4.4.07

A poesia é um paraíso
apagado por um trovão




Este nacionalista em matéria vinícola ("nacionalis­ta do Douro", sublinha) é bem conhecido do grande público. Escritor e jornalista, hoje também director da Casa Fernando Pessoa, nasceu em Vila Nova de Foz Côa em 1962 e viveu na aldeia do Pocinho ("o centro do mundo") até ir para Lisboa, onde se licenciou em Estudos Portugueses. De­pois, foi professor de Linguística. Depois, foi (é) jornalista, poeta, romancista, portista, bloguista, etc. e tal. No seu livro de poemas «As Imagens» (1987), lê-se: "escrevo para não morrer roxo de frio dentro / do coração, de frente para a luz do ouro, barulho / de passos na interminável agonia da luz". Vinte anos depois, não sabe bem para que serve a poesia, mas gosta dela. De poesia e de gastrono­mia, de viagens e de romances. Francisco José Viegas, que em tempos viveu entre Portugal e o Bra­sil, está hoje mais longe de Manaus e mais perto de nós. No passado dia 10, encontrámo-lo num palco da Casa das Artes de Famalicão («Noites de Escritura Pública»). Pedimos-lhe que falasse con­nosco. Falou e ousou. Pedimos-lhe uma sugestão de leitura. Deixou-nos «A Grande Arte», de Rubem Fonseca ("É o romance mais perfeito dos últimos 20 anos"). Mas foi com uma passagem de um li­vro seu, «Longe de Manaus», que quis começar a sessão. Com esta frase: "Talvez as pessoas quei­ram, Isaltino, um pouco de ordem na vida".

Prefere perguntar ou responder?
Depende... Mas hoje vou aproveitar! [Risos] Acho que pergun­tar é uma actividade difícil. Quando estou a fazer entrevistas, po­nho-me sempre no papel de quem está em casa, tal como quando faço um programa de rádio, penso em quem está a ouvir. Imagi­no alguém que vai ao volante do carro, de noite. O que é que eu gostava de ouvir? Está a ser interessante a conversa? O tom é agra­dável? Ajuda-me a conduzir? Ajuda-me a passar o tempo? Eu de­testo as entrevistas tipo combate de boxe, aquelas em que o entrevistador tem que fazer valer o seu ponto, como se o entrevistador tivesse uni ponto de vista necessariamente para contrapor ao do entrevistado. Quando as pessoas vêem um programa, querem é saber o que o entrevistado quer dizer! Devemos procurar valori­zar o entrevistado. É evidente que todos nós temos truques e se, ao fim de dez minutos, antipatizarmos com ele, sabemos armadilhar a conversa toda, e sabemos mostrar o pior... Temos que ser honestos. Se convidamos uma pessoa, então é porque ela tem alguma coisa a dizer. Essa entrevista vive do confronto, mas não necessariamente da valorização do entrevistador. Ë como se o jor­nalista fosse a estrela. A estrela é o convidado.

Costuma estar do lado de cá, do lado do entrevistador. Hoje, está desse lado... O que é que mais lhe interessa saber sobre as pessoas?
Se estiver a entrevistar a Meg Ryan, quero saber se ela quer jantar comigo! [Risos] Se estou a entrevistar um autor, quero sa­ber qual é o processo de criação, o que é que ele realmente quis com aquele livro, se está contente com o livro, e obviamente que procuro desvendar alguns segredos para os leitores. Mas sem me tornar demasiado cúmplice. Lembro-me de ter feito entrevistas perfeitamente desonestas a pessoas que eu adorava que tinham escrito livros magníficos. Eu estava realmente do lado do autor. Às vezes acontece: o entusiasmo toma conta de nós. Interessam-me muitas coisas nas pessoas: a maneira como vivem, a maneira como trabalham, a maneira como escrevem, no caso. Interessa-me saber o que é que elas têm a dizer. Porque toda a gente tem qualquer coisa a dizer. Pode não ser novo, mas alguma coisa é, seguramente.


DO POCINHO AO BRASIL

É verdade que viveu na última paragem ferroviária do Douro?
Agora é a última paragem: o Pocinho. O Pocinho ainda é hoje, para mim, o centro do mundo. Era onde viviam os meus avós, a minha família, e à medida que foram morrendo voltou a ser o centro do mundo - uma espécie de raiz. O Pocinho é um bocadi­nho a metáfora daquela parte do interior de Portugal que foi sen­do abandonada, abandono contra o qual não se pode fazer grande coisa. As pessoas vão saindo, vão procurando melhores condi­ções de vida noutros lados, mas lembro-me de o Pocinho ser uma espécie de oásis no meio daquilo. É preciso dizer que o Pocinho não é uma aldeia qualquer. O Pocinho é a aldeia que produz o Barca Velha! [Risos do público] É a aldeia que produz o Esteva, o Vale Meão, o Meandro - são os melhores vinhos do Douro, que estão aqui. Eu não venho de um lugar qualquer! [Risos] Aos 15 anos, quando descobri que o meu avô, aos fins-de-semana, ia tra­balhar na Quinta do Vale Meão, deixei de dizer que o meu avô trabalhava na Quinta do Vale Meão. Dizia: o meu avô trabalha na Quinta onde fazem o Barca Velha! Houve logo um upgrade. Ain­da por cima, o melhor Barca Velha que eu conheço é o do meu ano! Em matéria vinícola, sou nacionalista. Nacionalista do Dou­ro! Já não acho graça aos vinhos que passam do Sado para o Sul.


O Douro é, portanto, central.
Sim. Não sei se conhecem o Pocinho... É que um lado da al­deia pertence ao distrito de Bragança e o outro pertence ao distri­to da Guarda. E as pessoas perguntam: mas tu és do distrito da Guarda ou do distrito de Bragança? Eu sou do Douro, que passa ao meio. És da Beira ou de Trás-os-Montes? Sou da Região De­marcada do Douro. Este seria o melhor processo de fazer a Regionalização em Portugal: Região Demarcada do Dão, do Douro, dos Vinhos Verdes, etc. Era ali que começava a linha de Sabor, que era uma linha lindíssima que tinha dois tipos de composição: o comboio normal e a auto-motora. Quando chegava a determi­nada estação, o Sr. Rodrigues, que era um dos condutores da auto­motora, parava para comer cerejas. Passava-se o mesmo na cidade onde eu vivi, Chaves. Quando chegava a Carrazede, nós saía­mos e íamos a pé cerca de um km e voltávamos a apanhar o com­boio mais à frente. A minha vida esteve sempre ligada aos com­boios – um dos livros que escrevi era, aliás, sobre comboios. O meu avô era ferroviário (era operário metalúrgico da CP) e nunca disse coisas como "o comboio para o Porto". O meu avô dizia: "o 6013" ("Apanhas o 6013, que chega às 18h45, na linha 42")- Che­guei a fazer colecção de horários de comboios. Às vezes, aos 16 ou 17 anos, pegava num horário e começava a viajar... Tenho um gran­de fascínio por comboios, porque se encostarmos um dedo a um carril na Estação de Campanhã, caso não saibam, do outro lado está Vladivostok.

Estamos ligados.
Sim. Para mim era espantoso pensar que estávamos ligados.

Foi isso que influenciou também o viajante? É daí que lhe vem a ânsia de viajar?
Sim: os comboios que partiam, os comboios que chegavam... Foi assim que comecei por viajar, e tenho um recorde de 22 noi­tes seguidas passadas num comboio. Fiz seis anos seguidos de InterRail – um vício. Atravessei a Europa a dormir nos comboios.

Do comboio para o avião... Julgo tê-lo ouvido dizer um dia que vivia meio ano em Portugal e meio ano no Brasil.
Vivi assim cerca de dois anos e meio: três meses de Brasil e três semanas de Portugal. Foram os anos que levaram à escrita de «Longe de Manaus» – por isso é que ele é escrito metade em português de Portugal e metade em português do Brasil, e também é produto de uma relação apaixonada pelo Brasil. As pessoas dizi­am coisas absurdas. Como vivia no Brasil, achavam que era por­que trabalhava no Consulado, ou na Embaixada. Não. Mas então o que é que estás lá a fazer?, perguntavam. Estou a trabalhar, por mim. Tem muito a ver com a pequenez do funcionalismo cultu­ral português pensar que não se pode arriscar. Eu arrisquei. Quis escrever, mantive o meu trabalho conforme pude, e foram dois anos óptimos.

O que é que nasceu primeiro: a paixão pelas letras do Brasil, pela cultura do lugar, ou pelo país, pelo lugar geográfico?
Eu já conhecia o Brasil, já tinha feito uma série de televisão sobre o Brasil. Quando fui para lá viver, já só me faltava conhecer um Estado brasileiro. Foi uma experiência fantástica. O Brasil é um país irritante. Tem todos os defeitos, mas tem todas as quali­dades – que nos envergonham de pensar mal do Brasil. E eu não acredito em paraísos, ou em vidas fáceis...

Também é um apaixonado pela literatura brasileira.
Muito. Aliás, costumo dizer que a literatura brasileira é infini­tamente superior à portuguesa. A frase não é minha, é do poeta angolano Mário António, que foi meu professor de Literatura Brasileira. Há um diálogo interrompido entre a literatura portu­guesa e a brasileira, por um lado pela arrogância de muitos escri­tores portugueses, e por outro lado pela arrogância do sentimen­to político brasileiro em relação a Portugal. O facto é que o ro­mance brasileiro tem hoje uma criatividade, uma intensidade de tal forma, que se me perguntassem quais são os autores de língua portuguesa que eu mais gosto de ler, em dez, haveria sete brasileiros. Sem qualquer preconceito anti-português. Tem uma vantagem sobre grande parte da ficção portuguesa: é que não é pirosa.

A ficção portuguesa é pirosa?
Grande parte é. É muito fácil, muito dada a sentimentos, a estados de alma. É pouco dada a trabalho de investigação sério, que tem que haver na ficção, apesar de tudo. Há um filão da literatura brasileira – que é o que vai de Machado de Assis até Ru­bem Fonseca, onde há muito trabalho; e há um outro lado (que é o do Jorge Amado, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa) que é muito mais nacionalista. Nós tivemos um predomínio muito grande da literatura brasileira de feição nordestina, folclórica (so­bretudo de Jorge Amado) e com isso perdemos a oportunidade de conhecer outros autores brasileiros.

DO VIAJANTE AO ROMANCISTA

Em 2002, publicou o romance «Lourenço Marques» e, em 2005, «Longe de Manaus» (que recebeu o Grande Prémio Ro­mance da APE). As suas viagens (reais ou literárias) são tam­bém viagens na língua portuguesa? Isto porque os lugares a que alude nestes romances são também lugares da língua portuguesa...
Eu costumo dizer que não sou patriota, no sentido em que não acho que uma coisa é boa só por ser portuguesa. Mas fasci­nam-me muito os portugueses, sobretudo os portugueses que estão fora, e fascina-me muito o passado colonial de Portugal. A sensação da perda do Império foi o que me fascinou no «Lourenço Marques» e no «Longe de Manaus», que cruza Angola, a Guiné, o Brasil e Portugal. O que me fascinou foi essa sensação de perda. Para fazer o «Lourenço Marques», entrevistei cerca de 200 pessoas que tinham vivido em África. Eu nunca vivi em Áfri­ca, mas tenho um amigo que nasceu em Lou­renço Marques e que me pediu, da primeira vez que fui a Moçambique, que fotografasse umas ruas, urnas pastelarias, umas igrejas... Eu fui fotografar, mas tinha contratado um motorista para me levar a conhecer a cidade. Disse-lhe: Eu que­ria ir a estes lugares. E ele perguntou: O Sr. quer conhecer Maputo? Sim, quero conhecer Maputo. Ele olhou para a lista de lugares e disse: Não, o Sr. Viegas não quer conhecer Maputo... o Sr. Viegas quer conhecer Lourenço Marques.

Esses lugares já não existiam, ou não existi­am com esses nomes.
Exactamente. É preciso dizer que eu tenho uma grande admiração pelos retornados. O Fer­nando Dacosta, na altura, muito contra a corrente e muito contra o tom politicamente mais na moda, publicou uma reportagem em que dizia: "Os retornados estão a mudar Portugal". E é ver­dade. Um dos aspectos mais comoventes à dis­tância, independentemente daquilo que houve de desgraça e de infelicidade e de amargura e de ressentimento, foi a capacidade que Portugal teve de, mal ou bem, absorver cerca de 750 mil pes­soas em três meses. Recebeu-as mal, obviamen­te, mas essas pessoas transformaram a maneira de ser de Portugal. O meu pai também tinha vivido em África, e tinha muitas histórias de Lu­anda, e eu fiquei sempre muito desperto para esse mundo. Quando cheguei a Lourenço Mar­ques, disse: Eu tenho que fazer uma história aqui. Interessam-me esses portugueses que es­tão fora. Um dia, encontrei em Timor um grupo de portugueses que se juntavam para falar mal de Portugal. Eu dizia-lhes: "Mas então vocês es­tão 324 horas do país... Quando voltarem, como é que vai ser?" Eles respondiam: "Nós não voltamos". É uma paixão desmedida por um país que não podia ser de outra maneira.

O Francisco José Viegas também é apaixona­do por Portugal?
Gosto muito do Minho, dos vinhos, do mar, do Pocinho... Eu sou português. Gosto moderadamente de Portugal, como qualquer portugu­ês. Não há nenhum português que ame desesperadamente Portugal. Há sempre a frase: isto só podia acontecer em Portugal!

Voltemos à Literatura, porque ainda temos que chegar à poesia. O Francisco José Vie­gas também é cultor de um género pouco divulgado em Portugal: o romance policial. Como é que surge um romance policial? Pesquisa, investigação, curiosidade?
Surge-me por dois motivos: em primeiro lu­gar, porque sou preguiçoso, no sentido lato - ou seja, existe um modelo, que podemos seguir. Qual é o modelo? Crime, cadáver, investigação, maus e bons. Se está aqui o modelo, para que é que havemos de procurar outro? Não é por ser mais fácil. É porque toda a nossa vida cabe nes­se modelo. Toda a nossa vida. Quando dizemos homicídio, podemos dizer desaparecimento, medo, mistério, desconhecimento... Não é por eu matar quatro ou cinco pessoas em cada livro que vou ser preso. O crime, nos romances poli­ciais, vale como elemento de distúrbio, numa sociedade normalizada. Infelizmente, é cada vez menos literário e cada vez mais real... Eu costu­mo dizer: comprem os meus livros, que por ape­nas 14 euros não têm um nem dois nem três, mas quatro cadáveres [Risos]. Ou seja, sai mais ou menos a dois euros por cadáver, o que é bara­to, hoje em dia. Qualquer coisa em nós nos puxa para situações limite. Por outro lado, toda a literatura é, em certa medida, devedora do roman­ce policial. Ou seja, nas maiores crises da litera­tura a partir do séc. XIX (o romance é uma for­ma burguesa do séc. XIX), quando o romance deixava de ter história, foi o romance policial que disse: Não. O romance tem que ter princípio, meio e fim. Embora possa não se começar pelo princípio. A ordem é arbitrária, mas tem que existir uma ordem na história para que exista, provavelmente, uma ordem no mundo. O ro­mance policial, como forma literária burguesa, ordena o mundo. As pessoas querem uma or­dem na vida, querem uma explicação. Não há maus e bons. O meu detective é óptimo para defender os criminosos...

O seu detective, o Jaime Ramos, que já atra­vessou tantos dos seus livros, é de alguma forma um alter-ego seu?
[Risos] Não. É uma pessoa que eu conheço. Gosto dele porque tem uma biografia própria. Isto é um pouco anedótico, mas eu tenho extrac­tos de conta bancária do Jaime Ramos. Imagino como é o guarda-roupa dele. Tenho fotografias da casa dele, que passam de livro para livro. São personagens com uma certa vida, e por isso ten­to criar no livro uma vida com uma certa coerência, que provavelmente não existe noutro lado. Acho que toda a literatura (o José Cardoso Pires, aliás, dizia isso) é em certa medida polici­al, porque toda a literatura trata da morte, do mistério, do desaparecimento e da busca.

DA POESIA À CASA FERNANDO PESSOA

Já falámos do entrevistador, do viajante, do romancista. Cheguemos agora à poesia. Na antologia da sua poesia «Metade da Vida», confessa que "é avesso a falar de poesia, por entender que não se trata de literatura". E acrescenta: "poesia é sempre outra coisa, fica sempre mais além. O verso ideal, por isso, não devia escrever-se". Por que é que a poe­sia não se trata de literatura?
Há uma circulação dos objectos literários -dos livros - que não tem a ver com a poesia no seu estado puro. Não tem a ver com a imagina­ção da poesia no estado puro. É como se dissés­semos que a música no seu estado puro é o si­lêncio, que a nota perfeita, numa peça, é o silên­cio. E o verso às vezes é demais para explicar um lugar, uma palavra. Eu penso que a poesia - é essa a concepção que eu tenho - não releva da literatura. Releva sempre muito mais do discur­so religioso, muito mais do encontro com o ima­terial. A poesia dialoga com o invisível. A litera­tura dialoga com aquilo que pode tornar-se re­velado, visível. Por isso é que os romances são adaptados a filmes. Por isso é que a poesia não é adaptável a nada. Por isso é que eu nem sequer sei falar de poesia. Admiro imenso os críticos de poesia. Eles conseguem falar de poesia durante horas! Eu consigo ler um poema, gostar de um poema, e calar-me. Percebe? Está lá.

Aquilo que procura na poesia é diferente da­quilo que procura na ficção?
Quando eu era adolescente, procurava sedu­zir a colega do lado. Era muito mais difícil escre­ver-lhe um romance... Por isso é que Portugal é um país de poetas. [Risos] Quero conquistar a menina aqui do lado, por isso vou escrever-lhe «Os Maias»... Não pode ser! Vou seduzir esta pequena e vou escrever-lhe um soneto. Nessa altura, a poesia tinha uma utilidade (isto é um bocadinho caricatural, obviamente). Hoje, para mim, não tem utilidade nenhuma. Não o faço por razão nenhuma. Faço-o porque tenho de fazer.

Porque precisa?
Sim. Estou ali, há aquela paisagem, aquele instante, aquele relâmpago... Há um livro de um poeta cabo-verdiano de que eu gosto muito, que é o José Luís Tavares, que tem um título fantástico: «Paraíso Apagado por um Trovão». Para mim, a poesia é um paraíso apagado por um trovão. Há ali um relâmpago qualquer que eu não sei expli­car... Há coisas que as línguas não conseguem dizer.

O Francisco José Viegas assumiu recentemen­te o cargo de Director da Casa Fernando Pes­soa. Quais são os planos fundamentais para a casa do poeta?
Os objectivos para a Casa Fernando Pessoa são cumprir o orçamento. Este é o ponto um. Pon­to dois? Fugir ao orçamento. [Risos] Ponto três: conseguir escapar a salvo dessa fuga. Quem está a gerir equipamentos desta natureza sente sem­pre essa limitação do orçamento, mas acho que fizemos na Casa Fernando Pessoa, ao longo des­te ano, uma experiência que é um pouco única: com um orçamento diminuto, montámos em 15 dias a programação de um ano, e acho que correu de uma maneira francamente aceitável, para uma casa que não tinha programação. A Casa Fernan­do Pessoa não é a casa do Fernando Pessoa. É urna casa da poesia que existe em nome da herança de Fernando Pessoa. Obviamente que temos lá es­pólio de Pessoa – os óculos, a cigarreira, o Bilhete de Identidade, e essas coisas magníficas; temos a biblioteca pessoal; temos a célebre cómoda onde ele escrevia; mas é sobretudo um lugar de encon­tro de poetas, de escritores, de gente que gosta de livros, e portanto a função é essa. Neste ano, além de continuarmos este programa, vamos lançar fi­nalmente a «Tabacaria», que irá chamar-se «Revista de Poesia e Literatura», e vamos organizar uma grande coisa que se chama «Lisboa, cidade do Livro» (podia ser «Famalicão, cidade do Livro», mas é em Lisboa) que ocupará os 30 dias antes da Feira do livro. Há também um trabalho de coo­peração... Provavelmente, daqui a uns anos, teremos uma Casa Fernando Pessoa em São Paulo, no Brasil. Estive na inauguração do Museu da Lín­gua Portuguesa (em São Paulo), e Fernando Pes­soa é o poeta mais citado ao longo de todo o mu­seu, o que diz bem do impacto do Pessoa no Bra­sil. Eles conseguiram livrar-se um bocadinho des­se ressentimento pós-colonial em relação à lín­gua portuguesa. É muito bonito.

Entrevista de Filipa Leal com fotografias de Pedro Tavares
in “das Artes e das Letras” – suplemento distribuído com o jornal “O Primeiro de Janeiro”
– 22 Janeiro 2007

1.2.07

Fernando Assis Pacheco, uma publicação póstuma



Joaquim Manuel Magalhães

Actual, Expresso, 3 de Julho de 2004




Não consigo chamar Respiração Assistida a este volume de poesias (Assírio & Alvim, Lisboa, 2003) porque não foi o autor que lhe chamou assim. Isso foi o título que deu a um poema, que nem sequer saberemos nunca se viria a incluir juntamente com estes poemas ou teria organizado de outra maneira. Trata-se de uma hipótese de título somente. Eu é que sou sempre muito desconfiado de professores que metem decisões suas em seara alheia. No que talvez nem tenha razão. O próprio Assis Pacheco autoriza na sua prática este processo logo no seu primeiro livro, cujo título, Cuidar dos Vivos, é pedido ao título de um poema que o integra. Mas uma coisa é um autor tomar uma decisão dessas, outra coisa é alguém fazê-lo por ele postumamente. Não suponho que seja boa política editorial, parece uma maneira oitocentista. Algo de mais descritivo operaria melhor, suponho. De qualquer forma, o livro já deve ficar para sempre com este título e a mim ninguém tirará a vontade de não lhe chamar assim. Será sempre um conjunto de poemas sem ordem verdadeiramente fixada, o autor não saberemos como o viria a fazer; sem título, o autor nunca lho atribuiu. É um dos casos de interferências exteriores de que a literatura está cheia. Arranjei um estratagema para o ler: fotocopiei-o, meti-o numa capa e ele vai tomando os caminhos informes que eram maioritariamente os seus. Foi um belo conjunto de poemas que o Fernando escreveu, sem ser um livro que o Fernando dispôs, com a meticulosidade com que sempre planeava a sua obra, sempre a fingir que não lhe ligava nenhuma, que não tinha importância de maior, grande mentira de pessoa que gostava mais de falar dos e com os outros do que se pusessem a falar-lhe de si. Mas, dentro dele, a importância do que fazia com bastante fulgor se lhe assegurava.

É bom sabermos a sua insistência em chamar “mestre” a Nicanor Parra. Não que essa designação o colocasse a si mesmo como discípulo do poeta chileno. Mas por mostrar obviamente os caminhos sem fato de luzes que fazia que a sua poesia tomasse. Como referência para os leitores da obra de Assis Pacheco, Parra inclui-se com ele no número dos poetas, bem raros para os quais a importância da poesia não depende do seu empolamento, mas numa distância do estentório por parte do autor, que não quer tornar-se um tribuno de si mesmo, por muito que saiba quanto é ele que está envolvido naquelas palavras que, depois, para ver o que acontece, parece dependurar como um trapo à distância como se de coisa mal cheirosa se tratasse. Sempre como se o valor da poesia estivesse noutro lugar que no da poesia ela mesma; ou como se a presença do seu autor só ganhasse autenticidade se este se distanciasse para silêncios supostamente indiferentes. Paremos para ouvir também Assis Pacheco enquanto ouvimos Parra:



TUDO



É POESIA

menos a poesia



ou este outro esclarecedor poema:



A

POESIA

MORRERÁ

SE NÃO

A OFENDERMOS





temos

que

possuí-la

e humilhá-la em público

depois se verá

o que se faz





Mesmo neste livro atravessado de mais nostalgia ainda do que todos os seus livros (onde o que ganha sentido desta palavra assume liderança de escrita múltiplas vezes), um poema como “Bah!” é significativo deste excurso comparativo.

De todos os modos, porém, neste volume, onde a mágoa final se desenha (e ter conseguido falar dela com tão elaborada simplicidade linguística é um feito de coragem psíquica digno de ser retido), ela é usada ainda como um dos temas de quotidiano, de coloquialidade, de diálogo íntimo consigo mesmo que se tornou marca distintiva dos fortíssimos versos que sempre escreveu. Embora talvez seja conveniente recordar que neste livro ocorrem alguns poemas anteriores a um susto mais imediato da morte – os que precedem 93 – em que esta, ou similar significação, já ganha um fundo tematizador, como acontece com o poema “, R, 1992”.

Esta inicial indica um dos nomes centrais a que o livro a fazer pretendia enviar: Rosário, a sua mulher; e nela, sempre envolvidos, os seis filhos de ambos. É poderosa a presença da família (e de alguns amigos que o poeta deixa tomar quase parte dela). É neste campo de familiaridade, de uso coloquial dentro da família, que naturalmente ocorrem vocábulos que podem parecer a alguns como palavrão e que mais não eram senão o modo naturalíssimo e sem qualquer malícia como naquela casa, por exemplo, se tratava um homem no feminino, uma criança por uma alcunha disparatada e terna, um cão como gente dada a apetites. Era o amor aquilo que se sentia circular, o grito seguido de perdão, a ternura dada numa passagem rápida mas marcante; essa casa cheia de gente amena até em qualquer sofrimento, de confusos aparecimentos e desaparecimentos de crianças, umas mais caladas, outras mais ternas, outras mais inquiridoras. No centro, a inquieta alegria dos pais, por momentos a nostalgia que pelo Fernando passava e depois a música do jazz, dos ritmos tropicais, um envolvimento humano da figura de um poeta que era um caos felicíssimo de presenciar. Neste domínio comum se deve ler o primeiro dos nove sonetos: ainda que “Aretino” venha mencionado nesse soneto, creio que vem como eco literário que dava jeito numa rima, pois as palavras usadas para referir a sexualidade que corre entre marido e mulher Tem todo o carácter da comum linguagem do amor entre seres para quem elas não tinham outro peso senão o do habitual. Nem sequer são palavras mal soantes ou grosseiras, são o que pode entre muita gente florir na voz do amor. Nada de inusitado ou até de libertino encontro nesse soneto, um dos grandes poemas do amor comum heterossexual e marital que a poesia do sec. XX nos deu. Mesma na “vascular emergência transportado // com terror de sirenes por dois homens”, esse selo de morte em que medita, “não pensa noutra coisa: o seu enterro”, o homem escreve no meio da presença amada com a doçura e a rudeza do prazer numa sequência em que se sabe unido à sua mulher, “camaradas leais do bem foder”.

Creio que a leitura que melhor compreendeu a peculiar qualidade da poesia de Fernando Assis Pacheco a fez José Carlos de Vasconcelos num texto introdutório a Retratos Falados de F.A.P., ASA, Porto, 2001: “Assis: A Arte do Jornalismo”. De facto, se informar, interpretar e opinar são características desse género que o jornalismo é, esta tripla situação não pode, para que o jornalista seja completo. fechar-se no informativo de uma notícia – hoje em dia mais especificamente tarefa da rapidez das televisões – deve inscrever-se numa consciência do seu jornal e manifestar o propósito, que nunca deveria ser manipulador, de tentar a inteligência e a decisão dos leitores. A tudo isto deve juntar-se uma característica de estilo clara, concisa, de registo coloquial na selecção do léxico, o qual nunca deverá cair em qualquer incorrecção, não apenas sintáctica, mas também, pois a sintaxe envolve profundamente o sentido, ética. Parece que estou a falar da poesia do Fernando. E estou. E foi isso que Vasconcelos compreendeu ao dizer: “ A sua poesia tem um ritmo, um tom narrativo e/ou coloquial, uma sábia utilização de adjectivos e advérbios, uma luminosa e dificílima simplicidade, comuns à escrita da (sua) “profissão dominante” (o jornalismo), como lhe chamou numa plaquete de 1982. Parece-me isto visível desde sempre. Isto é, e paradoxalmente, desde antes ainda de o Assis militar nessa “profissão dominante”. O que significa ter sido, primeiro, a sua escrita poética a influenciar a jornalística e, depois, a escrita jornalística a influenciar a poética”.

A influência a partir do poético deve-se, para lá do génio pessoal, à sua predilecção por ( e conhecimento de) a geração inglesa de Auden, Spender ou Isherwood, todos seguidores de actividades de repórter ao mesmo tempo que de escritor e todos profundamente ligados à intenção de uma escrita modernista tal como a defendeu Pound entre o movimento imagista e vorticista. A influência a partir do jornalismo sente-se na rapidez com que define situações, na atenção fixada ao pormenor humano, ao distanciamento com que descreve – mesmo que imerso no pior pesadelo – a situação que antevê como proximamente sua, nesse outro enorme poema seu que é “Respiração Assistida”. Um dos momentos cimeiros dessa situação é constituído pela série Desversos, continuada neste volume com quatro poemas mais.

Sempre encontrei no Fernando um inesquecível homem de saber. Também neste esboço final de livro o vamos encontrar, dentro do diálogo com a morte e com a família que tão intensamente era a sua limalha de ferro e de amor, dialogando com os processos de poetas amados, como Jaime Gil de Biedma. “Último Tesão” e “Um Tal Fernando Assis Pacheco” não desistem de enfrentar “Contra Jaime Gil de Biedma” e “Después de la Muerte de Jaime Gil de Biedma”. Ainda que no Fernando, ao contrário do espanhol, o pathos não fosse um artifício, mas o desafio mais radical com que podemos confrontar-nos na solidão de nós próprios.
Um Tal Fernando Assis Pacheco
Jornal Público, Sábado, 21 de Fevereiro de 2004

Fernando Pinto do Amaral

Título - Respiração Assistida
Autor - Fernando Assis Pacheco
Posfácio - Manuel Gusmão
Editora - Assírio & Alvim
88 págs., ¤ 12,00


Uma das mais persistentes confusões quando se fala de poesia tem nascido do equívoco com que por vezes alguns leitores identificam uma suposta "linguagem poética", superiorizando-a perante o que seria a linguagem comum - como se a poesia pudesse sempre definir-se através de uma sobrecarga retórica e metafórica em relação à restante linguagem, cavando assim uma distância que inapelavelmente as separasse.

Vem isto a propósito de Fernando Assis Pacheco (1937-1995), autor revelado em 1963 com "Cuidar dos Vivos", livro que nesse momento histórico se enquadrava numa poesia de intervenção política, comprometida num testemunho de luta contra a guerra colonial. Publicando ao longo do tempo colectâneas de circulação muito restrita - quase clandestinamente divulgadas entre amigos, em edições de autor -, o poeta veio a reunir a sua obra apenas em 1991 ("A Musa Irregular", Ed. Hiena), num volume que manifestava o desejo de fugir a qualquer dicção grandiloquente - "Peçam a grandiloquência a outros" (p.166) -, oferecendo-nos, em vez disso, uma linguagem coloquial muitas vezes irónica, mordaz, satírica, mas ao mesmo tempo comovida com o pequeno espectáculo do mundo e descrente das virtualidades da própria poesia: "e depois isto dos versos / passados anos já não passam de enganos" (id., p.194).

É dentro deste registo desvalorizador do papel tradicionalmente atribuído ao género literário "poesia" que podemos ler agora um notável conjunto de 35 poemas inéditos ou dispersos à data da morte do autor - textos escritos num tom muito pessoal, que propositadamente disfarça a pulsão lírica graças a formas muito eficazes de camuflagem irónica, sabotando e subvertendo os "clichés" associados ao lirismo. Como sintetiza Manuel Gusmão num lúcido posfácio, trata-se de "uma poética da deflação do 'pathos' lírico. A expressão julgo que permite, por um lado, não apagar a sua inequívoca dimensão lírica e, por outro lado, dar conta dos processos de 'decapagem' a que ela é submetida, assim como das modulações irónica, satírica ou de 'escárnio e mal-dizer' igualmente manifestas" (p.66).

Para alguns leitores mais apressados, talvez o que sobressaia seja precisamente esta componente escarninha, satírica ou abertamente "fescenina" (a palavra é de Manuel Gusmão), patente quer nos "Desversos" que jogam por vezes num terreno político, quer em alguns textos mais desbragados, que retomam a alegre celebração do prazer sexual - veja-se um soneto dedicado aos testículos: "Pus-vos a mão um dia sem saber / que tão robusta e certa artilharia / iria pelos anos fora ser / sinal também de lêveda alegria // amigos meus colhões quanto prazer / veio até mim em vossa companhia / a hora em que tiver já de morrer / morra feliz por tanta cortesia" (p.19).

Uma das maiores qualidades da escrita de Fernando Assis Pacheco provém, no entanto, do modo muito subtil de articular uma apurada crítica social e, ao mesmo tempo, uma análise distanciada do "eu" ou daquilo em que o "eu" se tornou - pouco a pouco transformado num "tu" a quem o poema se dirige sem contemplações: "Alombo contigo há uma porção de anos / e vou-te dizer és um chato / não tens ponta de paciência / para a vida nem para ti próprio // [...] // vez por outra um livrinho / de versos vez por outra nada / qualquer um do teu tempo / está bastante melhor do que tu / deputado administrador de empresa / ministro da maioria / puta (alguns chegaram a isso)" (p.43).

Estes efeitos de auto-ironia tornam-se particularmente evidentes quando o poeta se afasta ainda mais de si mesmo e se observa na terceira pessoa, falando sobre "um tal Fernando Assis Pacheco" como se se tratasse de um duplo ou de uma personagem vagamente familiar: "Vivo com ele há anos suficientes / para poder dizer que o reconheceria / num dia de Novembro no meio da bruma / é como uma pessoa de família // [...] / não invento nada vi-o crescer comigo // chorava então desabaladamente / e eu com ele sentindo-nos perdidos / o cobertor puxado sobre a cabeça / seria trágico se não fosse ridículo // [...] / não lhe perguntem se foi feliz" (p.45).

O amargo pedido deste último verso denota já uma inflexão de perspectiva, no sentido de um balanço existencial de tons elegíacos, recuperando um pouco de tudo o que foi importante numa vida humana, na vida desse "tal Fernando Assis Pacheco". É graças a esse movimento de regresso que vemos desfilar os pais, as filhas, a família ou os amigos - por vezes explicitamente nomeados -, compondo um mosaico de imagens e episódios de um passado acontecido algures entre Coimbra e Lisboa, entre a Galiza e a ria de Aveiro: um passado legível como memória já longínqua ("ao tempo que isto foi", p.41), mas apto a iluminar o presente com a sua luz talvez um pouco baça. A esse respeito, chamo a atenção para uma belíssima "Elegia" dedicada aos desaparecidos tempos de Coimbra: "com 40 mil habitantes no melhor dos casos / a cidade tinha um ar modesto e a puxar para o triste / sempre os mesmos cães magros sempre a mesma gente lenta / o mesmo nevoeiro subindo em espiral do rio // nesse tempo ainda os meus pais eram da família / que depois perdi em anos consecutivos / e eu julgava-os imortais como deuses de luz clara / brilhando à mesa sobre a grande toalha de linho // nem tão-pouco pretendo aborrecer agora os meus filhos / com histórias dessa que enterrada está Coimbra / nós vamos no oco da onda ébrios de sal mordente / o que vem dar à praia é espuma fria e olvido" (p.24).

Para lá deste lirismo nostálgico, aliás já cultivado em muita da anterior obra de Assis Pacheco, o que se torna novo nesta fase - sobretudo agora, com os poemas reunidos num livro - consiste numa penetrante e obsessiva presença da morte, embora uma morte cujo peso trágico acabe por surgir quase sempre subvertido por uma retórica deceptiva e por um fino sentido de humor. Mas com humor ou sem ele, a morte existe e infiltra-se nesta poesia, que mostra conhecê-la ou antecipá-la, declinando-a quer como futura ausência do sujeito - veja-se o poema em que faz o inventário da sua herança (pp. 27 / 28) -, quer através dos seus sinais concretos e terrivelmente sensíveis ao nível do corpo, no momento em que uma ou mais doenças ameaçam e avançam sobre alguém numa cama de hospital, "entre os frascos do soro" (p.51) e a solidão última de um homem que, tal como Ruy Belo, sabia estar a despedir-se da terra da alegria:

"Triste de mim mais triste que a tristeza / triste como a mão que segura o copo / como a luz do farol esgaçando a névoa / triste como o cão manco / deixado na serra pelos caçadores // [...] // a tarde triste os anos tristes / a grande costura da tristeza / do esterno ao baixo ventre // triste e já sem nenhum reparo / a fazer à metafísica / senão que é um défice / porventura / do córtex cerebral" (pp. 21 / 22).

9.1.07

TLEBS - Público de 6.1.2007

"Deficiências" obrigam a "trabalho de correcção da TLEBS" em 2007 e 2008

Apesar da polémica que a terminologia linguística tem suscitado, o Ministério da Educação não vai suspendê-la e quer vê-la definitivamente na vida das escolas. O director-geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular encara-a como medida para combater os maus resultados dos alunos. Precisa é de correcções.


Por Bárbara Wong

A Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS) - aprovada há dois anos e confirmada pelo actual Governo - tem como objectivo uniformizar os termos gramaticais usados no ensino. Professores, escritores e pais não lhe têm poupado críticas.
Luís Capucha, director-geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular, do Ministério da Educação (ME), reconhece que a lista de termos, já adoptada nalgumas escolas, "tem deficiências". Foram designados especialistas para corrigi-la e aplicá-la do 1.º ao 12.º ano. Apesar de a generalização a todo o ensino básico e secundário ter sido suspensa, o director-geral espera que daqui a dois anos a TLEBS não seja um "corpo estranho" às escolas.
PÚBLICO - É necessária a introdução da TLEBS no sistema de ensino?
LUÍS CAPUCHA - Nos últimos anos, o ensino da gramática tem sido descurado. Há uma constatação de deficiências numa matéria que é básica: a língua materna. A totalidade dos programas de Português tem uma forte componente de ensino de textos da literatura portuguesa e este tem sido o caminho; se estivesse correcto, não teríamos problemas de literacia. Não podemos estar satisfeitos com os maus resultados dos alunos portugueses, quer nas provas nacionais quer nos estudos internacionais. A TLEBS pode ajudar a combater o insucesso. Foi esta a razão que levou um conjunto de pessoas a lançar um movimento a favor da construção de uma terminologia, para pôr cobro a uma situação de deriva terminológica.
O que é que isso significa?
Quer dizer que não há uma terminologia consensualizada e que existem vários termos para designar as mesmas coisas e há coisas diferentes designadas pelo mesmo termo. A TLEBS tem diversos níveis de complexidade e é um instrumento científico. Provavelmente não teria feito sentido que o anterior Governo a tivesse aprovado.
Discorda dessa decisão?
Creio que o Governo PSD-CDS/PP deveria ter incentivado a construção de uma terminologia uniformizada; mas a principal missão do ME seria pegar nesse instrumento científico e transformá-lo em conteúdos passíveis de administração ao ensino.
É isso que vai acontecer agora. Quem vai fazer esse trabalho?
Há um trabalho de correcção da lista de termos, que tem deficiências. Esse trabalho foi entregue a dois especialistas: o linguista João Costa e o professor de literatura e análise literária Vítor Aguiar e Silva, que farão a correcção e revisão final. Vamos pedir a outros dois especialistas - Olívia Figueiredo e Vítor Manuel Oliveira -, ligados ao ensino do Português, para definir que termos devem ser aplicados a cada nível de ensino.
O trabalho terá discussão pública?
Depois de concluído, vai ser debatido e só depois haverá homologação.
Que outras medidas vai o ME tomar?
Vamos sujeitar a TLEBS a um teste prático: saber se os alunos que aprenderam com a terminologia têm melhores resultados a Português. Vai ser já este ano que vamos fazer essa comparação, através dos exames do 9.º e do 12.º ano.
Haverá perguntas sobre a TLEBS?
Não, porque o que é matéria de exame são os programas. Esperamos é que os alunos que tenham tido um contacto com a TLEBS tenham melhores resultados. Se isso acontecer (é provável), significa que a inclusão da terminologia está a obter os resultados desejados.
Quando é que vai ser generalizada?
A expectativa é que o trabalho de base esteja feito em 2007/2008. A generalização vai acontecer em 2008/2009. Temos a determinação de melhorar o ensino, esperamos ter resultados, mas queremos que as coisas sejam bem feitas. Não queremos que a TLEBS seja um corpo estranho nas escolas.

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"Alguns erros só são identificados na prática com os alunos"
Director-geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular admite que é preciso mais formação para os docentes na TLEBS

A TLEBS ir ser corrigida significa que os alunos que estão agora a experimentá-la estão a aprender coisas erradas?
Em princípio, não. A TLEBS, tal como qualquer outra área científica, está sujeita a avanços e em boa verdade nunca haverá uma correcta. Os termos vão ser revistos, mas isso não impede que a experiência continue, porque alguns erros só são identificados na prática com os alunos.
A formação dos docentes tem sido suficiente?
Neste momento ainda não há formação que seja passível de sustentar a introdução da TLEBS. Por isso suspendemos a sua generalização. Não valia a pena impor um instrumento com o qual as pessoas não sabiam trabalhar.
Os materiais pedagógicos já publicados contêm erros?
Se as editoras fizeram materiais antes da revisão científica final [agora encomendada a João Costa e Aguiar e Silva], provavelmente haverá ajustamentos a fazer.
Vai haver mudanças nos programas?
Os programas mantêm-se e se houver alterações não serão resultado da introdução da TLEBS, mas de actualizações ou de introdução de novas matérias.
O Ministério da Educação vai organizar uma conferência. Quando?
Vai ser este ano, mas será sobre o ensino da língua portuguesa. A TLEBS não é tudo o que existe em termos de matéria de Português, é apenas um instrumento. O comissário é Carlos Reis [actual reitor da Universidade Aberta].
Esperamos que os temas abordados possam dar contributos positivos e permitam melhorar o conjunto de procedimentos e instrumentos que se utilizam nas escolas. B.W.
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"A polémica ajuda a encontrar soluções mais adequadas"
Capucha dá as boas--vindas à polémica, desde que dê origem a um debate construtivo. "A língua não é uma vaca sagrada imutável"

Artigos de opinião, abaixo-assinados... Foi a polémica à volta da aplicação da TLEBS que obrigou o Ministério da Educação a rever a posição?
Não. Estas medidas enquadram-se num conjunto de outras decisões que já vinham a ser tomadas. Estamos atentos porque não podemos ser arrogantes e pensar que temos a verdade toda.
Em toda a polémica que rodeia a TLEBS parece haver uma divisão entre os especialistas da literatura e os da linguística. Concorda?
Não podemos entender o ensino da estrutura da língua (gramática e linguística) como matéria que se oponha ao ensino centrado na literatura, interpretação de textos ou gosto pela leitura. Pelo contrário, são instrumentoscomplementares. Os textos literários são instrumentos óptimos para ensinar a estrutura da língua. Queremos evitar a dicotomização do ensino da literatura e da língua.
Uma das críticas é a de que a TLEBS poderá afastar os alunos do gosto pelo Português. Concorda?
A TLEBS é um auxiliar da gramática para que os alunos compreendam a estrutura da língua, é uma ferramenta útil para a descodificação dos textos literários.
Depois das medidas anunciadas, acha que a polémica vai diluir-se?
Não temos de ter medo da polémica. O que gera problemas são as más soluções. A polémica ajuda a encontrar soluções mais adequadas.
O que recomenda a quem tem tido um papel activo neste debate?
A língua não é uma vaca sagrada imutável - é um instrumento utilizado por pessoas concretas, no dia-a-dia e é nessa óptica que temos de centrar o debate. Espero que as pessoas pensem no que temos enquanto resultados aferidos; esses permitem dizer que alguma coisa tem de ser feita para que os alunos possam escrever, ler e falar melhor. A crítica deve servir para uma melhoria do ensino, porque aquilo que tem acontecido não é bom. B.W.

5.12.06











Mim ser bom pessoa



Vasco Graça Moura
(Publicado no Diário de Notícias em Agosto de 2005)

As línguas, tal como as nacionalidades, as identidades, os seres humanos, as artes e muitas coisas mais, nunca foram entidades comandadas por uma racionalidade estrita ou por uma lógica sem falhas. Entre nós, já Camilo Castelo Branco ironizava, há bem mais de um século, a propósito, salvo erro, do jovem Joaquim de Vasconcelos, que, regressado da Alemanha, propunha que se dissesse “estejai”, em vez de “estai”.
Vem isto a propósito do livro A Língua Portuguesa em Mudança, organizado por Maria Helena Mira Mateus e Fernanda Bacelar do Nascimento (Caminho, 2005). É uma útil investigação sobre a maneira como a língua falada e escrita na comunicação social pode condicionar certas tendências do português que falamos.
Maria Helena Mira Mateus (MHMM), por quem tenho grande consideração e estima pessoais, assina uma densa introdução, “A mudança da língua no tempo e no espaço”, cujas últimas páginas, todavia, me deixam muito apreensivo. Aí, depois de postular a necessidade de uma norma-padrão, “como referência da produção linguística e como garante da aceitabilidade de um certo comportamento no contexto sócio-cultural em que estamos inseridos”, da qual “a escola é especial depositária” e que tem “justificações sócio-políticas e culturais, de carácter pedagógico e comunicativo”, MHMM não encontra solução para as dificuldades de definição dessa norma-padrão, de modo a ser possível circunscrever o que é “correcto” e o que é “incorrecto”.
E passa a imputar a “uma alta percentagem de subjectividade” a condenação de certas construções ou formas lexicais. É esse o primeiro passo de neutralização da própria norma-padrão cuja necessidade e cuja defesa julguei entrever algumas linhas antes. Imputar à subjectividade o que decorre de um conjunto de factores independentes da lógica, tem como efeito desvalorizar, precisamente, a norma-padrão.
Mas meu alarme vai mais longe: quando MHMM considera como “alternâncias possíveis”, por ocorrerem “com frequência” e se justificarem “linguisticamente” formulações como “a maioria dos estudantes passaram no exame”, ou “o prédio que o Paulo vive é moderno”, ou ainda “O autor que eu mais gosto é Aquilino”.
Na mesma linha, são em seguida formuladas algumas interrogações, para as quais a rejeição de uma auctoritas que possa decidir sobre a correcção à luz da norma-padrão acaba, em última análise, por abrir a porta às mais bizarras permissividades. Por exemplo, “há-dem”, quanto a “hão-de”, “pensar de que” por “pensar que”, “houveram muitos acidentes”, por “houve muitos acidentes”…
E a autora pergunta-se “como saber o que se pode aceitar e o que se deve reprovar?”. Compreende-se a angústia da linguista ante uma questão a que a sua ciência não dá resposta. Mas isso não deveria levá-la, nem a admitir aberrações da nossa língua, como as exemplificadas, nem a invocar mutações socioculturais lá, onde a única explicação é o falhanço calamitoso da escola.
Sem ser linguista, penso que o grande problema está em haver um sector da Linguística que parece preocupar-se apenas com aspectos de eficácia comunicacional e mais nenhuns. Será a língua, como instrumento de conhecimento e apreensão do mundo, irisado de uma multiplicidade de valores afectivos, estéticos, sedimentados pela memória e pela história, pelo uso transgeracional, pelos autores, algo de que se considera poder fazer tábua rasa?
Aplicando justificações muito próximas das que leio em MHMM, eu posso afirmar que está bem (salvo seja!) uma frase como “mim ser bom pessoa”.
Em primeiro lugar, porque o destinatário da mensagem perceberá perfeitamente o que eu quero dizer, logo o nível estritamente comunicacional está alcançado.
Em segundo lugar, porque posso considerar que a formulação se limita a ser elíptica quanto a um enunciado de correcção indiscutível: (no que a) mim (respeita, considero) ser bom (enquanto) pessoa.
Como não será de admirar que a comunicação social um dia destes desate a brindar-nos com pérolas destas, é evidente que não se pode aceitar, ao contrário de MHMM, que “a norma portuguesa dotada de maior vitalidade e capacidade de fazer adeptos é a que transmitem os jornais, a rádio e a televisão”. Norma???
Bem sei que MHMM diz que não podemos aceitar este conceito sem critério, mas a verdade é que tal critério se dilui na nebulosidade com que é tratada a norma e assim entramos num círculo terrivelmente vicioso e, o que é pior, num ciclo grotescamente viciado…

4.12.06

TLEBS e discussões

Helena Carvalhão Buescu


1.Não estaríamos a ter esta discussão pública, e eu não estaria a intervir nela, se a Nomenclatura Gramatical Portuguesa de 1967 tivesse sido substituída por uma Terminologia Linguística em 2006. É bom que haja consenso, no interior de uma comunidade especializada, sobre a terminologia e os conceitos que utilizam. O problema (e ele não pode nem deve ser escamoteado, porque é de fundo) começa no momento em que uma Nomenclatura Gramatical Portuguesa é substituída por algo que se auto-intitula Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário, vulgo TLEBS (convém olhar bem para acrónimos e suas implicações). No preciso momento em que a pouco subtil passagem para o terreno do Ensino Básico e Secundário é efectuada, e é mesmo reclamada por um grupo, o que acontece é que essa auto-designação passa a integrar o objectivo com que de facto foi elaborada: não "apenas", como alguns dos seus defensores dizem agora, produzir novas formas de estabilidade numa linguagem técnica, mas antes legislar para o Ensino Básico e Secundário e, nele, para a disciplina de Português.
2. A partir desse gesto de apropriação (porque o é), a TLEBS passou a dever (emprego o termo de forma ponderada) ser discutida por todos os que são agentes, intervenientes e interessados no ensino da disciplina do Português no Ensino Básico e Secundário, e não apenas por linguistas. Porque o Português do EBS não é nem pode ser concebido (gostaria tanto de reforçar esta afirmação!) como domínio único e especializado da Linguística.
3. Que alguns (sublinho alguns) linguistas confundam Português com apenas Língua Portuguesa, e que além disso considerem que sobre esta apenas se podem pronunciar os "técnicos da língua" que a Linguística formaria, como tem sido várias vezes repetido neste debate, apenas atesta a absurda redução (e reacção) tecnocrática que afecta alguns linguistas, mas que qualquer reflexão ponderada e séria manifesta como capciosa. Quanto a isto, estamos conversados.
4. Como mãe de crianças que frequentaram e frequentam ainda o EBS, e como pessoa que obteve na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde lecciono, uma formação específica em Linguística que, quero crer (em benefício de antigos mestres e actuais colegas), é superior à da generalidade de outras formações em diferentes áreas do saber, não só me considero habilitada a pronunciar-me sobre um instrumento que afectará a relação dos meus filhos com a língua que é a sua (porque se não afecta, então é inútil), como penso também que tenho até esse dever - mesmo quando (e precisamente porque) a minha visão é complementar da visão tecnicista (mesmo, convenhamos, de alguns pesadelos tecnicistas, de que darei apenas um ou dois exemplos) de que a TLEBS enferma.
5. Apenas alguns exemplos, que estão efectivamente na TLEBS (e até estaria eventualmente disposta a admitir que poderiam estar numa TL que não tivesse cometido o gravíssimo erro de não se saber distinguir de uma terminologia dirigida a um conjunto de graus de ensino que começa aos 6 e acaba aos 18 anos). Vejam-se por exemplo as especificações dadas para a formação de certas palavras por derivação (adjectivo relacional, adjectivo de possibilidade, nome agentivo, nome colectivo, nome de acção, nome de qualidade, verbo causativo, verbo incoativo/inceptivo). A pergunta central, no quadro de uma terminologia para o EBS, é: quem deverá saber tudo isto? Os docentes? Os alunos? Quais? Será este saber algum dia testado em exame nacional (o que o transformaria em virtualmente obrigatório)? Ou efectivamente, como se diz, em comentário à TLEBS, no site do Ministério da Educação, é deixado aos "docentes no terreno" latitude decisória (qual?) para "aplicar" esta terminologia, consoante o Programa? E se um docente, ou um grupo de docentes, entender que é isto que os alunos devem saber? Outro exemplo, dentro daquilo que aprendemos como género. O nome uniforme passa a ter de ser descrito de acordo com a seguinte terminologia: epiceno, sobrecomum, comum de dois. Complicações inúteis, para os alunos do EBS (é deles que estamos a falar): o "aposto" passa às seguintes categorias: "modificador nominal do nome apositivo", "modificador adjectival do nome apositivo", "modificador preposicional do nome apositivo" e "modificador frásico do nome apositivo". Mas estes são apenas alguns exemplos, embora esclarecedores.
6. Um dos efeitos mais perversos deriva do argumento, várias vezes apresentado, de que a TLEBS não é perfeita ainda (ainda?), e de que está a ser alvo de alterações. Algumas delas são indicadas no próprio site oficial do ME, e dou apenas um exemplo, cuja seriedade julgo não ter sido devidamente sublinhada, nas suas implicações. É que a meu ver infinitamente mais grave do que os exemplos atrás dados é o que se passa (o que se está a passar) com o conceito de "oração", substituído pelo não-coincidente (veja-se a sua definição) conceito de "frase". No site do ME, num dos documentos relacionados com a TLEBS, afirma-se que se pondera agora a reintrodução do conceito, que o ano passado foi excluído, de "oração". Não é isto sinal de precipitação e falta de ponderação na forma como a TLEBS foi implementada? Que tal um aluno a quem foi ensinado, até ao ano passado, que havia orações; que este ano está a aprender que deixaram de existir; e que talvez para o ano volte a aprender que afinal regressaram? É isto sinal de reflexão ponderada, pelas implicações que tem, inclusivamente nos manuais escolares, que correm o risco de ser hoje publicados para daqui a seis meses estarem desactualizados? E os pais? Terão de comprar manuais diferentes de cada vez que a TLEBS resolver introduzir uma alteração a algo que acabou de entrar em vigor? Ou tais alterações, sendo necessárias, não serão implementadas por razões económicas, que são sempre as piores razões neste domínio?
7. A partir do conjunto dos elementos aduzidos, e outros que lhes poderia acrescentar (mas não vale a pena), não posso deixar de concluir como segue: a TLEBS manifesta uma inexplicável (e inaceitável, quando se trata de perceber que ela afecta dezenas, centenas de milhares de crianças e jovens) precipitação na forma como foi concebida e aplicada; a TLEBS manifesta uma míngua de bom-senso, ao confundir uma Terminologia Linguística com uma TL para o Ensino Básico e Secundário; a TLEBS manifesta uma mais do que criticável aceitação de que o terreno da experimentação aplicada é a realidade escolar universal, que está assim sempre concebida sob o signo da flutuação, mais ou menos insensata; finalmente, da TLEBS (e das discussões a seu propósito) se infere a terrível confusão, que ela permite, entre Português, Língua Portuguesa e perspectiva linguística da Língua Portuguesa - confusão extremamente grave e com consequências redutoras, e por isso empobrecedoras, da concepção daquilo que o Português é: muito mais do que apenas a (importante) perspectivação linguística que integra, mas a que felizmente não se reduz.
[Professora de Literatura, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa]
Terminologias: a nova e a antiga


Maria Helena Mira Mateus


A terminologia linguística que está neste momento em experiência e em revisão tem sido motivo de muitas tomadas de posição públicas, artigos, abaixo-assinados e muita irritação. Certamente, as pessoas, "famosas" ou não, que se pronunciaram sobre a questão não sabem do que estão a falar, tantas e tão ingénuas são as afirmações erradas. Existem os erros de base e os erros de pormenor. Vamos aos primeiros.
O estudo de qualquer área das ciências - exactas, sociais ou humanas - altera convicções e representa um progresso na compreensão dessas áreas. O funcionamento da linguagem e das línguas é uma área estudada pelos linguistas: gramáticos, psicolinguistas, sociolinguistas. Eles estudam a compreensão que nos permite perceber uma língua e estudam a produção linguística dos falantes. Sabe-se hoje mais do que há 40 anos no que respeita à relação entre compreensão e produção linguística, entre aspectos cognitivos e aspectos verbais. Esse saber não é uma nebulosa nem uma "vaga ideia" a que nos podemos referir de qualquer maneira, mas exige termos de referência. Por essa razão, as gramáticas actuais utilizam termos que servem o que se já conhece do nosso uso da língua, embora muitos desses termos sejam os mesmos que já eram usados em gramáticas anteriores. Idênticas alterações conceptuais e terminológicas existem em todas as outras disciplinas. Será que a escola portuguesa não pretende acompanhar o progresso das ciências? Será que tudo o que é novo desperta uma reacção própria de um conservadorismo reaccionário? Será que o ensino não pode beneficiar dos avanços da ciência? Será que os professores que têm a seu cargo os primeiros ciclos escolares não estão à altura de conhecerem, e saberem como transmitir, o que se conhece hoje em qualquer ciência, inclusive a ciência da linguagem? E os professores que ensinam ciclos mais avançados? Será que não é bom que apresentem esse conhecimento usando os mesmos termos, ou é preferível que cada professor escolha a seu gosto os termos que utiliza?
Estou a referir-me ao ensino da língua que todos falamos, não estou, claro, a referir-me à análise do uso da língua como obra de arte, ou seja, o que se integra na teoria literária e no estudo da literatura em geral, que para isso não tenho preparação especial. Na realidade, qualquer programa de teoria da literatura mostra que os conceitos, e a consequente terminologia nesta área, são muito diversos dos que usa o mero estudo da língua. Veja-se: "os géneros poéticos"; "as categorias: poesia épica, didáctica, elegíaca, lírica, epinícia, trágica, cómica e bucólica (...) O possível/impossível como categorias fenomenológicas" (programa de teoria da literatura da FLUL). E são temas específicos da literatura a desconstrução, a fenomenologia, o formalismo, o marxismo, a narratologia ou o pós-modernismo (CECLU da UNL). Estes são termos que ocorrem em programas universitários. Mas nos outros níveis de ensino também se encontram termos nem sempre transparentes, como por exemplo, em Quadros de Referência do ensino secundário, as "réplicas e didascálias", o "cânone literário", "a ambiguidade, polissemia e conotação", os "mitos/arquétipos", a "epígrafe, o incipit, o explicit". Os linguistas não estão preocupados em discutir estes (e muitíssimos outros) termos mas, sim, a sintaxe, a fonologia, a morfologia, a semântica, etc., que são os que respeitam ao funcionamento da língua que todos utilizam.
Vejamos os aspectos concretos e de pormenor desta questão. Por tudo o que acima está dito, se considerou indispensável rever a Nomenclatura Gramatical Portuguesa publicada em Diário do Governo de Abril de 1967, que é a terminologia oficialmente utilizada no ensino. Esta terminologia fala de morfologia e sintaxe, mas da semântica só conhece a das palavras (não há semântica das frases?). Fala de substantivos :e adjectivos, mas acrescenta: "As palavras que participam da natureza substantiva ou adjectiva recebem a designação de nome, o que permite uma relacionação com "flexão nominal", "predicado nominal", etc." Os substantivos têm classificação, têm género, número, grau e ainda podem entrar em locuções. Os advérbios podem ter 15 classificações. A fonética sintáctica tem próclise, ênclise, crase intervocabular, elisão, ligação consonântica, haplologia intervocabular, entoação e ritmo, os complementos circunstanciais podem ser de nove tipos diferentes, entre eles o de instrumento (por exemplo, "cortei com a faca"). Já não se lembravam que era assim que se aprendia? Não sabiam que estes termos complicados faziam parte da terminologia que se quer actualizar? Até o epiceno faz parte da infância de muitos dos que gritam e prevêem as maiores desgraças para o país inteiro com a nova terminologia. Felizmente, muitas coisas mudaram desde então. Os escritores não gostam do modificador, do anafórico, do agentivo? Mas gostam com certeza da aférese, da síncope e apócope ou de prótese, da epêntese e da paragoge, ou de crase, da sinérese e da diérese que estão na Nomenclatura de 67. E não gostam do ataque ou da coda da sílaba? Lamento, mas não perceberão nada de qualquer livro que aborde a prosódia das línguas. Aliás, o que é necessário é que o professor saiba o que são estas duas partes da estrutura da sílaba (que também tem estrutura, imaginem!?) e que o faça perceber aos alunos, sem precisar de os obrigar a decorar o termo. E assim por diante.
Por favor, não falem do que não sabem e deixem-nos trabalhar sobre a actualização da Terminologia, tirar conclusões da experiência em curso e tornar o ensino da gramática do português menos obsoleto e integrado nos programas actuais que, evidentemente, não sofrerão qualquer alteração.
[Professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; co-autora da TLEBS

2.12.06

A CORTE NA CIDADE

(Publicado no O Globo a 1.12.2006)

Francisco Seixas da Costa*

Em finais de Novembro de 1807, uma imensa frota partiu de Lisboa, em direcção ao Brasil. Nela viajava a Corte portuguesa e, com ela, seguia também a esperança de conseguir garantir que a soberania lusitana ficava a salvo da invasão que o país então sofria.

Na memória colectiva de Portugal, este movimento da sua Corte nunca deixou de ser objecto de leituras polémicas. Para alguns, tratou-se de uma fuga sem dignidade, fruto de uma opção política de vistas curtas, estimulada por ambiciosas alianças.

Por muito tempo, poucos a interpretaram como uma decisão assente numa perspectiva estratégica, que poupava o poder real de Lisboa às humilhações que os seus congéneres europeus então atravessavam, em face da imparável ambição napoleónica. E, em particular, raramente foi vista como uma deliberada preservação da integridade simbólica desse mesmo poder, embora sedeado em outras terras do império.

A serenidade que a distância temporal nos concede aponta, nos dias de hoje, no sentido de privilegiar esta última leitura dos factos. Aliás, terá sido mesmo a historiografia brasileira quem cedo sustentou essa mesma interpretação.

Quaisquer que tenham sido as motivações centrais desta aventura – porque é disso que se trata, no sentido mais nobre do termo – uma coisa parece óbvia: ninguém, à época, terá sonhado as consequências que ela acarretaria para o futuro da colónia onde a Corte iria assentar os seus arraiais, desde Salvador ao Rio de Janeiro.

Dentro de um ano, precisamente dois séculos mais tarde, o Brasil vai lançar-se na comemoração do início dessa inédita expedição, a transferência de uma corte europeia – de armas e bagagens, de arquivos e de gentes – para um território periférico do seu império.

A nação brasileira vai ter um ensejo de reflectir sobre quanto da sua identidade civilizacional foi a resultante desse estranho contraste de mundos, de efeitos nas artes e letras, nas leis e nos costumes, enfim, uma imensa revolução cultural na vida de uma colónia que, precisamente por essa razão e de forma quase subliminar, começava a mudar de estatuto.

Com o regresso da Corte a Lisboa, também Portugal iria perceber quanto o país havia mudado, enquanto parte de si rumara pelos caminhos do velho império. E teria também de entender o destino que, entretanto, se desenhara para uma nova ordem, que iria transformar um príncipe do colonizador no agregador da vontade para a fundação de uma nova nacionalidade.

Nestas comemorações, o meu país não tem hoje nenhuma agenda própria. Queremos apenas contribuir, com o nosso património de memória, para quanto o Brasil deseje sublinhar desse tempo que nos foi comum.

Sem os menores complexos ou remorsos, Portugal vive a sua história com uma imensa serenidade e um grande orgulho. O tempo ajudou-nos a arquivar os conflitos e a saber retribuir os afectos, muito para além das hipérboles da retórica. Brasil e Portugal, pelo que foram e pelo que são, podem hoje dar-se ao luxo de revisitar, num exercício de imaginário assente numa língua e em tantas outras coisas em comum, os dias da presença da Corte de um deles na bela cidade que, afinal, se tornaria a capital do outro. Estou certo que saberemos fazer essa festa com alegria e amizade sincera.

* Embaixador de Portugal no Brasil

9.10.06

Entre o resultado e a moral: uma compreensão do voto em Lula

Por Luiz Claudio Lourenço
29/09/2006

Para quem diz que a maioria do eleitorado, o eleitor comum, de baixa renda e de baixa escolaridade, não é racional, que não pondera para fazer suas escolhas, que não é pragmático, a eleição presidencial deste ano mostra o contrário. Mostra que sua preocupação é de caráter pragmático, desvinculada de engessamentos ou convicções mais ideológicas e mesmo morais.

O eleitor, ao que parece, está mais racional que nunca, no que se refere à escolha à Presidência da república. Mas diria o leitor mais atento: e este sem-número de escândalos envolvendo petistas? Como podemos afirmar ser racional o eleitor apóia o presidente que pertence a um partido que está tão envolvido (direta ou indiretamente) em casos como o do mensalão, da compra de dossiês entre outros? Como o eleitor pode dar suporte e respaldar, com sua intenção de voto, atitudes no mínimo suspeitas e tão pouco virtuosas do ponto de vista moral?

Para compreendermos isso é preciso separar duas coisas primordiais: uma é o julgamento moral de um indivíduo; a outra, o julgamento político de alguém que ocupa a cadeira de presidente da República. Esta separação é fundamental, pois o julgamento moral de um indivíduo se dá de forma diferente do julgamento político.

A ação guiada pela moral deve ter pureza de princípios, independentemente de qualquer outra coisa. Ela é guiada pela virtude, pela fé nos valores e não é comprometida com nenhum tipo de resultado. Vale a máxima: "Faço que faço, pois acredito nisso independente do que possa acontecer". É o tipo de ação a que o pensador alemão Max Weber afirma ser guiada pela "ética de convicção". Não há aqui espaço para cálculo de perdas ou ganhos, há apenas as certezas dadas moralmente.

Mas política e moral são coisas que nem sempre caminham de mãos dadas e tem cada uma a sua própria lógica. Uma ação moralmente correta pode ser um desastre político. Esta constatação não é nova dentro da ciência política, aliás foi evidenciada no pensamento do filósofo político italiano Maquiavel, que não teve pudores em escrever que os objetivos na política (por serem de natureza coletiva e não individual, devemos aqui frisar) são primordiais e mais importantes que os meios.

A ação política deve ser orientada sobretudo pelos seus efeitos, pelos seus resultados à coletividade, enfim sua repercussão objetiva junto ao povo. Se na ação moral o indivíduo se guia pela "ética de convicção", na ação política é a "ética de responsabilidade" que baliza a ação. Quem governa não pode governar apenas pelos seus valores e convicções morais e orientações ideológicas - antes, tem que ser responsável por suas ações tomadas para e em nome da coletividade. Aqui a máxima é diferente: "Faço o que faço, pois é preciso que isso gere resultados". O político é responsável e responsabilizado mais pelo resultado objetivo de sua ação política que pelo purismo de seus princípios ou suas boas intenções. Para este tipo de ação, o julgamento pode ser, sim, fruto de cálculo racional, pois seus resultados são mais objetivos e palpáveis.

O político é responsável e responsabilizado mais pelo resultado objetivo de sua ação política que pelo purismo de seus princípios

Nos contos, para tomarmos um exemplo simples, Robin Wood roubou. Não importa de quem ou por que, sua atitude é condenável para todos que pregam que roubar é errado. Portanto, o julgamento moral dele já está dado por estas pessoas. Mas a conseqüência gerada para os povos da floresta beneficiados pelo produto de seus roubos faz sua ação política - para estes não pesa o fato dele ter roubado, mas o resultado efetivo deste roubo. O cálculo entre a situação anterior e posterior à ação é levado em conta neste julgamento, e é com base nele que se faz o julgamento político da ação.

Longe de querer comparar o personagem dos contos com nosso atual presidente-candidato, a política adotada no governo Lula teve um aspecto prático importante para uma parte muito significativa do eleitorado. Os gastos com a rede de assistencialismo montada pelo governo deixam claro isso. São milhões de brasileiros beneficiados com algum tipo de subsídio importante para sua sobrevivência. É preciso ter em conta aqui que 58,41% (segundo dados de junho divulgados pelo TSE), a maioria do eleitorado brasileiro tem menos que o primeiro grau completo - são mais de 73,5 milhões de eleitores. Soma-se a isso que a maioria também tem baixa renda. Pesquisas qualitativas revelam que, para este eleitor, a política é muitas vezes um mundo onde a moral, presente em seu cotidiano de trabalhador honesto, nunca fez parte, daí ele ter uma percepção muito mais "realista" (ou sem ilusões) e muito menos "romântica" do poder (ou idealista). O eleitor brasileiro tem preocupações muito prementes no seu cotidiano: a sua maior demanda é sobreviver e não julgar moralmente os políticos. Estes políticos, salvo raras exceções, já são considerados de antemão na percepção do eleitor comum como corrompidos e desonestos.

Lula, desde o início de sua campanha no horário gratuito, está evidenciando o aspecto pragmático de sua atuação na Presidência da República. Logo no primeiro programa comparou o preço de um saco de cinco quilos de arroz no final do governo FHC e o atual preço do produto, mostrando que houve uma redução de cerca de 50%. Para o eleitor que necessita mais que qualquer outra coisa sobreviver, vão importar menos os escândalos políticos e muito mais o preço do arroz que caiu. É com base nisso que, acredito, podemos compreender melhor os números das prévias eleitorais e o cálculo feito pelo eleitor. A racionalidade utilizada pelo eleitor é imediata e diz respeito às condições mais básicas da sua subsistência.

Fica mais fácil perceber que o eleitor comum está, sim, comprometido com aquilo que pode ser verificável, ponderado, calculado. Como já dissemos, e é importante frisar, o julgamento moral não carece de cálculo e se baseia de maneira pura nos valores. Mas os ganhos e perdas cotidianos gerados pela política nacional dos últimos quatro anos parecem gerar um saldo positivo no cálculo factual feito até agora pelo eleitor. As pesquisas mostram de forma clara que o eleitor está fazendo um julgamento das ações políticas do presidente e não de seu posicionamento moral. Se o eleitor estivesse ponderando a atitude moral do presidente (direta ou indiretamente) ele dificilmente já não estaria deposto.

Luiz Claudio Lourenço é cientista político e pesquisador Doxa-IUPERJ. luizim@yahoo.com

11.9.06

POLICIER

Deux enquêteurs, la nostalgie portugaise et une écriture tissée de poésie
Les mots bleus de Francisco José Viegas

LES DEUX EAUX DE LA MER
de Francisco José Viegas
Traduit du portugais
par Séverine Rosset

Éditions Carré Jaune/Albin Michel,
416 p., 18 €.

Voici un de ces livres dont on peut dire qu’on ne l’espérait même plus, un de ces livres lestés, mais d’un alourdissement digne et juste, imposant, d’emblée, tout ce qu’il fallait pour que l’on s’attache – à l’auteur, ses manières d’écriture, ses personnages. C’est la récente collection d’Albin Michel qui nous emballe le tout, un joli Carré Jaune pour de nouveaux horizons vers « toutes les littératures policières, européennes surtout », et ces Deux Eaux de la mer, donc, envoûtantes et si fortement portugaises, de bout en bout et de mot en mot – la traduction proposée par Séverine Rosset est limpide et forte.

Il s’agit bien d’une enquête policière – deux corps sur deux plages, deux pays : Rui Pedro Martin assassiné par balles à Finisterra (Galice, Espagne), et Rita Calado Gomes retrouvée sans vie, simple noyade, sur les galets îliens des Açores. Vivants, ces deux morts furent amants. C’est ici qu’apparaissent, comparses doux de l’auteur, les deux enquêteurs dont les silhouettes uniques façonnent pour beaucoup l’attachement à ce roman (1) :

Filipe Castanheira est inspecteur exilé volontaire sur l’île de Sao Miguel, loin de Lisbonne, sa nostalgie, « ce genre de ville où il n’y a pas de place pour les souvenirs de ceux qui ne l’aimeraient pas ». Son ami et collègue, Jaime Ramos, exerce à Porto. Et c’est à ces deux drôles de bonshommes, trentenaires empreints d’une saudade, cette tristesse si locale qu’ils revendiquent à chaque geste ou choix de vie, à chaque dialogue, à chaque approche de leur métier, c’est à ces deux-là qu’échoit la double enquête. « Il y a une mer infinie qui se brise dans le sillage de la morgue, qui s’engouffre par les fenêtres, une mer infinie dans la voix d’une ville, à cette heure, à toutes les heures… » : la force de Francisco José Viegas est d’avoir réussi un livre qui, entre les lignes éparses du roman policier, n’est que lente, extrêmement lente digression poétique.

Ses deux héros n’avancent que par le doute, les yeux ouverts sur les lignes de fuite brumeuses d’un ciel, du tangent d’un bleu de mer vu d’un avion ; doute sur doute dans leur métier, dans leurs amours – et Isabel, qu’aime Filipe, n’est qu’un nom et n’apparaît qu’en tant que femme évaporée, ingrédient parmi d’autres de cette saudade générale mijotée à petit feu. Car Francisco José Viegas fait, de plus, de ses deux inspecteurs, de doux gourmets : cuisine à longueur de pages, cigares et vins fins. Montalban, Le Carré ne sont pas bien loin, mais, sous leurs auspices, cês Deux Eaux de la mer se referment sur la certitude d’avoir rencontré un univers à part, deux héros, une langue tissée d’îles et de ciels, une écriture solitaire : un auteur.

MICHAËLLE PETIT

(1) Premier volet d’une trilogie, à paraître intégralement chez Albin Michel.

In La Croix

2.9.06

Comunicado da Bulhosa sobre as vendas de livros escolares.
«A Bulhosa foi hoje contactada por alguns jornalistas na sequência de uma queixa, cuja origem não nos foi precisada, de estar a impor “listas” de livros escolares aos seus clientes. Esta acusação, que não tem qualquer base nem faz nenhum sentido, só pode decorrer de um mal entendido no que respeita à venda deste tipo de livros nas nossas livrarias.
A Bulhosa, como de resto acontece desde há anos, só aceita encomendas de livros escolares, seja “em lista” ou por unidade, não os disponibilizando directamente nas livrarias, como acontece com os restantes tipos de livros. É nesse sentido que só aceitamos vender livros escolares “em lista”, tenha ela dois títulos ou dez, qualquer que seja a sua composição.
A regra de só aceitarmos encomendas de livros escolares, e não os vendermos a qualquer momento ao balcão, resulta precisamente da grande variedade de livros escolares existente e, consequentemente, das múltiplas possibilidades de listas recomendadas por cada escola, o que impossibilita conservar em stock, de maneira permanente, todos os títulos.
A isto acresce que a maior parte destes livros têm de ser comprados “a firme” pelas próprias livrarias e que não estão por isso, como os restantes, sujeitos a devolução, o que leva a que seja preciso gerir com grande cuidado a relação entre as nossas compras e a procura pelos clientes dos livros em questão.
Neste sentido, a bulhosa não “impõe” qualquer lista de livros escolares, o que redundaria num prejuízo porque reduziria necessariamente o número de clientes: o que faz é só os disponibilizar por encomenda, prestando um serviço de qualidade que possibilita a sua recolha posterior, seja ela de um só livro ou de uma qualquer “lista”, sem perda de tempo, em qualquer um dos nossos balcões.»

11.8.06

Ficar de fora?
Vasco Pulido Valente

Ontem a polícia inglesa impediu um atentado, que teria morto centenas de pessoas, que viajavam inocentemente de Inglaterra para a América. A ideia era fazer explodir em voo um número ainda indeterminado de aviões. Foram presos 21 indivíduos, mas com certeza escaparam alguns. Para começar, é bom perceber que uma operação desta envergadura não se improvisa. Exige um conhecimento técnico avançado, liberdade de movimentos, muito dinheiro e uma extensa rede de cumplicidades. Mais do que isso, precisa para se desenvolver de uma atmosfera favorável. O Ocidente, no caso a Inglaterra, oferece tudo isto aos terroristas. Respeita o seu direito à cidadania, protege a propagação de uma doutrina de intolerância e ódio e não pune, como devia, o incitamento à violência. Não estamos perante vítimas sem defesa de uma "globalização" cruel. Estamos perante gente sofisticada, que o Ocidente educou e deixou crescer.
O fracasso da invasão do Iraque provocou, naturalmente, uma contra-ofensiva xiita. No próprio Iraque, no Irão e no Líbano, essa ofensiva paralisou o Ocidente e forçou Israel a intervir. A farsa das negociações, com a França ou sem a França, presume que a guerra com o Hezbollah pode ser localizada e contida. Não pode. Por um lado, qualquer trégua ou interposição internacional só favorece o Hezbollah, que terá tempo de recuperar e continuará fatalmente a receber armas. E, por outro, o mundo muçulmano não vai ignorar a manifesta fraqueza política e militar da Inglaterra e da América. No Afeganistão os taliban voltaram. A boa-vontade do Paquistão arrefeceu. Há sinais de confluência do terrorismo xiita e do terrorismo sunita. E o ataque, planeado em Londres, mostra até onde o islão se dispõe a ir.
Infelizmente, o homem médio da Europa e mesmo da América não acredita na realidade de um islão agressivo. A tese oficial da "minoria extremista", que a grande e virtuosa maioria muçulmana condena, encoraja a complacência e o desinteresse. Tirando o preço da gasolina, quem se importa com as querelas do Médio Oriente e do Afeganistão ou com o que dizem e não dizem em Hamburgo ou em Londres clérigos furibundos, de turbante e barba? Mas, desta vez, não basta não ver e não ouvir. O Ocidente perdeu a iniciativa e os foguetões do Hezbollah, que chegam a Haifa, também chegam a Inglaterra em forma de bomba. Não há maneira de ficar de fora.
Um mundo enlouquecido
José Miguel Júdice

O mundo está cada vez mais louco, o que não significa - infelizmente - que esteja a ter cada vez mais graça. Os exemplos abundam e muitos deles são bem mais sintomáticos e graves do que o caso que vos trago para leitura de férias. Mas, por vezes, vale a pena usar para reflexão situações menos relevantes, pois desse modo a ilustração desejada passa com mais facilidade.
Somerset Maugham escreveu um dia, provocatoriamente - pois eram tempos de acesa dominância da teoria da luta de classes como explicação para a evolução histórica -, que a grande divisão da humanidade era entre os que tomavam e os que não tomavam banho matinal. Se escrevesse no nosso tempo, provavelmente afirmaria que a grande tensão é entre os fumadores e os não fumadores. Ou melhor, entre fanáticos que transformam o tabaco na razão de todos os males e os que ousam exercer a sua liberdade saboreando um cigarro ou um charuto.
Aflorações deste fanatismo fundamentalista surgem regularmente. As mais recentes são, curiosamente, contraditórias. No famoso e iconoclasta Fringe Festival de Teatro de Edimburgo, uma peça centrada em Winston Churchill teve de ser representada sem o conhecido e icónico charuto, por causa de uma lei que impede que se fume em lugares públicos. Mas, por outro lado, a Comissão Europeia veio afirmar que é "uma discriminação ilegítima, politicamente inaceitável" que empresas recusem empregar quem tenha o hábito ou o gosto de fumar.
Tudo isto me parece supinamente ridículo e disparatado. Não sou fumador; mas, como disse a outro propósito Kennedy ("Ich bin ein Berliner"), eu sinto-me fumador de cada vez que uma lei estúpida impede a natural fruição do que é assumido como um prazer ou, pelo menos, uma decisão individual. Eu sei que a liberdade de cada um deve terminar onde começa a liberdade dos outros; por isso, concordo que se não possa fumar em aviões, por exemplo. Por isso, aceito com naturalidade que em espectáculos teatrais a assistência não deva fumar, comer, ter relações sexuais (ou simulá-las...), beber cerveja, cantar, agredir os vizinhos, berrar.
O absurdo é que todos esses actos, que os espectadores não devem fazer, são praticados - quando o enredo o justifica - pelos actores em cena. Excepto fumar, ficou agora a saber-se. Não se pode fumar em cena, mesmo que assim se destrua toda a coerência artística da peça, a simbologia do personagem, a lógica imanente ao enredo. Para mim, isto é pura e simplesmente censura. E se hoje é o tabaco, amanhã com a mesma lógica pode ser qualquer coisa que desagrade a quem mande. Podemos acabar a aturar uma lei que impeça actores e actrizes de representar com indumentárias reduzidas, dizendo certas palavras, exprimindo ideias ou sentimentos proibidos. E desse modo se destroem séculos de luta pela liberdade da criação artística!
O disparate é ainda maior se trouxermos à colação a outra história, que felizmente - pelo menos por agora - acabou bem. Realmente, não se consegue entender como é possível proibir Mel Smith de interpretar Churchill fumando um charuto e se não permite que seja recusado emprego a quem fume. O argumento subjacente a este tipo de insensatas proibições é a saúde pública (quem fuma terá mais probabilidade de adoecer), a publicidade (se não se autorizar a publicidade do tabaco o consumo diminuirá) e o incómodo causado aos que não fumam.
Estes intenções e argumentos - cuja razoabilidade ou rigor não é aqui o local nem o momento para discutir - podem ser concretizados de formas ponderadas e equilibradas: pela pedagogia das entidades públicas, pelas restrições ou regras limitativas à publicidade, pela criação de espaços reservados para fumadores. O que estou a estigmatizar não é, portanto, a existência de regras que ninguém com sensatez rejeita. Do que se trata é atacar os que pretendem levar tais regras a extremos absurdos e desnecessários, em nome da "political correctness", desse modo se lesando direitos como são o direito à cultura, à verdade histórica e ao emprego. Mas, se o fundamentalismo tiver de triunfar, sempre será possível dizer que é menos lógico e adequado proibir um charuto na peça Allegiance, Winston Churchill and Michael Collins do que seria permitir não contratar um fumador por esse "horrível" motivo.
Mas o que tudo isto tem de mais preocupante é que as sociedades modernas - que legislam de forma tenaz e radical contra o tabaco e incomodam pacíficos fumadores - convivem tranquilamente com a extrema miséria, com as mais abjectas e sanguinárias ditaduras, com a mutilação dos órgãos genitais de mulheres, com chacinas em massa de populações, com doenças endémicas como a malária a que não destinam recursos e que dizimam populações inteiras, com penas degradantes e desumanas como as que ainda se aplicam em certos países muçulmanos, como a pena de morte.
Por isso é que concluo que o mundo está louco. Como uma vez disse o meu saudoso amigo Francisco Lucas Pires, um avião fez uns disparos sobre um quartel e como resposta nacionalizaram a banca. Esta tendência para a insensatez e para o totalitarismo do pensamento único continua a crescer e temo que não fique por aqui. Hoje é o tabaco, amanhã será qualquer outra coisa. E, sempre, serão coisas muito menos merecedoras de intervenção dos Estados e de coragem de punir do que são os exemplos que atrás referi, podendo seguramente apresentar muitos mais.
O que afinal significa tão-somente que a matriz das sociedades modernas passa pela criação de temas tolos que são hipostasiados e servem para simular poder e energia, e também para com isso evitar mostrar poder e energia (e já agora coragem) para ser radical e exigente em relação aos verdadeiros horrores do nosso tempo. Vamos indo assim. Mas vamos em direcção a um abismo.

24.6.06

PRÉMIO DE ROMANCE E NOVELA

ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ESCRITORES


Discurso


Gostaria de agradecer este prémio ao júri que mo concedeu, à Associação Portuguesa de Escritores, que o organiza anualmente, e, claro, às entidades que colaboraram com a APE e o tornam possível.
Já referi antes que nunca pensei recebê-lo e que foi uma surpresa a sua atribuição. Estas palavras podem confundir-se com pura imodéstia disfarçada de desprendimento, mas quem me conhece sabe que são verdadeiras e que a surpresa também o foi. Por isso, a alegria em estar aqui é maior e até mais profunda. As minhas palavras nesta circunstância apenas podem ser de gratidão e de um certo enlevo – e de vaidade, naturalmente, porque somos humanos e devemos viver, ainda que com intensidades diferentes, cada distinção e cada desaire. Distinções e desaires compõem a vida de todos – se bem que, no caso de quem escreve, o desaire deva ser entendido como um livro que não resultou e uma distinção deva ser vista como o reconhecimento pelo trabalho realizado.
Estas designações são sempre subjectivas. Cada um sabe e conhece os caminhos do seu trabalho. Cada um conhece as penumbras e as ilusões que o guiam. Cada um, cada autor, conhece o seu próprio caminho melhor do que ninguém e, por mais que tentemos escrever ou falar sobre o método, as alegrias e as dificuldades do nosso trabalho, há sempre aspectos que não conseguimos traduzir ou descrever. Podemos falar deles, claro, e falar deles com absoluta sinceridade – mas, com alguma probabilidade, não acreditariam inteiramente.
Eu escrevo histórias. De alguma maneira, imagino histórias que me comovem e que gostaria que comovessem os meus leitores. Se há alguma definição, em teoria da literatura, para o género de romance que eu gosto de escrever, acredito que seria essa. E que a frase decisiva seria essa também: “Eu escrevo histórias.” Acho que escrevo histórias porque gosto de ler as histórias dos livros dos autores que aprendi a amar desde a infância e a adolescência. Algumas delas duram mais na memória e, também aí, os factores que levam uma história a permanecer na nossa memória são também subjectivos. Podemos tentar explicá-los, mas há sempre qualquer coisa que sobrevive numa leitura – e que não conseguimos descrever. Por isso, uma das palavras de que mais gosto é “poeira”. A poeira das estradas no meio da floresta. A poeira dos caminhos. A poeira do deserto. A poeira do céu, aquela nuvem que atravessa a geografia de todos os lugares onde estivemos. A poeira, enfim.
Eu escrevo histórias, portanto, e gosto da palavra “poeira”. Tal como gosto da palavra “perturbação”. Da palavra “paisagem”, da palavra “lugar”.
Talvez por isso, por eu gostar de escrever histórias que algum dia me comoveram, não posso falar em nome dos outros nem acho que o trabalho do escritor, seja ele contador de histórias ou não, deva ser realizado em nome de outra coisa senão da alegria de escrever e, por interpostas pessoas, da alegria de ler.
Escrevo histórias porque não acredito num mundo sem história, sem memória e sem perturbação. A história e a memória mostram-nos que vivemos com os outros e que são os outros que justificam todas as narrativas; sem os outros não teríamos ninguém para contar histórias, não teríamos ninguém para ouvir as nossas histórias, ou seja, não teríamos com quem viver. A perturbação, por seu lado, ensina-nos que a pequena verdade de cada um, a pequena verdade dos outros, pode pôr em causa a nossa verdade absoluta, aquela em que acreditamos.
No meu caso, os outros, além dos meus leitores, dos meus filhos, dos meus pais, dos meus amigos mais chegados, os outros são os meus personagens. Comecei este breve discurso agradecendo o prémio. Terei de agradecer também aos meus personagens, aos personagens dos meus livros. Sem eles eu não teria conseguido escrever nem contar histórias, nem ter vivido os momentos dessa estranha e no entanto intensa felicidade que é a de ver que, subitamente, esses personagens já não dependem de mim mas da vida inteira, da vida que vem nos livros. Conheço o inspector Jaime Ramos, o detective de “Longe de Manaus”, há algum tempo. Há cerca de quinze anos que ele vive comigo e que eu conto as suas aventuras. De alguma maneira, como vêem, nem as histórias me pertencem, mas sim aos meus personagens. É verdade que o detective Jaime Ramos só existe porque eu o inventei, ou o criei, ou o escrevi. Mas isso acontece porque ele vive, melhor do que eu, esse mundo de perturbação e de poeira onde situo as minhas histórias. Ele é um homem vulgar e céptico. Talvez um pessimista, até. Tem hábitos vulgares. A sua excepcionalidade, o que para mim se revelou excepcional no seu carácter, foi a sua capacidade de permanecer vulgar, céptico, dedicado, tranquilo, apesar da vida inteira, a sua e a dos outros. Agradeço-lhe ter aceite este papel de personagem dos meus livros. Agradeço aos outros personagens que os habitam: ao inspector açoriano Filipe Castanheira, por exemplo, que não entra neste livro, mas que começou a minha série de histórias policiais. A Daniela e a Helena, de “Longe de Manaus”, por quem me apaixonei. Ao brasileiro de Manaus, Osmar Santos, que me proporcionou muitos momentos de riso. Ao detective Isaltino, a quem admiro a sua modéstia tremenda, de homem humilde. Agradeço à namorada de Jaime Ramos, Rosa, que não me importaria de ter conhecido antes de escrever os seus diálogos. E estou grato, evidentemente, aos lugares que aparecem no livro – o Porto, Trás-os-Montes, o Douro, a Guiné, Cabo Verde, Angola e, naturalmente, o Brasil. Se não existissem esses lugares, não teria podido escrever. Graças a eles viajei bastante.
Mas sobre muitas outras coisas, estou grato à língua que usam os nossos escritores – os nossos, os escritores de língua portuguesa. Este livro tem duas ortografias, a portuguesa e a brasileira, mas serve-se de uma única língua, divertida, dramática, pueril, fantástica, sitiada, brincalhona, empertigada, humilde, e dividida por vários continentes onde já não depende de nós, portugueses, mas de todos os que a falam independentemente de nós – e essa é a sua melhor promessa, a nossa melhor herança. É por ela que falam os nossos mestres, de Luís de Camões e Fernão Mendes Pinto a Machado de Assis, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Cesário Verde ou Fernando Pessoa. Eu acho que devemos venerar os mestres e as suas lições, as que atravessam o tempo e sobrevivem às inclinações do mundo, as que vêm de Fernão Lopes a Rubem Fonseca, de Sá de Miranda a Vergílio Ferreira e José Cardoso Pires. Eles são os mestres da nossa língua e a garantia de que ela existe para lá e para além dos dicionários do presente. Se algum dia a escola tiver dúvidas sobre a nossa língua, eles estão aí. Sem eles não poderíamos falar da nossa língua.
Há também um nome que gostaria de referir aqui, o de Miguel Real, autor de “Em Nome da Terra”, um livro notável que foi finalista, comigo, nesta escolha do júri do Prémio APE. Miguel Real é um autor muito raro e de altíssima qualidade, e o seu livro é uma fantástica narrativa sobre uma parte da História de Portugal. Foi das primeiras pessoas a felicitar-me porque ambos sabemos que eu seria também uma das primeiras pessoas, senão a primeira, a felicitá-lo, como já aconteceu de outras vezes.
Não quero terminar a lista de agradecimentos sem mencionar uma pessoa a quem estou ligado por laços muito mais fortes do que a simples relação, digamos, literária. Falo do meu editor Manuel Alberto Valente. Em vários momentos em que o meu pessimismo ultrapassava o do próprio detective Jaime Ramos, o meu editor ensinou-me que vale a pena insistir, persistir, não dormir às vezes, e sobretudo não ceder ao que não devemos ceder. A sua companhia, ao longo destes últimos quinze anos, foi também preciosa e não podia esquecê-lo agora.
Um prémio agradece-se. Ele honra-nos e provavelmente traz-nos alguma responsabilidade acrescida. Agradeço-o, portanto, e sinto-me honrado. A minha única responsabilidade, no entanto, é apenas para com o meu próximo livro, para com a minha próxima história.

[Francisco José Viegas]