1.3.06

VERGÍLIO FERREIRA. Melo/Gouveia, 1916 - Lisboa, 1996

A neve - que virá a ser um dos elementos fundamentais do seu imaginário romanesco - é o pano de fundo da infância e adolescência passadas na zona da Serra da Estrela. Aos dez anos entra no seminário do Fundão, onde esteve seis anos - Manhã Submersa será a catarse dessa estada. Licenciou-se em Filologia Clássica em Coimbra (1940). Na sua vida de professor liceal há dois momentos fundamentais: a sua estada em Évora (1945-1958) - que entrará para o nosso imaginário através de Aparição - e a sua vinda para Lisboa (1959), onde ensinou no Liceu Camões até à sua reforma. A primeira fase do seu percurso romanesco, agora retirada da edição da Obra Completa, enquadra-se no neo-realismo então vigente. Ainda assim, Vagão J (1946) opera já uma pequena "revolução" formal. Mas foi uma revolução sem consequências: o movimento neo-realista passou-lhe ao lado, e o autor, perante a incompreensão da crítica, recuou e só viria a reincidir muito mais tarde. Com Mudança (1949) começa V. F. a conquistar a sua voz própria. Aliás, em maior rigor, dever-se-ia dizer que é a voz própria que começa a conquistar o seu autor. De facto, Mudança estava arquitectado para ser um romance neo-realista exemplar - e em muitos aspectos é-o; mas é também outra coisa, que posteriormente se veio a interpretar como sendo a deslocação do neo-realismo para o existencialismo. Tal deslocação ter-se-lhe-á imposto inconscientemente no processo de escrita, sobretudo no tratamento do tempo e da figura da infância. Na velocidade do tempo que estrutura o romance - e que decorre do modo de representação neo-realista: materialismo histórico e materialismo dialéctico -, a figura da infância, enquanto queda para o passado - e queda tanto mais desamparada quanto esse passado não é apenas uma memória mas sobretudo o sem-fundo que fecha e vela o próprio sentido do nosso trânsito pelo tempo -, a figura da infância introduz a desaceleração que toda a hipótese de um sentido arqueológico introduz. Não significa isso que essa atenção ao mais original solucione os problemas de sentido - ela desloca apenas as coordenadas da procura. Mas com esse movimento transforma-se também o modo de representação. É já de uma forma deliberada que V. F. se distancia do neo-realismo nos romances escritos antes de Aparição (1959) mas só publicados depois deste. Em Apelo da Noite (1963) reivindica-se, face ao homem de acção, o "crime de pensar"; em Cântico Final (1960) é a arte, como encontro de um "mundo original", de um sagrado ou absoluto agnóstico, que se furta a qualquer compromisso ideológico. Mas é Aparição - que juntamente com A Sibila (1953) de Agustina Bessa-Luís funda o romance português contemporâneo - que imporá o seu universo romanesco, seja naquilo a que se chamou, não sem verdade mas com alguma pressa reducionista, o seu existencialismo, seja no seu estilo ensaístico ou filosofante. Tentando descrever a experiência, no limite inenarrável, do aparecimento do eu a si próprio, e circunscrevendo-a dentro de uma problemática decididamente metafísica e existencial, Aparição é o limiar de uma agónica, mas sempre deslumbrada interrogação sobre a condição humana. Estrela Polar (1962) e sobretudo Alegria Breve (1965), onde o pathos da sua escrita atinge o ponto de máxima exacerbação mas também de máxima perfeição, além de aprofundarem e completarem a temática de Aparição, introduzem um experimentalismo que terá larga descendência na nossa ficção. A partir de Nítido Nulo (1972) o tom da sua obra começa a ser matizado pela ironia. É uma ironia que vem daquilo que o desgaste ensina. E o que ele ensina é que toda a verdade se esvazia, toda a evidência se torna opaca, todas as ideias pesam para o lado da morte. O pathos até aí predominante era o tom de quem falava do interior de uma evidência estética, de uma Stimmung umbilical. Nunca em V. F. uma árvore provoca náusea ou uma praia com sol induz um crime absurdo. Se há náusea (mas praticamente não a há) ou absurdo (este sim, mais visível), eles não começam logo na facticidade do mundo mas somente na condição humana em si mesma. O mundo apenas é, experienciá-lo esteticamente é já um limiar de sentido. Daí que os narradores vergilianos se sintam tentados a configurá-lo como uma verdade, existencial e não-sistemática, é certo, mas suficientemente segura para se afirmar contra todas as ideologias. Ora, o que acontece no "niilismo activo" de Nítido Nulo, no seu "morrer tudo", é que o tudo envolve também esta hipótese de verdade que os narradores anteriores utilizavam como escudo no combate cultural. O deslizar insensível da aisthesis para o logos é agora difícil, e sê-lo-á cada vez mais. Por isso os romances se começam a distribuir por dois espaços-tempo: um passado onde decorre o diferendo ideológico-cultural, diferendo não só incomensurável como, em última instância (revelada por aquilo que o desgaste ensina), inútil; e um presente de pura afirmação de ser. O primeiro pólo perderá progressivamente a sua capacidade de engendramento narrativo, o combate que nele se desenrola é apenas o ruído do mundo, não uma alínea de qualquer história teleologicamente configurada - daí a paralisia da história em Signo Sinal (1979). O segundo pólo, impossibilitado agora de funcionar como "fundamento mítico" de uma macro-narrativa, apresenta-se como uma espécie de justaposição de haikus, de nós de revelação que não constroem o "sentido de um final" mas uma litania de apaziguamento, uma pietas para com aquilo que mais primordialmente somos - um sujeito-casa atravessado por tudo o que vem de todos os pontos cardeais, e todavia lateral a essas múltiplas orientações, sempre não-sabendo, como em Para Sempre (1983) ou nas séries de Conta-Corrente (1980 a 1992). É este não-saber que obriga V. F. ao continuar da escrita e faz com que os narradores vergilianos envelheçam como o seu autor. Envelhecer, por exemplo, é passar de filho a pai. De Até ao Fim (1987) a Cartas a Sandra (1996), o narrador, entre outras coisas, é um pai a quem o filho morre. O que morre na morte do filho é aquela força que não suporta a suspensão da história e se auto-destrói na procura da resposta que não há. Poder-se-ia mesmo dizer que a morte do filho é a prova por absurdo de que a lateralidade axiológica em que se coloca o pai não é simplesmente a desistência do cansaço mas a sabedoria da suplementaridade, seja a do puro possível da verdade branca do mar que move Até ao Fim, seja a da ironia dos contrafactuais ontológicos que se experimenta em Na Tua Face (1993). Envelhecer é também passar da despesa do tempo à sua reinvenção no absoluto da memória. Mas esta lição (ou condição) proustiana tem em V. F. as condicionantes contemporâneas de uma sociedade tardo-capitalista, aquela em que a redescrição metafórica do que foi não pode já competir com os meios tecnológicos da representação (cinema, tv, vídeo, etc.), e por isso constrói a afectividade do acontecimento puro: "Não bem o seu corpo esbelto como um voo de ave, mas só esse voo. Não bem a sua juventude eterna mas a eternidade. Não o gracioso dela mas a graça." (Em Nome da Terra, 1990). Claro que há ainda romance, e até na sua dimensão mais consensual e acidentalmente romanesca, que é a da história de amor. Mas se, na sequência da tradição, também aqui o amor é aquilo que só se sabe depois, diferentemente dela, este depois não é a origem reencontrada mas um frágil presente que se sustenta apenas da escrita do nome amado, como em Cartas a Sandra. Neste presente, que é a perda serena de todas as estórias, desenha-se com nitidez a dificuldade contemporânea do fazer sentido. É dessa crise (de cultura e de civilização), das suas várias alíneas polemizantes (marxismo, estruturalismo, filosofia da linguagem), mas também daquilo que cria a esperança de um depois dela (a arte, os autores que se amam, a insistência do pensamento), que falam os inúmeros ensaios que V. F. também escreveu, com muito particular acerto Carta ao Futuro (1958), Invocação ao Meu Corpo (1969) e Pensar (1992).

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 1997

28.2.06













TEXTOS DE ÁLVARO VARGAS LLOSA SOBRE ERNESTO GUEVARA.

Publicados em Agosto de 2005 no diário La Nación, de Buenos Aires.



EL CHE, CADA VEZ MÁS MITO Y MENOS REALIDAD

El Che Guevara, que hizo tanto (¿o fue tan poco?) por destruir el capitalismo, se ha convertido ahora en una marca quintaesencialmente capitalista. Su imagen adorna jarros de café, encendedores, llaveros, billeteras, gorras de béisbol, sombreros, pañuelos, musculosas, bolsos, jeans, té de hierbas y, por supuesto, las omnipresentes remeras con la foto, tomada por Alberto Korda, del ídolo socialista con su boina durante los primeros años de la revolución, cuando el Che apareció por casualidad dentro del visor del fotógrafo y que aún es, 38 años después de su muerte, el logo del chic revolucionario (¿o es capitalista?). Incluso hay un jabón en polvo cuyo eslogan es: “Che lava más blanco.”
Los productos Che están comercializados por grandes corporaciones y por empresas pequeñas, como la Burlington Coat Factory, que hizo una publicidad de TV en la que aparece un joven con pantalones de fajina y una remera del Che, o la Boutique Flamingo, de Union City, Nueva Jersey, cuyo dueño respondió al enojo de los exiliados cubanos locales con este devastador argumento: "Vendo cualquier cosa que la gente quiera comprar."
Los revolucionarios también se suman a este furor comercial, desde "The Che Store", que ofrece "todas tus necesidades revolucionarias" por Internet, hasta el escritor italiano Gianni Minà, quien vendió a Robert Redford los derechos cinematográficos del diario del Che sobre su viaje juvenil por Sudamérica en 1952, a cambio de que se le diera acceso al rodaje del film "Diarios de motocicleta", para que Minà pudiera producir su propio documental.
Por no hablar de Alberto Granado, quien acompañó al Che en su viaje de juventud y asesora hoy a documentalistas, y que ahora, según El País, se queja de que el embargo estadounidense a Cuba le dificulta mucho el cobro de sus regalías.
Para dar aún más fuerza a la ironía, el edificio donde nació Guevara, en Rosario, una espléndida construcción de principios del siglo XX, estuvo hasta hace poco ocupado por el fondo de jubilaciones privadas AFJP Máxima, un hijo de la privatización de la seguridad social en la Argentina.
La metamorfosis del Che Guevara en una marca capitalista no es nueva, pero recientemente ha experimentado una reactivación? Una reactivación especialmente notable, ya que aparece años después del colapso político e ideológico de todo lo que Guevara representaba.
Esta imprevista reanimación se debe en gran parte a "Diarios de motocicleta", la película producida por Robert Redford y dirigida por Walter Salles (uno de los tres films más importantes rodados o en proceso de filmación durante los últimos dos años).
Bellamente filmada en paisajes que evidentemente han escapado a los efectos corrosivos de la polución capitalista, la película muestra al joven en su viaje de autodescubrimiento, mientras su incipiente conciencia social se enfrenta a la explotación social y económica, preparando así el terreno para la reinvención New Wave del hombre al que Sartre una vez llamó el ser humano más completo de nuestra época.
Pero para ser más preciso, el actual renacimiento del Che empezó en 1997, con el trigésimo aniversario de su muerte, cuando cinco biografías de Guevara llegaron a las librerías y se descubrieron sus restos mortales cerca de una pista de aterrizaje del aeropuerto boliviano de Vallegrande, después de que un general retirado boliviano, con un espectacular sentido de la oportunidad, revelara el lugar exacto de la sepultura. El aniversario volvió a concentrar la atención en la famosa foto de Freddy Alborta, donde el cadáver del Che se ve tendido sobre una mesa, escorzado y muerto y romántico, con la apariencia del Cristo en una pintura de Mantegna.

"No sé por qué"

Es habitual que los seguidores de un culto no conozcan la historia de la vida real de su héroe, la verdad histórica. No resulta sorprendente que los seguidores contemporáneos de Guevara, sus admiradores poscomunistas, también se engañen a sí mismos aferrándose a un mito? Excepto los jóvenes argentinos que han creado una expresión que rima perfectamente en castellano: "Tengo una remera del Che y no sé por qué."
Consideremos algunas de las personas que recientemente han esgrimido o invocado la imagen de Guevara como modelo de justicia y rebelión ante el abuso de poder. En el Líbano, los manifestantes que protestaban contra Siria ante la tumba del ex primer ministro Rafik Hariri enarbolaban la imagen del Che.
Thierry Henry, un jugador de fútbol francés que juega para Arsenal, en Inglaterra, se presentó en una fiesta de gala organizada por la FIFA, la institución mundial del fútbol, con una remera roja y negra con la imagen del Che.
En una reseña reciente aparecida en The New York Times, sobre "Land of the Dead", de George Romero, Manohla Dargis señaló que "el mayor shock que esto provoca probablemente sea la transformación de un zombi negro en un justo líder revolucionario" y agregó: "Supongo que, después de todo, el Che realmente vive".
Maradona exhibió el emblemático tatuaje del Che en su brazo derecho durante un viaje a Venezuela, donde se reunió con Hugo Chávez.
En Stavropol, en el sur de Rusia, los manifestantes que denunciaban pagos en efectivo a cambio de concesiones de asistencia social, tomaron la plaza central enarbolando estandartes del Che.
En San Francisco, City Lights Books, la legendaria cuna de la literatura beat, ofrece a sus visitantes una sección dedicada a América latina en la que la mitad de los estantes están ocupados por libros del Che.
José Luis Montoya, un oficial de la policía mexicana que combate el narcotráfico, usa una muñequera del Che, porque lo hace sentir más fuerte.
En el campamento de refugiados de Dheisheh, en Cisjordania, los pósteres del Che adornan un muro que rinde tributo a la Intifada.
Una revista dominical dedicada a la vida social en Sydney, Australia, publica la lista de los tres invitados más deseados para una cena: Alvar Aalto, Richard Branson y el Che Guevara. Leung Kwok-hung, el rebelde electo como miembro del Consejo Legislativo de Hong Kong, desafía a Pekín usando una remera del Che. En Brasil, Frei Betto, el asesor del presidente Lula da Silva que está a cargo del publicitado programa Hambre Cero, dice que "deberíamos haberle prestado menos atención a Trotsky y mucha más al Che Guevara".
Y en la ceremonia de los premios Oscar de este año, Carlos Santana y Antonio Banderas interpretaron la canción de "Diarios de motocicleta", y Santana se presentó luciendo la remera del Che y un crucifijo.
Las manifestaciones del nuevo culto al Che están en todos lados. Una vez más, el mito provoca el entusiasmo de gente cuyas causas, en su mayoría, representan exactamente lo opuesto a lo que era Guevara.
Ningún hombre carece de cualidades que lo redimen. En el caso del Che Guevara, esas cualidades pueden ayudarnos a medir la magnitud del abismo que separa la realidad del mito. Su honestidad (más bien, su honestidad parcial) hizo que dejara testimonio escrito de sus crueldades, incluyendo cosas verdaderamente feas, pero no las más feas. Su valor -que Castro describió como "su manera, en cada momento difícil y peligroso, de hacer las cosas más difíciles y peligrosas"- significó que no vivió para hacerse plenamente responsable del infierno de Cuba.
El mito puede decirnos tanto sobre una época como la verdad. Y, por eso, gracias a los testimonios del propio Che acerca de sus ideas y sus acciones, y gracias también a su prematura desaparición, podemos saber exactamente cuán engañados están tantos de nuestros contemporáneos con respecto a tantas cosas.

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EL CHE GUEVARA: UNA VIOLENTA, SELECTIVA Y FRÍA MÁQUINA DE MATAR

Ordenó ejecutar a decenas de personas

Es posible que el Che Guevara haya estado enamorado de su propia muerte, pero mucho más enamorado estaba de la muerte de los demás. En abril de 1967 resumió su idea homicida de justicia en su "Mensaje a la Tricontinental": "El odio como factor de lucha; el odio intransigente al enemigo, que impulsa más allá de las limitaciones del ser humano y lo convierte en una efectiva, violenta, selectiva y fría máquina de matar".

Sus escritos anteriores también están condimentados con esta violencia retórica e ideológica. Aunque su ex novia Chichita Ferreira dude de que la versión original de sus diarios de viaje contengan la observación "siento que mi nariz se dilata saboreando el olor acre de la pólvora y la sangre del enemigo", Guevara compartió con [su compañero en aquella aventura Alberto] Granado esta exclamación: "¿Revolución sin disparar ni un tiro? Estás loco".

En otros momentos los jóvenes bohemios parecían incapaces de distinguir entre la frivolidad de la muerte como espectáculo y la tragedia de las víctimas de una revolución. En una carta a su madre, de 1954, escrita en Guatemala, donde fue testigo del derrocamiento del gobierno revolucionario de Jacobo Arbenz, escribió: "Aquí estuvo muy divertido con tiros, bombardeos, discursos y otros matices que cortaron la monotonía en que vivía".

La disposición anímica de Guevara cuando viajó con Fidel Castro desde México hacia Cuba a bordo del Granma queda plasmada en una carta a su esposa escrita en 1957 y publicada en el libro Ernesto: Una memoria del Che Guevara en Sierra Maestra: "Estoy en la manigua cubana, vivo y sediento de sangre".

Esa mentalidad había sido reforzada por su convicción de que Arbenz había perdido por no haber ejecutado a sus potenciales enemigos. En una carta dirigida a su ex novia Tita Infante había observado: "Si se hubieran producido esos fusilamientos, el gobierno hubiera conservado la posibilidad de devolver los golpes".

No sorprende que durante la lucha armada contra Batista, y luego de la entrada a La Habana, Guevara matara o supervisara la ejecución, con juicio sumario, de decenas de enemigos del pueblo comprobados, sospechosos y de todos aquellos que se encontraban en el lugar equivocado en el momento equivocado.

En enero de 1957, como lo indica su diario de Sierra Maestra, Guevara mató a Eutimio Guerra porque sospechaba que estaba pasando información: "Acabé con el problema dándole un tiro con una pistola del calibre 32 en la sien derecha? Sus pertenencias pasaron a mi poder". Más tarde mató a Aristidio, un campesino que expresó el deseo de abandonar la causa cuando los rebeldes siguieron avanzando. Aunque se preguntó si esta víctima "era de verdad suficientemente culpable como para merecer la muerte", no tuvo reparos para ordenar la muerte de Echavarría, hermano de uno de sus camaradas, a causa de crímenes no especificados: "Tenía que pagar el precio". En otros momentos simuló ejecuciones sin llevarlas a cabo, como método de tortura psicológica.

"Ante la duda, mátalo"

Luis Guardia y Pedro Corzo, dos investigadores de Florida que trabajan en un documental sobre Guevara, han conseguido el testimonio de Jaime Costa Vázquez, un ex comandante del ejército revolucionario conocido como "El Catalán", que sostiene que muchas de las ejecuciones atribuidas a Ramiro Valdés, quien más tarde se convertiría en ministro del Interior de Cuba, fueron responsabilidad directa de Guevara, porque Valdés estaba bajo sus órdenes en las montañas. "Ante la duda, mátalo" eran las instrucciones del Che.

Según Costa, en vísperas de la victoria, el Che ordenó la ejecución de dos decenas de personas en Santa Clara, en el centro de Cuba, adonde había llegado su columna como parte del ataque final sobre la isla. Algunos fueron fusilados en un hotel, tal como ha escrito Marcelo Fernández Sayas, otro ex revolucionario que se hizo periodista, y quien agregó que entre los ejecutados había campesinos que se habían unido al ejército sólo para escapar al desempleo.

Pero "la fría máquina de matar" no manifestó todo el alcance de su rigor hasta que, inmediatamente después de la caída del régimen de Batista, Castro lo puso a cargo de la cárcel de La Cabaña. Era una fortaleza de piedra usada para defender a La Habana de los piratas ingleses en el siglo XVIII; más tarde se convirtió en una barraca militar. De una manera que recuerda de forma escalofriante a Lavrenti Beria, Guevara fue responsable, durante la primera mitad de 1959, de uno de los períodos más oscuros de la revolución.

José Vilasuso, abogado y profesor de la Universidad Interamericana de Bayamón, en Puerto Rico, quien perteneció al cuerpo que estaba a cargo de los procesos judiciales sumarios en La Cabaña, me contó: "El Che dirigió la Comisión Depuradora. El proceso se regía por la ley de la sierra: tribunal militar de hecho y no jurídico, y el Che nos recomendaba actuar con convicción. Es decir, con la convicción de que todos eran asesinos y de que la forma revolucionaria de proceder era ser implacables. Miguel Duque Estrada era mi jefe inmediato. Mi función era legalizar profesionalmente la causa y pasarla al ministerio fiscal, sin juicio propio alguno. Se fusilaba de lunes a viernes. Las ejecuciones se llevaban a cabo de madrugada, poco después de que la sentencia fuera dictada y confirmada en forma automática por el cuerpo de apelación. La noche más siniestra que recuerdo se ejecutaron siete hombres".

Sin excepciones

Javier Arzuaga, el capellán vasco que daba consuelo a los sentenciados a muerte y que presenció docenas de ejecuciones, habló conmigo desde su hogar en Puerto Rico. Ex sacerdote católico, ahora de 75 años, recordó que en la cárcel de La Cabaña "había 800 hombres hacinados en un espacio pensado para no más de 300: militares batistianos o miembros de algunos de los cuerpos de la policía, periodistas, empresarios o comerciantes".

"El juez no tenía por qué ser hombre de leyes; sí, en cambio, pertenecer al ejército rebelde, al igual que los compañeros que ocupaban con él la mesa del tribunal. Casi todas las vistas de apelación estuvieron presididas por el Che Guevara. No recuerdo ningún caso cuya sentencia fuera revocada en esas vistas. Todos los días yo visitaba la «galera de la muerte», donde permanecían los prisioneros desde que eran sentenciados a muerte. Corrió la voz de que yo hipnotizaba a los condenados antes de salir para el paredón y que por eso se daban tan fáciles las cosas, sin escenas desagradables, y el Che Guevara ordenó que nadie fuera conducido al paredón sin que yo estuviera presente. Asistí a 55 fusilamientos hasta el mes de mayo, cuando me fui. Eso no quiere decir que no se siguiera fusilando. Herman Marks era un americano, se decía que era prófugo de la Justicia. Lo llamábamos «el carnicero» porque gozaba gritando «pelotón, atención, preparen, apunten, fuego».

"Conversé varias veces con el Che para interceder por determinadas personas. Recuerdo bien el caso de Ariel Lima, que era menor de edad, pero fue inflexible. Lo mismo puedo decir de Fidel Castro, a quien acudí también en dos ocasiones. Yo estaba muy traumatizado y a fines de mayo me sentía tan mal que me ordenaron abandonar la parroquia de Casa Blanca, dentro de cuyos límites se encontraba La Cabaña y donde yo había celebrado misa en los últimos tres años. Me fui a México para un tratamiento. Cuando nos despedimos, el Che Guevara me dijo: «Hemos fracasado los dos. Cuando nos quitemos las caretas, seremos enemigos frente a frente»."

¿Cuántas personas fueron asesinadas en La Cabaña? Pedro Corzo calcula que alrededor de 200 personas, cifra similar a la que da Armando Lago, un profesor de economía retirado que compiló una lista de 179 nombres como parte de un estudio de ocho años de duración sobre las ejecuciones en Cuba. Vilasuso me dijo que fueron ejecutadas 400 personas entre enero y fines de junio de 1959 (momento en el que el Che dejó de estar a cargo de La Cabaña). Los cables secretos enviados por la embajada estadounidense en La Habana al Departamento de Estado en Washington hablaban de "más de 500".

Según Jorge Castañeda, uno de los biógrafos de Guevara, un vasco católico simpatizante de la revolución, el fallecido padre Iñaki de Aspiazu, habló de 700 víctimas. Félix Rodríguez, un agente de la CIA que fue miembro del equipo que estuvo a cargo de la búsqueda y persecución de Guevara en Bolivia, me dijo que, tras la captura, interrogó a Guevara acerca de las "más o menos 2000 ejecuciones" de las que había sido responsable durante su vida. "Dijo que eran todos agentes de la CIA y no cuestionó la cifra", recuerda Rodríguez.

El número más alto posiblemente incluye las ejecuciones que se llevaron a cabo durante los meses posteriores al momento en el que el Che dejó de estar a cargo de la prisión. Y eso nos lleva de vuelta a Carlos Santana y su muy chic remera del Che. En una carta publicada en El Nuevo Herald el 31 de marzo de este año, el gran músico de jazz Paquito D´ Rivera criticó a Santana por su atuendo en la entrega de los Oscar, y añadió: "Uno de esos cubanos fue mi primo Bebo, preso allí por ser cristiano. El escuchaba desde su celda los fusilamientos de muchos que morían gritando «¡Viva Cristo Rey!»"

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EL CHE, UN MEGALÓMANO CON ANSIAS DE PODER

Obsesionado por los controles, tuvo un rol clave para transformar a Cuba en un bastión del totalitarismo

El deseo de poder del Che tenía otras maneras de expresarse aparte del asesinato. La contradicción existente entre su pasión por viajar -una manera de protestar contra las restricciones oprimentes del Estado- y su impulso por convertirse él mismo en un Estado opresor resulta patética.
Cuando escribió sobre Pedro de Valdivia, conquistador de Chile, Guevara reflexionaba: "El pertenecía a esa clase singular de hombres que la especie produce rara vez, en quienes el ansia de poder ilimitado es tan extremo que para conseguirlo cualquier sufrimiento parece natural". Podría haberse descripto a sí mismo con esos términos.

En su vida adulta, su megalomanía se manifestó a través del impulso predatorio de apoderarse de la vida y la propiedad de otros, aboliendo así su libre albedrío. En 1958, después de tomar la ciudad de Sancti Spiritus, Guevara intentó, sin éxito, imponer una suerte de sharia, regulando así las relaciones entre hombres y mujeres, el consumo de alcohol y las apuestas informales? un puritanismo que no caracterizaba exactamente a su propio estilo de vida.
También ordenó a sus hombres que robaran bancos, decisión que justificó en una carta dirigida a Enrique Oltuski, uno de sus subordinados, en noviembre de ese año: "Las masas oprimidas aceptan robar los bancos porque no tienen ni una moneda". Esta idea de revolución como una licencia para redistribuir la propiedad tal como a él le parecería adecuado llevó al marxista puritano a apoderarse de la mansión de un emigrante después del triunfo de la revolución.
El impulso de despojar a otros de sus propiedades y a reclamar la propiedad del territorio ajeno fue un elemento central en la cruda política de poder de Guevara. En sus memorias, el líder egipcio Gamal Abdel Nasser registra que Guevara le preguntó cuántas personas habían abandonado su país a causa de las reformas. Cuando Nasser le respondió que no se había ido nadie, el Che replicó, furioso, que la manera de medir la profundidad de un cambio es por medio del número de personas "que sienten que no hay lugar para ellos en la nueva sociedad". Este instinto predatorio alcanzó su punto más alto en 1965, cuando empezó a hablar, como si fuera Dios, del "Hombre Nuevo" que él y su revolución crearían.
La obsesión del Che por el control colectivista lo llevaría a colaborar en la formación del aparato de seguridad que se puso en marcha para sojuzgar a seis millones y medio de cubanos. A principios de 1959, se llevó a cabo una serie de reuniones secretas en Tarará, cerca de La Habana, en la mansión a la que el Che se había retirado temporalmente para recuperarse de una enfermedad. Allí fue donde los dirigentes máximos, incluyendo a Castro, diseñaron el Estado policial cubano.
Ramiro Valdés, subordinado del Che durante la guerra de guerrilla, fue puesto a cargo del G-2, un cuerpo organizado según el modelo de la Cheka. Angel Ciutah, un veterano de la Guerra Civil española enviado a los soviets que había estado muy próximo a Ramón Mercader, el asesino de Trotsky, y que más tarde cultivó la amistad del Che, desempeñó un papel clave en la organización del sistema, junto con Luis Alberto Lavandeira, quien había desempeñado el cargo de supervisor en La Cabaña. El propio Guevara se hizo cargo del G-6, el cuerpo encargado de adoctrinar ideológicamente a las fuerzas armadas.

La oportunidad perfecta

La invasión de Bahía Cochinos, respaldada por Estados Unidos en abril de 1961, se convirtió en la ocasión perfecta para consolidar el nuevo Estado policial, con el arresto de decenas de miles de cubanos y una nueva serie de ejecuciones. Tal como Guevara le dijo al embajador soviético Sergei Kudrivtsev, los contrarrevolucionarios jamás volverían "a alzar la cabeza". "Contrarrevolucionario" es el término que se aplicaba a cualquiera que se apartara del dogma. El sinónimo comunista de "hereje".
Los campos de concentración eran una de las formas que el poder dogmático empleaba para eliminar el disenso. La historia atribuye al general español Valeriano Weyler, capitán general de Cuba a fines del siglo XIX, haber empleado por primera vez el término "concentración" para describir la política de cercar las masas de potenciales opositores con alambres de púas y empalizadas. Qué adecuado resulta que los revolucionarios cubanos retomaran esa tradición autóctona más de medio siglo más tarde.
Al principio, la revolución movilizó voluntarios para construir escuelas y trabajar en puertos, plantaciones y fábricas; exquisitas oportunidades para fotos del Che estibador, el Che recolector de caña, el Che obrero textil. Pero no transcurrió mucho tiempo para que el trabajo voluntario se hiciera un poco menos voluntario: el primer campo de trabajos forzosos, Guanahacabibes, se estableció en el oeste de Cuba a fines de 1960. Así es como el Che explicó la función que cumplía este método de reclusión: "A Guanahacabibes se manda a la gente que no debe ir a la cárcel, la gente que ha cometido faltas a la moral revolucionaria de mayor o menor grado... Es trabajo duro, no trabajo bestial".
Este campo fue el precursor del posterior confinamiento sistemático, que empezó en 1965 en la provincia de Camagüey, de disidentes, homosexuales, católicos, testigos de Jehová, sacerdotes afro-cubanos y otra escoria semejante, bajo el estandarte de las Unidades Militares de Ayuda a la Producción. Apiñados en ómnibus y camiones, los "ineptos" eran transportados a punta de pistola a los campos de concentración organizados según el modelo de Guanahacabibes. Algunos nunca regresarían, otros serían violados, golpeados o mutilados; y casi todos quedarían traumatizados de por vida, tal como lo reveló al mundo un par de décadas atrás el desgarrador documental de Néstor Almendros, Improper Conduct.
Así, la revista Time tal vez no dio del todo en el blanco en agosto de 1960, al describir la división del trabajo de la revolución en una nota de tapa que asignaba al Che Guevara la función de "cerebro" y a Fidel Castro el "corazón" y a Raúl Castro el "puño". Pero esa interpretación reflejaba el rol crucial desempeñado por Guevara en la transformación de Cuba en un bastión del totalitarismo.
El Che era un candidato improbable a la pureza ideológica, dado su espíritu bohemio, pero durante los años de entrenamiento en México y el siguiente período de lucha armada en Cuba emergió como el ideólogo comunista infatuado con la Unión Soviética, para gran incomodidad de Castro y de otros que eran esencialmente oportunistas dispuestos a usar los medios que fueran necesarios para llegar al poder. Cuando los revolucionarios en ciernes fueron arrestados en México en 1956, Guevara fue el único que admitió que era comunista y que estaba estudiando ruso. Durante la lucha armada en Cuba, forjó una fuerte alianza con el Partido Socialista Popular (el partido comunista de la isla) y con Carlos Rafael Rodríguez, un elemento clave de la conversión al comunismo del régimen de Castro. Esta tendencia al fanatismo convirtió al Che en un eje vital de la "sovietización" de esa revolución que tantas veces se había jactado de su carácter independiente.

Al borde de la guerra

Muy pronto después de que los barbudos llegaron al poder, Guevara tomó parte de las negociaciones con Anastas Mikoyan, el viceprimer ministro soviético que visitó Cuba. Se le confió la misión de promover las negociaciones cubano-soviéticas durante una visita a Moscú a fines de 1960. Su segundo viaje a Rusia, en agosto de 1962, fue aún más significativo, porque selló el pacto que convertiría a Cuba en una cabeza de playa nuclear soviética. Se reunió con Khrushchev en Yalta para ultimar detalles de una operación que ya se había iniciado y que involucraba la instalación de cuarenta y dos misiles soviéticos, la mitad de los cuales estaban equipados con cabezas nucleares, así como lanzamisiles y 42 mil soldados. Tras presionar a sus aliados soviéticos con el riesgo de que los Estados Unidos se enteraran de lo que estaba ocurriendo, Guevara consiguió que le garantizaran la intervención de la marina soviética? En otras palabras, que Moscú estaba dispuesto a ir a la guerra.
Según la biografía de Guevara escrita por Philippe Gavi, el revolucionario había alardeado de que "por defender sus principios, este país está dispuesto a arriesgarlo todo en una guerra atómica inimaginablemente destructiva".
Inmediatamente después de que terminó la crisis misilística cubana -cuando Khrushchev renegó de la promesa hecha en Yalta y negoció un acuerdo con Estados Unidos a espaldas de Castro, que incluía el retiro de los misiles estadounidenses de Turquía-, Guevara le dijo a un diario comunista británico: "Si los misiles hubieran permanecido en Cuba, los hubiéramos usado, dirigiéndolos hacia el corazón mismo de los Estados Unidos, incluyendo Nueva York, para defendernos de la agresión". Y un par de años más tarde, en las Naciones Unidas, fue fiel a sus principios: "Como marxistas, hemos mantenido que la coexistencia pacífica entre naciones no incluye la coexistencia entre explotadores y explotados".
Guevara se distanció de la Unión Soviética en los últimos años de su vida. Lo hizo por razones erróneas, acusando a Moscú de ser demasiado blanda ideológica y diplomáticamente, por hacer demasiadas concesiones. En octubre de 1964, un memorando escrito por Oleg Daroussenkov, un funcionario soviético cercano al Che, cita estas palabras de Guevara: "Pedimos armas a los checos; nos rechazaron. Después se las pedimos a los chinos; dijeron que sí pocos días después, y ni siquiera nos cobraron, diciendo que no se le venden armas a un amigo". En realidad, Guevara estaba resentido por el hecho de que Moscú les pedía a los otros miembros del bloque comunista, incluyendo Cuba, algo a cambio de la colosal ayuda y el respaldo político que les prestaba.
Su ataque final contra Moscú se produjo en Argel, en febrero de 1965, en una conferencia internacional, donde acusó a los soviéticos de haber adoptado la "ley del valor", es decir, el capitalismo. Su ruptura con los soviéticos, en suma, no fue un grito de libertad. Fue un aullido al estilo de Enver Hoxha exigiendo la subordinación total de la realidad a una ciega ortodoxia ideológica.

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EL CHE, ANTÍTESIS BRUTAL DE ALBERDI

El gran revolucionario tuvo una posibilidad de poner en práctica su visión económica -su idea de justicia social- como director del Banco Nacional de Cuba y del Departamento de Industria del Instituto Nacional de Reforma Agraria a fines de 1959, y desde principios de 1961, como ministro de Industria. El período en el que Guevara estuvo a cargo de casi toda la economía cubana fue testigo del colapso casi total de la producción azucarera, el fracaso de la industrialización y la introducción del racionamiento en el que había sido uno de los cuatro países latinoamericanos más exitosos en el terreno económico desde antes de la dictadura de Batista.
Su período al frente del Banco Nacional, durante el que imprimió billetes firmados "Che", ha sido resumido así por su segundo, Ernesto Betancourt: "Encontré en el Che una ignorancia absoluta de los principios más elementales de la economía". La capacidad de percepción de Guevara con respecto a la economía mundial fue célebremente expresada en 1961, durante una conferencia hemisférica en Uruguay, donde predijo un crecimiento del 10% en Cuba "sin ningún temor", y para 1980, un ingreso per cápita mayor que el de "Estados Unidos hoy". De hecho, para 1997, el trigésimo aniversario de su muerte, los cubanos vivían con una dieta de dos kilos de arroz y medio kilo de porotos por mes, 120 gramos de carne dos veces al año, 120 gramos de pasta de soja por semana y cuatro huevos por mes.
La reforma agraria les quitó la tierra a los ricos, pero se la dio a los burócratas, no a los campesinos. (El decreto fue redactado en la casa del Che.) En nombre de la diversificación, el área cultivada se redujo, y la mano de obra fue derivada a otras actividades. El resultado fue que entre 1961 y 1963, la cosecha se redujo a la mitad, apenas 3,8 millones de toneladas métricas. ¿Este sacrificio fue justificado por el progreso de la industrialización en Cuba? Desafortunadamente, Cuba no disponía de materias primas para la industria pesada y, como consecuencia de la redistribución revolucionaria, no tenía una moneda sólida para comprarlas? y tampoco tenía siquiera productos básicos.
Para 1961, Guevara tenía que dar incómodas explicaciones a los funcionarios del gobierno: "Nuestros camaradas técnicos de las empresas han fabricado una pasta dentífrica? que es tan buena como la anterior, limpia lo mismo, aunque al cabo de un tiempo se convierte en piedra".
Para 1963, se abandonaron todas las esperanzas de industrializar Cuba, y la revolución aceptó su rol de abastecedor colonial de azúcar del bloque soviético a cambio de petróleo para cubrir sus necesidades y revender a otros países. Durante las tres décadas siguientes, Cuba sobreviviría gracias a un subsidio soviético que oscilaba entre unos 65.000 y 100.000 millones de dólares.
Tras haber fracasado como héroe de la justicia social, ¿Guevara se merece un lugar en los libros de historia como genio de la guerra de guerrillas? Su mayor logro militar en la lucha contra Batista -la captura de la ciudad de Santa Clara después de haber emboscado un tren cargado de refuerzos- ha sido seriamente cuestionado. Numerosos testimonios indican que el comandante del tren se rindió de antemano, tal vez después de aceptar un soborno.
Inmediatamente después del triunfo de la revolución, Guevara organizó ejércitos guerrilleros en Nicaragua, la República Dominicana, Panamá y Haití, todos los cuales fueron aplastados. En 1964, envió a la muerte al revolucionario argentino Jorge Ricardo Masetti, convenciéndolo de que debía lanzar un ataque contra su país natal desde Bolivia, justo en el momento en que se había restaurado en la Argentina la democracia representativa.
Particularmente desastrosa fue la expedición al Congo en 1965. Guevara apoyó a dos rebeldes -Pierre Mulele en el Oeste y Laurent Kabila en el Este- en su lucha contra el perverso gobierno congoleño, apoyado por Estados Unidos, así como por mercenarios sudafricanos y exiliados cubanos. Guevara pasó la mayor parte de 1965 ayudando a los rebeldes en el Este, antes de abandonar el país ignominiosamente. Luego, muy pronto, Mobutu llegó al poder e instaló una tiranía que duró décadas.

Desastre en Bolivia

En Bolivia, el Che fue derrotado nuevamente, y por última vez. Interpretó erróneamente la situación local. La reforma agraria se había realizado años atrás, el gobierno había respetado a muchas de las instituciones de las comunidades campesinas, y el ejército, a pesar de su nacionalismo, mantenía proximidad con los Estados Unidos. "Las masas campesinas no nos ayudan nada", fue la melancólica conclusión que Guevara consignó en su diario de Bolivia. Peor aún, Mario Monje, el líder comunista local, que no tenía estómago para la guerra de guerrillas después de haber sido humillado en las elecciones, condujo a Guevara a un lugar vulnerable en el sudeste del país. Las circunstancias de la captura del Che en el barranco Yuro fueron, como casi toda la expedición a Bolivia, cosas de amateur.
Guevara era sin duda audaz y valeroso, y rápido para organizar la vida sobre una base militar en los territorios bajo su control, pero no era el general Giap. Su libro "Guerra de guerrillas" enseña que las fuerzas populares pueden derrotar a cualquier ejército, que no es necesario esperar las condiciones adecuadas porque un foco insurreccional (o un pequeño grupo de revolucionarios) pueden crear esas condiciones, y que la lucha debe desarrollarse primordialmente en zonas rurales.
Sin embargo, el ejército de Batista no era un ejército, sino una corrupta banda de matones sin motivación y con poca organización, y los focos guerrilleros, con la excepción de Nicaragua, terminaron con los foquistas reducidos a cenizas.
En las últimas décadas del siglo XIX, la Argentina tenía el segundo índice de crecimiento del mundo. En la década de 1890, el ingreso real de sus trabajadores era mayor que el de los trabajadores suizos, alemanes y franceses. En 1928, el país ocupaba el lugar número doce en el mundo por su PBI per cápita. Ese logro, que las generaciones siguientes arruinarían, se debía en gran medida a Juan Bautista Alberdi. Al igual que Guevara, a Alberdi le gustaba viajar: recorrió a pie las pampas y los desiertos del Norte a los 14 años, hasta llegar a Buenos Aires. Al igual que Guevara, Alberdi se opuso a un tirano, Juan Manuel de Rosas.
Al igual que Guevara, Alberdi tuvo la oportunidad de ejercer influencia sobre un líder revolucionario en el poder? Justo José de Urquiza, que derrocó a Rosas en 1852. Y, al igual que Guevara, Alberdi representó al nuevo gobierno viajando por el mundo, y murió en el extranjero. Pero a diferencia del antiguo y nuevo mimado de la izquierda, Alberdi jamás mató una mosca. Su libro "Bases y puntos de partida para la organización de la República Argentina" fue el cimiento de la Constitución de 1853, que limitó el gobierno, abrió el comercio, estimuló la inmigración y garantizó el derecho de propiedad, inaugurando así un período de 70 años de asombrosa prosperidad. No se entrometió en los asuntos de otras naciones, oponiéndose a la guerra contra Paraguay.
Su imagen no adorna el abdomen de Mike Tyson.

20.2.06

O TELL ME THE TRUTH ABOUT LOVE

W. H. AUDEN

NHOS FLA-M VERDADI ASÉRKA DI AMOR

TRADUSON: J.L. TAVARES

Ten kenha ki ta fla ma amor é un rapazinhu

Y kenha ki ta fla ma el é un pasu;

Es ta fla ma e ta faze mundu jira el sozinhu,

Ten kenha ki ta fla ma é un éru krasu:

Mas kantu N tenta sabe atraves di vizinhu

Ki ta parseba ma kel li staba na si alkansu,

Si mudjer fika aburisidu

Y e fla ma éra proibidu.

Será ke ta parse ku un pijama

Ó pruzuntu na kabu kura dor,

Será ki si txéru ta lenbra un lama

Ó e ten purfumu di un flor?

Será ke áspri sima arami farapadu

Ó suavi sima un masiu kubertor,

Será ke ta korta ó é lizu na ladu?

Nhos konta-m verdadi asérka di amor.

Livrus di stória ta papia d´el

Dun manera ki kuazi ka ta ntendedu,

Y ta papiadu txeu d´el

Na kes grandi naviu ki ta trabesa mar sen medu;

Dja N odja es asuntu tratadu

Na rilatóriu asérka di algen ki mata kabésa,

Dja N odja-l té rabiskadu

Na gia di konboiu viradu dipalbesa.

E ta uba sima un lobu fomiadu

Ó e ta rapika sima marxa fanfara,

Será ki si son é midjor imitadu

Nun seroti ó na pianu Xiku Séra?

Será ke gosta so di stilu bédju

Ó na fésta é pruvokador

E ta kala so N da-l ku duedju?

Nhos konta-m verdadi asérka di amor.

N buska-l na kaza di veron

Mas N ka atxa-l nen sen kamiza

Na kel ar di brighton ki ta intxi pulmon

Nen la maidenhead, la na tamiza,

N ka ta ntende vos di rozera

Melru N ka konxe si kanson

Mas e ka staba dentu kapuera

Nen baxu di kolxon.

E méstri na faze bioku sen midida,

E ta bira tontu na karosel,

Ó e ta pasa ténpu na korida

Ta brinka ku fiu di kordel,

E ten ideias asérka di dinheru

E ta atxa ma pátria debe kantadu lovor,

Ó e gosta di ri di stórias brajeru?

Nhos konta-m verdadi asérka di amor.

Es fla-m ma ta fika sénpri lenbransa

Di kes sintimentu ke ta inspira,

N sta buska-l desdi kriansa

Y nunka N ka panha-l na mira

Trinti-sinku anu di tamanhu

Y N kontinua sen konxe

Es kriatura stranhu

Ki tudu algen e ta da koxi.

Y óra ke ta ben, e ta ben sen aviza

Inkuantu N ta linpa naris

Ó N ta odja-l sédu antis di txon N piza

Ó e ta masa-m na otokaru di karis?

E ta ben sima ténpu ta muda

Ku mansidon turtura ó kusa pior,

Nha bida futuru e ta muda?

Nhos konta-m verdadi asérka di amor.

17.2.06

Guérir le fanatisme.
Entretien avec Amos Oz / par Jon Wiener

La Paix Maintenant


Amos Oz est le romancier israélien le plus célèbre. Il est également l'un
des fondateurs et l'une des voix essentielles de Shalom Arshav (La Paix
Maintenant). Il est le porte-voix des colombes israéliennes, des opposants à
l'occupation qui veulent un retrait israélien de la Cisjordanie et une
solution négociée à deux Etats. Au cours d'un entretien récent, il analysait
les répercussions politiques et diplomatiques de la victoire du Hamas.

Q. : une semaine après la sortie de votre livre, "Comment Guérir un
Fanatique" (1), le Hamas obtenait une victoire historique aux élections
législatives palestiniennes. Pour vous, le Hamas est-il une organisation de
fanatiques?

Amos Oz : Les fanatiques sont ces gens, quelles que soient leur foi, leur
couleur ou leurs idées politiques, qui affirment que la fin, n'importe
quelle fin, justifie les moyens, y compris les moyens sanguinaires. A en
juger par ce critère, j'ai bien peur que le Hamas soit une organisation
fanatique par excellence.

Q. : les Palestiniens ont-ils voté pour le Hamas parce qu'ils sont
fanatiques?

Amos Oz : pas nécessairement. De ce que je sais, de ce que j'entends de la
part de mes amis et collègues palestiniens, la raison essentielle qui
explique la victoire du Hamas est la réputation de corruption de l'Autorité
palestinienne et du Fatah, le parti au pouvoir.

Q. : dans votre livre, vous dites que le fanatisme n'est pas forcément une
condition définitive. Vous dites qu'enfant, vous étiez "une petit fanatique
dont on avait lavé le cerveau". Qu'est-ce qui a fait de vous un fanatique,
et qu'est-ce qui vous a fait changer?

Amos Oz : j'ai grandi dans une atmosphère militante. Jérusalem était
divisée, cela faisait mal, et l'époque était aux rivalités et aux conflits
violents. J'ai grandi en sioniste enthousiaste et unilatéral. Avec les
années, après certaines expériences personnelles, j'ai compris que le
conflit israélo-palestinien, comme d'autres conflits, avait deux facettes,
deux perspectives, peut-être deux logiques. A partir du moment où l'on
comprend ce genre de relativité morale et politique, on cesse d'être un
fanatique.

Q. : avec les années, une partie du mouvement national palestinien est passé
de ce que vous appelez le fanatisme à ce que vous appelez le pragmatisme.

Amos Oz : pas seulement une partie du mouvement palestinien. Je crois
qu'aujourd'hui, la majorité des Palestiniens ont une approche pragmatique et
une attitude réaliste à l'égard du conflit israélo-palestinien. La majorité
des Palestiniens (et la majorité des Israéliens) savent que, au bout du
compte, il y aura un compromis, un partage, deux Etats. Est-ce que cela leur
fait plaisir? Non. Dansera-t-on dans les rues quand cette solution aura vu
le jour? Certainement pas. Pensent-ils que ce soit juste, ou sûr?
Probablement pas. Mais ils acceptent que cela comme la seule solution
possible, au-delà de laquelle on ne peut pas aller. Cela vaut pour les Juifs
israéliens comme pour les Arabes palestiniens.

Q. : y-a-t-il des preuves depuis l'élection du Hamas qu'une majorité de
Palestiniens soit encore favorable à deux Etats?

Amos Oz : semaine après semaine, depuis plus de trois ans maintenant, même
aux pres moment des l'intifada, les sondages montrent que la plupart des
Palestiniens sont prêts à vivre, sans en être particulièrement ravis, avec
une solution à deux Etats. Ils ne font pas confiance aux Israéliens, mais
ils l'accepteront. De la même manière, en miroir, la plupart des Israéliens
accepteront cette solution, mais ils ne font pas confiance aux Palestiniens
pour l'accepter ou la respecter.

Q. : la question à l'ordre du jour est celle de savoir si le Hamas va
devenir plus pragmatique. Quels signes distinguez-vous?

Amos Oz : il va falloir attendre. Aujourd'hui, je n'ai pas envie d'accorder
au Hamas un crédit qu'il ne mérite pas. Pour l'instant, il s'agit d'un
mouvement fanatique, fondamentaliste qui affirme dans sa charte et dans son
programme électoral qu'Israël doit être liquidé et que les Israéliens
doivent être expulsés de leur pays. Vont-ils changer? Je n'en sais rien.
S'ils changent, alors, il sera possible de traiter avec eux.

Q. : et si le Hamas ne change pas?

Amos Oz : si le Hamas ne change pas, il serait sage de la part d'Israël de
porter le conflit plus haut, au niveau des Etats arabes voisins, peut-être à
la Ligue arabe, et parler d'une solution qui alors pourrait être proposée au
peuple palestinien par voie de référendum.

Q. : le programme du Hamas lors des dernières élections ne mettait pas
particulièrement en avant sa position sur l'élimination d'Israël, ou la
revendication de méthodes terroristes, mais plutôt sur la corruption,
l'emploi, les services sociaux et les infrastructures. A vos yeux, c'est du
pragmatisme.

Amos Oz : en effet, leur programme a beaucoup insisté sur la lutte
anti-corruption. Néanmoins, il mentionnait toujours ce qu'ils appellent
toute la Palestine en tant qu'objectif irrévocable du mouvement national
palestinien. Ils ne sont pas revenus sur cette attitude de fond envers
Israël qui consiste à le considérer comme une exposition itinérante qui doit
être chassée de la région, ou comme une maladie infectieuse.

Q. : Dans votre livre, la description de fanatiques fait référence, à
l'évidence, aux Israéliens comme aux Palestiniens. A votre avis, quel est
l'état du fanatisme dans le paysage politique israélien d'aujourd'hui?

Amos Oz : malheureusement, le fanatisme et le fondamentalisme se portent
bien, à l'extrême droite et dans les secteurs ultra-religieux de la société
israélienne. Je n'ai jamais aimé cette dichotomie simpliste qui parle de
choc des civilisations : Est contre Ouest, ou islam contre le reste du
monde. Je pense que le vrai combat se déroulera, au niveau mondial et
probablement pour le reste du 21ème siècle, entre les fanatiques et nous.

Q. : la victoire du Hamas a-t-elle renforcé les fanatiques en Israël?

Amos Oz : les fanatiques font toujours le jeu les uns des autres. Ils
stimulent toujours l'enthousiasme et le zèle de leurs homologues de l'autre
bord.

Q. : parlons plus précisément du paysage politique israélien. Benjamin
Netanyahou (Likoud) a comparé la victoire électorale du Hamas à la montée de
Hitler. Mais les sondages ne montrent aucun déplacement vers le Likoud
depuis la victoire du Hamas. Que faut-il en penser?

Amos Oz : les sondages d'aujourd'hui (30 janvier) montrent un très léger
glissement vers le Likoud et d'autres partis d'extrême droite (2), mais pour
l'instant, il n'y a aucun raz-de-marée. Il est trop tôt pour dire comment
l'opinion israélienne va vraiment digérer et réagir aux changements en
Palestine.

Q. : vous avez critiqué la politique de Sharon de désengagement unilatéral
de Gaza, en disant qu'il aurait été préférable de négocier un transfert du
pouvoir qui aurait pu constituer un premier pas vers la fin de l'occupation.
De nombreux Juifs, en Israël et aux Etats-Unis, disent aujourd'hui que la
victoire du Hamas montrent combien Sharon a eu raison.

Amos Oz : Un accord négocié pour Gaza aurait été préférable à un retrait
unilatéral, mais je considère qu'un retrait unilatéral a été bien meilleur
que le statu quo qui prévalait jusque là, l'occupation de Gaza. Je pense
qu'il aurait été plus sage de la part de Sharon d'essayer de négocier avec
l'Autorité palestinienne, Gaza d'abord, dans le cadre d'un accord global.
Bien entendu, nous ne saurons jamais si cela aurait marché, ni si cela
aurait évité la victoire du Hamas. Tout cela, maintenant, est du domaine des
"si" et des spéculations historiques.

Q. : il a été écrit récemment dans Ha'aretz que seul le Hamas peut arrêter
le terrorisme et que seul le Hamas a la légitimité pour négocier un accord
avec Israël, que le fait que le Hamas ait réussi à préserver la "trêve" des
attentats terroristes depuis novembre 2004 montre qu'il dispose d'un pouvoir
et d'une légitimité dont manque la direction du Fatah. Je me demande si vous
êtes d'accord pour dire que la légitimité du Hamas lui donne la capacité de
négocier la paix.

Amos Oz : il est possible que cela soit le cas, mais quel bien cela nous
apporte-t-il si le Hamas ne change pas ses options fondamentales? Ce serait
comme dire, plus ou moins, qu'Al Qaïda est le seul groupe qui puisse arrêter
le terrorisme d'Al Qaïda. Bien sûr qu'Al Qaïda peut arrêter le terrorisme
d'Al Qaïda. Mais en a-t-il la motivation? Est-il enclin à le faire? Va-t-il
le faire? Oui, il se peut que le Hamas ait l'autorité et la capacité
nécessaires. Mais en a-t-il l'intention? Nous exercerons toutes les
pressions possibles sur le Hamas pour qu'il change d'intention : pressions
israéliennes, américaines, arabes. Là, la capacité et l'autorité du Hamas
deviendront très importantes.

Q. : Israël peut rendre la vie bien pire pour les Palestiniens sous un
gouvernement du Hamas. Israël peut aussi utiliser sa puissance pour
encourager les tendances les plus pragmatiques au sein du Hamas. Quelle
sorte de politique d'occupation aurait votre faveur au point où nous en
sommes?

Amos Oz : personnellement, je suis contre l'occupation. Point barre. Je
pense qu'il serait sage de la part d'Israël d'en finir avec l'occupation par
un accord ou par un règlement qui, s'il ne peut pas être conclu avec les
Palestiniens, doit l'être avec les Etats membres de la Ligue arabe. Je pense
que la fin de l'occupation israélienne est urgente, qu'elle est de l'intérêt
d'Israël et qu'elle peut être mise en oeuvre dans le cadre d'un accord
global israélo-arabe.

Q. : quel rôle devraient jouer les Etats-Unis dans ce processus?

Amos Oz : les Etats-Unis doivent encourager la modération là où ils le
peuvent, et de manière non dogmatique. Parfois, encourager la modération,
cela veut dire encourager des régimes non démocratiques. Parfois, encourager
la modération veut dire encourager des régimes qui ne sont ni roses ni
merveilleux. Encourager la modération, ce n'est la même chose que
d'installer la démocratie à l'aide du fusil. Cela veut dire aider à créer et
à stabiliser une société civile, parce qu'il ne peut y avoir de démocratie
véritable sans société civile, et il ne peut pas y avoir de société civile
là où règnent l'extrémisme, le fondamentalisme, la pauvreté et le désespoir.

Q. : le titre de votre livre, "Comment Guérir un Fanatique", suggère qu'il
est possible de "guérir" du fanatisme ­ chez les Palestiniens comme chez les
Israéliens.

Amos Oz : le titre doit être pris comme un clin d'oeil. Je dis que le
fanatisme est un mauvis gène dans l'ADN humain, et que personne d'entre nous
n'est immunisé contre un certain fanatisme. En ce qui concerne les
Israéliens et les Palestiniens, je pense que nous pouvons contenir le
fanatisme. Nous ne pouvons pas le guérir, mais nous pouvons le contenir, en
renforçant les classes moyennes, la société civile, les éléments laïques,
modérés et pragmatiques de nos deux sociétés.


(1) Amos Oz : Comment Guérir un Fanatique, éditions Gallimard, janvier 2006

(2) aujourd'hui (17 février) les sondages indiquent un Kadima stable (40
sièges), des travaillistes stables (19) et un Likoud en baisse (13).

3.2.06

MULTICULTURALISMO. Não, não vou debater o multiculturalismo. Só a natureza da nossa natureza me interessa. Mas o debate, de facto, devia ser lançado; não sobre o multiculturalismo mas sobre a tolerância. É um mundo difícil, obtuso, complicado, histérico muitas vezes. Mas é o nosso mundo e devemos defendê-lo. Não temos outro. Nascemos nele e uma das suas marcas chama-se, precisamente, "tolerância".Um jornal dinamarquês, o "Jyllands-Posten", publicou uma série de cartoons em que aparecia a figura do profeta Maomé. O profeta merece-me respeito, mas, como já li o Alcorão (uma simpática prenda do xeque David Munir - e uma boa tradução para o Português), não resisto a sorrir em determinadas passagens e a preocupar-me noutras. Acontece-me frequentemente isso com os chamados "livros sagrados"; os profetas, todos eles, tinham defeitos sonoros (embora um ou dois fossem largamente surdos), alguns fazem rir, outros irritam pela arrogância ou pelas ondas de queixume, outros são-me naturalmente antipáticos, a outros gostaria de convidar para jantar. O editor do "Jyllands-Posten" declarou-se surpreendido com a reacção "no mundo muçulmano", de Gaza ao Paquistão, da Indonésia à própria Copenhaga, suponho.Não devia sentir-se surpreendido. Salman Rushdie podia ter-lhe explicado como as coisas se passam quando o profeta Maomé está envolvido. Uma boa faixa de intelectuais e de gente da política, apesar de tudo, encontra sempre razões para compreender essas razões, ou pelo menos as razões que levaram à "fatwa" que condenava Salman Rushdie à morte - e, por arrastamento, os seus editores e tradutores. Vamos e venhamos trata-se de uma coisa selvagem condenar alguém à morte por blasfémia. Um ou outro escritor inglês, na altura da "fatwa" lançada por Khomeini contra Rushdie, apareceu a dizer que o autor dos "Versículos satânicos" merecia a ordem para matar decretada em Teerão; ele não teria nada que se meter com o profeta, com o Alcorão ou com os imãs, e, portanto, devia ser punido por isso. Havia uma certa inveja literária, certamente, mas de vez em quando o monstro acorda entre nós, cheio de medo, invocando valores culturais e heranças espirituais: em nome desses valores desculpabiliza-se a tortura, a humilhação de mulheres ou de adúlteros, a excisão feminina, o apedrejamento de homossexuais ou a mutilação de adolescentes que praticaram sexo à margem da lei.Ora, a verdade é que não há nenhuma lei que obrigue à prática da barbárie, do crime e da tortura. Mas no Ocidente há sempre quem desculpe julgamentos em Guantánamo e perseguições religiosas na Ásia. Há desculpas para tudo, nenhuma vergonha nos escapa.Esta ideia de tolerar os energúmenos que, em público, queimam livros, bandeiras, jornais e efígies de cada vez que alguém brinca com o profeta, parece-me absurda. Tolerável; mas absurda. Tolerável, porque nós somos tolerantes; mas absurda porque instaura nas nossas ruas, nas nossas casas e nas nossas cabeças uma insuportável aura de medo e de covardia. Não se trata apenas de falar de um Deus que não ri nem quer ser objecto de riso (essa é outra matéria que, se quiserem, se discute a seguir); trata-se do medo e da submissão. O editor do "Jyllands-Posten" agiu bem não pediu desculpas. Disse, além disso (que não pedia desculpas), que não se trata de "um assunto de cartoons", mas de valores mais gerais - os da liberdade, os do riso, os da palavra. O Ocidente permite que se publiquem alarvidades anti-semitas ou trapalhices anticatólicas; mas uma parte dele treme de pavor quando vê os "mullahs" incitarem multidões a queimar bandeiras dinamarquesas por causa de uns cartoons. Eu acho bem que queimem, se lhes apetecer. Mas não aceito que as queimem em minha casa, na minha rua, sob o céu do Ocidente.Jornal de Notícias - 2 Fevereiro 2006

26.1.06

O VELHO PSD (14-4-2005, Jornal de Notícias). Os discursos e a presença de Pedro Santana Lopes no congresso do PSD eram necessários. Mas o que era visto como necessário transformou-se, rapidamente, numa excrescência, mais do que numa inutilidade.

Uma das lições que a “política real” devia fornecer seria a da leitura correcta dos resultados eleitorais. A ameaça pendente que Santana Lopes deixou ficar não é, finalmente, o aviso de um líder que se despede – mas o ressentimento de um derrotado. E, se não revela uma ideia sobre o que pode significar fazer política, revela um carácter. Dois meses depois das eleições já não é possível ignorar que houve uma claríssima mudança de intenções e de sensibilidade no país: não apenas acerca de quem devia governar – mas também sobre quem estava prestes a abandonar o governo. Nos últimos anos, a reacção palpável e imediata dos derrotados é a de assegurar ao eleitorado o direito à alternância e a experimentar outras soluções. Esse é um princípio fundamental e convém mantê-lo. Mas deviam tirar-se outras lições. O congresso do PSD, salvo erro, não as tirou devidamente.

O que mudou nos últimos anos portugueses não foi a correlação de forças entre a “esquerda” e a “direita” clássicas (visível através da “alternância democrática”), entre o PS e o PSD, mas a ideia de que existem outras coisas para lá dessa arena – outros valores, outras exigências (de natureza cultural – sobre a vida, sobre o carácter dos políticos e o seu comportamento, sobre o peso e os negócios do Estado) e, sobretudo, uma outra ideia acerca do que deve ou pode ser o país. O congresso do PSD não entendeu o desenho que estava ali, à frente, visível para todos. Se o congresso do PSD tivesse ido a eleições (ou seja, se as suas sensibilidades tivessem ido a juízo diante do eleitorado), facilmente compreenderia a sua inutilidade e a pouca importância que tem para o país nestas circunstâncias.

O congresso do PSD manteve uma outra correlação de forças: a dos grupos que levaram o PSD a tornar-se praticamente irrelevante para tudo o que seja o debate sobre o papel do Estado na sociedade e na economia, sobre as novas realidades culturais, sobre o sentido que tem a política portuguesa na Europa de hoje.

Dando a vitória a Marques Mendes, tentou a reabilitação. Mas não se definiu claramente “por ele”; pelo contrário, aceitou e aplaudiu o ressentimento santanista, mantendo-o como uma desacreditada “reserva moral”, o que faz temer pelo autismo do partido em relação a esses debates que atravessam a sociedade – e que fazem gente de direita votar na esquerda, por exemplo. A verdade é que uma larga faixa do partido quer manter o velho PSD, sem compreender que esse partido acabou e que as suas heranças são um património mas não um programa nem uma inspiração.

Num mundo que anda muito depressa, o ressentimento que aplaudiu algumas intervenções no congresso foi apenas um sinal de atavismo e de provincianismo. Mais do que isso: daquela espécie doentia de alheamento que conduz às grandes hecatombes e aos grandes silêncios. E são silêncios justamente porque, por detrás daqueles aplausos que o congresso dedicou a Santana Lopes (agradecendo-lhe coisas insuspeitas, naturalmente), não havia nada para dizer. E, por agora, o PSD ainda não tem nada para dizer.

6.1.06

TEXTO DE ALUF BENN SOBRE ARIEL SHARON.


A man of action
By Aluf Benn



"Israel is like a bus," Shimon Peres once said, "the public wants to feel the steering wheel is in safe hands." Ariel Sharon's great accomplishment as prime minister was that sense of stability and authority he radiated to the public. During his five years in office, he turned himself into the central axis of Israeli politics, into the man who has no replacement. His election as prime minister in 2001, during the initial shock wave of the Palestinian intifada, restored calm all at once to a turbulent and disjointed government. Sharon's rich experience, the graceful resolve he demonstrated in pressure situations, and even his bodily girth convinced Israelis he was someone on whom they could rely. Added to that is the strong friendship with American president George W. Bush, who backed Sharon at times of harsh global criticism.

The sense that an experienced and responsible man was sitting in the national driver's seat launched Sharon to record heights of popularity, led him to a sweeping victory in the 2003 election and an unassailable lead in the polls leading up to the election in 2006. His indomitable status was maintained even as hundreds of Israelis were killed in Palestinian terror attacks and as the economy threatened to collapse, and even as he evacuated the settlers from Gush Katif toward the end of his career - a move that gained him unexpected international rejuvenation.

Sharon is descending from the stage and leaving a mixed legacy behind him. He spearheaded three primary initiatives: reoccupation of the West Bank cities and the imprisonment of Yasser Arafat in the Muqata; construction of the separation fence and evacuation of 25 settlements in the Gaza Strip and northern Samaria. His success in evacuating the settlers without any internal rifts and practically without violence, was a shining example of national leadership, a model for any future successor.

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Return from the political desert
Sharon was himself surprised by his abrupt return from the political desert, where he was considered a man of the past and a symbol of right-wing militancy, to the Prime Minister's Office. He spent his first year learning the job and understanding its limitations. Many observers wondered at the time if he had any plan or strategy to end the war with the Palestinians, or was merely offering an arsenal of tactical steps and tit-for-tat responses.

Only in the second year did he dare take the initiative, and launched the IDF into Operation Defensive Shield in the West Bank, at the height of the wave of suicide terror attacks in Israeli cities. The operation succeeded in stopping, or slowing down, the wave of terror, but failed to end the war. Arafat was weakened, but refused to surrender, even when Bush joined Sharon in calling for the replacement of the Palestinian leadership.

Operation Defensive Shield and the obsessive encirclement of Arafat in the Muqata compound were a natural follow-through to Sharon's power-oriented career in the army and in politics, in which several impressive accomplishments were notched up - beginning with the crossing of the Suez Canal in the Yom Kippur War - as well as dreadful disgraces, such as the raid in Qibya, the Mitla Pass battle in the 1956 Sinai Campaign and the Lebanon War. The main difference was Sharon's realization, once he assumed political leadership, that his administration depended on two factors: internal consensus and American support. Both slipped from his hands in 1982 and led to his downfall in Lebanon and his banishment to the political sidelines. When he finally got the yearned-for opportunity, he regularly consulted this "double compass" at home and in Washington.

Only after Sharon saw that the terror was continuing even after the large-scale operation in the West Bank, and that Israel faced both international isolation and economic crisis, did his big turnaround begin. The first step was his agreement to erect the separation fence, which he had at first vehemently opposed. Not withstanding his repeated denials and claims that the fence was "only another way" to fight terrorist attacks, Sharon fully understood that its construction would mark the future border of Israel and lead to withdrawal from most of the West Bank.

It is no wonder that he at first tried to transfer as much territory as possible to the Israeli side of the fence, and even wanted to build an eastern fence that would imprison the Palestinian population clustered in the central hills. Only after he came up against U.S. opposition and a hostile verdict handed down by the International Court in The Hague did Sharon take advantage of an Israeli High Court of Justice verdict to move the fence to a more logical route, one that went around the settlement blocs of Ariel, Ma'aleh Adumim and Gush Etzion. The eastern fence was left out.

Facing down the settlers
From the fence, Sharon moved during 2003 to acceptance of the road map, which leads to a Palestinian state, and for the first time declared that the occupation was bad for Israel, provoking furious responses within his party. And once the map process collapsed and terrorist attacks continued, he hit rock bottom in the Israeli public. His showing in the polls plummeted, Bush backed off, and the consensus on the war was shattered. Sharon began to look more like a fossilized leader who had lost his direction in mid-battle.

And then he picked himself up and dared to do what had struck fear into all his predecessors. He courageously faced down the settlers, his former political partners, and told them the time had come for them to fold up their tents. When he announced the disengagement, Sharon set a timetable of two years for its execution, which at first seemed an opening for possible evasiveness, but later was seen to be a responsible and judicious path.

Unlike Yitzhak Rabin and Ehud Barak, who believed in diplomatic surprises, Sharon gradually accustomed the Israeli public, the Palestinians and the international community to the idea. He defused the political land mines, prepared the army and police, amassed support and isolated the "orange" camp that opposed withdrawal. Only when the public opinion struggle was won did the forces set out to evacuate the residents of Neveh Dekalim, Kfar Darom, Netzarim and Kadim.

Sharon's diplomatic legacy rates demography higher than the topography in which he once believed. In his more recent pronouncements and speeches, he strived to bring Israel's control of the Palestinians to an end and to gather Israel into a new border, one that would be more internationally accepted and would include the "settlement blocs" and a security region in the Jordan Rift. His map of blocs included Hebron, Beit El and Ofra, the high ground overlooking Ben-Gurion Airport, and continued Israeli control of East Jerusalem and the Golan. This is much less than the minimum the Palestinians talk about, and there will be a need to evacuate tens of thousands of settlers from deep in the territories to reach even these lines.

Far from left
Even as he spoke of "painful concessions" and withdrawals, and even as he executed them, Sharon remained suspicious of Israel's neighbors, and faithful to the words of his mother Vera, who taught him: "Don't believe them." His signature line was "Let us not forget, we're talking about Arabs here." He reviled Arafat, derided Mahmoud Abbas, shunned Bashar Assad and did not succumb to Mubarak's wooing. As he saw it, the Arab world has not come to terms with the "inborn right" of the Jewish people to establish a Jewish state "in the cradle of its birth," and Israel was destined to face a prolonged and perhaps permanent conflict with its hostile environment.

The human rights of the Palestinians were of little interest to him even as he called for an end to the occupation. His harsh responses to terrorist attacks, his recurrent pledges to ease restrictions on the Palestinians, which were never realized, as well as his repeated avoidance of evacuating the settlement outposts, showed that even after his evacuation of the settlements, Sharon remained distant from the basic positions of the political left. It is no wonder that the most ardent supporters of the Palestinians in Israel and abroad continued to view him as a man of war and destruction, even after he had become the darling of the political center.

In his attitude toward the "world" outside the region, Sharon went through a transformation. In the past year, he grew close to Europe, which he had described in the past as hostile and anti-Semitic, and he recognized its ability to play a helpful role.

His visit last summer with French president Jacques Chirac and his appearance at the UN General Assembly in September, immediately after completion of the withdrawal from Gaza, gained him the approbation of leaders who once recoiled in disgust from him. In his speech at the UN, Sharon recognized for the first time the right of the Palestinians to statehood. Until then, he had always described the Palestinian state as a constraint, as a lack of choice, not as a recognized right.

As a politician, he demonstrated an astounding ability for control and maneuverability, ridiculing his eulogizers and showing that he was better at reading his rivals' intentions. His experience taught him that the victor is the one who holds tight on the bridge, that you have to know how to absorb the blows and let the enemy waste his ammunition before you counterattack.

He always made decisions at the last moment, but then he would stubbornly hold to them. In this manner he succeeded in getting the disengagement plan through the cabinet and the Knesset, around the "rebels" in his own party, until he got to the "big bang," and without sentiment dismantled the Likud - the party he established after leaving the army in 1973. In this way he crushed, time after time, his big rival, Benjamin Netanyahu.

Last political moves
Dismantlement of the Likud and establishment of Kadima, Sharon's last political moves, were characteristic of his political path: that of an extreme pragmatist who adopted the ideas of others, scorned ideology and believed that an alliance is acceptable if the need exists. He was not the first to market himself as representing the interests of the state, as the authorized agent of national interests facing the "politicians".

He loved the image of the soldier-farmer who came from the ranch to the Knesset cafeteria as the savior of his people. Like Yitzhak Shamir and Rabin, Sharon also turned rough-hewn verbal skills, ungainly rhetoric and cynical humor into assets of "authenticity." The public enthusiastically bought into the image, and disregarded the dark cloud of corruption that surrounded the prime minister and his family. The investigations and the suspicions of corruption that did not let up even after the Greek Island case was closed, and even the conviction of Sharon's son Omri of crimes committed during his father's campaign in the party primaries, could not crack the solid popularity of Ariel Sharon.

The problem in his approach was that it corrupted the political establishment and encouraged a culture of blind reverence for the leader, one on which Kadima relied, while turning its back on any argument about ideas and how to realize them. It looked like a tolerable price to pay for achieving national goals such as shaping the border and calming the winds of war, but it is difficult to sustain a ruling culture for any length of time.

Like Shamir in his day, Sharon excelled at running his office and working with the defense and civil bureaucracies. He listened to officers and officials and let them express themselves, even when he ignored their advice. When posts in the highest echelons of the defense and intelligence establishments opened up, he appointed his trusted associates to them.

Examples include Meir Dagan, who became director of the Mossad, Shaul Mofaz as defense minister, Dan Halutz as IDF chief of staff and Moshe Kaplinsky as his deputy. It was characteristic of Sharon: For years people were saying that a pilot should be appointed to head the IDF, and he carried out the revolution. And the tax reform, and the ouster from the government of the ultra-Orthodox and the turnaround in economic policy. Others talked and made proposals; he acted.

The 'national grandfather'
In his public administration, Sharon demonstrated steely, disciplined restraint. He learned from his predecessors, who spoke endlessly on radio and responded to every trifle, and he spoke only after much preparation and memorization of the messages. This was true even for his phone calls with reporters, in the night of his first hospitalization three weeks ago.

An interview with him was a nightmare for any journalist. He barricaded himself inside the points he had prepared in advance and never deviated from them. Thus, his close friend and strategist, Reuven Adler, was able to market "the new Sharon" to the public as a moderate and levelheaded man.

He ran his office without the scheming and leaks that clouded his predecessors' terms. His first bureau chief, Uri Shani, was dismissed after he gained too much power. His successor, Dov Weissglas, acted as Sharon's private foreign minister, and in the past year and a half the bureau functioned without any director, as a federation of aides faithful to the boss, each in his own territory, with Sharon overseeing them.

Sharon considered himself second only to his teacher and mentor, the founder of the state, David Ben-Gurion. On his way to a third term, he set for himself two objectives that "the old man" was unable to accomplish: Setting the boundaries of the state and reforming the regime structure, which was to strengthen the government's effectiveness and weaken the parties. The public was less interested in details, and saw the upcoming elections as a referendum on the continued rule of Sharon. They relied on "the national grandfather" to know what to do.

But in the end, even Sharon was not able to avoid the tragedy of all his predecessors Not a single prime minister of Israel has left office with honor and tranquility. Rabin was assassinated, Levi Eshkol died of a disease, and all the others lost in elections or were sent home by their parties. Sharon is completing his term as a revered leader who was able to stand up to his enemies at home and abroad, and only faltered on the heroic battle for his health.

15.12.05

O PEQUENO ESCÂNDALO (SOBRE O LIVRO DE FILOMENA MÓNICA). Parece que, nos meios políticos, académicos, suburbanos e paraliterários, vai um burburinho surdo e indignado. Quando esta gente se indigna, eu quero saber porquê. Interessa-me a hipocrisia.
Desta vez há um livro, o de Maria Filomena Mónica, intitulado “Bilhete de Identidade” (edição Alêtheia). Ora, o que conta o livro? Nada de mais, nada que não suspeitássemos e nada que envergonhe o género humano. São as suas memórias, coisa que acontece as pessoas decentes terem.
Ao contrário de outros países em que as pessoas escrevem as memórias para que os seus contemporâneos as leiam (quem quiser, obviamente), Portugal escandaliza-se frequentemente com o facto. As pessoas contam nas suas memórias apenas o que lhes interessa, obviamente. Espera-se que um estadista revele telefonemas, mistérios da política, segredos de bastidores ou, até, pensamentos profundos – se lhe calha tê-los. Mas que a coisa não ande longe da verdade. Filomena Mónica não é uma estadista. É uma socióloga, uma académica que escreveu vários livros e artigos. Lamentavelmente para a pequena intelligentsia, Filomena Mónica escreve bem, escreve claramente, estudou em Oxford e tem a coragem de dizer o que pensa, mesmo quando não pensa grande coisa. Graças a ela pudemos, em várias ocasiões, ser confrontados com a miserável mediocridade do sistema de ensino que há anos era inatacável. Nunca lhe perdoaram.
As suas memórias não são o retrato maneirista de uma personagem em busca de glória. Se assim fosse, o livro não revelaria ingenuidades de adolescência, fragilidades da idade adulta e perdições comuns ao género humano. O livro seria, apenas, muito bem comportado. Acontece que, oh Portugal de plástico e de esferovite, o livro diz nomes, conta coisas, refere datas. Em Portugal não se dizem nomes (usam-se iniciais ou deixa-se a suspeita), não se contam muitas coisas nem se referem datas. Não se incomodam as pessoas, tratando-as pelo seu nome, chamando António ao António e tratando-se Genoveva por Genoveva. Não. Em Portugal limitamo-nos a sugerir infâmias anónimas e baixarias de “alguém”.
Maria Filomena Mónica, por absoluta e sincera ingenuidade, disse os nomes de pessoas que conheceu, com quem viveu, que a conheceram. As virgens do jornalismo, da moral familiar e da academia acham isto indigno. Não porque Maria Filomena Mónica lhes aponte indignidades – no livro as pessoas são naturais, humaníssimas e simpáticas. Mas porque ela abriu as portas do armário onde estão reunidos anos e anos de esqueletos e de aprendizagens. E de indignidades, sim, admito. E de segredos que geralmente não se confessam. Ora, acontece que as pessoas acham que nunca são hipócritas nem indignas. Acham que são perfeitas, impolutas, intocáveis e indiscutíveis em absoluto. Acontece que não são. Que não somos. As pessoas são indiscutíveis para lá de certos limites, sim, definidos pelo costume e até pela lei. Mas o retrato de conjunto oferecido por Maria Filomena Mónica não ultrapassa esse limite. Não reavaliaremos a obra de nenhum autor à luz dessas revelações, a menos que sejamos patetas.
O que o livro de Filomena Mónica retrata é um pedaço da sua vida: a menina de Cascais (sim, a “beta” de Cascais – qual é o mal?) e a adolescente que lê Evelyn Waugh enquanto bebe conhaque num colégio londrino. A mulher que comete adultério durante o fascismo e que fica com mais do que um grão na asa ao jantar com um famoso professor de Oxford. A que deambula pelos corredores do curso de Filosofia e comenta a beleza dos rapazes. A que se desilude com a política e com a vida doméstica. O que ficámos a saber, com o seu livro, é que aquela gente até tinha um certo grau de humanidade, de palermice e de generosidade. E é isso que indigna tantos sacerdotes. Ser humano incomoda muita gente.