmente, fácil e superficial. O lema da campanha era «a cerveja que desce redondo, rodopiando». Daí que a garrafa fosse, também ela, rodopiante, como se vê pela imagem. A desconfiança transformou-se em surpresa porque a Skol Beats, tirando o ar hip-hop (que nem era fundamental…), era saborosa e, ao contrário do que fazia crer a ideia «para público jovem», não se tratava apenas de uma «cerveja leve». Mantinha uma percentagem alcoólica, digamos, sustentável (5,3%) – e era uma lager, evidentemente, e de «coração frio». Ao bebê-la, depois de a boca a saborear, ficava uma sensação de geladinha bem aceitável. A sua garrafa totalmente transparente, ondulada, com mais aderência à mão, também facilitava. Utilizei várias vezes o radical «fácil»; também não me arrependo. A Skol Beats é uma cerveja fácil de beber, elegante, sem necessidade de muita preparação (como a existência de um salgadinho prévio) e pode beber-se pela garrafa, ao contrário das cervejas «sérias» (isto não é uma vantagem mas apenas uma constatação). O Verão brasileiro, mesmo quando ainda mal começou, também é um factor importante para apreciar convenientemente esta cerveja. Ela deixa um rasto de condensação do ar, um ligeiro travo cítrico e uma paleta de cores muito aceitável enquanto rodopia. Como na campanha publicitária, ela desce redondo, rodopiando. É mesmo verdade.

+MARCA: Skol Beats
Origem: Brasil
Álcool: 5,3%
Avaliação: **

Polar || Vento polar

A viagem entre Porto Alegre e Pelotas é coisa para três horas, mas quando tem na outra ponta do fio um convite para feijoada nesse fim de tarde ou noite e para um churrasquinho no dia seguinte ao final da manhã, o tempo de viagem é amenizado. A meio da viagem, inclusive, há uma paragem para provar croquetes superlativos, coxinhas bem temperadas e até bolinho de aipim que faz inveja. Luís Fernando Veríssimo fez várias viagens para encontrar o «pastel perfeito» e encontrou-o num shopping de Gramado, como conta num dos seus livros. Eu encontro bolinho de aipim em vários lugares e ainda não me decidi pela tabela classificativa. Seja como for, a velha Pelotas aguardava-me depois de percorrer a estrada que acompanha, ao longe, as lagoas originais do Rio Grande do Sul, onde açorianos antiquíssimos pensavam que estava o paraíso na terra. Uma feijoada (mais a promessa de churrasquinho gaúcho no dia seguinte) pede contenção àquela hora. Mesa resplandecente: a comidinha tinha sido preparada num fogão de lenha, temperada e apurada pelo tempo. Mas há aquele tempo de espera que uma feijoada sempre necessita – e que foi ocupado com libações exageradas com a Polar. Bênção dos céus. Tinham-me dito que era uma pilsener (embora a marca tenha acabado de lançar uma Polar Bock, mais forte e substancial), coisa que eu ignorei: fresquíssima, leve o suficiente para evocar a grande noite do Inverno austral, mas sem desmerecer de um final seco e sem o amargor das suas congéneres europeias, a Polar manteve-se até ao fim como companheira adestrada. Bebi demais, confesso. Mas nada me toldou naquela mesa familiar, cheia de riso e de noites antigas. Três vezes me servi de feijoada, umas doze de Polar. Não me arrependi, mas devo ter causado má impressão. No dia seguinte, a tranquilidade do sistema digestivo manteve-se e o churrasquinho foi recebido com mais pilsener. Saí de Pelotas com a impressão de que tinha descoberto uma cerveja muito, mas muito agradável. Sem contar com o resto.

+MARCA: Polar
Origem: Brasil (Rio Grande do Sul)
Álcool: 4,5%
Avaliação: **

Caracu || Rodeo e cervejão

Encontro muitas vezes, nas minhas andanças, cervejas más. Creio que, ao longo de um ano de crónicas, ainda não mencionei nenhuma delas, o que se explica facilmente: com tantas cervejas boas espalhadas pelo atlas, não há razão para começar pelas que caíram no saco das reprovadas. Muitas vezes, são más por causa da água que fornece as suas cubas; ou pela sua alta fermentação; ou pela sua baixa fermentação; ou pelo excesso de levedura que não filtrou; ou porque – vamos lá – me sabe mal. É certo que, para a apreciação da cerveja, não contam apenas as suas características orgânicas, o seu sabor a frio; há outros factores. Só assim se explica que eu goste de algumas cervejas absolutamente medianas, mas que evocam uma paisagem, um destino, uma hora, uma conversa que de alguma maneira está associada ao gesto de abrir uma garrafa gelada (ou não…) e de provar o líquido. Passeando pelo globo, ao acaso, encontram-se revelações e deparamos com desilusões. É a vida.
O caracu é uma raça bovina brasileira. Os criadores de gado locais identificam o caracu com o chamado «gado quatrocentão», trazido pelos portugueses, muito rústico e capaz de esforços brutais. O gado caracu, ao que me explicaram, serve para «carregar carga e puxar arado», não tendo proximidade com a raça nelore, que os carnívoros apreciam devidamente e fazem rodar no prato. Pois em 1899 apareceu uma cerveja com essas características e com esse nome, Caracu: para puxar arado e carregar peso. Há alguns anos (em 1996, e com a ajuda do actor José Wilker, que lhe deu a voz) foi rejuvenescida, mas mantém o essencial do seu aspecto rústico – cerveja escura, amarga, com poeiras de levedura, muito «alimentícia». Tendencialmente stout, portanto, se não fosse uma certa timidez na espessura, o que, aliado à sua dança com o caramelo, lhe empresta um tom doce que seria dispensável. Cai muito bem no copo e não recomendo que se beba directamente da garrafa: convém misturá-la antes de a beber. A sua espuma é volátil (outro defeito) mas muito branquinha. Os brasileiros do interior, sobretudo da zona do centro-oeste e do sudoeste, habituados ao rodeo, ao churrasco e aos duos sertanejos, dizem que ela dá pique. Esperam que compreendam o que isso significa. Não a misturem com pó de guaraná. Ela, por si só, já é pique suficiente. Deus nos livre, se posso exprimir-me assim.

+MARCA: Caracu
Origem: Brasil
Álcool: 5,3
Avaliação: **

Bohemia Weiss || Ela voltou, sensual

Foi uma excepção durante as comemorações da instalação da Cervejaria Bohemia sob o clima fresco e verdejante de Petrópolis, mal se sobe do Rio de Janeiro: nessa altura, e numa série de milhares de garrafas, apareceu no mercado a Bohemia Weiss, uma cerveja turva, de boa e acentuada fermentação, com sabor a trigo. Devemos-lhe algum destaque, uma vez que a tradição cervejeira portuguesa em terras brasileiras não é inócua ou distante: foram mãos portuguesas que criaram a Skol brasileira, e que a impuseram como a primeira cerveja vendida em lata. Hoje, é provavelmente a terceira melhor de todas as loirinhas pilsener e maisntream no mercado do lado de lá do mar. E porquê? Porque há muitas razões e eu voltarei a elas. Pois houve reivindicações e exigências do mercado: e a Bohemia Weiss regressou. Pode encontrar-se na sua garrafa de 550 ml, dose cabal e interessante para apreciadores: a sua cabeleira loira e turva ondula dentro da garrafa e cai em cascata para o copo, deixando na boca um tom amargo (para quem já consumiu a Franziskaner, por exemplo, sabe ao que me refiro) que, em princípio, não seria admissível nos trópicos do Atlântico Sul. Pois é essa surpresa que é importante distinguir: o que parece uma cerveja europeia (e é) acaba por se transformar num sabor muito apetecível. Numa das últimas vezes bebi-a nos arredores de Porto Alegre, em Nova Petrópolis, no restaurante Colina Verde. Meu Deus. O garçom avançou por entre as mesas, segurando a garrafinha de Bohemia Weiss numa das mãos, os copos na outra; serviu um bom pedaço – fez espuma. Agitou em seguida a garrafa, para que não assentassem lá dentro nenhumas matérias flutuantes, e tudo se parecesse com aquele vasto mar de sargaços de que falava Jean Rhys. Depois, completou o copo com aquela espuma turva, especiosa, danada, safada, gostosa. Enfim, cheia de libido. O preço é incomparável. O sabor, esse, não tem preço. É boa.

+MARCA: Bohemia Weiss
Origem: Brasil
Álcool: 5,6
Avaliação: ***

La Brunette || Morena e essas coisas

Os fabricantes da La Brunette, que também são responsáveis por uma ale nada negligenciável (a Schmitt Ale), advertem que o lúpulo utilizado na preparação desta cerveja é importado para o Brasil directamente da Nova Zelândia – esse é um pormenor na sua construção muito cuidadosa. Eu situá-la-ia na zona das dunkel mas a sua espuma volumosa e densa lembra-me quase uma stout. Na verdade, vista à luz, ela aproxima-se das grandes cervejas escuras alemãs ou vienenses (talvez um pouco mais), com reverberações de chocolate quando o brilho do sol incide sobre ela directamente. Chamar a uma cerveja assim La Brunette é um risco substancial que se corre – estamos no Brasil e la brunette deve ser traduzido por morena, e morena deve ser traduzido com o acréscimo colaborante de qualquer outra palavra que designe a sensualidade, a concupiscência, essas coisas. Uma cerveja assim deve ser assinalada: o sabor é acidentalmente adocicado mas, mal se afasta o copo, a boca dá-se conta de ter sido invadida por aquele tom amargo que faz as delícias do bebedor, que gosta de uma espuma prolongada e, quando está para aí virado, de uma boa densidade. Há uma certa harmonia entre a carbonatação moderada e a sensação de suavidade proporcionada pelos açúcares da fermentação e pelo amargor do lúpulo neo-zelandês. Como o Rio Grande do Sul tem Outonos temperados e tépidos, acho uma pena não ser mais fácil encontrá-la nas lojas, uma vez que é a cerveja ideal para sobremesas.

+MARCA: La Brunette
Origem: Brasil
Álcool: 4,5%
Avaliação: ***

Devassa Tropical Lager || Frescura sem frescura

Há cervejas brasileiras que me comovem. A Bohemia, a Cerpa, alguma Kaiser (sobretudo o chope da Kaiser tirado no Liliput, de Porto Alegre, em dois barris comunicantes), alguma Skol. Bebo-as sem pensar no destino da humanidade e sem outra evocação que não seja a de beber uma cerveja longe do compromisso de as beber: a maior parte delas requer uma boa dose de irresponsabilidade e de rapidez. É aquele tipo de cerveja sobre o qual reflectimos o suficiente para a aceitarmos como ela é. Não temos de dizer “oh não, hoje comi salada com demasiada cebola, não vai dar”, ou “tenho de pedir um queijo seco, oloroso, salgado, para acompanhar”. A maior parte delas, sendo apreciável, não deixa um travo amargo carregado de lúpulos de qualidade; tirando a Cerpa e a Bohemia, a maior parte das loiras brasileiras (refiro-me às cervejas, evidentemente) é agradável ao paladar (porque não o fere) e suave na boca (porque não sabe agredir e, na verdade, são bem construídas com muito poucas excepções). A Devassa Tropical Lager é, não duvido, a melhor lager de grande distribuição. Tem aquele tom amargo final, próprio das pilsener. Seca, com um levíssimo sinal da presença de frutos acidulados, a devassa loirinha merece encómios. Em chope, a espuma é mais cremosa, evidentemente, mas em garrafa não perde o essencial da sua coroa consistente e perdurável, protegendo o corpo leve e ondulante de uma musa caminhando pela Gávea em certas horas do entardecer. Podia falar da Lagoa, claro, da Lagoa Rodrigues de Freitas, e uma certa esplanada onde a bebi também, porque as cervejas ou nos fazem sonhar e desaparecer do mundo dos comuns mortais, ou não vale a pena insistir. Ela é devassa. Tem aquela frescura intensa e comovente – mas, para o idioma do Brasil, não tem frescura, se me entendem. É bem feita. Bem torneada.

+MARCA: Devassa Tropical Lager
Origem: Brasil
Álcool: 4,8%
Avaliação: ***

Schmitt Ale || Um brilho natural

Já escrevi, a propósito de outras cervejas construídas a sul do equador, que é um engano pensar que nos “países tropicais” não se encontram cervejas de “grande densidade” ou, pelo menos, distintas do paladar e da textura habitual das lager de cor clara. A Schmitt, originária de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, Brasil, é uma delas – o facto de a região ter recebido uma grande percentagem de imigrantes provenientes do norte e do centro da Europa tem a ver com as tradições das cervejarias artesanais locais, que mantêm padrões de qualidade muito aceitáveis. Esta, existe em três variedades: a Ale, a La Brunette e a Barley Wine (que não provei), e nenhuma delas é recusável sob nenhum ponto de vista. A Schmitt Ale tem uma cor ambarina, alaranjada-escura, com fermentação na própria garrafa (sendo natural que haja depósito em algumas), uma explosão de gás muito aceitável e acolhedora. O aroma é equilibrado, sem marcas de levedura, com um leve apontamento de fruta (limão ou lima), e o sabor é prolongado mas consistente. E uma surpresa: a sua espuma não se dilui imediatamente; dada o seu processo de fermentação, não é crime que se volteie o copo enquanto repousa – logo se forma um levíssimo creme que lhe dá vida e bom aspecto. Aconselho vivamente que se experimente, depois de mergulhar algumas garrafas num balde de gelo, numa tarde de calor.

+MARCA: Schmitt Ale
Origem: Brasil

Álcool: 5%

Avaliação: ***

Devassa Tropical Ale || Malandragem

Surpresa absoluta para mim, carioca algumas vezes por ano. Provei a Devassa Lager, imagine, numa feira do livro e achei graça, como toda a gente, ao slogan escolhido: “Um tesão de cerveja.” Com um objectivo destes, qual a cerveja que passaria despercebida? Nenhuma. A Lager era boa, muito boa, mas só uns dias depois provei a sua Ale, antecedida do aviso: Tropical. Seja, pois, a Tropical Ale: ruivinha, dançarina, maneirinha mas com um corpo que providencia fantasias gloriosas e indizíveis. Carioca de gema, a Devassa Tropical Ale é uma prova de que se pode fazer cerveja ruiva sem ter de evocar, invocar ou recuar até às cervejas de abadia – uma mania europeia e, agora, portuguesa. A Devassa Tropical Ale é genuinamente sensual, cremosa, ligeiramente amanteigada, escorregadia, com uma luminosidade bem conseguida nos seus ares translúcidos, derrapantes. Encorpada, sem dúvida, e com ligeiros tons de açúcar que contrastam com elementos florais, à mistura com maçã verde. A espuma? Decentíssima, esperta, fescenina, levantando voo de cada vez que o copo faz aquela viagem saborosa separando-se da boca e sendo devolvida à mesa do bar. O aroma, a princípio tem marcas de caramelo, que depois se esvai e desaparece para valorizar os lúpulos que lhe dão amargor suficiente. Lembro-me das esplanadas da zona sul do Rio nestas ocasiões – a Devassa é uma cerveja chique, digam o que disserem, sensual; tem aquela marquinha de biquini e de areia de Ipanema em entardeceres do Posto 9, quando se caminha pela Rua Farme de Amoedo em direcção às praças do interior, diante dos morros. Para cerveja carioca é excelente.

+MARCA: Devassa Tropical Ale
Origem: Brasil
Álcool: 4,8%
Avaliação: ***

Eisenbahn Dunkel || Distinção

Não tenho grande explicação para isso, uma vez que não visitei a fábrica da Eisenbahn em Blumenau, mas estas cervejas de Santa Catarina podem orgulhar-se da sua boa qualidade e da clareza com que o bebedor as reconhece num lugar logo acima da média. Isto é ainda mais surpreendente para quem acha que todas as cervejas brasileiras são claras, aparentemente leves e admitindo milho e arroz na sua fermentação. No caso da Eisenbahn Dunkel estamos diante de uma cerveja de tons ruivos escuros à luz do dia, castanhos-escuros no copo, homogénea e equilibrada – mas com um sabor intenso de noz e caramelo, um nadinha inesperado de caju no final, um pouco de baunilha na boca à mistura com café. Quanto à espuma, rescende pouco a caramelo (o que é uma surpresa nas cervejas escuras em geral) e a cor não o desmente, embora desapareça frequentemente, à boa maneira das dunkel originais, nas quais o bebedor não procurava espuma mas intensidade, o que não lhe falta. Como nota de prova suplementar, há indícios de maltes bem tostados, e, volteando a cerveja no copo as suas ondas de espuma profunda dão a impressão de uma vida interior agitada, complexa e agradável de beber. Pessoalmente, tenho-a como uma das boas cervejas do Brasil, de construção muito cuidada e com fiéis que acabam por tornar-se fanáticos. A Eisenbahn, que também produz uma Pale Ale e uma Pilsener fantásticas, está de parabéns e merece distinção.

+MARCA: Eisenbahn Dunkel
Origem: Brasil
Álcool: 4,5%
Avaliação: ***

Baden-Baden Red Ale || Do frio dos trópicos

Não sei se sabem onde fica Campos do Jordão. A cidade orgulha-se de ser a mais europeia das brasileiras; não é verdade mas serve como indicador. O que há em Campos do Jordão, quando nós estamos a suar nas praias, é isto: frio. Mais: hordas de paulistas, sobretudo, disputando todas as moléculas de frio disponíveis no ar. Não é nada que se compare à minha peregrinação a Cambará do Sul, na serra gaúcha, mas para paulista é simpático. Seja. Ora, o que me comove em Campos do Jordão, já que não pode ser o livro de Dinah Silveira de Queiroz sobre aquelas paragens, é a cerveja Baden Baden. Várias: a pilsen, fresca e agradável; a premium bock, aromática e alcoolicamente comovente; a stout dark ale, calórica e cremosa – e a red ale, talvez a minha preferida, ruivinha de se lhe tirar o chapéu (no caso de Campos de Jordão, o gorro e o cachecol). O aroma de lúpulo é transcendental, misturando-se a gomos de frutos apreciáveis, um ligeiro toque de amoras até, com um final amargo e capaz de me obrigar a pedir outra. Como gosto de bitters, daquelas inglesas sensuais sob a capa de rispidez, a red ale de Campos do Jordão, esta Baden Baden, com os seus 9,2% de álcool, pede sempre complemento: um queijinho salgado, um aroma de cozinha. Muito boa.

+MARCA: Baden-Baden Red Ale
Origem: Brasil
Álcool: 9,2%
Avaliação: ****

Eisenbahn Pale Ale || Adolescência

Dizia-me alguém que tinha tentado beber várias cervejas que eu recomendei e que não conseguira reconciliar o seu palato com os vários sabores e os vários líquidos. E não descansou enquanto não regressou à sua imperial. É isso que tem de bom a cerveja, confesso: entre uma pilsener e uma weiss, passando pela lambic ou pela porter, das lager às stout com curvas acentuadas nas melhores bitter, o bebedor muda de continente e de papilas. Eu oscilo muito nessa matéria, tanto prefiro uma daquelas fresquíssimas indian pale ale como me perco agitando as nuvens que circulam dentro de uma garrafa de cerveja de trigo. A variedade não me assusta e estou convencido de que é uma vantagem inegável. Depois, cada um escolhe o sabor mais adequado, o peso mais confortável e a ocasião mais a jeito. A Eisenbahn Pale Ale é uma das boas tentativas (tirando as canadianas e americanas) de fazer boa cerveja europeia no Atlântico sul, mais exactamente em Blumenau, Santa Catarina, Brasil. E, a meu ver, representa uma importante contribuição para definir o que é o gosto médio em matéria de cerveja: olhada à luz do sol, tem reflexos de cobre; observada a cru, directamente, o tom palha é acentuado, loirinha do sul, com aquele pique nostálgico. Já na boca, abre os seus braços oferecendo frutas delicadas, fermentações sublimes, flores de bromélia e azália ou hortênsia. Provei-a há dois anos (juntamente com a dunkel, a pilsen, a kölsch e bock) e fiquei-lhe fiel como a poucas coisas. Imagine-se, portanto. Desta vez, nem deixei que sorrisse – bastou recordar-lhe o aroma, volteando no copo alto, ligeira e libidinosa, mas de saltos rasos, adolescentes, e jaquetinha curta, de umbigo passado pelo sol. Estou a falar da cerveja, naturalmente.

+MARCA: Eisenbahn Pale Ale
Origem: Brasil
Álcool: 4,8%
Avaliação: ***
Eisenbahn Pilsen || Blumenau, Brasil


Provei, esta semana, umas tostas com compota de cebola roxa e creme de queijo, e recomendaria que isso servisse para acompanhar as primeiras cervejas da Primavera. Neste atlas das cervejas do mundo há sempre surpresas, já o tenho dito. Desta vez, apareceu uma excelente cerveja do sul do Brasil – a Eisenbahn, de Blumenau (estado de Santa Catarina) que pode entrar na colecção dos líquidos muito apresentáveis para este ano. Alguns amigos fazem excursões periódicas, atravessando as paisagens do Paraná, descendo pelas suas serras, desde São Paulo, para um fim-de-semana em Blumenau, bebendo a Eisenbahn. Como eu os compreendo. Melhor do que isso, só namorada gaúcha. Quanto à cerveja, é suave e cheia de respirações invulgares, tratando-se de uma experiência sem grandes ambições; tem um fundo de citrino que pode ser exasperante para certos palatos, estranho, mas com uma boa espuma no copo – cristalina e, ao mesmo tempo, sedosa, nada que lembre uma cerveja aguada e sensaborona. Totalmente germânica, na sua tiragem a copo (mencionar o chope brasileiro seria diminuí-la, uma vez que a sua categoria está muito acima). Excelente para beber em todas as ocasiões, a Eisenbahn é quase um mito no mundo das cervejas artesanais brasileiras, citada de Norte a Sul, do Chuí ao Oiapoque.

+MARCA: Eisenbahn Pilsen
Origem: Brasil

Álcool: 4,5%

Avaliação: ****

21.4.06

Angola: reconstrução e reinserção

José Lello (Público de Segunda, 17 de Abril de 2006)

Angola precisa de tempo para fazer as suas reformas e ajustes económicos e sociais e para refrescar a sua normalidade democrática. Por isso, em muitas das opiniões que têm sido expressas, há boas doses de intolerância e de acinte. Angola não é a Noruega. Esteve em guerra durante trinta anos e só há quatro usufrui dos benefícios da paz



A visita do primeiro-ministro José Sócrates a Angola despertou um incontido e interessante torvelinho de emoções, posições e opiniões que se misturam, por vezes, de forma um pouco confusa. Por isso, nem sempre se consegue distinguir bem onde termina uma posição ou opinião e começa a emoção. Nalguns casos, é mesmo visível que quem assim opina tem uma dupla identidade e metade do coração em Portugal e a outra metade em Angola. No fundo, as afinidades entre portugueses e angolanos são tão profundas que uns e outros não resistem, emocionalmente, a meter a foice em seara alheia. Mas não é dessa forma que dois Estados soberanos e que se respeitam se devem relacionar.
Angola tem muitos problemas. Todos sabem isso, mesmo que o conhecimento que deles têm alguns comentadores se baseie apenas naquilo que lêem nos jornais, sem conhecerem, portanto, a realidade concreta angolana, sobretudo a mais recente, que se desenvolveu ao longo destes escassos quatro anos de paz. Mas o que muita imprensa e opinion makers mais gostam de focar são os problemas de corrupção, da falta de democracia e da violação dos direitos humanos. Estão de tal forma obcecados nesse registo que não se percebe bem se estão mesmo interessados em descodificar os contornos reais da actualidade angolana e se estarão verdadeiramente determinados em apoiar a reconstrução nacional, a reinserção social e a normalização política e cívica que a paz tornou possível. Provavelmente há quem esteja interessado em dar uma imagem negativa de Angola, apenas e só porque é o MPLA que está no poder. Essa é uma postura redutoramente partidária e, por isso, pouco isenta.
Essa é, assim, uma imagem distorcida e injusta de Angola, que precisa de tempo para fazer as suas reformas e ajustes económicos e sociais e para refrescar a sua normalidade democrática. Por isso, em muitas das opiniões que têm sido expressas, há boas doses de intolerância e de acinte. Angola não é a Noruega. Esteve em guerra durante trinta anos e só há quatro usufrui dos benefícios da paz. O país ainda vive o drama sem fim das sequelas da guerra, cujos custos se estimam em 20 biliões de dólares. Permanece o drama das vidas destruídas e desmembradas, das populações deslocadas, de uma administração que desapareceu em muitas regiões, onde as infra-estruturas ficaram completamente arrasadas e o Estado se quedou globalmente desestruturado. Angola não pode, nenhum país o consegue, sair de uma guerra tão dramática e deter desde logo padrões de democracia equivalentes aos modelos europeus mais avançados. Luanda, por causa dos deslocados, tem hoje quatro milhões de habitantes, muitos deles amontoados nos musseques, quando as estruturas da cidade não suportariam, porventura, mais de meio milhão de pessoas. É o caos de um lado e o deserto nas regiões abandonadas do outro. Em muitas dessas regiões não se pode plantar a terra nem desenvolver actividades económicas por causa dos milhões de minas que aí foram abandonadas. Só o esforço de desminar o país é algo de gigantesco em termos humanos e financeiros.
Angola precisa da ajuda de todos para se desenvolver. O resto, previsivelmente, virá por arrastamento. E, por razões de afinidade histórica e cultural, quer, sobretudo, a participação portuguesa nesse projecto grandioso. Se conseguir o desenvolvimento a que aspira, estarão criadas as condições para se erguerem as devidas estruturas económicas, sociais e democráticas, o que, convenhamos, nem sempre é fácil em África.
Se uma coisa me impressionou durante a minha recente deslocação a Luanda como secretário para as Relações Internacionais do PS para contactos com diversos altos dirigentes do MPLA, foi o facto de ter constatado um empenho sério e determinado da parte dos meus interlocutores em promover o desenvolvimento económico e social do país e em consolidar as suas instituições democráticas, envolvendo todos os angolanos no difícil processo de reconciliação nacional. Além disso, o país tem feito um grande esforço de estabilização económica e financeira e nisso tem obtido bons resultados. São tudo sinais de uma vontade de mudança que não podem ser ignorados.
Por outro lado, seria interessante que quem expende tão taxativas opiniões sobre a situação política angolana se interrogasse sobre a quem imputar responsabilidades pelo facto de o recente processo de reforma legislativa e constitucional que deveria conduzir a eleições não ter avançado em tempo útil. Dei-me conta de que, ao nível parlamentar, em Luanda se pretendeu gerar amplos consensos que credibilizassem o processo. Pareceu-me, além disso, que o Governo procura estabelecer um relacionamento aberto com o Parlamento angolano, onde existe um debate político interessante e onde presta contas aos partidos políticos que nele têm assento, situação quase nunca referida nas catilinárias militantes.
Outro dos aspectos que revelaram a parcialidade de quem jamais consegue distanciar-se de uma postura de interferência abusiva nas questões internas de Angola foi essa tentativa de reduzir a viagem do primeiro-ministro José Sócrates ao mero interesse económico. Até se poderia perguntar se haverá mal nisso. Sobretudo quando se esquece que o Governo português tem uma cooperação intensa em muitos outros domínios, de onde sobressaem a educação e a saúde, nos quais ali existem necessidades dramáticas. Isto já sem contar com o facto de o ensino também ter estado presente na deslocação do primeiro-ministro José Sócrates.
É preciso bom senso nesta floresta opinativa e, por vezes, nas cortinas de fumo que se pretendem lançar sobre Angola, que só prejudicam desnecessariamente a percepção e as relações entre os dois países. Se Portugal não faz juízos de valor em relação a outros países, porque simplesmente não tem de se intrometer nos assuntos internos de Estados soberanos, por que razão havia de o fazer em relação a Angola? Ambos os países só têm de se esforçar para manter um bom nível de relacionamento e resolver os problemas de percurso que possam surgir. Portugal e Angola evidenciam a vontade expressa dos seus para aprofundarem os seus laços de amizade e de cooperação, de forma franca e sem complexos nem parti-pris. Ajudando-se mutuamente, porque ambos os países têm muito a partilhar um com o outro. secretário para as Relações Internacionais do PS