10.1.09


1.5.08

O beijo de um académico em Paris.


O beijo é talvez uma matéria antiga.
Assunto de poesia contemplativa,
bom para versos parnasianos. Uma flecha,
o tímido clangor, a vibração do arco,
sílaba, medida, questão de técnica, afinal.
Há uma grande literatura, arrumada,
sobre a melancolia do beijo: amantes
que se arrastam no meio das pontes,
palavras sérias, despedidas, mal-estar,
quartos de hotel, um espelho, a luz,

e Paris, as cidades onde outros beijos
foram famosos, Veneza, Praga, Florença.
Os académicos flutuam com saudades
desses beijos de Paris, lânguidos ou
a preto e branco, desbotados, cheios
de literatura, de espuma e de eternidade:
sombrio retrato do beijo, entre legumes
dos mercados e estátuas dos palácios,
penumbras das praças, empedrados
onde alguém acena com um lenço.

Estranha dívida da imaginação, questão
de técnica, afinal: havendo cenário,
então há um beijo, entre muros e rosas;
os amantes merecem esse entardecer,
nenhum outro beijo é tão nostálgico como
o beijo que nunca aconteceu, perdido
no meio de um livro, como uma gardénia
entre chilreios neoclássicos, aflorada,
desfolhada, morrendo devagar, apenas
uma imagem dramática, aprendida de cor.

Simples amor europeu, como escrevem
os querubins, doentes de má bibliografia,
tingidos de palidez, temendo a ironia.
“Ali nós estávamos cercados, era o Maio
de sessenta e oito, acabávamos de inventar
o mundo.” J’aime votre librairie, madame.
O primeiro beijo, aquele mais clandestino,
aconteceu entre as estantes de psicanálise
e restos de filosofia, tudo matéria nobre,
como o beijo. Questão de técnica, afinal.

Como uma mancha na memória, esse beijo
de Paris – com tradição, prefácio, notas,
livros, distinção, adultério, casas vazias
anoitecendo em bairros perto do Sena,
discos da Greco, baladas, despedidas,
comboios no meio do Outono, sufocantes.
Talvez fique apenas um retrato, um veneno,
uma revolução reconciliada com os deuses,
um rasgão na camisa, uma memória onde
tudo apodrece, devagar, no meio da febre

ou daquela solidão que destroça a vaidade.
Ah, como nós éramos revolucionários,
como o vinho e os livros eram tão franceses,
como o mundo tinha coisas tão fantásticas,
mulheres abandonadas, filhos aqui e ali,
chuvas, e uma pátria onde se podia regressar,
relâmpagos, canaviais, enredos, infortúnios,
segredos, telhados de Paris a meio da tarde,
esplanadas onde os filósofos adormeciam
– bêbedos e consentidos, murmurando

desculpas e vagas propostas de equilíbrio.
Questão de técnica, afinal, como as coisas
que agonizam no meio, bem no meio da vida.
Sereníssimo beijo académico, saudade
de como o mundo era perfeito, falado em
francês, sem escuridão, calafrio, ou a ironia
dos descrentes. Eram dentes assim, levemente
manchados pelos Gitanes, línguas pequenas,
cheias de pudor a princípio, uma gota de suor
no decote (faz calor em Paris durante o Verão).

Tudo o resto, ou quase, era literatura, árdua
e elíptica, obscura, dissolvida e depois escrita
no meio de incêndios, cheia de jogos e sinais,
como um beijo que interrompe a cegueira
numa esquina do Sena, numa ponte humedecida,
num sótão cheio de cadernos e de vinho barato.
Coisas românticas. Vulcões abertos sobre
a vida inteira. Negrume de vinganças tardias.
Inquietações, velhos retratos do Che, coitado,
autoridades, clérigos, melancolias e suspiros.

Talvez seja da altitude; as livrarias de Paris
ficam acima do nível das águas do mar,
mas não tanto, afinal. As universidades também.
E as ruas do Quartier Latin, ensombradas
por tanta melancolia, lua-de-mel, passeios
no meio da chuva, abrigos de amantes nos livros,
fraquezas espirituais. Pequenas cedências
começam aí, quando se perde uma namorada
que não sabe o nome dessas ventanias,
tudo por causa dos livros e do lixo de Austerlitz.

Muitos anos mais tarde, olhando a sombra
sem olhar a sua morte: a vida é um monólogo
cheio de literatura, remorsos, coisas perdidas,
textos sagrados, obra irrelevante, implorando
saúde e reconhecimento. Ah, o verdadeiro beijo
(questão de técnica, afinal) só existe em Paris,
pobre beijo a preto e branco, aristocrático, triste.
O sopro da humanidade não interessa; apenas
vagamente existe em redor, empurrado
pela vileza, negligente, cheio de más traduções.

In Se me Comovesse o Amor. Quási, 2007.

Sondagem Expresso/SIC/RR/Eurosondagem

Apesar de tod a contestação, o Partido Socialista continua, a um ano das eleições legislativas, no limiar da maioria absoluta, e José Sócrates com um saldo de popularidade invulgar. Este mês o PM volta a subir mais umas décimas estando quase nos 30%, sendo apenas ultrapassado pelo Presidente da República. À esquerda do PS, PCP e BE mantêm a tendência de subida, atingindo – quando somados – 18,8% das intenções de voto. Já os partidos à direita dos socialistas – PSD e CDS/PP – reúnem 33,2% das intenções de voto, estando assim abaixo do resultado obtido nas últimas eleições legislativas.

No mês em que se demite e depois de conhecida a sua decisão, Luís Filipe Menezes obtém a sua maior subida e atinge o saldo positivo que lhe escapava há seis meses estando próximo dos 4%.

Por outro lado, Cavaco Silva regista a sua maior quebra na bolsa de popularidade, porventura resultado da condescendência com que tratou o presidente do governo regional da Madeira durante a sua recente visita à região. O Presidente da República cai 7,4% em termos de popularidade podendo inferir-se deste resultado que, ao contrário da doutrina fixada por Jorge Coelho para o PS, quem não se mete com Alberto João Jardim, leva!

Que segredo terá José Sócrates para manter a sua popularidade tão elevada? Será mesmo que, para os continentais, elogiar Jardim é motivo de punição? \Se sim, que leva o líder regional a sonhar a liderança do PSD?

18.4.08

«Desde que os autores não tenham contratos assinados
é evidente que os posso trazer»


Meses depois da compra das Edições Asa pelo grupo Leya, o editor Manuel Alberto Valente,
62 anos, bateu com a porta e explica porquê. Está a preparar um novo projecto editorial

Manuel Alberto Valente, 62 anos, entrou para as Publicações Dom Quixote, em 1981, como director editorial. Dez anos depois foi convidado por Américo Areal para as Edições Asa, onde ficou 17 anos. Primeiro como director editorial e, mais tarde, como director-geral especialista no catálogo de literatura. No ano passado, Américo Areal vendeu a sua empresa familiar a Miguel Pais do Amaral. Este criou o grupo editorial Leya, que hoje inclui, entre outras, a Asa, a Dom Quixote, a Texto e a Caminho. Em Março, Manuel Alberto Valente, na altura editor da Asa com a responsabilidade dos portugueses e dos autores de língua espanhola e francesa, apresentou a demissão.

PÚBLICO - Quando se demitiu das Edições Asa, não quis revelar as razões que o levaram a abandonar o grupo Leya. Pode fazê-lo agora?
MANUEL ALBERTO VALENTE - Aquilo que me levou a sair foi um enorme desencanto profissional. Poder-se-á pensar que é uma posição contra a concentração editorial, mas, à partida, não tenho nada nem contra os grupos nem contra a concentração. Temos que fazer uma distinção clara entre grupos que são do livro e grupos que não o são. Concretizando: a Bertelsmann ou a Porto Editora são grupos do livro, nasceram e viveram com o livro toda a vida.
Têm tradição na área.
Há uma tradição familiar de negócio do livro. Os outros dois grupos que estão neste momento no mercado português - o Explorer Investments e o Leya - não têm nada a ver com o livro. Estão no livro por mero negócio. O Explorer é um fundo de investimento e está no livro até ao momento de poder ganhar mais-valias com a venda das editoras que comprou e dizem-no abertamente; e o grupo Leya, embora o esconda, está na mesma posição. Está na área do livro até lhe surgir uma oportunidade boa de vender o grupo a qualquer comprador nacional ou estrangeiro.
Porque é que o esconde?
Porque não tem assumido abertamente que comprou para vender.
Desencanto profissional porquê?
Quando a Asa foi comprada, pensei que o grupo Leya ia trazer à Asa, por um lado, dinheiro, mas, por outro lado, organização, eficácia, profissionalismo. Portanto, olhei com muito optimismo e com uma boa expectativa a entrada da Asa no grupo. Curiosamente, o que a prática me veio revelar foi que dinheiro passou a haver, efectivamente, mas tudo o resto era mentira. A desorganização é completa, a falta de eficiência é completa, a falta de profissionalismo é completa. A Asa antiga era um mimo de organização e de excelência de trabalho comparada com aquilo em que a Asa foi transformada.
Não foram então questões de opção editorial.
Embora aí também houvesse desinteligências. Foi realmente ver-me rodeado de uma falta de eficácia, de organização e de profissionalismo com a qual não podia pactuar. Ajudei durante 17 anos a construir a Asa, não podia ser cúmplice da sua destruição. É um desencanto muito grande quer com as políticas editoriais que estão a ser seguidas, quer com a falta da competência profissional da maior parte dos quadros que entraram para a estrutura com a constituição do grupo.
Construir um grupo com várias editoras que nunca trabalharam juntas demorará o seu tempo em termos de logística e organização.
Julgo que já teriam tempo para isso. As Edições Asa foram integradas em Setembro. Houve, evidentemente, uma confusão inicial, mas estamos em Abril e não há sinais. Todos os sinais que foram dados não auguram nada de bom. Isaías Gomes Teixeira, administrador executivo do grupo Leya, no momento em que me despedi, disse-me que compreendia perfeitamente que um homem que tinha idade para ser pai dele já não se adaptava a estas novas dinâmicas do mundo editorial. É um bocado verdade.
Porquê?
Sou de uma geração e tenho uma escola em que houve sempre uma enorme preocupação com a rentabilidade dos projectos, mas essa rentabilidade passava por uma frase que repeti muitas vezes: "Publica-se o que dá para se poder publicar o que não dá." Uma das primeiras frases que Isaías Gomes Teixeira disse quando entrou para o grupo foi: "Mas para que é que vocês publicam o que não dá?" Isto transmite toda uma filosofia com a qual não estou minimamente de acordo.
Houve uma diminuição da importância da Asa dentro do grupo ao lado de editoras como a Caminho e a Dom Quixote?
Não, não é isso que está em causa. A Dom Quixote, para todos os efeitos, só agora é que está a começar a ser integrada. Há, efectivamente, uma diminuição da capacidade de actuação da editora que se está a reflectir nas próprias vendas e na maneira como os livreiros estão a encarar o trabalho do grupo, que do ponto de vista logístico é desastroso.
Uma das inovações da Leya foi a integração de um gestor de marca a acompanhar o editor.
Essa é uma ideia contra a qual não tenho nada, isto se os gestores de marca escolhidos fossem pessoas habilitadas a cumprir esse papel. O que acontece é que, pelo menos em alguns casos, as pessoas que foram escolhidas como gestores de marca não têm a mínima ideia do negócio editorial e, portanto, não estão em condições de poder cumprir as suas funções.
Abandonou o grupo Leya por sua própria vontade, não recebeu indemnização, não negociou a sua saída. E agora?
Tenho estado a construir um projecto que quero que seja consistente, de qualidade, de excelência. E há duas hipóteses: ou avanço para esse projecto sozinho, ou encontro um interlocutor que o aceita e inclui numa estrutura editorial já forte. Como é ambicioso, gostava de o ver integrado numa estrutura que lhe desse garantias de eficácia.
Pode ser mais concreto?
É um projecto editorial que passa pela publicação de autores portugueses e de obras traduzidas na área da ficção e da não-ficção. Não é para publicar os restos do que sobra dos grandes grupos. Quero que possa ser um projecto concorrente dos grandes grupos. Quero publicar livros já este ano, na rentrée, em Setembro.
São livros que já estavam acordados?
Não posso trazer das Edições Asa livros previstos no seu programa editorial e que já estavam contratados. Mas autores posso. Desde que os autores não tenham contratos assinados para obras novas, evidentemente que os posso trazer. E conto com eles, aliás, quer portugueses, quer estrangeiros.

Público, 18 de Abril 2008

28.3.08

O GOSTO ÚNICO
















José Eduardo Agualusa | Capital | Luanda

Não posso dizer que tenha ficado surpreendido com algumas das reacções a uma entrevista que concedi recentemente ao Semanário Angolense. Atravessamos um tempo um pouco estranho, de transição de um regime de pensamento único para aquilo que, espero, venha a ser uma verdadeira democracia. O que diferencia uma ditadura de uma democracia é a pluralidade de ideias e de opiniões sobre qualquer assunto, e a forma como essas ideias são recebidas não apenas pelos governantes, mas pela generalidade da população.

Os ditadores esforçam-se por estabelecer primeiro uma determinada ideologia política, mas raramente se detêm aqui – tentam a seguir impor a toda a gente os seus próprios gostos sobre música, literatura, artes plásticas, desporto, sexo, ou mesmo moda. Hitler, que foi um medíocre pintor de paisagens, embirrava com o cubismo e o expressionismo, classificados como “arte degenerada”. As obras de grandes pintores, como Chagall, Mondrian ou Max Ernst, foram então consideradas produtos de mentes doentias. "De agora em diante iremos empreender uma guerra implacável contra os últimos remanescentes da desintegração cultural”, assegurou Hitler num famoso discurso sobre arte moderna, em 1937: “Por tudo que nós apreciamos, esses bárbaros pré-históricos da Idade da Pedra podem retornar às cavernas de seus ancestrais e lá realizar os seus rabiscos primitivos internacionais”. Os seguidores de Hitler, evidentemente, elogiavam os dotes artísticos do fuher. Mas, claro, quem acabou triunfando não foi Hitler, e sim os artistas ditos degenerados.

Mobutu não gostava de calças à boca de sino. Mugabe odeia (e persegue) os homossexuais. No Chile de Pinochet, e em Moçambique, no tempo de Samora Machel, jovens com cabelo comprido não eram muito apreciados pelo regime.

No seio do partido no poder confrontam-se hoje em dia democratas autênticos, democratas de fantasia – que ainda há poucos anos defendiam o sistema de partido único –, e uma mão cheia de órfãos da ditadura, mortos-vivos que não conseguem adaptar-se aos novos tempos e insistem em classificar como traidores à pátria todos os que se atrevam a contestá-los. Partido e pátria são para estas pessoas exactamente o mesmo, ou, ao menos, o partido constitui uma extensão da pátria.
Estes zombies são hoje, dentro do MPLA, um arcaísmo deselegante. Tenho a certeza de que incomodam, com a sua brutalidade, os próprios companheiros de partido. Julgo que têm os dias contados. Já não é possível, como se fez em 1975, acusar adversários políticos de se alimentarem de carne humana (recuperando desta forma, e talvez não por acaso, uma das mais racistas e abjectas fantasias coloniais). Felizmente esse tempo passou.

20.10.07

Palavras que nos fazem cócegas.
[Por ordem alfabética]

abemolar,
acédia,
acutilância,
adstringente,
alapardado,
alarifona,
albacora,
alcagoita,
alcouce,
alforreca,
almoxarifado,
amásia,
ambrósia.
ambulacriforme,
amodorrado,
amunhecar,
apostasia,
apotegma,
araponga,
arre chiça,
atrabiliário,
azurrador,
badalhoca,
bambúrrio,
bandulho,
baranga,
barbicha,
barnabé,
barzoneiro,
bem-te-vi-de-igreja,
biltre,
bisbilhotar,
borogodó,
boto,
bruaca,
brundúzio,
bugiganga,
bujarrona,
cachalote,
cachopo,
caganita,
camandro,
camisa-de-vénus,
cânhamo,
cardão,
catraio,
caturra,
cavanhaque,
cerambicinos,
chilique,
chimpar,
chocolateira,
clitoridiana,
clitóris,
coima,
concupiscência,
condómino,
cornogodinho,
corrupiana,
covilhete,
coxote,
crestomatia arcaica,
daguerreótipo,
dar-de-vaia
deliquescente,
desenxabido,
desmilinguido,
dildo,
ditirâmbico,
donairoso,
draconiano,
elipsígrafo,
encanitar,
encurvadura,
engaramponar,
enxárcia,
escaganifobético,
escanção,
esfíncter,
espongiforme,
esprovamento,
esputação,
esquixa,
estai,
esternocleidomastóideo,
estrambótico,
facécia,
fanchono,
fedúncia,
feiteira,
fescenino,
franganote,
funâmbulo,
futrica,
fuxico,
gaivagem,
galfarro,
galocha,
gambérria,
gáspea,
gemedeira,
gorgomilo,
gororoba,
gralheira,
guilha,
gurupés,
hieróglifo,
hirundino,
inadimplente,
inhame,
Itaquaquecetuba,
jagodes,
labéu,
lábia,
lagalhé,
lambanceiro,
lampadejar,
lapardeiro,
lapouço,
lesbiano,
libidinoso,
longicórneos,
luzimento,
maçaranduba,
macaxeira,
malino,
marafona,
mariola,
marruaz,
meditabundo,
mequetrefe,
meretriz,
mezena,
moçoila,
narguilé,
néscio
Nitrato do Chile,
ovante,
palatinado,
pantomineiro,
pardizela,
parlatório,
parlenga,
peralvilho,
Pindamonhangaba,
pitanga,
pitomba,
pomologista,
ponderoso,
pororoca,
porreiro, pá
Procópio,
prosápia,
pudicícia,
rabónico,
rameloso,
rebaldaria,
roaz,
rubicundo,
sacanagem,
sacripanta,
salamaleque,
sapatinhos-de-ver-a-deus,
sazonar,
senzala,
serendipismo,
sestroso,
siririca,
sodomita,
suruba,
tainar,
teodolito,
teratogenia,
topete,
tramazeira,
tramontana,
tranglomango,
traquete,
tribufu,
trombudo,
umbú,
urubu,
urumbela,
valhacouto,
vasqueiro,
viperino,
vulva,
xexelento,
xoxota.

6.10.07

BICICLETAS EM LISBOA. Mail de Duarte Sobral:

Tive o prazer de ler a conversa que trocou com Tiago Carvalho a propósito de bicicletas em Lisboa e gostava de me intrometer, mas n'A Oigem das Espécies não há a possibilidade de fazer comentários directamente.

Uso a bicicleta como meio de transporte, não uso capacete e também não gosto de astronautas. Quanto à lycra uso-a exclusivamente nos desportos aquáticos porque, além de não a achar confortável em terra, associo-a directa e inconscientemente ao desporto hardcore e a transpiração extrema, de tal forma que só de ver alguém vestido de lycra sinto comichões. Há uns meses vim trabalhar para Sines onde fiz uma descoberta aterradora. Descobri então que algumas pessoas desta pequeníssima cidade se fazem deslocar diariamente de carro para todo o lado (por vezes em distâncias inferiores a 400 m). Fiquei ainda mais surpreendido quando encontrei algumas dessas pessoas trajadas de astronauta, com calções de lycra, sweat-shirts e garrafinha de água na mão, a marchar furiosamente pela marginal aos pares e aos trios... com o espanto demorei a perceber que estavam a praticar o footing porque, dizem os médicos, é uma actividade desportiva muito benéfica para a saúde e muito eficaz na redução do risco de doenças cardio-vasculares. Apeteceu-me gritar: Vão-se Footing, pá! Passam o dia sentados no escritório ou no café, para onde vão sentados no carro, e ao fim da tarde vão suar que nem umas bestas, a praticar o footing!!!

Como urbanista, considero esta perspectiva da actividade física perversa e perigosa para as nossas cidades... pessoalmente acho-a completamente idiota e só encontro explicação para ela no domínio da psicanálise.

O perigo da amnésia ou Tal como algumas pessoas já não concebem a vida sem telemóvel:

Se entendemos a locomoção humana, o andar a pé, como uma coisa do domínio do desporto estamos, desde logo, a renegar uma adaptação natural conseguida ao longo de milhões de anos de evolução, que nos permite gastar menos um terço da energia que um quadrúpede, por unidade de distância percorrida, e 15 vezes menos que um automóvel!

Suponhamos, por absurdo, que no futuro o andar a pé "ascende" à categoria de desporto. Numa cidade como Lisboa, onde os passeios já são barbaramente invadidos por automóveis, a solução "natural" seria convertê-los em estacionamento e substituí-los por modernas pistas de footing ao longo das marginais ou dos parques – ainda mais modernas que as actualmente existentes no Estoril ou Algés. Seria o fim da cidade tal como descrita por Jane Jacobs ou Manuel Leal da Costa Lobo, e a concretização tardia do delírio Modernista de Le Corbusier, num momento em que a carta de Atenas já não passa de uma curiosidade histórica, comprovadamente descabida para servir o desenho de habitats humanos.

Encontro claramente um paralelismo entre os astronautas do pedal e os astronautas do footing. Para muitas pessoas o facto de eu chegar ao trabalho de bicicleta faz de mim um desportista... e qualquer dia acontecerá o mesmo a quem chegar a pé?

A necessária inversão da perspectiva:

Num Mundo acelerado, em que o espaço e o tempo são recursos cada vez mais escassos, encontramos na multifuncionalidade dos espaços e do tempo soluções muito interessantes. Para dar um exemplo: ao contrário de algumas pessoas que aceleram (e travam... e voltam a acelerar e a travar) as suas viaturas de casa para o trabalho, do trabalho para o ginásio (onde praticam o footing em passadeiras e o ciclismo dá pelo nome de RPM) e do ginásio para casa, eu, na minha bicicleta faço o exercício do ginásio, de casa para o trabalho, do trabalho para a mercearia, da mercearia para casa. Não o faço pelo incentivo do Sr. António Costa mas porque assim poupo tempo, poupo espaço e, mais importante que tudo, poupo dinheiro (além do gozo que me dá passar por entre os carros na Av. De Roma na hora de ponta)... e assim o tenho feito desde há 5 anos para cá. Teria sido uma ideia genial se não fosse tão óbvia e estaria rico se, à semelhança da Lycra, esta descoberta fosse patenteável.

Um exemplo mais comum pode ser encontrado no espaço do WC e no tempo de enviar um fax onde muita gente aproveita simultaneamente para pôr a leitura em dia. Le Corbusier diria: até leria na casa de banho se não preferisse a biblioteca (tal como FJV prefere o paredão do Estoril), Hitler proibiria a leitura no WC (tal como proibiu a circulação de bicicletas fora das ciclovias, que por sinal foram inventadas pelo III Reich como forma de abrir as ruas ao Volksvagen). E assim se perpetua o despautério Modernista, que despreza a história e reinventa a pólvora para mais tarde perceber que a solução original era melhor.

Por trabalhar em planeamento urbano tenho que considerar as realidades emergentes e tentar antecipar as tendências futuras, a intuição diz-me que mais cedo ou mais tarde vamos ser obrigados a mudar os nossos hábitos de mobilidade. A questão é se temos a coragem de defender a mudança necessária e o estômago para aguentar comentários de "velhos do Restelo", ou se nos resignamos a ser confortáveis cidadãos dum País que vai a reboque e só muda quando já não tem alternativa. Nunca tive dúvidas que a política exige estômago mas fico contente por ver algumas demonstrações de coragem.

Duarte Sobral

4.9.07

«Lourenço Marques»
À Solta


[Entrevista ao site do Círculo de Leitores]


Cachimbo, imagens, montagem e banda sonora. O papel e a caneta foram substituídos pelo computador. Manuscritos e manuseáveis continuam os caderninhos de apontamentos que guarda entre viagens. Para este livro foram seis ou sete, não precisa. Nem precisa o exacto balanço entre oficial e anónimo. Ouviu, pesquisou, conheceu os lugares de um dito paraíso.

Entre as acácias, o calor e a ruína a travessia impôs-se dura. Miguel, o seu protagonista, regressa a Maputo passados mais de vinte anos com o pretexto de encontrar Maria, o seu primeiro amor. O autor, curioso da Lourenço Marques que sempre ouvira contar, regressa a um tempo perdido e faz-nos perder na paisagem de personagens, suspeitos e ironias. Seguindo a trama de um policial rompe na verdade com um complexo. O complexo colonial.

À solta mas com mapas Francisco José Viegas falou connosco na redacção da «Grande Reportagem». Jornalista, crítico e escritor, colaborou no JL, no Expresso e no Semanário tendo sido director da revista literária LER durante doze anos. Da poesia ao teatro, do romance ao conto, rejeita pretensões e aponta a brevidade dos momentos de revelação. A conversa correu leve, entre as gargalhadas e inflexões que a transcrição da entrevista não captam na íntegra. Podemos contudo adiantar que ao som das respostas o autor acrescentou as músicas que ouviu durante a escrita do livro. Privilégios da entrevistadora que aqui partilha as várias hipóteses de leitura de um livro que se pretende avesso a caminhos em linha recta.

------------------------------------------------



Círculo de Leitores online - Como nasceu este livro ?

Francisco José Viegas - Como quase todos os meus livros, nasceu de uma viagem. Neste caso uma viagem a Moçambique. Depois de uma primeira passagem pelo país fiquei com a impressão que tinha uma história a contar, uma história com mistura de policial. Com o tempo dei-me conta que o que tinha a contar ultrapassava os limites do policial. Por isso voltei quatro vezes a Moçambique para apanhar histórias, para encontrar personagens - se bem que no final tenha acabado por perceber que os grandes personagens da história estavam aqui em Portugal.

CLonline - «Lourenço Marques» é um livro repleto de memórias, detalhes, sons, cheiros e imagens. Como é possível chegar a esse tipo de detalhe sem ter de facto vivido em Moçambique no tempo que descreve ?

FJV - Trabalhando. As viagens a Moçambique foram muito simples, viagens de terra em terra, de jipe, de «chapa» (o autocarro colectivo), viagens de reconhecimento. Depois existe o espantoso, o lado espantoso da descoberta de África por um europeu.

CLonline - Viaja sozinho ?

FJV - Algumas vezes sim.

CLonline - Tira apontamentos, anota?

FJV - Vou à solta. Se uma pessoa não for à solta, se não estiver disponível não encontra nada, ou então só encontra aquilo que quer encontrar. Nesse caso é melhor não viajar. Embora eu soubesse onde queria ir - à ilha, a Nampula, Pemba.

CLonline - E porquê esses sítios em específico?

FJV - Porque eram os sítios que haviam marcado a memória das pessoas que eu tinha conhecido. Eu brinco muito com esta história, mas é verdadeira: o primeiro umbigo de mulher que vi foi o de uma rapariga do meu liceu que tinha vinda de Moçambique. Sempre me fascinou essa gente vindo de Moçambique. Representavam um mundo extraordinário de pessoas completamente diferentes dos portugueses da metrópole. Vinham de um mundo mais livre, mais apetitoso, de um local mais aberto, com sol, com outros hábitos, de um mundo em que se bebia «Coca-Cola». As pessoas não se lembram mas em Portugal não se vendia «Coca-Cola», era proibido.

CLonline - Durante as suas viagens falava com pessoas que já lhe tinham sido indicadas ou houve uma procura de testemunhos ?

FJV - Consultei os arquivos históricos de Maputo, os jornais da época, e entrevistei algumas pessoas, quer dizer, não entrevistei, falei com as pessoas. Não há no livro uma fonte oficial. Não digo a transição do poder em Moçambique foi ‘assim’. Usei vozes comuns - mais do que vozes anónimas, vozes comuns. O método de escrita passou muito pela recolha de material. Só que, e este é o drama do livro, eu sabia que não seria capaz de escrever o livro como planeado, como um policial, e durante muito tempo o livro esteve parado. No tempo em que estive parado escrevi mais dois livros. O grosso de «Lourenço Marques» acabou por ser escrito em 2002.

CLonline - E o que o fez retomar a escrita ?

FJV - O ter rompido com um complexo, o complexo da culpa colonial. Só acabei o livro quando eu próprio consegui romper com esse complexo. Uma senhora perguntou-me porque é que eu não tinha dado o título de «Maputo» ao livro, e eu respondi que nada tinha a ver com Maputo. Esta história não é uma história sobre moçambicanos, é sobre a África dos portugueses. Não podemos arrancar a memória. Não podemos branquear o colonialismos, nem os seus crimes, nem a violência, embora eu não tenha tentado fazer uma história dessa violência colonial nem do racismo. Procurei o lado feliz. Mas o livro não deixa de ser sarcástico com os brancos.

CLonline - A nostalgia atravessa aliás todo o livro.

FJV - Conheci muita gente em Portugal com saudades de um lugar chamada Lourenço Marques. Com a perda da cidade houve a perda de um mundo, a perda real de pessoas que tiveram de reconstruir a sua vida a partir do nada. E o Portugal dessa época foi muito hostil com os retornados. Uma posição que hoje, a esta distância, me parece injusta porque eles foram uma força transformadora, com capacidade de iniciativa, e acabaram por mudar Portugal e a estrutura económica do país. Também mudaram as nossas ementas nos restaurantes, a forma de vestir, de falar, o nosso imaginário que passou a ter novas referências. Quando se diz o nome ‘Lourenço Marques’ essas pessoas parecem ficar com um clarão no olhar, um clarão de nostalgia, não de saudade troglodita colonial.

CLonline - Miguel, o protagonista, procura Maria de Lurdes ou procura as suas memórias ?

FJV - É difícil separar as duas. Há duas perdas, a perda de um mundo e a perda de um amor não concluído. As duas cruzam-se.

CLonline - Existe também uma certa ideia de paraíso perdido. Esse paraíso localizado no passado é já uma elaboração da memória ?

FJV - O paraíso só existe no passado. As coisas no passado tem uma textura que não têm no presente, a nossa memória é muito selectiva e as coisas voam-nos... Por outro lado aquele passado está de facto marcado por várias coisas, pelo amor, pela família, pela natureza. A vida em Moçambique era muito melhor que a vida que encontraram aqui. Era uma vida mais livre. Se pensarmos que em Moçambique passavam filmes proibidos aqui percebemos a diferença de hábitos sociais, sexuais e culturais - muito mais livres que os nossos em Portugal. E, realmente, o calor afecta e dilata os corpos.

CLonline - Das histórias que recolheu e ouviu quais as que usou no livro ?

FJV - Conto histórias que aconteceram e outras não. Algumas das histórias coincidem com o período de loucura que se viveu em Moçambique, por exemplo, uma pessoa podia ir a sair do cinema, no centro de Maputo, e pediam-lhe os papéis. A pessoa dizia que não tinha, que ia buscá-los e era convidada a entrar num veículo. Uma semana depois estava no Niassa. Geralmente existe o mito de que o autor tem imensas coisas a dizer sobre o livro. Eu fui fazendo-o, escrevendo-o. Algumas personagens tocaram-me de uma maneira quase brutal, como o médico de Lichinga que mantém um resto de dignidade notável - e ainda hoje dou por mim a pensar na pessoa real por detrás do personagem. O xeque Abdurrazaque também existe e tem este nome.

CLonline - Mas quando parte para a escrita já tem as personagens delineadas ?

FJV - Sabia quem era Maria de Lurdes, que ela se atirava à piscina e que era perversa o suficiente para despir o maiô. Tinha uns seis ou sete blocos de apontamentos a que ia buscar o que precisava, pormenores que não pareciam importantes mas que depois, de repente, se revelaram explosões. O meu método é muito cinematográfico, funciono por imagens, por cenas. Escrevo directamente no computador, escrevo sempre acompanhado de um conjunto limitado de discos, que gravo no computador e que funcionam como banda sonora. Cada personagem tem uma canção, cada ambiente tem uma música, o que me ajuda a escrever. A dada altura já não podia ouvir Tindersticks...

CLonline - Que eram a banda sonora de quem ?

FJV - Do Miguel. Da Sara é uma confusão, desde Chillout a música mediterrânica. O Domingos Assor é muito música instrumental por causa dos seus delírios.

CLonline - A trama policial acaba por ser um pano de fundo, um pretexto ?

FJV - Nos outros livros o policial é declaradamente um pretexto. Neste é menos. Acontece um crime e existe uma investigação pelo que precisava de um personagem que fosse o Domingos Assor, que se está nas tintas para o dito passado glorioso. Ele sabe tudo e até ao fim mantém a esperança de que Miguel mereça saber a verdade. Leva o saco de Maria quando se vai despedir dele ao aeroporto porque espera que no último instante ele mereça a verdade. Mas o Miguel desiste, o Miguel é no fundo isso mesmo.

CLonline - Miguel não queria de facto encontrar Maria ?

FJV - Ele queria encontrá-la, o problema é que só recuperamos o passado quando o merecemos. Às vezes só conquistamos uma felicidade passada quando somos suficientemente loucos para, num gesto, colocarmos tudo em causa. Foi o que a Maria fez, mas Miguel nunca o fará. No livro alguns dizem que a Maria morreu, outros que foi ela quem matou Madane, são hipóteses. Nunca revelo o criminoso nos meus livros, sugiro apenas que poderia ter sido este ou aquele.

CLonline - Joga então com o leitor como se também ele tivesse de merecer a verdade. A irresolução é então aparente ?

FJV - Há sempre um sinal de quem é o criminoso, há sempre uma frase, um parágrafo onde a verdade aparece. Mas também o leitor tem de perceber que a vida não tem um único sentido. Mas sim, há sempre um sinal de como a história se poderia ter resolvido.

CLonline - Diria que há um ciclo de vingança inerente aos acontecimentos ? O português Zacararias dos Anjos morre nas águas onde Gungunhana fora preso por Mouzinho; na fotografia do paraíso de infância de Maria, Assor detecte o então criado Madane que se torna, com a independência, um temido capitão dos campos de reeducação, que será morto por um dos seus conterrâneos. Cumpre-se uma vingança ? Ou uma forma de justiça ?

FJV - A História é feita de vinganças. Há um ciclo de violência, um ciclo de racismo contra os brancos, e agora um tentar fascinar e cativar os fazendeiros brancos como aconteceu no caso do Zimbabwe. São os ciclos da história.

CLonline - Mas a sequência de acontecimentos, em específico a ligação entre esses três momentos, é uma acaso da História ?

FJV - É uma inevitabilidade. A História não pára, e sobretudo não pára em nome das loucuras que se cometem em seu nome. Era inevitável que as coisas acontecem-se daquela forma, que houvesse guerra, que surgisse uma perseguição aos brancos, que os brancos moçambicanos fossem mais radicais que os negros, que com o tempo as pessoas sentissem saudades. A História implica ciclos de aceitação e recusa, ciclos de fascínio e de repulsa. Quem é que em perfeita saúde mental aparecia na televisão a dizer que os portugueses deviam ser todos queimados ? No entanto era natural que isso acontece-se e que alguém, passados trinta anos dissesse, acabou, acabou o luto.

CLonline - Como falam hoje os moçambicanos desse período ?

FJV - Depende da geração. A geração com mais de cinquenta anos tem uma certa memória, uma memória que não é totalmente má. As pessoas de trinta a quarenta anos vivem entre o estar-se nas tintas e o reconhecer que há uma ligação estreita. Para os adolescentes os portugueses são apenas brancos como os holandeses, os franceses.

CLonline - As cidades que visitou guardam marcas da presença portuguesa ?

FJV - Em todos elas existem marcas dessa presença, mesmo nas cidades mais destruídas. Essa é também uma das inevitabilidades da História: o ser impossível apagar a passagem dos portugueses. No tecto da Igreja da Nossa Senhora da Consolação dos Militares, no Brasil, foi pintada a batalha dos montes] Guararapes. A primeira em que se fala de uma consciência brasileira, em que portugueses, índios, negros e pessoas que já tinham nascido no Brasil lutaram contra os holandeses na recuperação do Nordeste. O quadro é genial mas alguém teve o cuidado de, no final do século XIX, tapar as bandeiras dos soldados portugueses. Vemos os soldados no campo de batalha sem bandeira.

CLonline - Então o apagamento existe.

FJV - É inevitável que as pessoas apaguem o que lhes foi doloroso. Os portugueses também não eram pêra doce. Temos em África um historial de violência, embora com o tempo isso se relativize e compreenda.

CLonline - Queria voltar precisamente ao português que no seu livro decide ficar, o último médico branco em Lichinga que fala de deus como um controlador aéreo.

FJV - Ele é o branco que assiste ao delapidar do país, que assiste à violência. Os portugueses têm memória da guerra colonial mas não da guerra civil. Não temos ideia da violência da guerra civil em Moçambique, dos miúdos que foram obrigados a matar os pais para provar a sua lealdade ao movimento, obrigados a denunciá-los, a beber o seu sangue. Para quem anda pelo país e vê as povoações abandonados, as carruagens calcinadas, os buracos abertos, percebe que aquele é um mundo muito estranho. E ele, o médico branco de Lichinga, assistiu a isso, à violência, à hipocrisia ocidental. Para além disso ele é um homem doente que sabe o seu destino, que sabe que vai morrer...

CLonline - E que não parece muito desesperado com isso...

FJV - É médico e sabe que não pode fazer nada. «Lourenço Marques» é também uma história sobre o encontro com Deus. O próprio Domingos Assor tem uma visão dessa transposição dos ritos monoteísta para a África - é aliás impossível estar em África e não sentir esse conflito. Existem afinal duas relações possíveis com Deus. De mal-estar: como é possível que Deus exista e que exista a miséria e a violência da guerra? E existe outra saída: o inexplicar o mundo. O médico diz que deve haver alguém a controlar o tráfego aéreo porque existe tanta ordem e tanta desordem no mundo que deve haver alguém que estude as coincidências, alguém que faça as suas excepções. As pessoas mais religiosas são, do ponto vista formal, a Sara, uma judia, e o Domingos Assor. O xeque que prega partidas citando versículos do Alcorão ao contrário para que Miguel encontre verdadeiramente o caminho

CLonline - O médico diz a Miguel que «Não é qualquer um que pode chegar ao lago e olhá-lo e voltar, regressar a casa. Há sempre qualquer coisa que fica a marcar-nos para sempre». O que quer dizer com isso ?

FJV - Não se pode passar pelas coisas impune. Ver o lago Niassa implica passar por uma certa provação. Por isso depois de uma viagem de seis dias de carro quando se chega ao lago parece ter-se chegado ao princípio do mundo.

CLonline - Para além da beleza descreve a ruína.

FJV - Os portugueses deixaram um mundo europeu de ordem, autoridade, disciplina. Tudo isso foi sendo abandonado. Há uma luta muito séria em todos esses países contra a ruína. Quando se assiste ao que se passou no Ruanda e no Zaire percebe-se que a dignidade humana acabou. No judaísmo a história deixa de ter sentido a partir do holocausto, a sohoah, em que o mal anda à solta, um mal puro, uma violência sem explicação. Quem viu o Ruanda não esquece. Em poucas dias foram milhares de mortos. Como é possível a poesia depois de Auschwitz ? Uma outra pergunta: porque é que o povo hebreu ficou quarenta anos no deserto e não foi directamente para a terra prometida ? Porque tinham de passar aqueles quarenta anos. Esses quarenta anos são o espaço de uma geração. Quer dizer, só era permitida a entrada na terra prometida aos que não tinham memória do horror. É exactamente o que se passa com Moçambique, quando passar uma geração, a das pessoas que conheceram o terror, a morte, os amputados, os deslocados, então será possível um mundo melhor. O símbolo da travessia do deserto, a metáfora do estar perdido, é também uma das histórias do livro. É preciso deixar passar o tempo.

CLonline - Visita na sua escrita a poesia, a ficção, viagens, conto, teatro, crítica. A escrita de diferentes géneros exigem-lhe diferentes disposições ? E consegue escrever ao mesmo tempo em géneros distintos ?

FJV - Não, tenho de os separar. O esforço é o mesmo, o tipo de trabalho é que é muito diferente. Não tenho nem lei nem ordem para escrever poesia, acontece ou não. O romance exige coerência, dados - um personagem não é um nome, é um banco de dados e as personagens de um romance só são verdadeiras quando começam a voar, quando começam a ter vida própria.

CLonline - Qual o género em que entre aquilo que quer escrever e o que consegue escrever o abismo é menor ?

FJV - Não há um género, existem certos parágrafos. Certos parágrafos em que me sinto melhor, momentos em que se toca algo com o sabor de revelação, em que podemos dizer “isto fica”. Em «Lourenço Marques» tenho dois ou três momentos assim.

CLonline - Quais ?

FJV - O delírio do Domingos Assor, a fala do médico e uma parte da conversa do Domingos sobre África, sobre o mundo dos brancos e dos pretos e como nunca conseguiremos explicar o que opõe ou une homens e mulheres, o que opõe ou une brancos e pretos, no fundo o que une os contrários. Nessa fala o Domingos Assor encontra uma explicação. Diria que esses três momentos não estão mal conseguidos.

CLonline - Permita-me a invasão (tal como o polícia Assor invade “uma vida inteira” ao vasculhar os objectos deixados por Maria numa mala). Se numa viagem perdesse a sua mala que objectos lá encontraríamos ? E que objectos preferiria que não encontrássemos ?

FJV - Preferia que não encontrassem a minha mala. Não tenho da vida uma ideia muito gloriosa ou cheia de charme, tenho da vida a ideia de que se repetem sempre as mesmas asneiras e patifarias. Encontrariam na minha mala coisas normalíssimas e pecaminosas como se encontra em todas as malas, e encontrariam mapas. Mapas para as viagens que gosto de fazer, meia dúzia de livros, meia dúzia de discos necessariamente, fotografias das pessoas que eu amo, das pessoas de quem dependo, e um poema ou outro, solto, de Yeats. Pouco mais.

20.8.07

Conversa de cerveja, interminável

[Publicado na Pública, de 19/08/2007]

O meu guru, durante vários anos, foi Wolfram Koehler, o mestre cervejeiro alemão com quem bebi o maior número possível de “Belikins” ao balcão do Bellevue Hotel, um pequeno hotel de Belize City. O hotel já fechou, sobrecarregado de dívidas e de maus negócios de George, o escocês que o comprou e passou a dirigir quando as Honduras Britânicas passaram a ser o Belize independente, em 1980. George gostava de cerveja e de brandy, e a irmã Nathalie, que era casada com um oficial britânico da RAF, preferia vinho. Bebiam o que queriam. O Bellevue Hotel era um lugar onde cada um bebia o que queria, porque estava cheio de personagens de Somerset Maugham, geralmente fugidos à inspecção fiscal americana, a esposas que os aguardavam em Nova Iorque ou no Minesota, a namoradas que nunca casariam com eles em New Orleans, ou a um destino qualquer em qualquer outra parte do mundo. Com clientela assim, o Bellevue teria de falir. Os quartos também não eram grande coisa e o marido de Nathalie, o oficial da RAF, bebia vinho do Porto com queijo “stilton”. Essa foi uma das razões do seu divórcio, há um par de anos, porque ela conheceu um produtor de reggae que bebia cerveja e trazia “Dragon’s Stout” às caixas, da Jamaica, onde acabaram por abrir um bar. George, por seu lado, falava demais até às dez da noite; depois das dez da noite ninguém conseguia entendê-lo porque a gramática se enredava em ondas de álcool, para provar que as frases com sujeito, predicado e complemento directo eram incompatíveis com brandy de origem duvidosa.

Na verdade, eu conheci Wolfram Koehler porque River Phoenix não bebia café. Eu não falei com River Phoenix mas, nessa temporada de Belize City, ia frequentemente ao Lily Rose Cafe & Patio, onde River Phoenix bebia muito quando era vivo. Ele ia beber. Eu ia almoçar porque me levantava muito cedo e tinha fome por volta do meio-dia. Depois de um almoço de galinha frita e arroz de feijão com côco era insuportável estar no Lily Rose Cafe & Patio porque não havia café, nem chá, nem nenhuma bebida quente. Só havia cerveja. River Phoenix só precisava de cerveja e não gostava de café. Fui a pé para o hotel, onde deveria sentar-me ao balcão do pequeno bar do jardim, de onde se viam os barcos que regressavam dos recifes, e onde se podia tomar café expresso e fumar charuto. Wolfram Koehler estava lá e, meia-hora depois de nos termos apresentado, ele começou a pedir cervejas. Quatro horas depois estávamos, com George, o dono do Bellevue Hotel, numa ilha a hora e meia de barco de Belize City, sentados num areal diante daquele mar de cartolina azul, coqueiros, casas de madeira que tinham sobrevivido ao tufão anual. Só saímos da ilha no dia seguinte, depois de um jantar fatal, de muitas horas de conversa e de muita cerveja bebida.

Só de manhã soube por que razão já “podíamos regressar a Belize City”: Wolfram também era um personagem de Somerset Maugham e o seu casamento com uma argentina relativamente fogosa e possessiva (eu nunca a conheci) estava marcado para a noite anterior em New Orleans. Na ilha não havia telefone e Wolfram podia regressar, livre, à cidade, depois de ter anulado o casamento uns dias antes.

O que tem isto a ver com cerveja? Tudo. Em primeiro lugar é conversa de bebedor de cerveja, interminável (podia escrever várias histórias sobre o oficial britânico da RAF, que sempre me pareceu uma espécie de Chatterley); em segundo lugar, Wolfram era um mestre-cervejeiro de quarenta anos, cujo pai tinha sido mestre-cervejeiro em Munique, cujo avô foi mestre-cervejeiro em Colónia. Ele desempenhou essas funções em França, na Alemanha, no Brasil, nos EUA e, finalmente, no Belize. Conheci-o quando estava de férias – nessa altura ele dirigia o seu próprio restaurante em New Orleans, onde fabricava três cervejas superlativas: uma pilsener clarinha, leve, de coração frio; uma dunkel apetitosa com tons de caramelo; e uma red-ale, ruiva e profundíssima. Há anos, ele tinha aceite a oferta de um emprego naquele país que ninguém conhecia: reformular e relançar a “Belikin”, transformando-a numa lager ao gosto de quem apanhava o iodo do Mar dos Sargaços.

Até aí, confesso, eu só gostava de cerveja. Quem pagou a minha primeira cerveja foi o meu avô. Estávamos em Agosto e eu tinha 14 anos. Prometi que, durante esse Verão, não beberia mais nenhuma. Não bebi. Só no Verão seguinte voltei a pedir-lhe que me pagasse um novo “fino” no Café Carneiro, diante da estação dos caminhos-de-ferro, mais ou menos à hora a que estacionava o rápido do Porto, que nesses anos ainda chegava a Barca d’Alva e tinha ligação para Freixeneda do outro lado da ponte sobre o Douro, ou seja, para Espanha.

Havia três coisas que nós – os miúdos que passavam férias no Douro – aprendíamos durante o Verão e íamos aprofundando ao longo dos anos da adolescência. Primeira: que na Quinta do Vale Meão, mesmo diante da aldeia mas na mesma margem do rio, se produzia “o melhor vinho do mundo” conhecido pelo seu nome (que seria “Barca Velha”). Segunda: um rapaz só era rapaz quando se atrevesse a saltar para o rio de noite, junto das rochas da Casa do Douro, ou soubesse trautear “Bad Moon Rising”, dos Credence Clearwater Revival. Terceira: as melhores imperiais ou finos das redondezas eram servidas nas esplanadas de Moncorvo, a que íamos muito (por causa das raparigas), no balcão de zinco de Salomão Carneiro (dentro de portas, portanto) e num café do Jardim do Tabolado em Vila Nova de Foz Côa, a que não íamos muito (por causa das raparigas).

Os meus Verões no Douro eram monótonos – e essa monotonia era saborosa. Havia livros da carrinha da Gulbenkian, pesca duas vezes por semana, festas da aldeia na segunda semana de Agosto (o que se traduzia por uma guerra ruidosa entre fanáticos de “Smoke on the Water” – nós – e adeptos da filarmónica de Felgar, que vinha para os últimos dois dias), vindimas a partir da primeira semana de Setembro, filhas de proprietários ou administradores de quintas, cinema ao ar livre (por três vezes vi “Os Canhões de Navarone” e “A Túnica”) e a comida da minha avó. A tudo isto veio juntar-se a explosão de frescura e de devassidão prometida pelas primeiras imperiais da adolescência. Muitos anos depois, na esplanada de um bar de São Paulo, e lembrando-me sempre de Wolfram Koehler, a quem contei o projecto (em Lisboa, num restaurante onde falámos de futebol todo o tempo) quis começar a escrever o guia das minhas cervejas preferidas. A primeira coisa de que me lembrei foi essa impressão de frescura amarga – e do sorriso do meu avô, que só bebeu meia dúzia de cervejas ao longo da vida, mas me deixou conhecer esse sabor.

Era impossível escrever esse guia. As primeiras cervejas são ruidosas na memória – mas, geralmente, não têm qualidade. Basta-lhes serem frias e constituírem uma etapa na adolescência. Depois, vieram muitas cervejas bebidas em inter-rail. Por sorte, os meus inter-rails levaram-me aos países da cerveja: Alemanha, Bélgica, Suécia, Suíça, Dinamarca ou Holanda – e Inglaterra, naturalmente, onde qualquer português garantia que existia a pior cerveja do mundo. Nessa altura, a Checoslováquia era demasiado longe. Ficou para depois. Nesses anos, era um coleccionador que tentava provar a maior quantidade de cervejas antes de regressar à faculdade. Bares de Hamburgo, de Munique, de Estocolmo e de Copenhaga; esplanadas de Antuérpia, Amesterdão ou Groninguem; pequenas estalagens nas montanhas da Suíça; em todos esses lugares coleccionava rótulos de garrafas de cerveja. Quando regressava, trazia experiências na mochila para enfrentar o pelotão de Super Bock, Sagres, Cristal, Cergal, Marina e Clock (a Especial Mello Abreu e a Coral, insulares, só vieram depois). As últimas três desapareceram entretanto e pouca gente sentiu falta. Eu senti – mas sobretudo penei pelo desaparecimento da Topázio e da Ónix, as cervejas de Coimbra (e havia Cuca na minha infância) e de uma Boémia que se bebia em Lisboa. Em Lisboa, havia poucos lugares onde se bebiam cervejas estrangeiras – além das que eram distribuídas com garantia, a Carlsberg e a Tuborg (apenas as “lager”). Portugal era um país vinícola cheio de “adegas cooperativas” onde o vinho era geralmente mau, e a cerveja era uma bebida sem prestígio. No final do Verão, eu continuava a subir de novo ao Douro para ajudar o meu avô paterno a fazer vinho. Erguíamo-nos de madrugada, conheci o cheiro dos lagares e percebi que havia uma profundíssima alquimia nesse processo que nos deixava os pés sujos e uma impressão de alegria embriagada. Nunca percebi, de qualquer maneira, por que razão não poderíamos beber cerveja, nós, os deserdados da erudição vinícola. Nunca percebi por que razão uma coisa teria de excluir a outra.

Foi na Irlanda, de qualquer modo, que percebi. Num pub de Galway pedi uma pint de Guinness e o empregado, depois de ver a minha alegria, sugeriu que voltasse no dia seguinte para provar a cerveja do próprio bar. Tinham esgotado a reserva e a nova produção tinha começado há quinze dias. Amanhã estaria pronta. Fui. Não era a pior cerveja do mundo, não era fria, não tinha perdido o amargor: fresca, amarga, ligeiramente alaranjada, com tons de caramelo e café, e existia em apenas vinte barris mensais. Aprendi como se fazia cerveja e descobri como era um ingrato: quinze anos atrás, em plena infância, o meu avô materno – em Vinhais, Ousilhão – produzia lúpulo para vender a uma empresa de cervejas do Porto. Nunca liguei. Arrependi-me. Amargamente, como convém ao lúpulo e à sua flor.

E, depois de mais uns percursos, cheios de stouts e imperial stouts, de porters e de red ales, de pale ales, de dunkels e de weissbiers, de bocks, rauchbier, trapistas, pilseners e trippels, doppelbocks, amber ales e bitters, passei a não compreender os que, ao aproximarem-se da nossa fronteira, rezavam em coro: “Ah, não há cerveja como a nossa!” Havia. Se havia.

Havia, e desde antes de antes. Estrabão cita os lusitanos como aquele povo que sabemos – mas, para o que nos interessa, eles bebiam cerveja. Abundantemente, aliás. Não é um hábito diferente de todos os povos com agricultura – de que provém a cerveja. Apenas os arborígenes da Austrália e os esquimós não fabricaram cerveja; precisamente, porque não tiveram agricultura. O “pão líquido” dos antigos (era assim que era tratada a cerveja, como um alimento), aliás, é um dos grandes argumentos contra o criacionismo religioso: acreditar que o mundo foi criado há exactamente 6000 anos (mais exactamente 5767 na nossa tradição, quase 5768, uma vez que se aproxima Rosh Hashana) significa esquecer que existe cerveja cerca de 3000 anos antes dessa data. É uma injustiça. A menos que, antes disso, só o Criador tivesse o privilégio de bebê-la.

Hoje, é difícil criar uma cerveja má. Consegue-se, evidentemente, mas podemos reconhecê-la como aquela bebida com ligeira presença de lúpulo e alegadamente de malte, mas sem gosto e sem aroma. Nos EUA conheci cervejas magníficas (foram a minha última surpresa a acrescentar); recentemente descobri que só no estado de Santa Catarina, no Brasil, há sessenta e cinco cervejas desconhecidas à minha espera; aguardo uma viagem à Austrália para provar as setenta que se fabricam ali; as cervejas do norte e do centro de Inglaterra ainda guardam segredos fatais. Em todos os lugares do mundo há cervejas novas que recriam o pão líquido dos antepassados do Crescente Fértil, a “chicha” das Américas, a “ole” dos saxões.

Há dois anos, quando pensei que tinha chegado ao fim do mundo, para lá do sul, em Ushuaia, às portas da Antártctida, entrei num bar ao fim da tarde, o The Irish Pub at Ushuaia (para quem não saiba, ó pormenores fatais, fica a poucos metros de uma livraria que só vende livros de viagem e mesmo diante do derradeiro ancoradouro do Canal Beagle, onde Charles Darwin desceu), e senti-lhe o cheiro, à cerveja artesanal: ligeiramente tocada por citrinos, pressenti o amargor definitivo, imaginei a pérola de espuma a formar-se – e fechei os olhos. O barman, um argentino recortado sobre um quadro onde tinham emoldurado uma camisola de Diego Maradona, sorriu quando lhe perguntei se tinham cerveja. “La mejor!” Em toda a Argentina, de Corrientes, na fronteira do Paraná, até aos Andes e ao estreito de Magalhães, provei cervejas magníficas, brutais. Os velhos hippies de El Bolsón, na Patagónia andina, por exemplo, fabricam uma dezena de cervejas artesanais que pedem meças a qualquer uma que possamos beber em Manchester ou em Bruxelas. “La mejor que venga”, propus eu. E veio. Nunca mais, repito, nunca mais bebi uma cerveja assim, como a “Ushuaia” – pareceu-me ter um travo de limão, um diabo à solta dentro da caneca de vidro. Voltei nessa noite, e no dia seguinte, e mais duas ou três noites, e despedi-me comovido da última garrafa que trouxe comigo, umas semanas depois, já em Portugal. Era boa? Era. Era a melhor? Naquela hora, sim. Eu tinha feito uma caminhada de doze quilómetros até ao sopé do glaciar El Martial, e foi a melhor cerveja do mundo. Essa é a grande lição da cerveja: a sua circunstância.

2.8.07

«Longe de Manaus»
Entre a poesia e a ficção.
E com humor, com muito humor
O policial Jaime Ramos volta a investigar...



Há um crime, um corpo que nada diz. Mas uma série de vestígios, de pequenos nadas que o persistente inspector Jaime Ramos, conhecida personagem de Francisco José Viegas, monta passo a passo. Recolhendo pistas, detalhes, traça, na verdade, a biografia de uma vida interrompida. E é a partir desse abrupto do crime que vasculha casas e vidas, e descobre tragédias, amores, e os tantos lugares em que o português se perdeu pelo mundo.

Natural de Vila Nova de Foz de Côa, onde nasceu no ano de 1962, Francisco José Viegas, actual director da Casa Fernando Pessoa, obteve com este livro o Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB 2006. Do Porto a Luanda, da Guiné ao Manaus, o seu personagem, Jaime Ramos, investiga um caso que nos leva em viagem. Conhecendo as cidades que conta, o autor deixa que a língua (que os diferentes ocupantes da língua) lhe dêem uma riqueza e perspectiva próprias. Mais uma vez o policial é em Francisco José Viegas uma magistral forma de poesia e ficção que condimenta a inconfundível humor. Flui, tudo flui na leitura de «Longe de Manaus»... (Ao prazer da leitura acrescente-se a inteligência do retrato.)


...gente com vidas interrompidas

Círculo de Leitores online - Polícia, biógrafo e escritor – como liga estas profissões? Tem o seu investigador Jaime Ramos algo de biógrafo, e tem o Francisco José Viegas algo de investigador de vidas?

Franscisco José Viegas - Há uma cumplicidade entre mim e o Jaime Ramos. Eu sou um admirador da sua minúcia, da sua actividade de investigador. Nessa medida, ele é um personagem que existe independentemente de mim. Ao fim destes oito livros em que ele aparece como personagem, já não posso comandá-lo totalmente, como acontecia no princípio, até por respeito para com os leitores, que conhecem alguns pontos essenciais da sua vida. Ele tem uma biografia, uma vida cheia de memórias, tem tiques, hábitos, tem idade, defeitos, tudo o que acontece geralmente a uma pessoa viva. Nessa medida, do ponto de vista do “jogo de criação literária”, eu sou um biógrafo de Jaime Ramos. Não me desagrada totalmente essa opção, uma vez que eu acho que o romance tem de viver sobretudo de personagens, ou pelo menos funciona em seu redor. Claro que ele é o meu instrumento, mas enquanto instrumento puramente literário ele faz coisas que eu não posso fazer… Em cada livro há como que uma biografia de um personagem.

CLonline - Volto agora atrás, ao começo. Como surgiu a escrita deste romance?

FJV- Havia uma ideia inicial, a de escrever sobre um personagem que não queria regressar a Portugal depois de muitos anos a viajar pelo mundo, trabalhando aqui e ali. Com o tempo, a ideia foi mudando, e cheguei à definição de um personagem que tem laços a prendê-lo a todos os lugares onde Portugal esteve, Guiné, Brasil, Angola, por aí fora… E acabou refugiado em Manaus depois de tudo. Uma notícia no “Jornal de Notícias”, naquelas páginas do interior, acabou por dar corpo à ideia, foi uma espécie de motor para a ideia que eu já tinha e que encontrava, assim, correspondência com a realidade. Fundamentalmente, gente com vidas interrompidas pelas circunstâncias da História – da guerra colonial, de um casamento medíocre, de um passado funesto, de um passo mal dado. Coisas que aparecem em todos os meus livros. Acho que nunca há uma história precisa de um livro, uma história rigorosa… Por exemplo, em “Longe de Manaus” aparecem personagens que não fazem parte da história principal, mas pelas quais me apaixonei, como Daniela e Helena – elas teriam de aparecer, justamente porque na nossa vida também há gente que aparece sem razão. Aparece e pronto. Aparece.



Notas, cadernos de viagem, papéis soltos...

CLonline - E poderia falar-nos um pouco do seu método de escrita para este livro?

FJV -Escrevo à mão e no computador, indiferentemente. Sirvo-me de muitas notas de viagem e, sobretudo, gosto sempre de manter alguma fidelidade em relação aos lugares. Manaus é Manaus, São Paulo é São Paulo, Porto é o Porto, Vila Flor é Vila Flor… De resto, escrevo em planos-sequência, sigo um método de montagem que me salva da dispersão. Estou sempre a voltar atrás, a corrigir datas, a obrigar-me a manter uma certa coerência naquilo que é o fio da narrativa. Quando chega a altura de escrever a versão final uso todos os materiais onde fui escrevendo – notas dispersas, cadernos de viagem, papéis soltos, blocos onde fui tomando nota de frases, pormenores, micro-histórias, genealogias…

CLonline - Uma curiosidade mais quanto à construção (ao nascimento) das suas personagens. Não consigo deixar de pensar nas palavras vestígio, desarrumação, nessa procura dos pequenos nadas de Jaime Ramos durante as suas investigações criminais. É também assim que encontra as suas personagens: entrando nas suas casas, no seus quartos, sabendo o que guardam no frigorífico, nas gavetas... Como investigou, por exemplo, a vida de Jaime Ramos?

FJV -Uma coisa que me impressiona muito é a natureza das coisas que se deixam dispersas depois da morte. Os bilhetes, a arrumação da casa, etc. Jaime Ramos percorre esses cenários fazendo o inventário de coisas interrompidas. Um homicídio, naquilo que tem de trágico, é sempre uma interrupção na biografia de alguém. E por isso ele pergunta-se sempre: o que faria este homem, ou esta mulher, se não tivesse sido assassinado? Mas a única ligação que temos com esse personagem são objectos deixados ao abandono, rastos, pegadas invisíveis numa casa ou onde quer que seja. É verdade que ele gosta de espiolhar nos frigoríficos porque tem essa obsessão, saber o que as pessoas comem, como elas se definem pelo que comem. No caso de Jaime Ramos, ele foi crescendo nos livros, e eu fui acumulando dados sobre a sua vida – o que veste, o que come, qual a natureza da sua conta bancária, onde mora, tudo pormenores que acho importantes para definir o personagem com alguma coerência. Imagino a sua cozinha, o seu quarto, recorto fotografias daqui e dali, desenho pormenores da varanda da casa dele, faço listas de compras que ele fará depois, vejo como são os pescadores da Ria da Aveiro, etc.



Policial como modelo de descoberta
Tragédia e Drama

CLonline - Negada a estrutura convencional de policial (quer por si, logo no início do livro, quer pela sua leitura), porque recorre ainda assim a esse fio da investigação criminal?

FJV -Porque o policial garante um modelo de descoberta, uma história com princípio, meio e fim – embora não tenha, necessariamente, de começar pelo princípio, ou de terminar no fim. O policial é uma espécie de método, de ideal de perseverança numa investigação. Toda a literatura, nessa medida, é policial – além de se preocupar com a morte, o desaparecimento, o crime, o mistério, que são os motores da narrativa policial. No meu caso não me interessa o policial como interrogação social ou sociológica sobre o mundo do crime ou da violência. Não sou sociólogo nem o escritor tem de se preocupar com a sociologia; em meu entender, o policial constitui uma reinvenção do mundo a partir de uma tragédia (o crime) e de um drama (a necessidade de saber, a possibilidade de punir). Num outro livro, uma novela, “A Poeira que Cai sobre a Terra” (Visão, 2006), Jaime Ramos sabe tudo sobre os crimes, sabe tudo – mas recusa-se a avançar na investigação, vai acabar por eliminar os vestígios e as provas. Ele assume o lugar do juiz. Assume o lugar da moral. O policial tem essa possibilidade.

CLonline - Sente que convoca os diferentes “géneros” que povoam o seu romance, ou que eles simplesmente fluem até à sua escrita? Pergunto talvez que influências sente trazer para este livro, de que outros autores, de que outros livros?

FJV - Acho que “Longe de Manaus” está um pouco marcado pela literatura brasileira dos anos noventa. Rubem Fonseca, Noll, Assis Brasil, Hatoum. Eles são excelentes escritores, creio que a literatura brasileira tem uma vitalidade e uma originalidade muito maiores do que a ficção portuguesa de hoje. E reinventaram a forma de contar uma história na nossa língua. Mas não abdico daquilo que se costuma dizer que os meus policiais são: um cruzamento entre poesia e ficção. E humor. Gosto que Jaime Ramos tenha humor. Não gostaria dele se não tivesse humor.



...os portugueses ficam melhores quando se misturam com outra gente ou quando conhecem outras terras.

CLonline - Habitado por tantos lugares, por tantas personagens que o investigador Jaime Ramos vai descobrindo, existe aqui o retrato do ‘português’?

FJV - De uma certa forma de ser português, sim. O português que conheceu África e o Brasil e para quem a pequena pátria é uma ameaça. Não sou patriota nem nacionalista, como, aliás, acontece com quase todos os portugueses. Há uma cena no livro, uma viagem até Trás-os-Montes, em que Jaime Ramos está fascinado pela paisagem, pelas montanhas – e aparece-lhe uma lixeira a céu aberto, lixo ao longo das estradas. Não é um país limpo. É um país bonito, sim, mas encoberto pela vileza e pelas lixeiras contínuas. E um país inexplicavelmente triste. Mas é o nosso.

CLonline - O como se diluiu (transformou) esse português pelo mundo?

FJV - Dilui-se muito bem. Provavelmente, é o povo que melhor se mistura com os outros, que melhor assume outras condições culturais, outras influências, outras gastronomias, outras línguas. Acho isso uma vantagem enorme. Acho que é uma das nossas melhores características, que, aliás, mitigou um pouco o nosso racismo, o nosso colonialismo – que nunca foram tão abjectos como o inglês ou o espanhol, por exemplo. Acho que os portugueses ficam melhores quando se misturam com outra gente ou quando conhecem outras terras. Quando se libertam da pequena pátria.

CLonline - O que pode também levar à pergunta da língua. Usa a sintaxe e fraseologia desses diferentes lugares no mundo onde se fala o português. Mais uma vez, essa foi uma opção natural de escrita? Ou uma opção deliberada?

FJV - Foi uma opção deliberada. Vivi cerca de ano e meio, dois anos, no Brasil, e percebi que os personagens brasileiros tinham de falar em português do Brasil, o que, para mim, nem representa uma grande dificuldade, uma vez que escrevo correntemente em português de lá. E há uma certa poesia nessa mistura, nessa perda de gramática.

CLonline - E nesse encontro com esses diferentes formas de falar o português, sente-se uma diferença de alma, uma diferença do sentir, de viver?

FJV -Sim, naturalmente. Necessariamente. O português é uma realidade que existe independentemente de nós. Já não somos os proprietários da língua – somos ocupantes, como os brasileiros, os angolanos, os moçambicanos, os cabo-verdianos. E é tão diferente a forma de pronunciar, dizer, falar – como de conhecer o mundo através de um sotaque diferente. Esses meus tempos no Brasil foram os mais felizes da minha vida.

Longe de Manaus


Alguns aspectos linguístico-textuais da construção de um "não romance policial"

Ana Martins

1. Uma questão de género

Quando vagueamos numa livraria e somos levados a pegar num livro, procuramos no paratexto, mais ou menos inconscientemente, o género ou tipo textual.

Longe de Manaus tem uma nota prévia, colocada mesmo antes da epígrafe: "Um romance policial, como se sabe, tem as suas regras. Este não tem."

Ora isto é uma contradição: as regras de um romance policial são regras constitutivas de género. Se este romance não tem essas regras não é um romance policial.

Mas então perguntamos: porquê a invocação do policial nessa nota prévia?

Em primeiro lugar, há um crime e um processo de investigação. Por conseguinte, está presente o universo de referência da criminologia, o contexto geral de referenciação de objectos e situações pertencentes à área da investigação policial. Temos, então, palavras e expressões como:

"corpo" , "matar", "polícia", obviamente,

mas também:

"contusões", "arranhões", "estrangulamento" (p.159)
"autópsia" (p.160)
"relatórios" (p. 177)
"fotografias da perícia" (p.238)
"rusga" (p.244)
"cadáveres" (p. 271)
"faquista"(p. 364)
"exames tanatológicos" (p.394)
"decúbito dorsal" (p.430)
"Ferida perfuro-contusa" (p. 430)

2. Especificidade do regime narrativo deste romance

Um dos traços centrais da ficção policial é a narração de orientação retrógrada: as movimentações e decisões do inspector/investigador são colocadas no presente e a partir deste presente vão partir evocações de acções dos agentes directos ou indirectos do crime. Estas acções estão situadas no passado. O narrador pode coincidir com uma personagem (o narrador homodiegético, para usar a terminologia da análise estrutural da narrativa) ou ser uma entidade não personificável, acima da consciência de qualquer personagem, mas sem carácter omnisciente. Note-se que uma regra básica do policial está em impedir que o leitor saiba mais do que o detective, justamente porque só assim há suspense.

Mas em Longe de Manaus o narrador funde-se na consciência de cada personagem, a que geralmente é dedicado um capítulo integral: isso acontece com Jaime Ramos, primordialmente, mas também com José Corsário e com Helena e Daniela. Outras vezes o narrador é uma entidade difusa e ficamos sem saber ao certo se as informações disponibilizadas emanam de alguma personagem. Veja-se, a título de exemplo, a ambiguidade que ocorre na transição do capítulo 14 para o 15: no capítulo 14, é Ramiro que fornece as informações sobre o passado africano de Portocarrero; no 15, esse relato prossegue como se não houvesse ninguém a proferi-lo, sem indicações quanto à presença ou identificação do sujeito da enunciação.

Não há aqui nada de narrativa póstuma, de reconstituição de factos, a cargo de um narrador homogéneo. Pelo contrário, o discurso avança através de constantes monólogos interiores, com diversos graus de interferência por parte do narrador.
Este regime enunciativo heterogéneo é secundado por numerosas instanciações discursivas: há vários pontos de partida temporais e espaciais; há vários "eu-tu-aqui agora". Não há só um presente, uma só actualidade (que seria grosso modo o tempo pós-crime) mas sim diferentes actualidades, diferentes projecções de momentos actuais. Esta técnica, aliás, reconhecida do romance existencialista e pós-moderno, é assinalada pelo recurso recorrente a deícticos (tempos verbais da série do presente, advérbios de tempo e espaço) que não apontam nem para o tempo nem para o espaço do processo de investigação do crime.

3. Referenciação do tempo e do espaço

Os tempos onde se situa o narrador são de diferente ordem:

• podem ser tempos ligeiramente dessincronizados da actualidade do processo de investigação (podem até ser fragmentos de tempos incluídos na actualidade da investigação):
" e sentiu que a hora de recordar a conversa de Corsário das Neves tinha passado. Mas ali, a caminho de São Paulo, foi a primeira imagem que veio ter com ele (...) José Corsário das Neves contara-lhe coisas que sabia." (...) Jaime Ramos acendera um robusto quando chegara ao Bonaparte e reacendera-o agora (...) (p. 229)

• podem ser tempos com um distanciamento de 30 anos (2004 ?1973):
"O dia caía redondo sobre a praia, iam as pretas muito juntas, rindo à beira da água (...) (p.74)
"Alferes Jaime da Fonseca Ramos, dando costas ao capitão e encaminhando-se para a proa do Diogo Cão com saudades da terra, não as mesmas que tem agora, quando caminha pelo molhe (...)" (p.76)

As reinstanciações espaciais são também abundantes:

a) Guiné
b) Luanda
c) São Paulo
d) Rio
e) Manaus

No que diz respeito à referenciação do espaço, é importante de assinalar o recurso a descrições definidas na abertura de capítulos, especificamente, a presença de nomes comuns antecedidos de artigo definido, determinante possessivo ou demonstrativo. Ora, estas descrições definidas dão como identificável pelo leitor os objectos e espaços referenciados. Se esta operação é realizada logo na abertura de um capítulo, há um efeito de imersão imediata do leitor numa situação nova.

"O escritório era uma espécie de armazém onde se amontoavam catálogos (...)." (abertura do cap. 27, p. 150)

"Aquelas mesas, Jaime Ramos conhecia aquelas mesas. E conhecia aquela luz. Mesas e luz, e inox, e instrumentos, e o cheiro." (abertura do cap. 30, p. 165)

"Aquele ruído, Jaime Ramos não o esqueceria tão cedo." (abertura do cap. 46, p. 263)

"Há quantos anos conhecia este bar?" (abertura do cap. 37, p. 206)

Algo de idêntico acontece na referenciação de pessoa. O leitor, ao iniciar um capítulo, é muitas vezes defrontado com uma personagem apenas pronominalizada, o que o obriga a uma inclusão total num contexto sem antecedente no capítulo anterior.

"Quase como uma música. Era mesmo uma música, o som do clarinete ao fim da tarde. Só depois disto choveu, ele diria "choveu tremendamente (...)" (abertura do cap 2, p. 13)

"Era uma casa de dois pisos, mais um cravado na rocha, em baixo, de tijolo amarelo (...) Um ar irrespirável ele lembrava-se (...)" (abertura do cap. 26, p. 146)

"Ela gostaria de saber com que frequência chove no Rio nesta altura do ano." (abertura do cap. 49, p. 293)

Esta proliferação de tempos e espaços exige do leitor um trabalho esgotante de relocalização e de reconstituição do contexto da acção que o distrai da procura do assassino e o dispersa pelas diferentes biografias e reflexões de ordem social e existencial. Veja-se a profundidade psicológica que adquirem personagens como Helena, Daniela, José Corsário, Osmar e, inclusivamente, o homem que depõe Shirlei no seu leito de morte.

4. Hibridismo enunciativo

Excluindo Jaime Ramos, aquelas personagens que são fruto de um maior trabalho de construção de carácter são Helena e Daniela.
Nos capítulos em que estas duas personagens entram em cena, o narrador ora relata factos objectivamente, ora assume a perspectiva da personagem, ora faz da personagem fonte de elocução directa. Este regime enunciativo - aliás, associável ao discurso indirecto livre - permite ao leitor aceder directamente à consciência da personagem na situação simultânea das suas reflexões, pensamentos e sentimentos.

Este regime é marcado pela presença de:

(i) Construções oralizantes de terceira pessoa

"Ah, ela gostara sempre de homens mais velhos (...)" (p.66)
"Ela gostava de Raí, sim." (p. 70)
"Era o português, sim, ao volante de um carro (...)" (p. 71)

(ii) Contiguidade de deícticos de sistemas temporais distintos

"Edilson explicara quase tudo o que é necessário fazer durante o dia de hoje (...)" (p. 65)

" O cigarro terminava e ela levantou-se, já não vinha ao jardim da Praça Buenos Aires há meses."(p. 71)

(iii) Modalização

"(...) podia lê-lo daí a uma hora ou duas, sentada à mesa da cozinha (...) podia ver as árvores da rua da Consolação (...) poderiam sair (...)" (p.89-90)

"(...) precisava falar com Helena, (...)" (p. 109)

O curioso é que é neste contexto - o contexto de reprodução (e demonstração encenada de uma consciência) - que tem lugar a activação da variedade do português do Brasil. Helena e Daniela são brasileiras, vivem em São Paulo, e a transparência daquilo que sentem e pensam, assume forma, verosimilmente, em português do Brasil.

É certo que há ocorrências lexicais e sintácticas desta variedade do português em capítulos que não dizem respeito a estas duas personagens. Quando assim é, essas ocorrências dão-se ou em discurso directo ou nos capítulos em que Jaime Ramos se desloca ao Brasil e não é de estranhar, então, a referenciação de instituições e locais que recebem designações específicas do sistema e modos de vida brasileiros: "delegacia"; "delegado"; "lanchonete".

Em todo o caso, são ocorrências lexicais esporádicas, ao passo que na construção das personagens Helena e Daniela as ocorrências são abundantes e diversificadas.

5. Variedade do português do Brasil

Contrastes lexicais
Palavras denotativas de realidades específicas do Brasil Contrastes preferenciais Empréstimos Etimologia
"o pampa"
"gaúcho" (p.330

"a cuia de chimarrão"
"bombachas"
"estanceiro" (p.331)

"boto" (p.309)
"ônibus"
"quadras"
"banheiro"
"suco" (p. 63)

"torcedora" (p. 64)

"terno"
"açougue" (p. 65)

"chope"
"caipira"
"babás" (p. 70)

"balanços" (p.90)
"time" (p. 91)

"fuscas" (p. 96)

"aposentadoria" (p.99)

"policial" (214)

"xícara"
"manobristas" (p. 221, 291)

"engraxates"(293)

"garoa"
"sebo" (p. 294)

"camiseta"
"camelôs" (229)

"dirigir" (carro) (p. 300)

"babaca"
"baseado" (p. 332)
"a box" (p. 63)

"cavanhaque" (p. 215)
(empréstimo a partir de um antropónimo Eugéne Cavaignac: general francês que usava barba crescida e aparada em ponta no queixo.)

"maillot" (maiô) (p. 90)

"garçom" (p. 295)

"containers" (p.330)

"suéter" (p. 96)
— do quimbundo:
"maconha" (p. 95)

" cacimba" (p.10)

— do tupi:
"cuia"(p. 331)

"muriçocas" (espécie de mosquito( (p. 13)

Contrastes sintácticos
Activação preferencial da próclise Ausência de artigo Preferência por formas não reflexas do verbo Diferenças na selecção de preposição
"O seu pai a levara ..."
"Se apaixonara por Raí" (p.64)

"A princípio lhe emprestara livros... " (p. 105)

"O pai lhe deixara..." (p. 213)
"Ela seguia suas jogadas..." (p. 64)

"Suas perguntas eram delicadas..." (p. 215)
" lembrava da primeira vez..." (p. 105)

"sentava na cozinha..." (p. 212)
"Olhou no espelho..." (p. 90)

Contrastes morfológicos
Diferenças de género Activação preferencial do gerúndio Recursividade do diminutivo
"uma ducha" (p.63)
"um misto quente" (p.63)
"um gin tônica" (294)
"ele sorrindo e afastando a cadeira, preparado para se levantar mas esperando ainda qualquer coisa..." (p.220)
"Daniela ficou vendo Walmir partir..." (p.398)
"barzinho" (p.71)
"menininha" (p.91)
"sacaninha" (p.97)

Contastes ortográficos e fonéticos
Grafia Fonia
— uso do trema:
"tranqüilidade" (p. 63)

"tranqüilo" (p. 214)

"freqüência" (p.293)

— acento circunflexo a marcar fechamento de vogal:
"ingênuas" (p.96)

— afectação de sequência consonantais:
"teto" (p. 95)

"deceção" (p.104)

"insetos" (p.11)

"objetos" (p. 217)

"ato" (p. 312)

— outras grafias:
"xampu" (p. 90)
— articulação
"...dobrava até os erres quando falava..." (p. 70)

— articulação e entoação:
"Acento caipira, dobrando os erres, subindo e descendo como uma pauta de sinfonia..." (p. 90)

6. Valorização manifesta da língua portuguesa

Percorrem o romance alguns "ralhetes" na medida em que se criticam más práticas no uso da língua por parte quer de advogados, quer de polícias.

"E tinha uma coisa rara, inspector: tinha boa gramática. Isso espanta-me muito hoje em dia." (p. 62)

"Jaime Ramos teria o caminho aberto, mas pouparia Portocarrero à humilhação de ser um advogado como os outros - podendo ser interrogado, ouvido nos autos, indicado como suspeito, ter de atender os telefonemas de agentes da polícia, cheios de má gramática (...)" (p. 113)

"Jaime Ramos admirava profundamente os advogados que falavam com uma gramática no cérebro, dispondo as palavras em camadas, organizadas por grau de dificuldade em função do fio da navalha em que se encontravam." (p.115)

"Meu português é bom, Daniela. Anotei sem erros" (...) "Ainda bem que seu português é bom, Walmir. Erro ortográfico é feio." (p. 220)

Mas também há a crítica a um uso pernicioso da língua no plano discursivo, a crítica à retórica balofa que tolhe o raciocínio e faz tropeçar a lógica.

"Este país é muito correto em tudo, é um país que gosta de falar e de ouvir-se. Frases cheias de advérbios. Verbos sonantes. Temos grandes poetas parnasianos, o nosso barroco é quase tão bom como o vosso, gastamos em gramática o que nos falta em verdade e clareza." (p. 277)

Para além da crítica, há a destacar a notação comovida da dimensão e diversidade da comunidade de falantes da língua portuguesa:
"Nessa noite relembraria o momento: ao olhar pela janela do avião reconheceu a mesma língua numa terra distante." (p.227)

"...e somente numa semana a sua língua mudara embora fosse a mesma. Essa língua mais sonora, cheia de vogas abertas e de alegrias desconhecidas, falada por africanos e por árabes, por homens como Padilha, brancos e pálidos, ou como Osmar, morenos e irónicos, sorridentes, ou pelo empregado oriental do bar do hotel." (p.362)

* Texto-base sobre o tema de emissão do programa Páginas de Português do dia 8 de Outubro de 2006.

23/10/2006

Há barcos que têm o destino traçado

© Francisco José Viegas || Visão


“Há barcos que têm o destino traçado”, disse o homem mais alto – o de óculos escuros – para o outro, que seguia atrás, com o charuto pendente dos dedos. Imaginara-o mais atarracado e mais magro, mas quando ele apareceu, nessa manhã, surpreendeu-o também que ele falasse tão pouco e tivesse aquele ar cansado de quem atravessou o país, ou pelo menos o Alentejo, para lhe dizer que estávamos em Agosto e que isso era uma grande contrariedade. Não foi bem assim. Mas na altura pareceu-lhe.

“Agosto é o mês mais fodido.”

Ele olhou-o então, de frente e de baixo para cima (porque estava sentado e o outro de pé) e não pôde deixar escapar um sorriso.

“E Abril é o mês mais cruel”, disse Alexandre Monteiro, como se fosse a segunda parte de um diálogo, esperendo resposta. Mas o outro não respondeu ao sorriso. Não respondeu a nada, aliás, limitando-se a acender o pequeno charuto com um fósforo que retirou de uma caixa. Só então o olhou para recitar, como se estivesse numa esquadra:

“Homicídio qualificado, profanação e ocultação de cadáver, destruição de bens, ataque em alto mar, roubo, utilização de drogas.”

“Não foi em alto mar”, disse, mas o outro não ligou.

“O alto mar é onde os barcos andam.”

“Não é isso. Eles podiam tê-lo morto mais perto da terra e levá-lo depois para o alto mar.”

“Eu sei. Mas, para mim, foi já longe de terra. É onde já não tenho pé.”

“Não gosta do mar?”, Alexandre Monteiro olhando-o de novo, retomando aquela espécie de conversa.

“Não”, disse ele ao levantar-se. “Nem de algas, nem de rochas escuras, nem de Agosto. Nem de naufrágios. Muito menos de náufragos. Já há malucos suficientes em terra.”

“Estranho, muito estranho. Nunca gostou do mar?”, voltou Alexandre Monteiro.

“Já”, murmurou o outro. “Mas foi há muito tempo.”

“Então, que o interessa neste caso? Só o crime? Saber quem matou e porque matou?”

“Interesso-me pela vida dos outros. É a coisa que mais interessa um polícia. Os polícias interessam-se cada vez mais por sexo, informática, filosofia, direito, vidas obscuras, hábitos conjugais, esoterismo.”

“Uma espécie de enciclopedistas.”

“Uma espécie. Qualquer dia vamos para a Ilha da Páscoa estudar rongorongo. Quando posso ver o barco?”

“Amanhã, se quiser. Está selado à ordem do tribunal, e não vai encontrar nada. Tudo o que havia para descobrir está já descrito nos relatórios e no processo. Análises de DNA, inventário, mapas, tudo. Até a quantidade de provisões.”

“Isso interessa-me, as provisões.”

“Davam para um banquete.”

“Hoje em dia, com a cozinha de fusão, tudo se faz”, ouviu-o ainda comentar. Já lhe tinham falado de Jaime Ramos, mas supunha que era outra pessoa.



=======


“Havia três comboios depois dessa hora. Apanharam o que chegou a Olhão um pouco depois do meio-dia. Exactamente aqui, em Vila Real de Santo António.”

“De onde vieram antes?”, perguntou Jaime Ramos.

“De Espanha. Só se pode vir de Espanha, a menos que gostassem das vistas e tivessem ido fazer turismo. Nunca se sabe. Hoje em dia há surpresas em todo o lado.”

Alexandre Monteiro não gostava do fumo do charuto, nem apreciava o desleixo do outro. Qualquer investigador seria melhor do que este homem vestido de jeans, t-shirt, e um blusão azul cheio de vincos. Mas ele não era bem um investigador.

“Deixaram o carro aqui”, murmurou. Continuava sempre a murmurar, como tinha murmurado durante a viagem entre Faro e Vila Real de Sto. António, de vez em quando olhando à direita, como se estivesse à espera que o mar subisse terra dentro para engolir torres, aldeamentos, campos de golfe, sapatarias, bares de alterne e camiões carregados de materiais de construção. Quando chegaram a Vila Real saiu do carro e perguntou a que distância ficava Cádiz.

“Cádiz? Duas horas, mais ou menos.”

“E o carro, como apareceu aqui?”

“Foi descoberto a 4 de Setembro, três semanas depois. É normal aparecerem carros abandonados deste lado da fronteira. Até houve espanhóis que vinham cá deixar os carros velhos, os destroços que já não queriam.”

“E barcos?”

“Barcos nunca deixaram aqui.”

“Mas pode vir a acontecer. Têm-me dito que no Algarve tem acontecido um pouco de tudo.”



=======


Jaime Ramos encostou-se à janela do hotel para ver melhor como o dia ia nascendo. Uma luz ténue, azulada, luzes de carros, gargalhadas na rua, um zumbido. Desagradava-lhe aquele caso e todos os materiais que coleccionara. Ele chamava materiais de colecção às pastas meticulosas que Isaltino de Jesus lhe deixava na secretária, debaixo de um dos cinzeiros que não tinha sido atingido pelos seus charutos.

“Está aqui tudo, chefe.”

Estava, quase sempre. Fotocópias de jornais, fotografias, papéis minuciosamente procurados nos arquivos e, às vezes, ilegalmente retirados de processos que estavam a milhares de quilómetros. Como este, de Cádiz. Puerto Sherry. Playa de la Puntilla. Uma fotografia de um barco, um trimarã esperando que a praia-mar o devolvesse à ondulação.

“Como consegues tu isto, Isaltino?”

“Com sorte, chefe, com sorte.”

Mas Jaime Ramos sabia que não se tratava apenas de sorte. Havia um incêndio no olhar de Isaltino ao aproximar-se do gabinete: primeiro olhava para o rosto de Teofilo Cubillas, pendurado na parede – um velho poster quase descolorido do “Norte Desportivo” que Jaime Ramos arrastava consigo de gabinete em gabinete, em mudanças que lhe desorganizavam a secretária e a paciência; depois, olhava com ar de censura para a secretária desarrumada; finalmente, falava.

“Chefe. Ontem andei a abrir-lhe o caminho”, ajeitando a camisa de manga curta, puxando ligeiramente a perna das calças antes de se sentar. Jaime Ramos não lhe invejava nem a disciplina nem a arrumação – considerava ambas resultado de um talento providencial que tocara a nova pequena-burguesia dos subúrbios, gente que tinha subido a pulso em carreiras insignificantes e que não largava os velhos hábitos dos pais. Isaltino era parte do antigo Porto.

“Chamam-no ao Algarve, chefe, é melhor levar isto.”

“É a nossa internacionalização, Isaltino. Já vamos ao Algarve.”

“Algarve é Portugal, chefe.”

“Talvez, Isaltino, talvez. Para lá do mercado de Espinho e da ria de Aveiro é tudo uma grande incógnita.”

Jaime Ramos chegara nessa manhã e percorrera a costa do Algarve ouvindo o relato daquele homem diligente que o recebera e lhe passara as informações do processo. Alexandre Monteiro usava gravata e um fato que mostrava como a polícia, agora, se incomodava com a imagem que deixava nas fotografias dos jornais, à mistura com aquela linguagem dos novos bacharéis de Direito processual. Na viagem entre Campanhã e Faro lera todos os materiais de colecção reunidos por Isaltino de Jesus. À medida que se aproximava do Algarve sentia como era inexplicável aquela simplicidade de um crime cometido por gente inábil que tinha entrado num barco e matara o tripulante depois de o deixar amarrado e à deriva no mar. E, mentalmente, reconstituíra todo o guião preparado para explicar um crime simples e banal – um homem e uma mulher de um lado, um belga solitário do outro. Mas a solidão deste solitário não era a solidão dos simples, Jaime Ramos pressentia. Até que viu o sublinhado providencial de Isaltino, traçado sobre aquele nome: Cádiz.

E o que Cádiz lhe lembrava não vinha em nenhum dos processos e ainda não fora mencionado nos jornais. Muros fenícios, ruínas de Cartago, gregos e árabes, e o ruído do mar. Ele lembrava-se do ruído do mar porque Rosa gostava de camarões grelhados como se comiam em Puerto de Santa María, e um dia quiseram conhecer o Mediterrâneo.

“O mar é aquela quantidade de água azul”, ela, Rosa, mostrando-lhe o Mediterrâneo. Teria sido há dois, três anos, pela Páscoa. Mas o seu Mediterrâneo não era o daquele trimarã que parecia abandonado na Playa de la Puntilla, e que depois entrou em Puerto Sherry. Eles não sabiam isso. Ele sabia. Isaltino tinha descoberto sem entrar nesses delírios, conversa sobre naufrágios e sobre as aventuras no mar. Ele sabia que a história não se poderia reduzir a uma mulher e um homem entrando num barco para matar o dono, deixando-o amarrado e entregue à tempestade que havia de transformá-lo num náufrago. Era isso que o interessava: a onda que se elevava mais alto que as outras. Esse resumo podia facilitar as coisas. Mas a vida não é fácil.



=======


Três mulheres estiveram no barco naquela noite. Jaime Ramos está sentado num muro diante da penumbra da ilha da Armona e ouve o ruído de um pequeno barco que se afasta do cais, naquela noite de Agosto, levando dois passageiros e caixas de provisões. Um banquete. Ouve vozes e risos. Ouve a água batendo no casco do trimarã, fundeado ao largo, entre as sombras de Agosto. Brisas que volteiam nos pequenos golfos, baías, enseadas, entre ondulações. A meia-idade no Verão, pensa ele reparando nas fotografias daquele homem de sessenta anos que dois dias depois é retirado das águas, amarrado como num cerimonial erótico. Três mulheres, talvez dois homens apenas. Um velho funcionário público belga, retirado com as suas economias, fascinado pelo azul do Mediterrâneo, inútil longe de casa, do seu trabalho insignificante.

Cerimonial erótico, expressão que não quer dizer nada. Um atrevimento súbito no Mediterrâneo, em plena madrugada, em plena tontura da embriaguez. Os fantasmas do Mediterrâneo levantam-se das águas, naquela tepidez de Agosto.

“Não gosta do mar?”, Alexandre Monteiro perguntara-lhe.

“Não.” Mas não era realmente verdade, tratava-se apenas de uma defesa contra o perigo da melancolia.

Duas mulheres e um homem tinham atravessado aquele canal no dia seguinte, devolvidos a um aldeamento com açoteias pré-fabricadas e varrido pelo vento. O único rasto era o daquele casal que fora depois recolhido no alto mar. E Cádiz.



=======


A nota, deixada por Isaltino de Jesus, era uma notícia do “Diario de Cadiz”, de 12 de Agosto, que assinalava uma “rotura de la cadena del ancla que lo tenía fondeado frente a la playa de El Aculadero, en las proximidades de Puerto Sherry. Su único tripulante, un varón francés de mediana edad que hace un recorrido turístico por la costa española, dio aviso de socorro al no poder controlar la embarcación que minutos después embarrancaba en plena arena de La Puntilla”. Há barcos que têm o destino traçado. Nada se teria passado no mar que não fosse uma repetição de um encontro anterior em Cádiz. Um marinheiro enviou a mensagem: que el timos y la elice no tienen buena pinta” e teria de ser reparado em Puerto Sherry, onde aquele homem que se recusava a ser velho conheceu o casal.

“Não tem provas disso”, comentou Alexandre Monteiro, que aproveitou a dúvida para ajeitar o alfinete dourado da gravata.

“Não tenho provas de nada. O mar não é bom para a cabeça das pessoas.” A vida que acaba de qualquer modo, sorriu Jaime Ramos, finalmente. Tudo o que diria um juiz, diante daquele relatório policial que menciona sevícias e tortura e um corpo amarrado. O velho era mau marinheiro e despedia-se da vida.

“O senhor imagina isso só por eles serem franceses. Eles mataram-no porque queriam o dinheiro dele. Não se iluda, eles sabiam o que queriam. Não vá em orgias. Quem quer dar uma foda tem bons hotéis em terra.”

Alexandre Monteiro não tinha a imaginação prodigiosa daqueles que temem o mar. Mas a vida ronda essa tepidez que tanto se sente em Cádiz como em Olhão, como nas sombras da Ilha da Armona.

Jaime Ramos concordou, acenando com a cabeça. O mundo estava cheio de maus marinheiros.

30.7.07

Entrevista Correio da Manhã: Francisco José Viegas
A Casa Fernando Pessoa estava cheia de pó

Francisco José Viegas director da casa Fernando Pessoa diz que quando chegou à Rua Coelho da Rocha em Fevereiro de 2006 encontrou a casa cheia de pó, sem actividades programadas. Em ano e meio de trabalho conseguiu trazer gente à Casa Fernando Pessoa, envolver as pessoas de Campo de Ourique e de Lisboa em muitas iniciativas, sempre com pouco dinheiro. E realça o facto dos funcionários da instituição terem abdicado de horas extraordinárias para manter a casa aberta à noite.

Correio da Manhã – A crise da Câmara de Lisboa afectou o trabalho da Casa Fernando Pessoa?

Francisco José Viegas – Afectou. A partir de Março, Abril, afectou. Tínhamos programado uma série de actividades, que se chamava “Lisboa, Cidade do Livro”, que iriam animar a cidade desde 22 de Abril até à abertura da Feira do Livro. Eram duzentas e tal actividades espalhadas pela cidade. As mais visíveis, como a vinda de escritores estrangeiros e três ou quatro ciclos de conferências, foram anuladas porque não havia verbas disponíveis.

- Não havia dinheiro.

- Não havia. No entanto, “Lisboa Cidade do Livro” decorreu e aconteceram cerca de cento e quarenta actividades. Com normalidade. Não foram as mais vistosas. Tínhamos previsto a vinda de dezasseis escritores estrangeiros, mas como não havia dinheiro foi tudo anulado.

- E desde a queda da Câmara em Maio até agora como tem sido a vida nesta casa?

- Mantivemos uma actividade absolutamente normal. Todas as iniciativas programadas, conferências, ciclos, debates, exposições, foram todas feitas. Sem um cêntimo. Tivemos aqui a semana de Cabo Verde só com o material da casa e o apoio da embaixada de Cabo Verde, para a vinda de escritores, para a música e exposições. Não gastámos um cêntimo. E para outras iniciativas recorremos a apoios externos, pontuais. Repare que em Maio tivemos, em média, uma iniciativa e meia por dia, o que é muito acima do normal e do que fizemos o ano passado.

- Como é que a Casa Fernando Pessoa conseguiu, no meio de uma crise financeira e política da Câmara, manter a sua actividade com um orçamento muito reduzido?

- Mesmo sendo reduzido teve um corte de 25 por cento, que foi o corte que abrangeu todos os serviços do pelouro da Cultura da Câmara.

- Esse corte foi em 2006 ou já este ano?

- Eu entrei em Fevereiro de 2006 e para 2007 houve um corte de 25 por cento em toda a direcção municipal de cultura. Mas eu não me queixo. Eu sabia ao que vinha. É muito fácil ser-se programador cultural ou ser-se gestor de bens culturais ou de instituições culturais com um orçamento grande. Aí há uma margem para se programar a nosso belo prazer, segundo uma política de gosto e de captação de público.

- E aqui, como é que ultrapassou a falta de dinheiro?

- O que nós fizemos foi, com os meios que tínhamos na casa e com o esforço empenhado do núcleo de pessoas desta instituição, trazer gente à Casa Fernando Pessoa. Foi uma estratégia definida com os responsáveis da Câmara. No primeiro ano, em 2006, era necessário reactivar a casa. A Casa Fernando Pessoa estava cheia de pó.

- Cheia de pó? A Casa Fernando Pessoa estava morta?

- Não havia actividades programadas.

- Estava morta?

- Era uma casa sem actividades programadas. Havia vários processos em curso, para iniciativas mais ou menos institucionais, colaborações, mas não havia nada programado. Logo em Fevereiro de 2006 tivemos logo várias iniciativas, apresentação de livros, debates, conferências e isso com o mínimo de custos. O objectivo nesse primeiro ano foi encher a casa. Fazer da Casa Fernando Pessoa um lugar marcante na geografia de Campo de Ourique e também na geografia da cidade.

- E com as escolas? Conseguiram dar a conhecer a casa aos jovens?

- Quando se fala em trazer novos públicos, em criar públicos, a primeira coisa que é preciso fazer é trazê-los, chamá-los. A casa tem uma biblioteca, um espólio de objectos pessoais de Fernando Pessoa, que é um incentivo às visitas tradicionais, de turistas, de escolas – temos quatro escolas por semana, as manhãs estão sempre cheias -, temos um grupo de investigadores estrangeiros, um auditório e um espaço para exposições. Tivemos que animar isto tudo. Mas sabíamos que no primeiro ano não tínhamos dinheiro para investir nas relações internacionais e em outros projectos muito importantes.

- Ficaram pela limpeza do pó?

- O que nós fizemos foi tirar o pó, limpar a casa, tirar o cheiro a vazio. E esse objectivo foi cumprido. Abrimos a casa. A programação não foi feita de dentro para fora, fomos perguntar às pessoas, como as universidades e as editoras, o que é que esta casa lhes poderia oferecer. E fizemos outra coisa. Ateliers de leitura e escrita para crianças, que repetimos este ano. Exactamente para criar novos públicos. E fizemos isto em colaboração com a Junta de Freguesia de Santo Contestável, aqui em Campo de Ourique. Este ano abrimos essa experiência a outras juntas.

- Para o ano vai repetir a essa experiência?

- Não só vamos repetir como vamos fazer uma coisa inovadora: ateliers de leitura e de escrita para adolescentes durante as férias escolares do Carnaval e da Páscoa. Uma altura em que os alunos se estão a preparar para os exames de português.

- Qual foi a adesão a esses ateliers?

- Sempre esgotados. As inscrições abriam e fechavam imediatamente. E foram feitos com pessoas da casa. Não houve recurso a meios exteriores. A Câmara apoiou-nos com os lanches para as crianças, por exemplo. E no fim desse trabalho o mais importante é o facto de cem crianças terem ficado a saber quem era Fernando Pessoa, que recitavam três, quatro, cinco quadras de cor, que escreviam versos do Pessoa e que fizeram as suas próprias quadras.

- Estou a ouvi-lo e a pensar no queixume permanente de muitos agentes culturais sobre a falta de dinheiro como justificação para tudo, principalmente para o que não se faz.

- Esse é um argumento para a conquista do poder. Quer dizer. É muito bom ter o poder de se decidir que programação é que se faz. O programador tem um poder imenso. Decide qual é a política de gosto de uma determinada instituição. O que nós fizemos foi abrir completamente a estrutura. Perguntar o que é que diversas entidades podiam fazer pela Casa Fernando Pessoa. E ao fim de três ou quatro meses tínhamos editores a propor-nos ciclos sobre isto ou aquilo. E aí vimos que era possível fazer muita coisa.

- Sem custos astronómicos e desculpas de falta de dinheiro.

- Exacto. Lembro-me de um debate aqui na casa, na presença da ministra da Cultura, sobre política cultural em que havia três, quatro participantes que se queixavam que as suas instituições ainda não tinham os dinheiros prometidos. Eu estava aqui como espectador e ouvia falar em duzentos, trezentos, quatrocentos mil euros, já tinha milhões de euros na cabeça, e disse-lhes que esse dinheiro todo correspondia ao orçamento anual, bienal da Casa Fernando Pessoa.

- Qual é o orçamento da Casa Fernando Pessoa este ano?

- Em 2007 não temos ainda ideia de qual é o orçamento. Houve um grande esforço para disciplinar os gastos na Câmara, nomeadamente na área cultural, o que foi muito bom. Mas no primeiro ano tivemos 250 mil euros, dos quais gastámos cerca de 60 mil. Só para ter uma ideia, de Abril até agora devemos ter gasto, no máximo, quatro a cinco mil euros.

- É extraordinário.

- Em programação. Não chegámos a cinco mil euros.

- Não acha que se poderia fazer muito mais com os muitos milhões que o Estado atribui à cultura a todos os níveis, seja ao nível do poder central ou do poder local?

- Sabe que há uma indústria cultural que vive necessariamente dos dinheiros do Estado.

- Mas é uma indústria muito fechada, só para alguns, que apanha tudo o que é subsídio estatal.

- É uma indústria que alimenta uma clientela.

- Clientela que vive do Estado e protesta muito.

- Eu desconfio sempre quando há protestos colectivos dos intelectuais contra o Ministério da Cultura, por exemplo. Há de certeza subsídios pelo meio. Eu desconfio sempre muito disso. Acho que é possível trabalhar de outra maneira. Não como nós fizemos, porque é esgotante.

- E teve a colaboração dos funcionários? Diz-se tão mal dos funcionários da Câmara.

- Deixe-me dar-lhe um exemplo. Se não fosse o esforço das pessoas da casa nós fecharíamos todos os dias às seis da tarde.

- Seis da tarde? Não há funcionários suficientes?

- Não havia pessoas. E como não estamos autorizados a pagar horas extraordinárias tivemos que encontrar uma solução de compromisso com as pessoas da casa, com os trabalhadores da casa a liderar.

- Quantos funcionários tem a Casa Fernando Pessoa?

- São dez pessoas, que abdicaram das horas extraordinárias para que pudéssemos ter iniciativas até às oito da noite ou até à meia-noite, com uma grande flexibilidade de horários. Eu percebi que era uma situação injusta, estar a pedir-lhes este sacrifício, mas a verdade é que sem essa disponibilidade a casa fechava às seis da tarde. Não tinha hipóteses.

- Essa foi uma boa surpresa quando aqui chegou?

- Foi. Eu sabia que a casa não tinha autonomia financeira, que havia problemas nos pagamentos a fornecedores, até porque as nossas verbas são insignificantes no universo da Câmara e por isso mesmo pensámos revitalizar a casa no primeiro ano e no segundo, que era este, estabelecer pontes para iniciativas internacionais. Fizemos isso com o Instituto Espanhol, fizemos isso em Buenos Aires, fizemos isso no Brasil.

- O Brasil adora Fernando Pessoa.

- Com o então prefeito Serra de São Paulo chegou a haver uma conversa muito informal sobre a possibilidade de se criar uma Casa Fernando Pessoa na cidade. Pessoa é mais lido no Brasil do que em Portugal.

- Custava muito dinheiro?

- Era um investimento mínimo porque quer o governo de São Paulo como a prefeitura estariam disponíveis para fazer isso.

- O projecto está a andar ou não?

- Não. Era impossível, Tínhamos necessidades elementares aqui na casa. E projectos, como a recuperação do jardim, do restaurante e da cafetaria, que traria muito mais público se estivessem abertos. As obras arrancariam até final deste ano, temos projectos executados, não são obras faraónicas e seria este ano também que lançaríamos uma obra fundamental, que era o anuário de Pessoa.

- Tudo com pouco dinheiro?

- Foi outra surpresa para mim. Na Casa Fernando Pessoa pode fazer-se muito com pouco dinheiro, menos do que eu próprio supunha.

- Falou da grande disponibilidade dos funcionários. Como é que isso foi possível aqui e não é possível na globalidade da Câmara?

- É uma questão de abertura às pessoas.

- De abertura?

- Da maneira como se tratam as pessoas. Da maneira como se responsabilizam as pessoas. Todos temos a ideia do monstro do funcionalismo público. Mas a verdade é que as pessoas são mal tratadas. Não são responsabilizadas. Não são chamadas a fazer propostas. Nós fazemos reuniões periódicas com todos. Fizemos uma festa no aniversário da casa com duas mil pessoas e foi tudo decidido por todos. Ao mínimo pormenor. A programação, a convocação dos meios, tudo.

- E tem o apoio de outros serviços da Câmara?

- A Câmara tem uma série de meios ao nosso dispor. Muito do que íamos fazer dependia em grande parte da colaboração da imprensa municipal. Independentemente do que podemos pensar sobre o peso, a falta de mobilidade desses departamentos, desde que as pessoas sejam motivadas é possível fazer muita coisa. E nós tivemos uma boa colaboração da imprensa municipal porque viam que nós estávamos interessados, que nos preocupávamos, que íamos lá. E tivemos sempre tudo pronto a horas. O que se faz aqui é possível fazer em outros departamentos. As pessoas estão sedentas de um pouco de organização.

- Só organização?

- As pessoas também estão a precisar de serem convocadas. De serem chamadas a participar nas iniciativas. Como aqui, em que todos fazemos de tudo um pouco, de uma forma de alguma maneira autogestionária.

- Essa disponibilidade dos funcionários surpreendeu-o?

- Foi uma surpresa para mim.

- Está a gostar desta experiência?

- Este ano e meio foi muito bom. Estou a gostar. E estou a gostar também pelo facto das pessoas de Campo de Ourique terem descoberto esta casa e gostam de ficar, de assistir e de ficar por aqui até às duas da manhã. Veja a festa do lançamento do livro de Agualusa. Estiveram aqui 500 pessoas, por todos os espaços, até às duas da manhã. Depois desta fase, de termos conquistado o público, gostaríamos de avançar para os projectos que já lhe referi, nomeadamente na área internacional.

- Com o Brasil na primeira linha.

- As relações internacionais. Temos hipóteses de assinar vários protocolos com universidades brasileiras. Felizmente temos um excelente embaixador, que é o Francisco Seixas da Costa, que mobilizou tudo e todos. Além disso temos um projecto de um kit móvel de uma exposição desenhado pelo Henrique Cayate em espanhol, inglês e português que é uma caixa e que pode ir pela mala diplomática para todo o mundo. Temos já pedidos da Venezuela, Argentina, Brasil, Marrocos, Angola, Moçambique, Uruguai, Estados Unidos. Tudo isto com meios muito reduzidos.

- Está a falar de quanto dinheiro?

- Nós fazemos isto por dez mil euros.

- Quer continuar aqui na Casa?

- Naturalmente que quando entrar a nova equipa da Câmara direi o que é que se está a fazer aqui na casa e fico à espera do que decidirem. Tenho um contrato anual, que é renovado todos os anos, que acaba em Fevereiro de 2008, mas aceito qualquer decisão. A minha vida nunca dependeu destes cargos.

- Mas pessoalmente gostaria de ficar.

- Eu fiquei fascinado com o projecto. E acho que é possível fazer muito mais coisas, as bases estão lançadas. E a base é a Casa Fernando Pessoa. Funciona. Tem gente. Tem ruído. Sabe que a nossa preocupação era a reacção dos vizinhos pelo facto de estarmos aqui até à uma da manhã. Com música, barulho, etc. E uma vez fui falar com um dos vizinhos e avisei-o que íamos ter uma iniciativa que deveria acabar tarde. E sabe qual foi a resposta dele? Finalmente há vida nessa casa.

- Há vida na Casa Fernando Pessoa. Mas Pessoa estava muito esquecido nesta casa?

- Temos de perceber a fortuna, a riqueza de termos uma coisa chamada Fernando Pessoa. Não serve só como um emblema. Serve como um motivo para uma coisa muito mais ampla. Um dos nossos projectos, que ainda não lançámos, é a “Lisboa, cidade Pessoa”. Uma iniciativa internacional.

- Pessoa é uma marca com enorme valor.

- Pessoa é uma marca fundamental. E se relacionarmos isso com Lisboa temos uma campanha notável. Não é preciso inventar nada. Temos tudo feito. Até temos a sorte de Pessoa rimar com Lisboa. E às vezes até digo a brincar que um dia vamos propor à Câmara que substitua os corvos por Pessoa.

- O escritor Francisco José Viegas está a escrever um novo romance, apesar do trabalho nesta casa?

- Vai sair um livro, provavelmente no fim da próxima Primavera, a continuação das aventuras de Jaime Ramos, um novo policial que em princípio se chamará “O Mar em Casablanca”. Estou a escrevê-lo de madrugada. Das quatro da manhã até as dez. Depois venho para aqui.


UM CIGARRO NA CONVERSA

Em primeiro lugar o indispensável registo de interesses. O jornalista do CM é amigo do jornalista e escritor Francisco José Viegas. Trabalhou com ele num semanário de curta duração, ‘O Liberal’, e esteve no mesmo grupo editorial durante alguns anos. Pelo caminho aconteceram muitos encontros. À volta da mesa, de uns copos, de boas conversas.

O director da Casa Fernando Pessoa gosta da vida. A cultura passa pela gastronomia, pelas viagens, pelos poemas, pelos romances e por essa figura notável do inspector Jaime Ramos que o acompanha em vários policiais. Mas também passa por umas cigarrilhas, uns charutos ou cigarros. Sempre. Ou não fosse Francisco José Viegas um admirador de Fernando Pessoa.

Na Casa, como lhe chama, há espaços para fumadores e não fumadores. Mas na entrevista não houve lugar para o politicamente correcto muito estúpido dos nossos dias. As fotografias revelam isso mesmo. A verdade de uma entrevista que acabou por ser uma boa conversa.


PERFIL

Francisco José Pereira de Almeida Viegas nasceu em Vila Nova de Foz Côa no dia 14 de Março de 1962. Pai de três filhos, viveu na aldeia de Pocinho, Alto Douro, até aos 8 anos. Fez o Secundário em Chaves e licenciou-se em Estudos Portugueses na Universidade Nova de Lisboa.

Jornalista e escritor, passou por diversos jornais e revistas e foi director de um desportivo. Publicou vários livros de poesia e romance. Em 2005, ganhou o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores com ‘Longe de Manaus’. É, desde 2006, director da Casa Fernando Pessoa em Lisboa.António Ribeiro Ferreira

2.6.07

"Os clássicos da literatura
têm de voltar à escola"

Viajante, gastrónomo, blogger e portista, Francisco José Viegas é, antes de mais, um cidadão do mundo que desfruta ao máximo do «lado prazenteiro» da vida. Para o director da Casa Fernando Pessoa, é a literatura que «forma gente culta» e esta pode também ser um importante veículo para afastar a «mania facilitadora» que se apoderou do ensino nacional. Sobre os portugueses, o autor de «Longe de Manaus» considera-nos «mesquinhos e invejosos», que desprezamos o património linguístico e que no «jornalismo existem demasiados ignorantes».

Pelas entrevistas que tem concedido, emerge que a escrita, as viagens e a gastronomia, compõem o triângulo de prazeres da sua vida. Como os definiria, isoladamente, utilizando uma escala própria de satisfação pessoal e explicando como estas actividades se podem fundir? Sente-se um privilegiado por ter prazer mesmo quando está a trabalhar?

Sinto-me um privilegiado por poder trabalhar. Essa é a primeira condição. Depois, por poder trabalhar em áreas que aprecio, que mobilizam mais energias pessoais, que me dão prazer. Não nego que houve, ao longo de vinte anos, uma certa insistência, uma teimosia – nem sempre foi fácil conseguir escrever sobre coisas que me dessem assim tanto prazer. Mas é preciso ser teimoso e insistente, foi uma das coisas que aprendi. De alguma maneira, o romance, ou seja, o tipo de ficção que escrevo, permite-me juntar algumas dessas áreas, como a viagem, alguma gastronomia – e um olhar mais prazenteiro sobre a vida. Geralmente, eu tenho receio de que as pessoas confundam aquilo que eu chamo «o lado prazenteiro» com uma busca do prazer a todo o custo, porque não é nada disso que se trata. O prazer de viver, o prazer em si, retira-se de coisas que não são excepcionais nem mobilizam grandes meios ou artifícios: uma pequena viagem, uma tarde, um livro, uma bebida, um fragmento da nossa vida. Nesse sentido não me considerarei nunca, por exemplo no campo da gastronomia, um gourmet. Um gourmet necessita de tempo, de dinheiro e de muitos conhecimentos – e de alguma abnegação. Eu gosto de ser uma pessoa assim, como sou, normal. Retirando prazer do que a vida me dá.

Define-se como «um viajante» e escreve mensalmente na revista «Volta ao Mundo». Qual o local do Globo que mais o marcou? E a viagem com que sempre sonhou mas nunca ousou fazer?

Acho que há dois lugares especiais na minha vida de viajante: toda a América Latina, do México ao Chile, passando pelo Brasil; e partes de África. O Brasil é, provavelmente, um dos lugares que mais me marcou, sobretudo pela sua diversidade. Acho que ninguém pode dizer «este é o verdadeiro Brasil», porque, justamente, não há verdadeiro Brasil. Apesar de ser um país que me desilude frequentemente, com uma classe política indigente e pobre de espírito, com desigualdades sociais gritantes, o Brasil é um país cativante e belíssimo. Depois, África. Mas África tem a ver com as minhas experiências pessoais e com a memória portuguesa de África. Há quem se sinta ligado a ela, e quem a recuse. Eu encontrei histórias fascinantes em África, são elas que me prendem a Moçambique, por exemplo.

Depois de «Longe de Manaus» e das aventuras do inspector Jaime Ramos, acaba de lançar um livro num registo diferente, intitulado «99 cervejas + 1 ou como não morrer de sede no inferno». Trata-se do primeiro guia do género em Portugal. Não é arrojado editar um livro sobre cerveja num país de tradição eminentemente vinícola? Como é que um «contador de histórias» se debruça sobre os vários tipos de cerveja?

A cerveja é uma bebida própria dos países que souberam transformar a agricultura em mais do que uma actividade ligada à sobrevivência, criando processos de fermentação e de transformação do cereal. Só as sociedades sem agricultura não têm cerveja, como os esquimós ou os aborígenes da Austrália. De resto, a cerveja é a bebida alcoólica mais antiga da Humanidade, anterior ao vinho, nascida na Suméria, espalhando-se pelo Mediterrâneo e pela Europa. A ideia de que a cerveja é uma bebida própria do norte da Europa – e que o vinho é do sul – é falsa. Na verdade, nós sabemos hoje que os lusitanos (e sabemo-lo com Estrabão, por exemplo) eram grandes produtores e bebedores de cerveja, reservando o vinho para os momentos especiais. De modo que o livro tem como intenção, igualmente, quebrar alguns mitos em redor da bebida. Diz-se que cerveja é menos nobre do que o vinho, mas a verdade é que a cerveja é ela e a sua circunstância, a sua companhia, a sua qualidade. E há cervejas tão diferentes e tão especiais, que achei que valia a pena tratar um pouco do assunto. De certa maneira, acho que todos nós somos uma espécie de pecadores do Renascimento… Quer dizer, temos interesses muito variados, muito diferentes – e não há mal nenhum em tratarmos cada um deles quando muito bem nos apetecer.

Não podia deixar de abordar uma das suas «paixões irracionais», o futebol. Tal como Miguel Sousa Tavares é portista e vive na capital. Primeiro, perguntava-lhe se o FC Porto vai revalidar o título de campeão em 2006/2007 e depois se acha, tal como Sousa Tavares, que «ser portista em Lisboa é como ser muçulmano na Bósnia»?

Acho que o FC Porto tem condições para ganhar o campeonato. O Sporting é a equipa que melhor joga até agora – mas o FC Porto tem uma equipa fantástica. Falta-lhe um goleador nato, um rebelde criativo. E acho que vamos ser campeões. Ser portista em Lisboa deixou de ser um perigo, como acontecia nos anos setenta e oitenta (não me lembro de ver mais portistas na minha faculdade…) para passar a ser uma curiosidade. E hoje é normal. Espero que seja normal. O futebol, sabe?, devia ser levado menos a sério. Eu comporto-me como hooligan no estádio: grito, entristeço, até insulto, se for preciso. Mas faz-nos falta esse lado selvagem, que deve ser divertido, deve ser até cómico. E deve ser exagerado. Todos precisamos de exagero, de excesso. De obsessões.

Assume ter uma «relação conflituosa» com Portugal, mas regressa sempre à pátria natal. Ouvimos falar em défice económico e de alma e o futebol é o único paliativo para a depressão. Acha que a identidade nacional tem sido beliscada pela conjuntura negativa? Resta-nos algo para além do futebol? Quando é que acha que a «poeira», uma das suas palavras favoritas, vai assentar?

Eu acho que os portugueses têm uma relação difícil com a pátria em tempos normais, quer dizer, em tempo de existência vulgar. A verdade é que ainda não perdemos várias ideias de grandeza e de excepcionalidade. Sentimo-nos bem em festa, durante as euforias do futebol, das exposições universais, por exemplo – mas achamos que o resto, o que vem a seguir, é triste e humilhante. Não devia ser assim. Devíamos, provavelmente, reconhecer que há uma certa grandeza na «aurea mediocritas», na vida de todos os dias – isso significa respeitar a vida quotidiana, enchê-la de referências de qualidade: bons transportes públicos (a questão dos transportes, da mobilidade, é essencial nas grandes cidades), honestidade na administração pública, critérios de exigência e de qualidade em tudo o que é serviço público, exemplos de poupança e de economia real na vida pública, prémios para a invenção e para a criatividade, severidade e muita disciplina em tudo o que é exemplo público. As pessoas gostavam de viver “como na Europa do Norte”, mas ignoram a outra face da moeda, ou seja, o que custa ser cidadão na Europa do Norte. Lá, e eu conheço relativamente esse mundo, as pessoas não vão jantar fora tão frequentemente como em Portugal, não faltam ao trabalho, não se queixam dos impostos, trabalham muito, os estudantes não têm a vida facilitada como aqui, há demasiada exigência. Ganham mais do que aqui. Mas não sei se as pessoas estão dispostas a pagar esse preço. Na nossa Europa do sul há uma maior informalidade, que não existe no norte da Europa; há mais liberdade e menos politicamente correcto. As pessoas têm de optar. Não podem querer o modelo de vida do sul e a remuneração do norte. São estilos de vida diferentes. São modelos económicos diferentes. E depois, deixe-me dizer isto, acho que a questão da auto-estima é falsa. Nós precisamos de esquecer essa coisa ridícula. E precisamos de deixar de nos mortificar, de obedecer ao temperamento oficial… Devemos viver a nossa vida como ela é. Olhe, quer um exemplo? Colombo. Cristóvão Colombo, por exemplo. Quantos historiadores estudam a importância de Colombo ser ou não ser português. Magalhães. Os Corte-Real. Temos uma tradição recente, que é a dos anos setenta, que assenta na ideia do remorso, muito semelhante à do «remorso do homem branco» – desvalorizámos a nossa presença em África, desvalorizámos o nosso carácter aventureiro, desvalorizámos os nossos heróis, os nossos mitos fundadores, as nossas pequenas glórias. Enquanto não dermos a volta a isso, não teremos respeito pela nossa alegria. Nenhuma engenharia financeira nos ajudará a sermos mais felizes. E precisamos de deixar de ser tão mesquinhos uns com os outros, tão invejosos. Precisamos de ser mais livres, mais soltos.

É acima de tudo um homem de comunicação. Também é jornalista, foi director da «Grande Reportagem» e escreve uma crónica semanal no «Jornal de Notícias». É mais um dos que se junta ao coro de desencantados pelo panorama actual do jornalismo nacional?

Não estou desencantado. Acho que há demasiados ignorantes no jornalismo, demasiada gente a escrever mal, muitos lugares-comuns, muita gente sem conhecimentos de história, de civilidade, de ortografia.

Pensa que a concentração dos títulos em grandes grupos económicos desvirtuou a forma de fazer jornalismo?

Os grandes grupos económicos cumprem o seu papel, tentando ganhar dinheiro fazendo jornais, mas precisam de compreender (e aos poucos compreendem-no) que não se podem perder critérios de qualidade.

Ser blogger, é outra das suas facetas. Primeiro o «Aviz», depois «A origem das espécies». Que virtudes e perigos encontra na blogosfera?

As mesmas da vida em geral. A blogosfera mudou a nossa forma de comunicar, de nos informarmos e de participarmos na discussão sobre a vida, a política e a cultura. Acho estranho que haja ainda receios da blogosfera, porque os blogs são fundamentais, hoje em dia, para perceber como pensam os portugueses que pensam. Além do mais, os opinadores dos jornais e das revistas são quase todos eles herdeiros do PREC e do regime – a blogosfera revelou gente que pensava de outra maneira, que escrevia melhor, que pensava melhor. E mostrou que o reino da opinião nos jornais, estava muito pobre.

Foi professsor universitário de estudos portugueses na Universidade Nova e desempenhou o cargo de director da revista «Ler» durante 14 anos. Acha que os portugueses estão sensíveis e despertos para as virtualidades da sua Língua, um dos maiores patrimónios nacionais aquém e além fronteiras?

Não. Não estão sensíveis e desrespeitam muito esse património. O português, aliás, já não nos pertence – já não somos os “donos da língua”. Os brasileiros são 180 milhões a falar a nossa língua. Juntemos os africanos. Temos um património linguístico e literário riquíssimo que andamos a desprezar. Enojam-me os erros ortográficos nas legendas e rodapés televisivos. A linguagem dos políticos, que é pobre e cheia de erros. Faz-me muita impressão a superficialidade com que tratamos a nossa língua.

No seu discurso aquando da entrega do «Prémio Romance e Novela 2006» da Associação Portuguesa de Escritores, alertou para a importância de se ensinar mais literatura nas escolas. Pensa que a Língua de Camões e os autores lusos têm sido desprezados em favor de programas e soluções educativas mais facilitadoras?

Penso exactamente isso e penso que a culpa não é dos professores, que se esforçam muitas vezes por corrigir aspectos degradantes dos programas de ensino do português. Muitos professores de português são autênticos heróis, quando põem as crianças e os adolescentes a ler. Mas o tom, os objectivos e os tiques ideológicos dos programas de Português ou de História, que é um resultado dos anos setenta, tem dificultado muito a vida dos melhores professores, tentando fazer deles personagens medíocres. Sempre separei as duas realidades: o Ministério da Educação e os professores. E acho que a literatura tem de voltar em força às escolas; não a literatura de hoje, apenas. Mas os clássicos. Os clássicos lidos com alegria e criatividade. Cesário, o barroco, Gil Vicente, Camilo, Camões. Tudo isso. Lidos, sem cartilha ideológica e sem preconceitos. Lidos por prazer. É assim que se forma gente culta, colocando-a em contacto com a cultura. Essa mania facilitadora tem vindo a transformar o ensino numa coisa classista e boa para as elites – que têm acesso aos autores e à cultura fora da escola.

A polémica em torno dos exames voltou a semear a discórdia na educação. Os resultado foram desastrosos. Os maus alunos de hoje serão os políticos e os gestores do amanhã. Teme que esta geração mantenha os tiques de «irresponsabilidade», como diz, que os sucessivos governantes têm patenteado nas últimas décadas?

Na verdade, temo um pouco. Basta comparar com os resultados do resto da Europa. As pessoas dizem-me que não interessam apenas os resultados – concordo, mas o que é que temos no final senão resultados? Acho que teremos de ser mais exigentes, mais responsáveis. Sou pela responsabilização dos professores e pela avaliação permanente e rigorosa dos técnicos ministeriais que transformaram os programas e métodos de ensino numa balbúrdia. Toda a gente culpa os professores, mas poucos apontam o dedo à ilustre geração de técnicos ministeriais que agiram em roda livre, espalhando mediocridade, irresponsabilidade e maus resultados por anos e anos de impunidade. Quem avalia essa gente? Quem os responsabiliza?

A ministra da Educação tem sido atacada por todos os lados. Concorda que quando alguém é impiedosamente criticado por tudo e por todos, é porque está a reformar conceitos e mentalidades e a mexer com os interesses instalados?

Acho que o princípio pode ser válido neste caso e acho que a ministra tem conseguido mexer com o que chama «interesses instalados». Falta agora melhorar a qualidade do ensino e a qualidade de vida dos professores, dignificar a profissão, incentivar a formação profissional, deixar de tratar os professores como profissionais de uma profissão qualquer. Mas é preciso que eles se comportem como tal. E não, não concordo em absoluto com a interferência dos pais no sistema de ensino e na avaliação dos professores. A escola pública deve ser, para os alunos, também um espaço de liberdade em relação à família e à sua intimidação. Na escola devem ser avaliados segundo os critérios da escola. Misturar escola e família deu sempre resultados pobres e acabou com a independência de critérios da escola e dos professores. Uma balbúrdia. Aliás, os pais nem sequer devem partilhar o mesmo espaço dos alunos na escola. É bom para os alunos e bom para os pais. Mas os critérios terão de ser mais exigentes.

Nuno Dias da Silva

30.5.07

PRÉ-PUBLICAÇÃO: As Mulheres do Meu Pai, de José Eduardo Agualusa.
(Capítulo 1) [parte ii]


(Carta de Doroteia para Laurentina.)

Querida filha,

Hei-de chamar-te filha até ao fim.

Há algo que tens de saber, e quero que o saibas através de mim, porque se o não soubeste antes foi por minha culpa, porque me faltou a coragem.

Não vieste do meu ventre. No mesmo dia em que nasceste, eu perdi uma menina. No quarto onde estava, numa clínica modesta, na Ilha de Moçambique, outra mulher deu à luz. O parto correu mal e ela não sobreviveu. Os pais dessa mulher perguntaram-me se queria ficar com a criança – e eu disse que sim. A partir do instante em que olhei para ti amei-te como a uma filha autêntica.

Era isto que te queria dizer. Perdoa-me não o ter dito antes.

Ajuda o teu pai. É ele quem me preocupa. Dário não sabe viver sozinho. Tivemos as nossas zangas. Penso que fui, muitas vezes, demasiado áspera para com ele. Mas amo-o muito, compreendes?, foi o único homem da minha vida. Sempre me custou a aceitar que tivesse amado outras mulheres antes de mim. Pior – enquanto estava comigo. Mas são assim os homens.

Foste o melhor que a vida me deu.
A tua mãe,

Doroteia.

///


(Pecado é não amar.)

Infeliz coincidência. Não sei como lhe chamar. Faustino Manso, o meu pai, morreu ontem à tarde. Comprei no aeroporto, ao desembarcar, o Jornal de Angola. A notícia, breve, seca, vem na página de cultura:

"Morreu o Seripipi Viajante – Faustino Manso, 81 anos, faleceu na madrugada de ontem, na clínica Sagrada Esperança, Ilha de Luanda, após prolongada doença. Manso, a quem os seus admiradores chamavam o Seripipi Viajante, foi um músico muito popular durante os anos 60 e 70, não apenas em Angola, mas em toda a África Austral. Viveu em diversas cidades angolanas, e também em Cape Town, África do Sul, e em Maputo, então Lourenço Marques. Regressou a Luanda, de onde era natural, em 1975, logo após a independência. Foi durante muitos anos funcionário do Instituto Nacional do Livro e do Disco. Deixou viúva, a senhora Anacleta Correia da Silva Manso, além de três filhos e 12 netos."

As páginas da necrologia são mais eloquentes. Quatro anúncios trazem o nome de Faustino Manso. O primeiro é assinado por Anacleta Correia da Silva Manso. É o maior. A fotografia é também um pouco maior e mais recente. Reza assim:

"Partiste sem um último adeus, marido, apagou-se o sol na minha vida. Calou-se a voz magnífica: quem agora cantará para mim enquanto eu bordo? Enganaste-me, prometeste-me que ficarias comigo até que chegasse o fim, e que me darias a mão para que eu não sentisse medo. Medo é o que sinto agora. No fim voltaste a deixar-me, e é tão longa a viagem. Não sei se conseguirei perdoar-te."

O segundo é assinado pelos três filhos, N'Gola, Francisca (Cuca) e João (Johnny). A fotografia mostra Faustino Manso abraçado a uma guitarra.

"Querido pai, conhecemo-nos tarde, mas não, felizmente, demasiado tarde. Partiste, mas deixaste-nos as tuas canções. Hoje cantamos contigo: Nenhum caminho tem fim / longe do teu abraço."

O terceiro e o quarto anúncios apanharam-me de surpresa. Sentei-me, aturdida, sobre a minha mala. Pedi a Mandume que me fosse comprar uma garrafa de água. Acho que só então me dei conta do calor. Ascendia do chão, húmido e denso, colava-se à pele, enrolava-se no cabelo, e era ácido como o hálito dos velhos. Uma tal Fatita de Matos, em Benguela, assina o único anúncio sem fotografia. O texto é curto, mas explícito:

"Pecado é não amar. Pecado maior é não amar até ao fim do amor. Não me arrependo de nada, Tino, meu seripipi. Repousa em paz."

No último anúncio, o meu pai posa para a posteridade, no vigor dos seus trinta anos, sentado à mesa de um bar. Diante dele tem uma garrafa de cerveja. Distingue-se o rótulo: Cuca. Enquanto escrevo estas notas também eu bebo uma Cuca. É boa, muito leve e fresca. Releio o texto:

"Pai querido, abraça a mãe quando a encontrares. Leopoldina esperou tanto tempo por esse abraço. Diz-lhe que os filhos dela, os vossos filhos, sofrem de saudades, mas que pensam em vós todos os dias, e que o vosso exemplo de coragem e de honestidade nos orienta, e orientará sempre. A nossa terra ficou mais triste sem a alegria do teu contrabaixo. Quem o tocará agora? Os teus filhos: Babaera e Smirnoff."

///

Os pais de Mandume casaram em Lisboa, em 1975, tinham ambos vinte anos. Marcolino estudava arquitectura. Manuela, enfermagem. Deviam ser bastante ingénuos, ainda hoje são. Manuela disse-me:

– Naquela época éramos todos nacionalistas, parecia uma doença. Odiávamos Portugal. Queríamos terminar os cursos e regressar à trincheira firme do socialismo em África.

Manuela deu-me a ouvir velhos discos, em vinil, de música angolana. Há várias canções que falam na trincheira firme do socialismo em África. Assim mesmo, sem a menor sombra de ironia. A burocracia portuguesa não aceitou que o primeiro filho do casal se chamasse Mutu, em homenagem a um rei do planalto central de Angola: Mutu-ya-Kevela. Ficou Marcelo para efeitos oficiais, e Mutu, para a família e amigos mais próximos. Mandume, o filho do meio, chama-se na realidade Mariano, e Mandela, o mais novo, Martinho. Em 1977, ano em que nasceu Mandume, os dois irmãos de Marcolino foram fuzilados em Luanda, acusados de envolvimento numa tentativa de golpe de Estado. Marcolino ficou muito transtornado. Nunca mais falou em regressar. Concluído o curso conseguiu emprego no atelier de um arquitecto, também ele natural de Angola, requereu a nacionalidade portuguesa e dedicou-se inteiramente ao trabalho. Conheci Mandume há sete meses. O que primeiro me atraiu nele foram os olhos. O brilho dos olhos. O cabelo, dividido em pequenas tranças espetadas, dá-lhe um ar de rebeldia, que contrasta com a doçura dos gestos e da voz. Gosto de vê-lo caminhar. No mundo em que ele se move não existe atrito.

– Como um gato?

Aline, num sopro, os lábios húmidos, debruçada sobre a mesa. “Se dizemos que alguém caminha suavemente, as pessoas lembram-se logo dos gatos.” Não, querida Aline, Mandume não parece um gato. Há, nos gatos, na forma como se movem, uma espécie de arrogância, um imperial desdém pela pobre humanidade, e isso não tem nada a ver com Mandume. Ele é ao mesmo tempo humilde e desafiador. Pelo menos é assim que eu o vejo. Talvez seja dos meus olhos. Pode ser amor. Aline riu-se, lembro-me dela a rir-se quando pela primeira vez lhe falei de Mandume. Tem um riso bonito. É a minha melhor amiga.

– E Mandume, o que significa?

Mandume? Ah, outro rei. Um soba cuanhama que se suicidou durante uma batalha, no Sul de Angola, contra tropas alemãs. Mandume, o meu Mandume, não está muito preocupado em saber quem foi o personagem histórico a quem deve o nome. Quando lhe perguntei como se chamava, disse-me:

– Mariano. Mariano Maciel.

E foi Mário, o técnico de som, um homem baixo, pálido, com o cabelo ralo mas comprido, muito loiro, quem contrapôs sorrindo:

– Aliás, Mandume, o preto mais branco de Portugal.

Frase infeliz. Reagi com violência:

– Sim?! E isso é suposto ser um elogio?...

Era suposto ser um elogio. Hoje sou tentada a concordar com o pobre Mário e até já utilizei a mesma frase contra Mandume. Há momentos em que me sinto realmente apaixonada por ele. Noutros, porém, quase o odeio. Irrita-me o desprezo que demonstra em relação a África. Mandume decidiu ser português. Está no seu direito. Não creio, porém, que para se ser um bom português tenha de renegar todos os seus ancestrais. Eu sou certamente uma boa portuguesa, mas também me sinto um pouco indiana; finalmente, vim a Angola procurar o que em mim possa haver de africano.

Mandume acompanhou-me, renitente.

– Enlouqueceste? O que vais tu fazer a África?...

Veio, afinal, para me salvar de África. Veio para nos salvar. É um querido, eu sei, tenho de ter mais paciência com ele. Além disso gosta do que faz. Passa o dia a perseguir-me com a câmara de vídeo. Digo-lhe que filme isto ou aquilo, o que ele finge fazer, mas quando presto atenção está a filmar-me a mim.
PRÉ-PUBLICAÇÃO: As Mulheres do Meu Pai, de José Eduardo Agualusa [Edição Dom Quixote].
(Capítulo 1)

Oncócua, Sul de Angola. [Leandro, a partir daqui começamos em página branca]
Domingo, 6 de novembro de 2005.


Acordei suspenso numa luz oblíqua. Sonhava com Laurentina. Ela conversava com o pai, o qual, vá-se lá saber porquê, tinha a cara do Nelson Mandela. Era o Nelson Mandela, e era o pai dela, e no meu sonho tudo isso parecia absolutamente natural. Estavam sentados ao redor duma mesa de madeira escura, numa cozinha idêntica em tudo à do meu apartamento na Lapa, em Lisboa. Sonhei também com uma frase. Acontece-me frequentemente. Eis a frase:
– De quantas verdades se faz uma mentira?
A luz, filtrada primeiro por uma rede muito fina, presa à janela, e uma outra vez pelo mosquiteiro, a envolver a cama, deslizava puríssima, numa torrente incrédula, contaminando a realidade com a sua própria descrença. Virei a cabeça e dei com o rosto de Karen. Dormia. A dormir Karen volta a ser jovem, como suponho que era antes da doença (da maldição).
Estamos em Oncócua, num pequeno posto médico gerido por uma organização não-governamental alemã. Oncócua, como tantas outras vilas de Angola, foi desenhada com largas avenidas, para ser no futuro uma grande cidade. O futuro, todavia, atrasou-se. Talvez nunca chegue. Levantei-me com cuidado e espreitei pela janela. Uma enorme montanha, com o formato de um cone perfeito, flutuava no horizonte. Duas mulheres mucubais avançavam sem ruído. A mulher mais alta não devia ter mais de 16 anos, cintura estreita, pulseiras coloridas nos finos pulsos dourados; lembrei-me, ao vê-la, de um verso de Ruy Duarte de Carvalho – os seios: frágeis acúleos na placa do peito. Ruy Duarte escreveu belos versos sobre os seios das meninas mucubais. Compreendo-o bem. Se eu fosse poeta não teria outro tema. A segunda mulher cobria o tronco com um pano verde e amarelo. Mancava um pouco.
– São bonitas, não são?...
Karen estava sentada na cama, o cabelo castanho em desalinho. Disse-lhe:
– Sonhei com a Laurentina...
– A sério? Isso é bom. As personagens começam a existir no momento em que nos aparecem em sonhos.
– No meu sonho ela era indiana. Uma rapariga de cabelo liso, olhos grandes, pele muito escura.
– Não pode ser. Talvez meio indiana, não te esqueças que o pai é português...
– O pai? Qual deles?...
– Boa pergunta. O Faustino Manso era luandense, mulato ou negro. O que a adoptou era português, e o biológico...
– Não pensámos nisso...
– Tens razão, não pensámos nisso. Quem diabo era o verdadeiro pai de Laurentina?...

(Mentiras primordiais.)

Fecho os olhos e no mesmo instante regresso à tarde em que a minha mãe morreu. O meu pai recebeu-me à porta do quarto:
– Ela está muito agitada – murmurou. Tenta acalmá-la.
Entrei. Vi-lhe os olhos acessos na penumbra:
– Filha.
Colocou-me na mão um envelope:
– Chamam-me. Tenho de ir. Isto é para ti, Laurentina. Perdoa-me...
Não voltou a falar. Mais tarde apareceu Mandume. Lembro-me de o ver ajoelhado aos pés da cama, segurando a mão da minha mãe. O meu pai, em pé, de costas para nós. O meu pai, ou melhor, o homem que até àquela tarde eu acreditava que fosse o meu pai. Está agora sentado diante de mim. Tem um rosto seco, anguloso, com as maçãs do rosto salientes. A cabeleira é farta, grisalha, penteada para trás. Deve ter ensaiado a pergunta noites a fio na solidão do seu quarto de viúvo:
– De quantas verdades se faz uma mentira?
Fica calado um momento, o olhar perdido em algum ponto atrás de mim, depois acrescenta com ênfase:
– Muitas, Laurentina, muitas! Uma mentira, para que funcione, há-de ser composta por muitas verdades.
Olhos brilhantes, húmidos. Sorri tristemente:
– Era uma boa mentira, a nossa, uma mentira composta por muitas verdades, e todas elas felizes. Por exemplo, o amor que Doroteia tinha por ti era realmente um amor de mãe. Tu sabes disso, não sabes?
Olho-o atordoada. Levanto-me e vou até à janela. Posso ver dali o pátio iluminado pelo sol. A figueira que salvei, há anos, tirando-a de uma pequena jarra quebrada, numa lixeira, e plantando-a num enorme vaso de barro, está a dar-se bem junto à enorme chaminé em tijolo que divide o pátio. Cresceu muito, e muito torta, como é próprio da natureza das figueiras. A buganvília, ao fundo, já perdeu todas as flores. Janeiro declina. Um mês mau para se morrer, mesmo em Lisboa, onde até no inverno surgem com frequência, desgarrados e sonolentos, como papoilas dispersas num campo de trigo, dois ou três esplêndidos dias de verão.
O meu pai teria gostado que eu fosse um rapaz. Até aos 12 anos, ignorando os protestos da minha mãe, comprava-me calções, e boinas, e jogava à bola comigo. Temos uma ligação muito forte. Tivemos sempre.
– A ilha, papá, como é o tempo em Moçambique, nesta época?
A pergunta não o surpreende. Julgo que se sente aliviado por poder mudar de assunto. Suspira. “Em Janeiro”, diz, “costuma fazer muito calor na ilha. O mar é de um verde luminoso, a água quente, filha, chega aos 35 graus, uma sopa de esmeraldas”. Tira uma moeda do bolso, “Lembras-te?”, eu lembro-me, claro. Seguro na moeda. Vinte reis. Está muito gasta, mas ainda assim consigo ler a data sem dificuldade: “1824”. O meu pai encontrou a moeda numa praia da ilha, no primeiro dia em que lá chegou, o mesmo em que conheceu a minha mãe. Doroteia fazia 15 anos; Dário, 49. Foi, portanto, a 18 de dezembro de 1973. Nasci dois anos depois. Penso nisto, no meu nascimento, e uma revolta súbita toma conta de mim. Tenho consciência de que a minha voz se torna mais aguda e de que estou a ponto de chorar. Não quero chorar[1]:
– Estou aqui a tentar compreender como é que vocês foram capazes de me esconder uma coisa dessas durante tantos anos! Podes explicar-me?...



[1] Choro muito. Choro no cinema, nos casamentos, choro a ler qualquer coisa, eu sei lá, O amor nos tempos da cólera. Comovem-me os desastres ou as alegrias de amor dos outros, mas não me lembro de ter chorado alguma vez em razão dos meus próprios desaires.


[FJV]

4.5.07

Lourenço Marques ou a busca nostálgica
de uma cidade perdida


Lourenço Marques, de Francisco José Viegas, é uma viagem, embalada pelo vento de memória, à antiga cidade colonial

Adelto Gonçalves || O Primeiro de Janeiro, em 03/03/2003”


Escrito como se fosse um romance policial, Lourenço Marques, de Francisco José Viegas, é uma viagem, embalada pelo vento de memória, à antiga cidade colonial, a uma época pouco anterior à Revolução dos Cravos e ao processo de independência de Moçambique. Miguel, alter ego do autor, volta à "cidade das acácias", antiga pérola do Índico, 27 anos depois de a ter abandonado, para procurar uma mulher, Maria de Lourdes, aliás Sara, que agora é mais uma miragem.
De volta à cidade onde amou pela primeira vez, Miguel reencontra um país virado do avesso, embora não carregue dentro de si nenhuma saudade dos tempos do colonialismo. Para reencontrar essa mulher – mais uma entidade mítica do que um ser de carne e osso –, recorta o mapa de Moçambique, indo de Maputo a Pemba e a Nampula, da Ilha de Moçambique ao Lago Niassa, fazendo dessa busca um discurso nostálgico de uma África que não existe mais porque reconstruída pela memória. Miguel lamenta assim a perda de um mundo que não viveu: o amor da mulher que desapareceu, a oportunidade perdida de viver um grande amor, o arrependimento por não ter ficado e vivido as transformações (para pior ou para melhor).
Narrado em estilo límpido, fluente, em que fica claro o domínio pelo autor dos segredos da fabulação literária, Lourenço Marques exerce fascínio desde o início, quando, como numa narrativa policial, o leitor descobre logo nas primeiras linhas que um corpo apareceu inerte, numa manhã de março de 2001, num arrabalde de Maputo. É o corpo de Gustavo Madane, ex-homem forte do regime marxista, agora caído em desgraça, depois de ter sido um dos organizadores dos campos de "reeducação" e de abusar de suas funções.
Em seguida, começa o itinerário da busca da mulher amada por Miguel, que, nesse trajeto, acaba por cruzar com Domingos Assor, companheiro de infância, agora transformado em policial que investiga o assassinato de Gustavo Madane. Em seu retorno à infância perdida, Miguel refaz a tessitura do tempo que vivera no início da década de 70. "Tinhas, portanto, quinze anos. Não. Dezasseis. Dezasseis e os grandes jogadores de basquete do Sporting de Lourenço Marques, Mário Albuquerque, Nelson Serra, Rui Pinheiro, os restaurantes da Facim, uma temporada de Lucília do Carmo e de Carlos do Carmo, o automobilismo sul-africano de fórmula um em Moçambique, com John Love, fumo a sair do motor, a velocidade a que o carro saiu da pista, e lembrava-se de Jody Scheckter na pista de Lourenço Marques e, sobretudo, daquele Renault Gordini branco, o Renault Gordini de Antunes Guimarães, branco com uma faixa dourada à volta (...)".
Na Ilha de Moçambique, Miguel encontra Abdurrazaque, xehe da mesquita do local, que havia trabalhado com seu pai numa empreitada para levar dois barcos gigantes para o Niassa. Abdurrazaque, que lhe recita de trás para a frente os versículos do Alcorão, faz-lhe reparar também que o mar da Ilha é diferente do mar do continente, "azul, amarelo, ocre, verde cinzento, um arco-íris, o mesmo arco-íris que Deus mostrou a Noé depois do dilúvio". No Niassa, Miguel é tratado pelo último médico branco de Lichinga, que ali aguarda a chegada da morte depois de ter sido abandonado pela mulher e de saber que está sendo corroído pelo câncer.
Durante esse périplo pelo país, de Norte a Sul, Miguel carrega consigo a lembrança de Lourenço Marques como a metáfora de uma vida que poderia ter sido – e não foi –, interrompida pela guerra e pela decisão do pai-engenheiro de retornar a Portugal. É uma Lourenço Marques que só existe na memória de quem a viveu e que Francisco José Viegas reconstrói com uma mestria que faz lembrar a Havana dos anos 40 e 50 recuperada por Guillermo Cabrera Infante em La Habana para un infante difunto.
Nessa busca nostálgica de uma cidade perdida, sente-se a voz de Rogéria, "a cantora brasileira do Denis Dwarte Show acompanhada pela Orquestra Moderna Os Embaixadores", vive-se o entrai-e-sai nas boates, "Tamila Dancing, ao lado do Pinguim e da Cave: Pepita Cortés, as argentinas Star Dancer´s, Rony Vali, a judia rodesiana Rochele, Consuelo Martinez e os Latin Soul Quartet, que apareceriam no programa "Chuva de Estrelas", de Maria Helena Bramão, na Rádio Clube de Moçambique. E os passeios, as entradas nos cafés, nas cervejarias, no Píri-Píri, o restaurante Vitória, a cervejaria Imperial, a pastelaria Cristal, o Baía, a Adega da Madragoa, o restaurante Comandante, no Hotel Cardoso, onde tocava o Quinteto de Pereira Pinto e Carlos Parker (...)"
Depois de percorrer todo Moçambique, Miguel ouve de um preto que a sua Lourenço Marques acabou há muito tempo. E que agora o que resta é uma cidade suja, "com merda onde deviam estar flores", depois da guerra fratricida e do fracasso da experiência socialista. Apesar disso, esta reconstituição que Francisco José Viegas faz de Lourenço Marques nada tem de ressentimento colonialista. Essa Lourenço Marques que recupera está reconstruída não só com memória mas também com muita fantasia, assim como a Dublin de James Joyce, a Trieste de Italo Svevo, a Buenos Aires de Julio Cortázar e de Jorge Luis Borges ou a Havana de Cabrera Infante. É um discurso poético em prosa, centrado na temática da paixão amorosa tradicional, a busca de uma mulher que já não existe porque, 27 anos depois, ninguém é mais a mesma pessoa. Uma história da memória portuguesa feita por um mestre da escrita.
_____________________
LOURENÇO MARQUES, de Francisco José Viegas. Porto, Edições ASA, 2002, 208 págs.

4.4.07

A poesia é um paraíso
apagado por um trovão




Este nacionalista em matéria vinícola ("nacionalis­ta do Douro", sublinha) é bem conhecido do grande público. Escritor e jornalista, hoje também director da Casa Fernando Pessoa, nasceu em Vila Nova de Foz Côa em 1962 e viveu na aldeia do Pocinho ("o centro do mundo") até ir para Lisboa, onde se licenciou em Estudos Portugueses. De­pois, foi professor de Linguística. Depois, foi (é) jornalista, poeta, romancista, portista, bloguista, etc. e tal. No seu livro de poemas «As Imagens» (1987), lê-se: "escrevo para não morrer roxo de frio dentro / do coração, de frente para a luz do ouro, barulho / de passos na interminável agonia da luz". Vinte anos depois, não sabe bem para que serve a poesia, mas gosta dela. De poesia e de gastrono­mia, de viagens e de romances. Francisco José Viegas, que em tempos viveu entre Portugal e o Bra­sil, está hoje mais longe de Manaus e mais perto de nós. No passado dia 10, encontrámo-lo num palco da Casa das Artes de Famalicão («Noites de Escritura Pública»). Pedimos-lhe que falasse con­nosco. Falou e ousou. Pedimos-lhe uma sugestão de leitura. Deixou-nos «A Grande Arte», de Rubem Fonseca ("É o romance mais perfeito dos últimos 20 anos"). Mas foi com uma passagem de um li­vro seu, «Longe de Manaus», que quis começar a sessão. Com esta frase: "Talvez as pessoas quei­ram, Isaltino, um pouco de ordem na vida".

Prefere perguntar ou responder?
Depende... Mas hoje vou aproveitar! [Risos] Acho que pergun­tar é uma actividade difícil. Quando estou a fazer entrevistas, po­nho-me sempre no papel de quem está em casa, tal como quando faço um programa de rádio, penso em quem está a ouvir. Imagi­no alguém que vai ao volante do carro, de noite. O que é que eu gostava de ouvir? Está a ser interessante a conversa? O tom é agra­dável? Ajuda-me a conduzir? Ajuda-me a passar o tempo? Eu de­testo as entrevistas tipo combate de boxe, aquelas em que o entrevistador tem que fazer valer o seu ponto, como se o entrevistador tivesse uni ponto de vista necessariamente para contrapor ao do entrevistado. Quando as pessoas vêem um programa, querem é saber o que o entrevistado quer dizer! Devemos procurar valori­zar o entrevistado. É evidente que todos nós temos truques e se, ao fim de dez minutos, antipatizarmos com ele, sabemos armadilhar a conversa toda, e sabemos mostrar o pior... Temos que ser honestos. Se convidamos uma pessoa, então é porque ela tem alguma coisa a dizer. Essa entrevista vive do confronto, mas não necessariamente da valorização do entrevistador. Ë como se o jor­nalista fosse a estrela. A estrela é o convidado.

Costuma estar do lado de cá, do lado do entrevistador. Hoje, está desse lado... O que é que mais lhe interessa saber sobre as pessoas?
Se estiver a entrevistar a Meg Ryan, quero saber se ela quer jantar comigo! [Risos] Se estou a entrevistar um autor, quero sa­ber qual é o processo de criação, o que é que ele realmente quis com aquele livro, se está contente com o livro, e obviamente que procuro desvendar alguns segredos para os leitores. Mas sem me tornar demasiado cúmplice. Lembro-me de ter feito entrevistas perfeitamente desonestas a pessoas que eu adorava que tinham escrito livros magníficos. Eu estava realmente do lado do autor. Às vezes acontece: o entusiasmo toma conta de nós. Interessam-me muitas coisas nas pessoas: a maneira como vivem, a maneira como trabalham, a maneira como escrevem, no caso. Interessa-me saber o que é que elas têm a dizer. Porque toda a gente tem qualquer coisa a dizer. Pode não ser novo, mas alguma coisa é, seguramente.


DO POCINHO AO BRASIL

É verdade que viveu na última paragem ferroviária do Douro?
Agora é a última paragem: o Pocinho. O Pocinho ainda é hoje, para mim, o centro do mundo. Era onde viviam os meus avós, a minha família, e à medida que foram morrendo voltou a ser o centro do mundo - uma espécie de raiz. O Pocinho é um bocadi­nho a metáfora daquela parte do interior de Portugal que foi sen­do abandonada, abandono contra o qual não se pode fazer grande coisa. As pessoas vão saindo, vão procurando melhores condi­ções de vida noutros lados, mas lembro-me de o Pocinho ser uma espécie de oásis no meio daquilo. É preciso dizer que o Pocinho não é uma aldeia qualquer. O Pocinho é a aldeia que produz o Barca Velha! [Risos do público] É a aldeia que produz o Esteva, o Vale Meão, o Meandro - são os melhores vinhos do Douro, que estão aqui. Eu não venho de um lugar qualquer! [Risos] Aos 15 anos, quando descobri que o meu avô, aos fins-de-semana, ia tra­balhar na Quinta do Vale Meão, deixei de dizer que o meu avô trabalhava na Quinta do Vale Meão. Dizia: o meu avô trabalha na Quinta onde fazem o Barca Velha! Houve logo um upgrade. Ain­da por cima, o melhor Barca Velha que eu conheço é o do meu ano! Em matéria vinícola, sou nacionalista. Nacionalista do Dou­ro! Já não acho graça aos vinhos que passam do Sado para o Sul.


O Douro é, portanto, central.
Sim. Não sei se conhecem o Pocinho... É que um lado da al­deia pertence ao distrito de Bragança e o outro pertence ao distri­to da Guarda. E as pessoas perguntam: mas tu és do distrito da Guarda ou do distrito de Bragança? Eu sou do Douro, que passa ao meio. És da Beira ou de Trás-os-Montes? Sou da Região De­marcada do Douro. Este seria o melhor processo de fazer a Regionalização em Portugal: Região Demarcada do Dão, do Douro, dos Vinhos Verdes, etc. Era ali que começava a linha de Sabor, que era uma linha lindíssima que tinha dois tipos de composição: o comboio normal e a auto-motora. Quando chegava a determi­nada estação, o Sr. Rodrigues, que era um dos condutores da auto­motora, parava para comer cerejas. Passava-se o mesmo na cidade onde eu vivi, Chaves. Quando chegava a Carrazede, nós saía­mos e íamos a pé cerca de um km e voltávamos a apanhar o com­boio mais à frente. A minha vida esteve sempre ligada aos com­boios – um dos livros que escrevi era, aliás, sobre comboios. O meu avô era ferroviário (era operário metalúrgico da CP) e nunca disse coisas como "o comboio para o Porto". O meu avô dizia: "o 6013" ("Apanhas o 6013, que chega às 18h45, na linha 42")- Che­guei a fazer colecção de horários de comboios. Às vezes, aos 16 ou 17 anos, pegava num horário e começava a viajar... Tenho um gran­de fascínio por comboios, porque se encostarmos um dedo a um carril na Estação de Campanhã, caso não saibam, do outro lado está Vladivostok.

Estamos ligados.
Sim. Para mim era espantoso pensar que estávamos ligados.

Foi isso que influenciou também o viajante? É daí que lhe vem a ânsia de viajar?
Sim: os comboios que partiam, os comboios que chegavam... Foi assim que comecei por viajar, e tenho um recorde de 22 noi­tes seguidas passadas num comboio. Fiz seis anos seguidos de InterRail – um vício. Atravessei a Europa a dormir nos comboios.

Do comboio para o avião... Julgo tê-lo ouvido dizer um dia que vivia meio ano em Portugal e meio ano no Brasil.
Vivi assim cerca de dois anos e meio: três meses de Brasil e três semanas de Portugal. Foram os anos que levaram à escrita de «Longe de Manaus» – por isso é que ele é escrito metade em português de Portugal e metade em português do Brasil, e também é produto de uma relação apaixonada pelo Brasil. As pessoas dizi­am coisas absurdas. Como vivia no Brasil, achavam que era por­que trabalhava no Consulado, ou na Embaixada. Não. Mas então o que é que estás lá a fazer?, perguntavam. Estou a trabalhar, por mim. Tem muito a ver com a pequenez do funcionalismo cultu­ral português pensar que não se pode arriscar. Eu arrisquei. Quis escrever, mantive o meu trabalho conforme pude, e foram dois anos óptimos.

O que é que nasceu primeiro: a paixão pelas letras do Brasil, pela cultura do lugar, ou pelo país, pelo lugar geográfico?
Eu já conhecia o Brasil, já tinha feito uma série de televisão sobre o Brasil. Quando fui para lá viver, já só me faltava conhecer um Estado brasileiro. Foi uma experiência fantástica. O Brasil é um país irritante. Tem todos os defeitos, mas tem todas as quali­dades – que nos envergonham de pensar mal do Brasil. E eu não acredito em paraísos, ou em vidas fáceis...

Também é um apaixonado pela literatura brasileira.
Muito. Aliás, costumo dizer que a literatura brasileira é infini­tamente superior à portuguesa. A frase não é minha, é do poeta angolano Mário António, que foi meu professor de Literatura Brasileira. Há um diálogo interrompido entre a literatura portu­guesa e a brasileira, por um lado pela arrogância de muitos escri­tores portugueses, e por outro lado pela arrogância do sentimen­to político brasileiro em relação a Portugal. O facto é que o ro­mance brasileiro tem hoje uma criatividade, uma intensidade de tal forma, que se me perguntassem quais são os autores de língua portuguesa que eu mais gosto de ler, em dez, haveria sete brasileiros. Sem qualquer preconceito anti-português. Tem uma vantagem sobre grande parte da ficção portuguesa: é que não é pirosa.

A ficção portuguesa é pirosa?
Grande parte é. É muito fácil, muito dada a sentimentos, a estados de alma. É pouco dada a trabalho de investigação sério, que tem que haver na ficção, apesar de tudo. Há um filão da literatura brasileira – que é o que vai de Machado de Assis até Ru­bem Fonseca, onde há muito trabalho; e há um outro lado (que é o do Jorge Amado, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa) que é muito mais nacionalista. Nós tivemos um predomínio muito grande da literatura brasileira de feição nordestina, folclórica (so­bretudo de Jorge Amado) e com isso perdemos a oportunidade de conhecer outros autores brasileiros.

DO VIAJANTE AO ROMANCISTA

Em 2002, publicou o romance «Lourenço Marques» e, em 2005, «Longe de Manaus» (que recebeu o Grande Prémio Ro­mance da APE). As suas viagens (reais ou literárias) são tam­bém viagens na língua portuguesa? Isto porque os lugares a que alude nestes romances são também lugares da língua portuguesa...
Eu costumo dizer que não sou patriota, no sentido em que não acho que uma coisa é boa só por ser portuguesa. Mas fasci­nam-me muito os portugueses, sobretudo os portugueses que estão fora, e fascina-me muito o passado colonial de Portugal. A sensação da perda do Império foi o que me fascinou no «Lourenço Marques» e no «Longe de Manaus», que cruza Angola, a Guiné, o Brasil e Portugal. O que me fascinou foi essa sensação de perda. Para fazer o «Lourenço Marques», entrevistei cerca de 200 pessoas que tinham vivido em África. Eu nunca vivi em Áfri­ca, mas tenho um amigo que nasceu em Lou­renço Marques e que me pediu, da primeira vez que fui a Moçambique, que fotografasse umas ruas, urnas pastelarias, umas igrejas... Eu fui fotografar, mas tinha contratado um motorista para me levar a conhecer a cidade. Disse-lhe: Eu que­ria ir a estes lugares. E ele perguntou: O Sr. quer conhecer Maputo? Sim, quero conhecer Maputo. Ele olhou para a lista de lugares e disse: Não, o Sr. Viegas não quer conhecer Maputo... o Sr. Viegas quer conhecer Lourenço Marques.

Esses lugares já não existiam, ou não existi­am com esses nomes.
Exactamente. É preciso dizer que eu tenho uma grande admiração pelos retornados. O Fer­nando Dacosta, na altura, muito contra a corrente e muito contra o tom politicamente mais na moda, publicou uma reportagem em que dizia: "Os retornados estão a mudar Portugal". E é ver­dade. Um dos aspectos mais comoventes à dis­tância, independentemente daquilo que houve de desgraça e de infelicidade e de amargura e de ressentimento, foi a capacidade que Portugal teve de, mal ou bem, absorver cerca de 750 mil pes­soas em três meses. Recebeu-as mal, obviamen­te, mas essas pessoas transformaram a maneira de ser de Portugal. O meu pai também tinha vivido em África, e tinha muitas histórias de Lu­anda, e eu fiquei sempre muito desperto para esse mundo. Quando cheguei a Lourenço Mar­ques, disse: Eu tenho que fazer uma história aqui. Interessam-me esses portugueses que es­tão fora. Um dia, encontrei em Timor um grupo de portugueses que se juntavam para falar mal de Portugal. Eu dizia-lhes: "Mas então vocês es­tão 324 horas do país... Quando voltarem, como é que vai ser?" Eles respondiam: "Nós não voltamos". É uma paixão desmedida por um país que não podia ser de outra maneira.

O Francisco José Viegas também é apaixona­do por Portugal?
Gosto muito do Minho, dos vinhos, do mar, do Pocinho... Eu sou português. Gosto moderadamente de Portugal, como qualquer portugu­ês. Não há nenhum português que ame desesperadamente Portugal. Há sempre a frase: isto só podia acontecer em Portugal!

Voltemos à Literatura, porque ainda temos que chegar à poesia. O Francisco José Vie­gas também é cultor de um género pouco divulgado em Portugal: o romance policial. Como é que surge um romance policial? Pesquisa, investigação, curiosidade?
Surge-me por dois motivos: em primeiro lu­gar, porque sou preguiçoso, no sentido lato - ou seja, existe um modelo, que podemos seguir. Qual é o modelo? Crime, cadáver, investigação, maus e bons. Se está aqui o modelo, para que é que havemos de procurar outro? Não é por ser mais fácil. É porque toda a nossa vida cabe nes­se modelo. Toda a nossa vida. Quando dizemos homicídio, podemos dizer desaparecimento, medo, mistério, desconhecimento... Não é por eu matar quatro ou cinco pessoas em cada livro que vou ser preso. O crime, nos romances poli­ciais, vale como elemento de distúrbio, numa sociedade normalizada. Infelizmente, é cada vez menos literário e cada vez mais real... Eu costu­mo dizer: comprem os meus livros, que por ape­nas 14 euros não têm um nem dois nem três, mas quatro cadáveres [Risos]. Ou seja, sai mais ou menos a dois euros por cadáver, o que é bara­to, hoje em dia. Qualquer coisa em nós nos puxa para situações limite. Por outro lado, toda a literatura é, em certa medida, devedora do roman­ce policial. Ou seja, nas maiores crises da litera­tura a partir do séc. XIX (o romance é uma for­ma burguesa do séc. XIX), quando o romance deixava de ter história, foi o romance policial que disse: Não. O romance tem que ter princípio, meio e fim. Embora possa não se começar pelo princípio. A ordem é arbitrária, mas tem que existir uma ordem na história para que exista, provavelmente, uma ordem no mundo. O ro­mance policial, como forma literária burguesa, ordena o mundo. As pessoas querem uma or­dem na vida, querem uma explicação. Não há maus e bons. O meu detective é óptimo para defender os criminosos...

O seu detective, o Jaime Ramos, que já atra­vessou tantos dos seus livros, é de alguma forma um alter-ego seu?
[Risos] Não. É uma pessoa que eu conheço. Gosto dele porque tem uma biografia própria. Isto é um pouco anedótico, mas eu tenho extrac­tos de conta bancária do Jaime Ramos. Imagino como é o guarda-roupa dele. Tenho fotografias da casa dele, que passam de livro para livro. São personagens com uma certa vida, e por isso ten­to criar no livro uma vida com uma certa coerência, que provavelmente não existe noutro lado. Acho que toda a literatura (o José Cardoso Pires, aliás, dizia isso) é em certa medida polici­al, porque toda a literatura trata da morte, do mistério, do desaparecimento e da busca.

DA POESIA À CASA FERNANDO PESSOA

Já falámos do entrevistador, do viajante, do romancista. Cheguemos agora à poesia. Na antologia da sua poesia «Metade da Vida», confessa que "é avesso a falar de poesia, por entender que não se trata de literatura". E acrescenta: "poesia é sempre outra coisa, fica sempre mais além. O verso ideal, por isso, não devia escrever-se". Por que é que a poe­sia não se trata de literatura?
Há uma circulação dos objectos literários -dos livros - que não tem a ver com a poesia no seu estado puro. Não tem a ver com a imagina­ção da poesia no estado puro. É como se dissés­semos que a música no seu estado puro é o si­lêncio, que a nota perfeita, numa peça, é o silên­cio. E o verso às vezes é demais para explicar um lugar, uma palavra. Eu penso que a poesia - é essa a concepção que eu tenho - não releva da literatura. Releva sempre muito mais do discur­so religioso, muito mais do encontro com o ima­terial. A poesia dialoga com o invisível. A litera­tura dialoga com aquilo que pode tornar-se re­velado, visível. Por isso é que os romances são adaptados a filmes. Por isso é que a poesia não é adaptável a nada. Por isso é que eu nem sequer sei falar de poesia. Admiro imenso os críticos de poesia. Eles conseguem falar de poesia durante horas! Eu consigo ler um poema, gostar de um poema, e calar-me. Percebe? Está lá.

Aquilo que procura na poesia é diferente da­quilo que procura na ficção?
Quando eu era adolescente, procurava sedu­zir a colega do lado. Era muito mais difícil escre­ver-lhe um romance... Por isso é que Portugal é um país de poetas. [Risos] Quero conquistar a menina aqui do lado, por isso vou escrever-lhe «Os Maias»... Não pode ser! Vou seduzir esta pequena e vou escrever-lhe um soneto. Nessa altura, a poesia tinha uma utilidade (isto é um bocadinho caricatural, obviamente). Hoje, para mim, não tem utilidade nenhuma. Não o faço por razão nenhuma. Faço-o porque tenho de fazer.

Porque precisa?
Sim. Estou ali, há aquela paisagem, aquele instante, aquele relâmpago... Há um livro de um poeta cabo-verdiano de que eu gosto muito, que é o José Luís Tavares, que tem um título fantástico: «Paraíso Apagado por um Trovão». Para mim, a poesia é um paraíso apagado por um trovão. Há ali um relâmpago qualquer que eu não sei expli­car... Há coisas que as línguas não conseguem dizer.

O Francisco José Viegas assumiu recentemen­te o cargo de Director da Casa Fernando Pes­soa. Quais são os planos fundamentais para a casa do poeta?
Os objectivos para a Casa Fernando Pessoa são cumprir o orçamento. Este é o ponto um. Pon­to dois? Fugir ao orçamento. [Risos] Ponto três: conseguir escapar a salvo dessa fuga. Quem está a gerir equipamentos desta natureza sente sem­pre essa limitação do orçamento, mas acho que fizemos na Casa Fernando Pessoa, ao longo des­te ano, uma experiência que é um pouco única: com um orçamento diminuto, montámos em 15 dias a programação de um ano, e acho que correu de uma maneira francamente aceitável, para uma casa que não tinha programação. A Casa Fernan­do Pessoa não é a casa do Fernando Pessoa. É urna casa da poesia que existe em nome da herança de Fernando Pessoa. Obviamente que temos lá es­pólio de Pessoa – os óculos, a cigarreira, o Bilhete de Identidade, e essas coisas magníficas; temos a biblioteca pessoal; temos a célebre cómoda onde ele escrevia; mas é sobretudo um lugar de encon­tro de poetas, de escritores, de gente que gosta de livros, e portanto a função é essa. Neste ano, além de continuarmos este programa, vamos lançar fi­nalmente a «Tabacaria», que irá chamar-se «Revista de Poesia e Literatura», e vamos organizar uma grande coisa que se chama «Lisboa, cidade do Livro» (podia ser «Famalicão, cidade do Livro», mas é em Lisboa) que ocupará os 30 dias antes da Feira do livro. Há também um trabalho de coo­peração... Provavelmente, daqui a uns anos, teremos uma Casa Fernando Pessoa em São Paulo, no Brasil. Estive na inauguração do Museu da Lín­gua Portuguesa (em São Paulo), e Fernando Pes­soa é o poeta mais citado ao longo de todo o mu­seu, o que diz bem do impacto do Pessoa no Bra­sil. Eles conseguiram livrar-se um bocadinho des­se ressentimento pós-colonial em relação à lín­gua portuguesa. É muito bonito.

Entrevista de Filipa Leal com fotografias de Pedro Tavares
in “das Artes e das Letras” – suplemento distribuído com o jornal “O Primeiro de Janeiro”
– 22 Janeiro 2007

1.2.07

Fernando Assis Pacheco, uma publicação póstuma



Joaquim Manuel Magalhães

Actual, Expresso, 3 de Julho de 2004




Não consigo chamar Respiração Assistida a este volume de poesias (Assírio & Alvim, Lisboa, 2003) porque não foi o autor que lhe chamou assim. Isso foi o título que deu a um poema, que nem sequer saberemos nunca se viria a incluir juntamente com estes poemas ou teria organizado de outra maneira. Trata-se de uma hipótese de título somente. Eu é que sou sempre muito desconfiado de professores que metem decisões suas em seara alheia. No que talvez nem tenha razão. O próprio Assis Pacheco autoriza na sua prática este processo logo no seu primeiro livro, cujo título, Cuidar dos Vivos, é pedido ao título de um poema que o integra. Mas uma coisa é um autor tomar uma decisão dessas, outra coisa é alguém fazê-lo por ele postumamente. Não suponho que seja boa política editorial, parece uma maneira oitocentista. Algo de mais descritivo operaria melhor, suponho. De qualquer forma, o livro já deve ficar para sempre com este título e a mim ninguém tirará a vontade de não lhe chamar assim. Será sempre um conjunto de poemas sem ordem verdadeiramente fixada, o autor não saberemos como o viria a fazer; sem título, o autor nunca lho atribuiu. É um dos casos de interferências exteriores de que a literatura está cheia. Arranjei um estratagema para o ler: fotocopiei-o, meti-o numa capa e ele vai tomando os caminhos informes que eram maioritariamente os seus. Foi um belo conjunto de poemas que o Fernando escreveu, sem ser um livro que o Fernando dispôs, com a meticulosidade com que sempre planeava a sua obra, sempre a fingir que não lhe ligava nenhuma, que não tinha importância de maior, grande mentira de pessoa que gostava mais de falar dos e com os outros do que se pusessem a falar-lhe de si. Mas, dentro dele, a importância do que fazia com bastante fulgor se lhe assegurava.

É bom sabermos a sua insistência em chamar “mestre” a Nicanor Parra. Não que essa designação o colocasse a si mesmo como discípulo do poeta chileno. Mas por mostrar obviamente os caminhos sem fato de luzes que fazia que a sua poesia tomasse. Como referência para os leitores da obra de Assis Pacheco, Parra inclui-se com ele no número dos poetas, bem raros para os quais a importância da poesia não depende do seu empolamento, mas numa distância do estentório por parte do autor, que não quer tornar-se um tribuno de si mesmo, por muito que saiba quanto é ele que está envolvido naquelas palavras que, depois, para ver o que acontece, parece dependurar como um trapo à distância como se de coisa mal cheirosa se tratasse. Sempre como se o valor da poesia estivesse noutro lugar que no da poesia ela mesma; ou como se a presença do seu autor só ganhasse autenticidade se este se distanciasse para silêncios supostamente indiferentes. Paremos para ouvir também Assis Pacheco enquanto ouvimos Parra:



TUDO



É POESIA

menos a poesia



ou este outro esclarecedor poema:



A

POESIA

MORRERÁ

SE NÃO

A OFENDERMOS





temos

que

possuí-la

e humilhá-la em público

depois se verá

o que se faz





Mesmo neste livro atravessado de mais nostalgia ainda do que todos os seus livros (onde o que ganha sentido desta palavra assume liderança de escrita múltiplas vezes), um poema como “Bah!” é significativo deste excurso comparativo.

De todos os modos, porém, neste volume, onde a mágoa final se desenha (e ter conseguido falar dela com tão elaborada simplicidade linguística é um feito de coragem psíquica digno de ser retido), ela é usada ainda como um dos temas de quotidiano, de coloquialidade, de diálogo íntimo consigo mesmo que se tornou marca distintiva dos fortíssimos versos que sempre escreveu. Embora talvez seja conveniente recordar que neste livro ocorrem alguns poemas anteriores a um susto mais imediato da morte – os que precedem 93 – em que esta, ou similar significação, já ganha um fundo tematizador, como acontece com o poema “, R, 1992”.

Esta inicial indica um dos nomes centrais a que o livro a fazer pretendia enviar: Rosário, a sua mulher; e nela, sempre envolvidos, os seis filhos de ambos. É poderosa a presença da família (e de alguns amigos que o poeta deixa tomar quase parte dela). É neste campo de familiaridade, de uso coloquial dentro da família, que naturalmente ocorrem vocábulos que podem parecer a alguns como palavrão e que mais não eram senão o modo naturalíssimo e sem qualquer malícia como naquela casa, por exemplo, se tratava um homem no feminino, uma criança por uma alcunha disparatada e terna, um cão como gente dada a apetites. Era o amor aquilo que se sentia circular, o grito seguido de perdão, a ternura dada numa passagem rápida mas marcante; essa casa cheia de gente amena até em qualquer sofrimento, de confusos aparecimentos e desaparecimentos de crianças, umas mais caladas, outras mais ternas, outras mais inquiridoras. No centro, a inquieta alegria dos pais, por momentos a nostalgia que pelo Fernando passava e depois a música do jazz, dos ritmos tropicais, um envolvimento humano da figura de um poeta que era um caos felicíssimo de presenciar. Neste domínio comum se deve ler o primeiro dos nove sonetos: ainda que “Aretino” venha mencionado nesse soneto, creio que vem como eco literário que dava jeito numa rima, pois as palavras usadas para referir a sexualidade que corre entre marido e mulher Tem todo o carácter da comum linguagem do amor entre seres para quem elas não tinham outro peso senão o do habitual. Nem sequer são palavras mal soantes ou grosseiras, são o que pode entre muita gente florir na voz do amor. Nada de inusitado ou até de libertino encontro nesse soneto, um dos grandes poemas do amor comum heterossexual e marital que a poesia do sec. XX nos deu. Mesma na “vascular emergência transportado // com terror de sirenes por dois homens”, esse selo de morte em que medita, “não pensa noutra coisa: o seu enterro”, o homem escreve no meio da presença amada com a doçura e a rudeza do prazer numa sequência em que se sabe unido à sua mulher, “camaradas leais do bem foder”.

Creio que a leitura que melhor compreendeu a peculiar qualidade da poesia de Fernando Assis Pacheco a fez José Carlos de Vasconcelos num texto introdutório a Retratos Falados de F.A.P., ASA, Porto, 2001: “Assis: A Arte do Jornalismo”. De facto, se informar, interpretar e opinar são características desse género que o jornalismo é, esta tripla situação não pode, para que o jornalista seja completo. fechar-se no informativo de uma notícia – hoje em dia mais especificamente tarefa da rapidez das televisões – deve inscrever-se numa consciência do seu jornal e manifestar o propósito, que nunca deveria ser manipulador, de tentar a inteligência e a decisão dos leitores. A tudo isto deve juntar-se uma característica de estilo clara, concisa, de registo coloquial na selecção do léxico, o qual nunca deverá cair em qualquer incorrecção, não apenas sintáctica, mas também, pois a sintaxe envolve profundamente o sentido, ética. Parece que estou a falar da poesia do Fernando. E estou. E foi isso que Vasconcelos compreendeu ao dizer: “ A sua poesia tem um ritmo, um tom narrativo e/ou coloquial, uma sábia utilização de adjectivos e advérbios, uma luminosa e dificílima simplicidade, comuns à escrita da (sua) “profissão dominante” (o jornalismo), como lhe chamou numa plaquete de 1982. Parece-me isto visível desde sempre. Isto é, e paradoxalmente, desde antes ainda de o Assis militar nessa “profissão dominante”. O que significa ter sido, primeiro, a sua escrita poética a influenciar a jornalística e, depois, a escrita jornalística a influenciar a poética”.

A influência a partir do poético deve-se, para lá do génio pessoal, à sua predilecção por ( e conhecimento de) a geração inglesa de Auden, Spender ou Isherwood, todos seguidores de actividades de repórter ao mesmo tempo que de escritor e todos profundamente ligados à intenção de uma escrita modernista tal como a defendeu Pound entre o movimento imagista e vorticista. A influência a partir do jornalismo sente-se na rapidez com que define situações, na atenção fixada ao pormenor humano, ao distanciamento com que descreve – mesmo que imerso no pior pesadelo – a situação que antevê como proximamente sua, nesse outro enorme poema seu que é “Respiração Assistida”. Um dos momentos cimeiros dessa situação é constituído pela série Desversos, continuada neste volume com quatro poemas mais.

Sempre encontrei no Fernando um inesquecível homem de saber. Também neste esboço final de livro o vamos encontrar, dentro do diálogo com a morte e com a família que tão intensamente era a sua limalha de ferro e de amor, dialogando com os processos de poetas amados, como Jaime Gil de Biedma. “Último Tesão” e “Um Tal Fernando Assis Pacheco” não desistem de enfrentar “Contra Jaime Gil de Biedma” e “Después de la Muerte de Jaime Gil de Biedma”. Ainda que no Fernando, ao contrário do espanhol, o pathos não fosse um artifício, mas o desafio mais radical com que podemos confrontar-nos na solidão de nós próprios.
Um Tal Fernando Assis Pacheco
Jornal Público, Sábado, 21 de Fevereiro de 2004

Fernando Pinto do Amaral

Título - Respiração Assistida
Autor - Fernando Assis Pacheco
Posfácio - Manuel Gusmão
Editora - Assírio & Alvim
88 págs., ¤ 12,00


Uma das mais persistentes confusões quando se fala de poesia tem nascido do equívoco com que por vezes alguns leitores identificam uma suposta "linguagem poética", superiorizando-a perante o que seria a linguagem comum - como se a poesia pudesse sempre definir-se através de uma sobrecarga retórica e metafórica em relação à restante linguagem, cavando assim uma distância que inapelavelmente as separasse.

Vem isto a propósito de Fernando Assis Pacheco (1937-1995), autor revelado em 1963 com "Cuidar dos Vivos", livro que nesse momento histórico se enquadrava numa poesia de intervenção política, comprometida num testemunho de luta contra a guerra colonial. Publicando ao longo do tempo colectâneas de circulação muito restrita - quase clandestinamente divulgadas entre amigos, em edições de autor -, o poeta veio a reunir a sua obra apenas em 1991 ("A Musa Irregular", Ed. Hiena), num volume que manifestava o desejo de fugir a qualquer dicção grandiloquente - "Peçam a grandiloquência a outros" (p.166) -, oferecendo-nos, em vez disso, uma linguagem coloquial muitas vezes irónica, mordaz, satírica, mas ao mesmo tempo comovida com o pequeno espectáculo do mundo e descrente das virtualidades da própria poesia: "e depois isto dos versos / passados anos já não passam de enganos" (id., p.194).

É dentro deste registo desvalorizador do papel tradicionalmente atribuído ao género literário "poesia" que podemos ler agora um notável conjunto de 35 poemas inéditos ou dispersos à data da morte do autor - textos escritos num tom muito pessoal, que propositadamente disfarça a pulsão lírica graças a formas muito eficazes de camuflagem irónica, sabotando e subvertendo os "clichés" associados ao lirismo. Como sintetiza Manuel Gusmão num lúcido posfácio, trata-se de "uma poética da deflação do 'pathos' lírico. A expressão julgo que permite, por um lado, não apagar a sua inequívoca dimensão lírica e, por outro lado, dar conta dos processos de 'decapagem' a que ela é submetida, assim como das modulações irónica, satírica ou de 'escárnio e mal-dizer' igualmente manifestas" (p.66).

Para alguns leitores mais apressados, talvez o que sobressaia seja precisamente esta componente escarninha, satírica ou abertamente "fescenina" (a palavra é de Manuel Gusmão), patente quer nos "Desversos" que jogam por vezes num terreno político, quer em alguns textos mais desbragados, que retomam a alegre celebração do prazer sexual - veja-se um soneto dedicado aos testículos: "Pus-vos a mão um dia sem saber / que tão robusta e certa artilharia / iria pelos anos fora ser / sinal também de lêveda alegria // amigos meus colhões quanto prazer / veio até mim em vossa companhia / a hora em que tiver já de morrer / morra feliz por tanta cortesia" (p.19).

Uma das maiores qualidades da escrita de Fernando Assis Pacheco provém, no entanto, do modo muito subtil de articular uma apurada crítica social e, ao mesmo tempo, uma análise distanciada do "eu" ou daquilo em que o "eu" se tornou - pouco a pouco transformado num "tu" a quem o poema se dirige sem contemplações: "Alombo contigo há uma porção de anos / e vou-te dizer és um chato / não tens ponta de paciência / para a vida nem para ti próprio // [...] // vez por outra um livrinho / de versos vez por outra nada / qualquer um do teu tempo / está bastante melhor do que tu / deputado administrador de empresa / ministro da maioria / puta (alguns chegaram a isso)" (p.43).

Estes efeitos de auto-ironia tornam-se particularmente evidentes quando o poeta se afasta ainda mais de si mesmo e se observa na terceira pessoa, falando sobre "um tal Fernando Assis Pacheco" como se se tratasse de um duplo ou de uma personagem vagamente familiar: "Vivo com ele há anos suficientes / para poder dizer que o reconheceria / num dia de Novembro no meio da bruma / é como uma pessoa de família // [...] / não invento nada vi-o crescer comigo // chorava então desabaladamente / e eu com ele sentindo-nos perdidos / o cobertor puxado sobre a cabeça / seria trágico se não fosse ridículo // [...] / não lhe perguntem se foi feliz" (p.45).

O amargo pedido deste último verso denota já uma inflexão de perspectiva, no sentido de um balanço existencial de tons elegíacos, recuperando um pouco de tudo o que foi importante numa vida humana, na vida desse "tal Fernando Assis Pacheco". É graças a esse movimento de regresso que vemos desfilar os pais, as filhas, a família ou os amigos - por vezes explicitamente nomeados -, compondo um mosaico de imagens e episódios de um passado acontecido algures entre Coimbra e Lisboa, entre a Galiza e a ria de Aveiro: um passado legível como memória já longínqua ("ao tempo que isto foi", p.41), mas apto a iluminar o presente com a sua luz talvez um pouco baça. A esse respeito, chamo a atenção para uma belíssima "Elegia" dedicada aos desaparecidos tempos de Coimbra: "com 40 mil habitantes no melhor dos casos / a cidade tinha um ar modesto e a puxar para o triste / sempre os mesmos cães magros sempre a mesma gente lenta / o mesmo nevoeiro subindo em espiral do rio // nesse tempo ainda os meus pais eram da família / que depois perdi em anos consecutivos / e eu julgava-os imortais como deuses de luz clara / brilhando à mesa sobre a grande toalha de linho // nem tão-pouco pretendo aborrecer agora os meus filhos / com histórias dessa que enterrada está Coimbra / nós vamos no oco da onda ébrios de sal mordente / o que vem dar à praia é espuma fria e olvido" (p.24).

Para lá deste lirismo nostálgico, aliás já cultivado em muita da anterior obra de Assis Pacheco, o que se torna novo nesta fase - sobretudo agora, com os poemas reunidos num livro - consiste numa penetrante e obsessiva presença da morte, embora uma morte cujo peso trágico acabe por surgir quase sempre subvertido por uma retórica deceptiva e por um fino sentido de humor. Mas com humor ou sem ele, a morte existe e infiltra-se nesta poesia, que mostra conhecê-la ou antecipá-la, declinando-a quer como futura ausência do sujeito - veja-se o poema em que faz o inventário da sua herança (pp. 27 / 28) -, quer através dos seus sinais concretos e terrivelmente sensíveis ao nível do corpo, no momento em que uma ou mais doenças ameaçam e avançam sobre alguém numa cama de hospital, "entre os frascos do soro" (p.51) e a solidão última de um homem que, tal como Ruy Belo, sabia estar a despedir-se da terra da alegria:

"Triste de mim mais triste que a tristeza / triste como a mão que segura o copo / como a luz do farol esgaçando a névoa / triste como o cão manco / deixado na serra pelos caçadores // [...] // a tarde triste os anos tristes / a grande costura da tristeza / do esterno ao baixo ventre // triste e já sem nenhum reparo / a fazer à metafísica / senão que é um défice / porventura / do córtex cerebral" (pp. 21 / 22).

9.1.07

TLEBS - Público de 6.1.2007

"Deficiências" obrigam a "trabalho de correcção da TLEBS" em 2007 e 2008

Apesar da polémica que a terminologia linguística tem suscitado, o Ministério da Educação não vai suspendê-la e quer vê-la definitivamente na vida das escolas. O director-geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular encara-a como medida para combater os maus resultados dos alunos. Precisa é de correcções.


Por Bárbara Wong

A Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS) - aprovada há dois anos e confirmada pelo actual Governo - tem como objectivo uniformizar os termos gramaticais usados no ensino. Professores, escritores e pais não lhe têm poupado críticas.
Luís Capucha, director-geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular, do Ministério da Educação (ME), reconhece que a lista de termos, já adoptada nalgumas escolas, "tem deficiências". Foram designados especialistas para corrigi-la e aplicá-la do 1.º ao 12.º ano. Apesar de a generalização a todo o ensino básico e secundário ter sido suspensa, o director-geral espera que daqui a dois anos a TLEBS não seja um "corpo estranho" às escolas.
PÚBLICO - É necessária a introdução da TLEBS no sistema de ensino?
LUÍS CAPUCHA - Nos últimos anos, o ensino da gramática tem sido descurado. Há uma constatação de deficiências numa matéria que é básica: a língua materna. A totalidade dos programas de Português tem uma forte componente de ensino de textos da literatura portuguesa e este tem sido o caminho; se estivesse correcto, não teríamos problemas de literacia. Não podemos estar satisfeitos com os maus resultados dos alunos portugueses, quer nas provas nacionais quer nos estudos internacionais. A TLEBS pode ajudar a combater o insucesso. Foi esta a razão que levou um conjunto de pessoas a lançar um movimento a favor da construção de uma terminologia, para pôr cobro a uma situação de deriva terminológica.
O que é que isso significa?
Quer dizer que não há uma terminologia consensualizada e que existem vários termos para designar as mesmas coisas e há coisas diferentes designadas pelo mesmo termo. A TLEBS tem diversos níveis de complexidade e é um instrumento científico. Provavelmente não teria feito sentido que o anterior Governo a tivesse aprovado.
Discorda dessa decisão?
Creio que o Governo PSD-CDS/PP deveria ter incentivado a construção de uma terminologia uniformizada; mas a principal missão do ME seria pegar nesse instrumento científico e transformá-lo em conteúdos passíveis de administração ao ensino.
É isso que vai acontecer agora. Quem vai fazer esse trabalho?
Há um trabalho de correcção da lista de termos, que tem deficiências. Esse trabalho foi entregue a dois especialistas: o linguista João Costa e o professor de literatura e análise literária Vítor Aguiar e Silva, que farão a correcção e revisão final. Vamos pedir a outros dois especialistas - Olívia Figueiredo e Vítor Manuel Oliveira -, ligados ao ensino do Português, para definir que termos devem ser aplicados a cada nível de ensino.
O trabalho terá discussão pública?
Depois de concluído, vai ser debatido e só depois haverá homologação.
Que outras medidas vai o ME tomar?
Vamos sujeitar a TLEBS a um teste prático: saber se os alunos que aprenderam com a terminologia têm melhores resultados a Português. Vai ser já este ano que vamos fazer essa comparação, através dos exames do 9.º e do 12.º ano.
Haverá perguntas sobre a TLEBS?
Não, porque o que é matéria de exame são os programas. Esperamos é que os alunos que tenham tido um contacto com a TLEBS tenham melhores resultados. Se isso acontecer (é provável), significa que a inclusão da terminologia está a obter os resultados desejados.
Quando é que vai ser generalizada?
A expectativa é que o trabalho de base esteja feito em 2007/2008. A generalização vai acontecer em 2008/2009. Temos a determinação de melhorar o ensino, esperamos ter resultados, mas queremos que as coisas sejam bem feitas. Não queremos que a TLEBS seja um corpo estranho nas escolas.

-------------

"Alguns erros só são identificados na prática com os alunos"
Director-geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular admite que é preciso mais formação para os docentes na TLEBS

A TLEBS ir ser corrigida significa que os alunos que estão agora a experimentá-la estão a aprender coisas erradas?
Em princípio, não. A TLEBS, tal como qualquer outra área científica, está sujeita a avanços e em boa verdade nunca haverá uma correcta. Os termos vão ser revistos, mas isso não impede que a experiência continue, porque alguns erros só são identificados na prática com os alunos.
A formação dos docentes tem sido suficiente?
Neste momento ainda não há formação que seja passível de sustentar a introdução da TLEBS. Por isso suspendemos a sua generalização. Não valia a pena impor um instrumento com o qual as pessoas não sabiam trabalhar.
Os materiais pedagógicos já publicados contêm erros?
Se as editoras fizeram materiais antes da revisão científica final [agora encomendada a João Costa e Aguiar e Silva], provavelmente haverá ajustamentos a fazer.
Vai haver mudanças nos programas?
Os programas mantêm-se e se houver alterações não serão resultado da introdução da TLEBS, mas de actualizações ou de introdução de novas matérias.
O Ministério da Educação vai organizar uma conferência. Quando?
Vai ser este ano, mas será sobre o ensino da língua portuguesa. A TLEBS não é tudo o que existe em termos de matéria de Português, é apenas um instrumento. O comissário é Carlos Reis [actual reitor da Universidade Aberta].
Esperamos que os temas abordados possam dar contributos positivos e permitam melhorar o conjunto de procedimentos e instrumentos que se utilizam nas escolas. B.W.
---------------------------------------

"A polémica ajuda a encontrar soluções mais adequadas"
Capucha dá as boas--vindas à polémica, desde que dê origem a um debate construtivo. "A língua não é uma vaca sagrada imutável"

Artigos de opinião, abaixo-assinados... Foi a polémica à volta da aplicação da TLEBS que obrigou o Ministério da Educação a rever a posição?
Não. Estas medidas enquadram-se num conjunto de outras decisões que já vinham a ser tomadas. Estamos atentos porque não podemos ser arrogantes e pensar que temos a verdade toda.
Em toda a polémica que rodeia a TLEBS parece haver uma divisão entre os especialistas da literatura e os da linguística. Concorda?
Não podemos entender o ensino da estrutura da língua (gramática e linguística) como matéria que se oponha ao ensino centrado na literatura, interpretação de textos ou gosto pela leitura. Pelo contrário, são instrumentoscomplementares. Os textos literários são instrumentos óptimos para ensinar a estrutura da língua. Queremos evitar a dicotomização do ensino da literatura e da língua.
Uma das críticas é a de que a TLEBS poderá afastar os alunos do gosto pelo Português. Concorda?
A TLEBS é um auxiliar da gramática para que os alunos compreendam a estrutura da língua, é uma ferramenta útil para a descodificação dos textos literários.
Depois das medidas anunciadas, acha que a polémica vai diluir-se?
Não temos de ter medo da polémica. O que gera problemas são as más soluções. A polémica ajuda a encontrar soluções mais adequadas.
O que recomenda a quem tem tido um papel activo neste debate?
A língua não é uma vaca sagrada imutável - é um instrumento utilizado por pessoas concretas, no dia-a-dia e é nessa óptica que temos de centrar o debate. Espero que as pessoas pensem no que temos enquanto resultados aferidos; esses permitem dizer que alguma coisa tem de ser feita para que os alunos possam escrever, ler e falar melhor. A crítica deve servir para uma melhoria do ensino, porque aquilo que tem acontecido não é bom. B.W.

5.12.06











Mim ser bom pessoa



Vasco Graça Moura
(Publicado no Diário de Notícias em Agosto de 2005)

As línguas, tal como as nacionalidades, as identidades, os seres humanos, as artes e muitas coisas mais, nunca foram entidades comandadas por uma racionalidade estrita ou por uma lógica sem falhas. Entre nós, já Camilo Castelo Branco ironizava, há bem mais de um século, a propósito, salvo erro, do jovem Joaquim de Vasconcelos, que, regressado da Alemanha, propunha que se dissesse “estejai”, em vez de “estai”.
Vem isto a propósito do livro A Língua Portuguesa em Mudança, organizado por Maria Helena Mira Mateus e Fernanda Bacelar do Nascimento (Caminho, 2005). É uma útil investigação sobre a maneira como a língua falada e escrita na comunicação social pode condicionar certas tendências do português que falamos.
Maria Helena Mira Mateus (MHMM), por quem tenho grande consideração e estima pessoais, assina uma densa introdução, “A mudança da língua no tempo e no espaço”, cujas últimas páginas, todavia, me deixam muito apreensivo. Aí, depois de postular a necessidade de uma norma-padrão, “como referência da produção linguística e como garante da aceitabilidade de um certo comportamento no contexto sócio-cultural em que estamos inseridos”, da qual “a escola é especial depositária” e que tem “justificações sócio-políticas e culturais, de carácter pedagógico e comunicativo”, MHMM não encontra solução para as dificuldades de definição dessa norma-padrão, de modo a ser possível circunscrever o que é “correcto” e o que é “incorrecto”.
E passa a imputar a “uma alta percentagem de subjectividade” a condenação de certas construções ou formas lexicais. É esse o primeiro passo de neutralização da própria norma-padrão cuja necessidade e cuja defesa julguei entrever algumas linhas antes. Imputar à subjectividade o que decorre de um conjunto de factores independentes da lógica, tem como efeito desvalorizar, precisamente, a norma-padrão.
Mas meu alarme vai mais longe: quando MHMM considera como “alternâncias possíveis”, por ocorrerem “com frequência” e se justificarem “linguisticamente” formulações como “a maioria dos estudantes passaram no exame”, ou “o prédio que o Paulo vive é moderno”, ou ainda “O autor que eu mais gosto é Aquilino”.
Na mesma linha, são em seguida formuladas algumas interrogações, para as quais a rejeição de uma auctoritas que possa decidir sobre a correcção à luz da norma-padrão acaba, em última análise, por abrir a porta às mais bizarras permissividades. Por exemplo, “há-dem”, quanto a “hão-de”, “pensar de que” por “pensar que”, “houveram muitos acidentes”, por “houve muitos acidentes”…
E a autora pergunta-se “como saber o que se pode aceitar e o que se deve reprovar?”. Compreende-se a angústia da linguista ante uma questão a que a sua ciência não dá resposta. Mas isso não deveria levá-la, nem a admitir aberrações da nossa língua, como as exemplificadas, nem a invocar mutações socioculturais lá, onde a única explicação é o falhanço calamitoso da escola.
Sem ser linguista, penso que o grande problema está em haver um sector da Linguística que parece preocupar-se apenas com aspectos de eficácia comunicacional e mais nenhuns. Será a língua, como instrumento de conhecimento e apreensão do mundo, irisado de uma multiplicidade de valores afectivos, estéticos, sedimentados pela memória e pela história, pelo uso transgeracional, pelos autores, algo de que se considera poder fazer tábua rasa?
Aplicando justificações muito próximas das que leio em MHMM, eu posso afirmar que está bem (salvo seja!) uma frase como “mim ser bom pessoa”.
Em primeiro lugar, porque o destinatário da mensagem perceberá perfeitamente o que eu quero dizer, logo o nível estritamente comunicacional está alcançado.
Em segundo lugar, porque posso considerar que a formulação se limita a ser elíptica quanto a um enunciado de correcção indiscutível: (no que a) mim (respeita, considero) ser bom (enquanto) pessoa.
Como não será de admirar que a comunicação social um dia destes desate a brindar-nos com pérolas destas, é evidente que não se pode aceitar, ao contrário de MHMM, que “a norma portuguesa dotada de maior vitalidade e capacidade de fazer adeptos é a que transmitem os jornais, a rádio e a televisão”. Norma???
Bem sei que MHMM diz que não podemos aceitar este conceito sem critério, mas a verdade é que tal critério se dilui na nebulosidade com que é tratada a norma e assim entramos num círculo terrivelmente vicioso e, o que é pior, num ciclo grotescamente viciado…

4.12.06

TLEBS e discussões

Helena Carvalhão Buescu


1.Não estaríamos a ter esta discussão pública, e eu não estaria a intervir nela, se a Nomenclatura Gramatical Portuguesa de 1967 tivesse sido substituída por uma Terminologia Linguística em 2006. É bom que haja consenso, no interior de uma comunidade especializada, sobre a terminologia e os conceitos que utilizam. O problema (e ele não pode nem deve ser escamoteado, porque é de fundo) começa no momento em que uma Nomenclatura Gramatical Portuguesa é substituída por algo que se auto-intitula Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário, vulgo TLEBS (convém olhar bem para acrónimos e suas implicações). No preciso momento em que a pouco subtil passagem para o terreno do Ensino Básico e Secundário é efectuada, e é mesmo reclamada por um grupo, o que acontece é que essa auto-designação passa a integrar o objectivo com que de facto foi elaborada: não "apenas", como alguns dos seus defensores dizem agora, produzir novas formas de estabilidade numa linguagem técnica, mas antes legislar para o Ensino Básico e Secundário e, nele, para a disciplina de Português.
2. A partir desse gesto de apropriação (porque o é), a TLEBS passou a dever (emprego o termo de forma ponderada) ser discutida por todos os que são agentes, intervenientes e interessados no ensino da disciplina do Português no Ensino Básico e Secundário, e não apenas por linguistas. Porque o Português do EBS não é nem pode ser concebido (gostaria tanto de reforçar esta afirmação!) como domínio único e especializado da Linguística.
3. Que alguns (sublinho alguns) linguistas confundam Português com apenas Língua Portuguesa, e que além disso considerem que sobre esta apenas se podem pronunciar os "técnicos da língua" que a Linguística formaria, como tem sido várias vezes repetido neste debate, apenas atesta a absurda redução (e reacção) tecnocrática que afecta alguns linguistas, mas que qualquer reflexão ponderada e séria manifesta como capciosa. Quanto a isto, estamos conversados.
4. Como mãe de crianças que frequentaram e frequentam ainda o EBS, e como pessoa que obteve na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde lecciono, uma formação específica em Linguística que, quero crer (em benefício de antigos mestres e actuais colegas), é superior à da generalidade de outras formações em diferentes áreas do saber, não só me considero habilitada a pronunciar-me sobre um instrumento que afectará a relação dos meus filhos com a língua que é a sua (porque se não afecta, então é inútil), como penso também que tenho até esse dever - mesmo quando (e precisamente porque) a minha visão é complementar da visão tecnicista (mesmo, convenhamos, de alguns pesadelos tecnicistas, de que darei apenas um ou dois exemplos) de que a TLEBS enferma.
5. Apenas alguns exemplos, que estão efectivamente na TLEBS (e até estaria eventualmente disposta a admitir que poderiam estar numa TL que não tivesse cometido o gravíssimo erro de não se saber distinguir de uma terminologia dirigida a um conjunto de graus de ensino que começa aos 6 e acaba aos 18 anos). Vejam-se por exemplo as especificações dadas para a formação de certas palavras por derivação (adjectivo relacional, adjectivo de possibilidade, nome agentivo, nome colectivo, nome de acção, nome de qualidade, verbo causativo, verbo incoativo/inceptivo). A pergunta central, no quadro de uma terminologia para o EBS, é: quem deverá saber tudo isto? Os docentes? Os alunos? Quais? Será este saber algum dia testado em exame nacional (o que o transformaria em virtualmente obrigatório)? Ou efectivamente, como se diz, em comentário à TLEBS, no site do Ministério da Educação, é deixado aos "docentes no terreno" latitude decisória (qual?) para "aplicar" esta terminologia, consoante o Programa? E se um docente, ou um grupo de docentes, entender que é isto que os alunos devem saber? Outro exemplo, dentro daquilo que aprendemos como género. O nome uniforme passa a ter de ser descrito de acordo com a seguinte terminologia: epiceno, sobrecomum, comum de dois. Complicações inúteis, para os alunos do EBS (é deles que estamos a falar): o "aposto" passa às seguintes categorias: "modificador nominal do nome apositivo", "modificador adjectival do nome apositivo", "modificador preposicional do nome apositivo" e "modificador frásico do nome apositivo". Mas estes são apenas alguns exemplos, embora esclarecedores.
6. Um dos efeitos mais perversos deriva do argumento, várias vezes apresentado, de que a TLEBS não é perfeita ainda (ainda?), e de que está a ser alvo de alterações. Algumas delas são indicadas no próprio site oficial do ME, e dou apenas um exemplo, cuja seriedade julgo não ter sido devidamente sublinhada, nas suas implicações. É que a meu ver infinitamente mais grave do que os exemplos atrás dados é o que se passa (o que se está a passar) com o conceito de "oração", substituído pelo não-coincidente (veja-se a sua definição) conceito de "frase". No site do ME, num dos documentos relacionados com a TLEBS, afirma-se que se pondera agora a reintrodução do conceito, que o ano passado foi excluído, de "oração". Não é isto sinal de precipitação e falta de ponderação na forma como a TLEBS foi implementada? Que tal um aluno a quem foi ensinado, até ao ano passado, que havia orações; que este ano está a aprender que deixaram de existir; e que talvez para o ano volte a aprender que afinal regressaram? É isto sinal de reflexão ponderada, pelas implicações que tem, inclusivamente nos manuais escolares, que correm o risco de ser hoje publicados para daqui a seis meses estarem desactualizados? E os pais? Terão de comprar manuais diferentes de cada vez que a TLEBS resolver introduzir uma alteração a algo que acabou de entrar em vigor? Ou tais alterações, sendo necessárias, não serão implementadas por razões económicas, que são sempre as piores razões neste domínio?
7. A partir do conjunto dos elementos aduzidos, e outros que lhes poderia acrescentar (mas não vale a pena), não posso deixar de concluir como segue: a TLEBS manifesta uma inexplicável (e inaceitável, quando se trata de perceber que ela afecta dezenas, centenas de milhares de crianças e jovens) precipitação na forma como foi concebida e aplicada; a TLEBS manifesta uma míngua de bom-senso, ao confundir uma Terminologia Linguística com uma TL para o Ensino Básico e Secundário; a TLEBS manifesta uma mais do que criticável aceitação de que o terreno da experimentação aplicada é a realidade escolar universal, que está assim sempre concebida sob o signo da flutuação, mais ou menos insensata; finalmente, da TLEBS (e das discussões a seu propósito) se infere a terrível confusão, que ela permite, entre Português, Língua Portuguesa e perspectiva linguística da Língua Portuguesa - confusão extremamente grave e com consequências redutoras, e por isso empobrecedoras, da concepção daquilo que o Português é: muito mais do que apenas a (importante) perspectivação linguística que integra, mas a que felizmente não se reduz.
[Professora de Literatura, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa]
Terminologias: a nova e a antiga


Maria Helena Mira Mateus


A terminologia linguística que está neste momento em experiência e em revisão tem sido motivo de muitas tomadas de posição públicas, artigos, abaixo-assinados e muita irritação. Certamente, as pessoas, "famosas" ou não, que se pronunciaram sobre a questão não sabem do que estão a falar, tantas e tão ingénuas são as afirmações erradas. Existem os erros de base e os erros de pormenor. Vamos aos primeiros.
O estudo de qualquer área das ciências - exactas, sociais ou humanas - altera convicções e representa um progresso na compreensão dessas áreas. O funcionamento da linguagem e das línguas é uma área estudada pelos linguistas: gramáticos, psicolinguistas, sociolinguistas. Eles estudam a compreensão que nos permite perceber uma língua e estudam a produção linguística dos falantes. Sabe-se hoje mais do que há 40 anos no que respeita à relação entre compreensão e produção linguística, entre aspectos cognitivos e aspectos verbais. Esse saber não é uma nebulosa nem uma "vaga ideia" a que nos podemos referir de qualquer maneira, mas exige termos de referência. Por essa razão, as gramáticas actuais utilizam termos que servem o que se já conhece do nosso uso da língua, embora muitos desses termos sejam os mesmos que já eram usados em gramáticas anteriores. Idênticas alterações conceptuais e terminológicas existem em todas as outras disciplinas. Será que a escola portuguesa não pretende acompanhar o progresso das ciências? Será que tudo o que é novo desperta uma reacção própria de um conservadorismo reaccionário? Será que o ensino não pode beneficiar dos avanços da ciência? Será que os professores que têm a seu cargo os primeiros ciclos escolares não estão à altura de conhecerem, e saberem como transmitir, o que se conhece hoje em qualquer ciência, inclusive a ciência da linguagem? E os professores que ensinam ciclos mais avançados? Será que não é bom que apresentem esse conhecimento usando os mesmos termos, ou é preferível que cada professor escolha a seu gosto os termos que utiliza?
Estou a referir-me ao ensino da língua que todos falamos, não estou, claro, a referir-me à análise do uso da língua como obra de arte, ou seja, o que se integra na teoria literária e no estudo da literatura em geral, que para isso não tenho preparação especial. Na realidade, qualquer programa de teoria da literatura mostra que os conceitos, e a consequente terminologia nesta área, são muito diversos dos que usa o mero estudo da língua. Veja-se: "os géneros poéticos"; "as categorias: poesia épica, didáctica, elegíaca, lírica, epinícia, trágica, cómica e bucólica (...) O possível/impossível como categorias fenomenológicas" (programa de teoria da literatura da FLUL). E são temas específicos da literatura a desconstrução, a fenomenologia, o formalismo, o marxismo, a narratologia ou o pós-modernismo (CECLU da UNL). Estes são termos que ocorrem em programas universitários. Mas nos outros níveis de ensino também se encontram termos nem sempre transparentes, como por exemplo, em Quadros de Referência do ensino secundário, as "réplicas e didascálias", o "cânone literário", "a ambiguidade, polissemia e conotação", os "mitos/arquétipos", a "epígrafe, o incipit, o explicit". Os linguistas não estão preocupados em discutir estes (e muitíssimos outros) termos mas, sim, a sintaxe, a fonologia, a morfologia, a semântica, etc., que são os que respeitam ao funcionamento da língua que todos utilizam.
Vejamos os aspectos concretos e de pormenor desta questão. Por tudo o que acima está dito, se considerou indispensável rever a Nomenclatura Gramatical Portuguesa publicada em Diário do Governo de Abril de 1967, que é a terminologia oficialmente utilizada no ensino. Esta terminologia fala de morfologia e sintaxe, mas da semântica só conhece a das palavras (não há semântica das frases?). Fala de substantivos :e adjectivos, mas acrescenta: "As palavras que participam da natureza substantiva ou adjectiva recebem a designação de nome, o que permite uma relacionação com "flexão nominal", "predicado nominal", etc." Os substantivos têm classificação, têm género, número, grau e ainda podem entrar em locuções. Os advérbios podem ter 15 classificações. A fonética sintáctica tem próclise, ênclise, crase intervocabular, elisão, ligação consonântica, haplologia intervocabular, entoação e ritmo, os complementos circunstanciais podem ser de nove tipos diferentes, entre eles o de instrumento (por exemplo, "cortei com a faca"). Já não se lembravam que era assim que se aprendia? Não sabiam que estes termos complicados faziam parte da terminologia que se quer actualizar? Até o epiceno faz parte da infância de muitos dos que gritam e prevêem as maiores desgraças para o país inteiro com a nova terminologia. Felizmente, muitas coisas mudaram desde então. Os escritores não gostam do modificador, do anafórico, do agentivo? Mas gostam com certeza da aférese, da síncope e apócope ou de prótese, da epêntese e da paragoge, ou de crase, da sinérese e da diérese que estão na Nomenclatura de 67. E não gostam do ataque ou da coda da sílaba? Lamento, mas não perceberão nada de qualquer livro que aborde a prosódia das línguas. Aliás, o que é necessário é que o professor saiba o que são estas duas partes da estrutura da sílaba (que também tem estrutura, imaginem!?) e que o faça perceber aos alunos, sem precisar de os obrigar a decorar o termo. E assim por diante.
Por favor, não falem do que não sabem e deixem-nos trabalhar sobre a actualização da Terminologia, tirar conclusões da experiência em curso e tornar o ensino da gramática do português menos obsoleto e integrado nos programas actuais que, evidentemente, não sofrerão qualquer alteração.
[Professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; co-autora da TLEBS

2.12.06

A CORTE NA CIDADE

(Publicado no O Globo a 1.12.2006)

Francisco Seixas da Costa*

Em finais de Novembro de 1807, uma imensa frota partiu de Lisboa, em direcção ao Brasil. Nela viajava a Corte portuguesa e, com ela, seguia também a esperança de conseguir garantir que a soberania lusitana ficava a salvo da invasão que o país então sofria.

Na memória colectiva de Portugal, este movimento da sua Corte nunca deixou de ser objecto de leituras polémicas. Para alguns, tratou-se de uma fuga sem dignidade, fruto de uma opção política de vistas curtas, estimulada por ambiciosas alianças.

Por muito tempo, poucos a interpretaram como uma decisão assente numa perspectiva estratégica, que poupava o poder real de Lisboa às humilhações que os seus congéneres europeus então atravessavam, em face da imparável ambição napoleónica. E, em particular, raramente foi vista como uma deliberada preservação da integridade simbólica desse mesmo poder, embora sedeado em outras terras do império.

A serenidade que a distância temporal nos concede aponta, nos dias de hoje, no sentido de privilegiar esta última leitura dos factos. Aliás, terá sido mesmo a historiografia brasileira quem cedo sustentou essa mesma interpretação.

Quaisquer que tenham sido as motivações centrais desta aventura – porque é disso que se trata, no sentido mais nobre do termo – uma coisa parece óbvia: ninguém, à época, terá sonhado as consequências que ela acarretaria para o futuro da colónia onde a Corte iria assentar os seus arraiais, desde Salvador ao Rio de Janeiro.

Dentro de um ano, precisamente dois séculos mais tarde, o Brasil vai lançar-se na comemoração do início dessa inédita expedição, a transferência de uma corte europeia – de armas e bagagens, de arquivos e de gentes – para um território periférico do seu império.

A nação brasileira vai ter um ensejo de reflectir sobre quanto da sua identidade civilizacional foi a resultante desse estranho contraste de mundos, de efeitos nas artes e letras, nas leis e nos costumes, enfim, uma imensa revolução cultural na vida de uma colónia que, precisamente por essa razão e de forma quase subliminar, começava a mudar de estatuto.

Com o regresso da Corte a Lisboa, também Portugal iria perceber quanto o país havia mudado, enquanto parte de si rumara pelos caminhos do velho império. E teria também de entender o destino que, entretanto, se desenhara para uma nova ordem, que iria transformar um príncipe do colonizador no agregador da vontade para a fundação de uma nova nacionalidade.

Nestas comemorações, o meu país não tem hoje nenhuma agenda própria. Queremos apenas contribuir, com o nosso património de memória, para quanto o Brasil deseje sublinhar desse tempo que nos foi comum.

Sem os menores complexos ou remorsos, Portugal vive a sua história com uma imensa serenidade e um grande orgulho. O tempo ajudou-nos a arquivar os conflitos e a saber retribuir os afectos, muito para além das hipérboles da retórica. Brasil e Portugal, pelo que foram e pelo que são, podem hoje dar-se ao luxo de revisitar, num exercício de imaginário assente numa língua e em tantas outras coisas em comum, os dias da presença da Corte de um deles na bela cidade que, afinal, se tornaria a capital do outro. Estou certo que saberemos fazer essa festa com alegria e amizade sincera.

* Embaixador de Portugal no Brasil

9.10.06

Entre o resultado e a moral: uma compreensão do voto em Lula

Por Luiz Claudio Lourenço
29/09/2006

Para quem diz que a maioria do eleitorado, o eleitor comum, de baixa renda e de baixa escolaridade, não é racional, que não pondera para fazer suas escolhas, que não é pragmático, a eleição presidencial deste ano mostra o contrário. Mostra que sua preocupação é de caráter pragmático, desvinculada de engessamentos ou convicções mais ideológicas e mesmo morais.

O eleitor, ao que parece, está mais racional que nunca, no que se refere à escolha à Presidência da república. Mas diria o leitor mais atento: e este sem-número de escândalos envolvendo petistas? Como podemos afirmar ser racional o eleitor apóia o presidente que pertence a um partido que está tão envolvido (direta ou indiretamente) em casos como o do mensalão, da compra de dossiês entre outros? Como o eleitor pode dar suporte e respaldar, com sua intenção de voto, atitudes no mínimo suspeitas e tão pouco virtuosas do ponto de vista moral?

Para compreendermos isso é preciso separar duas coisas primordiais: uma é o julgamento moral de um indivíduo; a outra, o julgamento político de alguém que ocupa a cadeira de presidente da República. Esta separação é fundamental, pois o julgamento moral de um indivíduo se dá de forma diferente do julgamento político.

A ação guiada pela moral deve ter pureza de princípios, independentemente de qualquer outra coisa. Ela é guiada pela virtude, pela fé nos valores e não é comprometida com nenhum tipo de resultado. Vale a máxima: "Faço que faço, pois acredito nisso independente do que possa acontecer". É o tipo de ação a que o pensador alemão Max Weber afirma ser guiada pela "ética de convicção". Não há aqui espaço para cálculo de perdas ou ganhos, há apenas as certezas dadas moralmente.

Mas política e moral são coisas que nem sempre caminham de mãos dadas e tem cada uma a sua própria lógica. Uma ação moralmente correta pode ser um desastre político. Esta constatação não é nova dentro da ciência política, aliás foi evidenciada no pensamento do filósofo político italiano Maquiavel, que não teve pudores em escrever que os objetivos na política (por serem de natureza coletiva e não individual, devemos aqui frisar) são primordiais e mais importantes que os meios.

A ação política deve ser orientada sobretudo pelos seus efeitos, pelos seus resultados à coletividade, enfim sua repercussão objetiva junto ao povo. Se na ação moral o indivíduo se guia pela "ética de convicção", na ação política é a "ética de responsabilidade" que baliza a ação. Quem governa não pode governar apenas pelos seus valores e convicções morais e orientações ideológicas - antes, tem que ser responsável por suas ações tomadas para e em nome da coletividade. Aqui a máxima é diferente: "Faço o que faço, pois é preciso que isso gere resultados". O político é responsável e responsabilizado mais pelo resultado objetivo de sua ação política que pelo purismo de seus princípios ou suas boas intenções. Para este tipo de ação, o julgamento pode ser, sim, fruto de cálculo racional, pois seus resultados são mais objetivos e palpáveis.

O político é responsável e responsabilizado mais pelo resultado objetivo de sua ação política que pelo purismo de seus princípios

Nos contos, para tomarmos um exemplo simples, Robin Wood roubou. Não importa de quem ou por que, sua atitude é condenável para todos que pregam que roubar é errado. Portanto, o julgamento moral dele já está dado por estas pessoas. Mas a conseqüência gerada para os povos da floresta beneficiados pelo produto de seus roubos faz sua ação política - para estes não pesa o fato dele ter roubado, mas o resultado efetivo deste roubo. O cálculo entre a situação anterior e posterior à ação é levado em conta neste julgamento, e é com base nele que se faz o julgamento político da ação.

Longe de querer comparar o personagem dos contos com nosso atual presidente-candidato, a política adotada no governo Lula teve um aspecto prático importante para uma parte muito significativa do eleitorado. Os gastos com a rede de assistencialismo montada pelo governo deixam claro isso. São milhões de brasileiros beneficiados com algum tipo de subsídio importante para sua sobrevivência. É preciso ter em conta aqui que 58,41% (segundo dados de junho divulgados pelo TSE), a maioria do eleitorado brasileiro tem menos que o primeiro grau completo - são mais de 73,5 milhões de eleitores. Soma-se a isso que a maioria também tem baixa renda. Pesquisas qualitativas revelam que, para este eleitor, a política é muitas vezes um mundo onde a moral, presente em seu cotidiano de trabalhador honesto, nunca fez parte, daí ele ter uma percepção muito mais "realista" (ou sem ilusões) e muito menos "romântica" do poder (ou idealista). O eleitor brasileiro tem preocupações muito prementes no seu cotidiano: a sua maior demanda é sobreviver e não julgar moralmente os políticos. Estes políticos, salvo raras exceções, já são considerados de antemão na percepção do eleitor comum como corrompidos e desonestos.

Lula, desde o início de sua campanha no horário gratuito, está evidenciando o aspecto pragmático de sua atuação na Presidência da República. Logo no primeiro programa comparou o preço de um saco de cinco quilos de arroz no final do governo FHC e o atual preço do produto, mostrando que houve uma redução de cerca de 50%. Para o eleitor que necessita mais que qualquer outra coisa sobreviver, vão importar menos os escândalos políticos e muito mais o preço do arroz que caiu. É com base nisso que, acredito, podemos compreender melhor os números das prévias eleitorais e o cálculo feito pelo eleitor. A racionalidade utilizada pelo eleitor é imediata e diz respeito às condições mais básicas da sua subsistência.

Fica mais fácil perceber que o eleitor comum está, sim, comprometido com aquilo que pode ser verificável, ponderado, calculado. Como já dissemos, e é importante frisar, o julgamento moral não carece de cálculo e se baseia de maneira pura nos valores. Mas os ganhos e perdas cotidianos gerados pela política nacional dos últimos quatro anos parecem gerar um saldo positivo no cálculo factual feito até agora pelo eleitor. As pesquisas mostram de forma clara que o eleitor está fazendo um julgamento das ações políticas do presidente e não de seu posicionamento moral. Se o eleitor estivesse ponderando a atitude moral do presidente (direta ou indiretamente) ele dificilmente já não estaria deposto.

Luiz Claudio Lourenço é cientista político e pesquisador Doxa-IUPERJ. luizim@yahoo.com

11.9.06

POLICIER

Deux enquêteurs, la nostalgie portugaise et une écriture tissée de poésie
Les mots bleus de Francisco José Viegas

LES DEUX EAUX DE LA MER
de Francisco José Viegas
Traduit du portugais
par Séverine Rosset

Éditions Carré Jaune/Albin Michel,
416 p., 18 €.

Voici un de ces livres dont on peut dire qu’on ne l’espérait même plus, un de ces livres lestés, mais d’un alourdissement digne et juste, imposant, d’emblée, tout ce qu’il fallait pour que l’on s’attache – à l’auteur, ses manières d’écriture, ses personnages. C’est la récente collection d’Albin Michel qui nous emballe le tout, un joli Carré Jaune pour de nouveaux horizons vers « toutes les littératures policières, européennes surtout », et ces Deux Eaux de la mer, donc, envoûtantes et si fortement portugaises, de bout en bout et de mot en mot – la traduction proposée par Séverine Rosset est limpide et forte.

Il s’agit bien d’une enquête policière – deux corps sur deux plages, deux pays : Rui Pedro Martin assassiné par balles à Finisterra (Galice, Espagne), et Rita Calado Gomes retrouvée sans vie, simple noyade, sur les galets îliens des Açores. Vivants, ces deux morts furent amants. C’est ici qu’apparaissent, comparses doux de l’auteur, les deux enquêteurs dont les silhouettes uniques façonnent pour beaucoup l’attachement à ce roman (1) :

Filipe Castanheira est inspecteur exilé volontaire sur l’île de Sao Miguel, loin de Lisbonne, sa nostalgie, « ce genre de ville où il n’y a pas de place pour les souvenirs de ceux qui ne l’aimeraient pas ». Son ami et collègue, Jaime Ramos, exerce à Porto. Et c’est à ces deux drôles de bonshommes, trentenaires empreints d’une saudade, cette tristesse si locale qu’ils revendiquent à chaque geste ou choix de vie, à chaque dialogue, à chaque approche de leur métier, c’est à ces deux-là qu’échoit la double enquête. « Il y a une mer infinie qui se brise dans le sillage de la morgue, qui s’engouffre par les fenêtres, une mer infinie dans la voix d’une ville, à cette heure, à toutes les heures… » : la force de Francisco José Viegas est d’avoir réussi un livre qui, entre les lignes éparses du roman policier, n’est que lente, extrêmement lente digression poétique.

Ses deux héros n’avancent que par le doute, les yeux ouverts sur les lignes de fuite brumeuses d’un ciel, du tangent d’un bleu de mer vu d’un avion ; doute sur doute dans leur métier, dans leurs amours – et Isabel, qu’aime Filipe, n’est qu’un nom et n’apparaît qu’en tant que femme évaporée, ingrédient parmi d’autres de cette saudade générale mijotée à petit feu. Car Francisco José Viegas fait, de plus, de ses deux inspecteurs, de doux gourmets : cuisine à longueur de pages, cigares et vins fins. Montalban, Le Carré ne sont pas bien loin, mais, sous leurs auspices, cês Deux Eaux de la mer se referment sur la certitude d’avoir rencontré un univers à part, deux héros, une langue tissée d’îles et de ciels, une écriture solitaire : un auteur.

MICHAËLLE PETIT

(1) Premier volet d’une trilogie, à paraître intégralement chez Albin Michel.

In La Croix

2.9.06

Comunicado da Bulhosa sobre as vendas de livros escolares.
«A Bulhosa foi hoje contactada por alguns jornalistas na sequência de uma queixa, cuja origem não nos foi precisada, de estar a impor “listas” de livros escolares aos seus clientes. Esta acusação, que não tem qualquer base nem faz nenhum sentido, só pode decorrer de um mal entendido no que respeita à venda deste tipo de livros nas nossas livrarias.
A Bulhosa, como de resto acontece desde há anos, só aceita encomendas de livros escolares, seja “em lista” ou por unidade, não os disponibilizando directamente nas livrarias, como acontece com os restantes tipos de livros. É nesse sentido que só aceitamos vender livros escolares “em lista”, tenha ela dois títulos ou dez, qualquer que seja a sua composição.
A regra de só aceitarmos encomendas de livros escolares, e não os vendermos a qualquer momento ao balcão, resulta precisamente da grande variedade de livros escolares existente e, consequentemente, das múltiplas possibilidades de listas recomendadas por cada escola, o que impossibilita conservar em stock, de maneira permanente, todos os títulos.
A isto acresce que a maior parte destes livros têm de ser comprados “a firme” pelas próprias livrarias e que não estão por isso, como os restantes, sujeitos a devolução, o que leva a que seja preciso gerir com grande cuidado a relação entre as nossas compras e a procura pelos clientes dos livros em questão.
Neste sentido, a bulhosa não “impõe” qualquer lista de livros escolares, o que redundaria num prejuízo porque reduziria necessariamente o número de clientes: o que faz é só os disponibilizar por encomenda, prestando um serviço de qualidade que possibilita a sua recolha posterior, seja ela de um só livro ou de uma qualquer “lista”, sem perda de tempo, em qualquer um dos nossos balcões.»

11.8.06

Ficar de fora?
Vasco Pulido Valente

Ontem a polícia inglesa impediu um atentado, que teria morto centenas de pessoas, que viajavam inocentemente de Inglaterra para a América. A ideia era fazer explodir em voo um número ainda indeterminado de aviões. Foram presos 21 indivíduos, mas com certeza escaparam alguns. Para começar, é bom perceber que uma operação desta envergadura não se improvisa. Exige um conhecimento técnico avançado, liberdade de movimentos, muito dinheiro e uma extensa rede de cumplicidades. Mais do que isso, precisa para se desenvolver de uma atmosfera favorável. O Ocidente, no caso a Inglaterra, oferece tudo isto aos terroristas. Respeita o seu direito à cidadania, protege a propagação de uma doutrina de intolerância e ódio e não pune, como devia, o incitamento à violência. Não estamos perante vítimas sem defesa de uma "globalização" cruel. Estamos perante gente sofisticada, que o Ocidente educou e deixou crescer.
O fracasso da invasão do Iraque provocou, naturalmente, uma contra-ofensiva xiita. No próprio Iraque, no Irão e no Líbano, essa ofensiva paralisou o Ocidente e forçou Israel a intervir. A farsa das negociações, com a França ou sem a França, presume que a guerra com o Hezbollah pode ser localizada e contida. Não pode. Por um lado, qualquer trégua ou interposição internacional só favorece o Hezbollah, que terá tempo de recuperar e continuará fatalmente a receber armas. E, por outro, o mundo muçulmano não vai ignorar a manifesta fraqueza política e militar da Inglaterra e da América. No Afeganistão os taliban voltaram. A boa-vontade do Paquistão arrefeceu. Há sinais de confluência do terrorismo xiita e do terrorismo sunita. E o ataque, planeado em Londres, mostra até onde o islão se dispõe a ir.
Infelizmente, o homem médio da Europa e mesmo da América não acredita na realidade de um islão agressivo. A tese oficial da "minoria extremista", que a grande e virtuosa maioria muçulmana condena, encoraja a complacência e o desinteresse. Tirando o preço da gasolina, quem se importa com as querelas do Médio Oriente e do Afeganistão ou com o que dizem e não dizem em Hamburgo ou em Londres clérigos furibundos, de turbante e barba? Mas, desta vez, não basta não ver e não ouvir. O Ocidente perdeu a iniciativa e os foguetões do Hezbollah, que chegam a Haifa, também chegam a Inglaterra em forma de bomba. Não há maneira de ficar de fora.
Um mundo enlouquecido
José Miguel Júdice

O mundo está cada vez mais louco, o que não significa - infelizmente - que esteja a ter cada vez mais graça. Os exemplos abundam e muitos deles são bem mais sintomáticos e graves do que o caso que vos trago para leitura de férias. Mas, por vezes, vale a pena usar para reflexão situações menos relevantes, pois desse modo a ilustração desejada passa com mais facilidade.
Somerset Maugham escreveu um dia, provocatoriamente - pois eram tempos de acesa dominância da teoria da luta de classes como explicação para a evolução histórica -, que a grande divisão da humanidade era entre os que tomavam e os que não tomavam banho matinal. Se escrevesse no nosso tempo, provavelmente afirmaria que a grande tensão é entre os fumadores e os não fumadores. Ou melhor, entre fanáticos que transformam o tabaco na razão de todos os males e os que ousam exercer a sua liberdade saboreando um cigarro ou um charuto.
Aflorações deste fanatismo fundamentalista surgem regularmente. As mais recentes são, curiosamente, contraditórias. No famoso e iconoclasta Fringe Festival de Teatro de Edimburgo, uma peça centrada em Winston Churchill teve de ser representada sem o conhecido e icónico charuto, por causa de uma lei que impede que se fume em lugares públicos. Mas, por outro lado, a Comissão Europeia veio afirmar que é "uma discriminação ilegítima, politicamente inaceitável" que empresas recusem empregar quem tenha o hábito ou o gosto de fumar.
Tudo isto me parece supinamente ridículo e disparatado. Não sou fumador; mas, como disse a outro propósito Kennedy ("Ich bin ein Berliner"), eu sinto-me fumador de cada vez que uma lei estúpida impede a natural fruição do que é assumido como um prazer ou, pelo menos, uma decisão individual. Eu sei que a liberdade de cada um deve terminar onde começa a liberdade dos outros; por isso, concordo que se não possa fumar em aviões, por exemplo. Por isso, aceito com naturalidade que em espectáculos teatrais a assistência não deva fumar, comer, ter relações sexuais (ou simulá-las...), beber cerveja, cantar, agredir os vizinhos, berrar.
O absurdo é que todos esses actos, que os espectadores não devem fazer, são praticados - quando o enredo o justifica - pelos actores em cena. Excepto fumar, ficou agora a saber-se. Não se pode fumar em cena, mesmo que assim se destrua toda a coerência artística da peça, a simbologia do personagem, a lógica imanente ao enredo. Para mim, isto é pura e simplesmente censura. E se hoje é o tabaco, amanhã com a mesma lógica pode ser qualquer coisa que desagrade a quem mande. Podemos acabar a aturar uma lei que impeça actores e actrizes de representar com indumentárias reduzidas, dizendo certas palavras, exprimindo ideias ou sentimentos proibidos. E desse modo se destroem séculos de luta pela liberdade da criação artística!
O disparate é ainda maior se trouxermos à colação a outra história, que felizmente - pelo menos por agora - acabou bem. Realmente, não se consegue entender como é possível proibir Mel Smith de interpretar Churchill fumando um charuto e se não permite que seja recusado emprego a quem fume. O argumento subjacente a este tipo de insensatas proibições é a saúde pública (quem fuma terá mais probabilidade de adoecer), a publicidade (se não se autorizar a publicidade do tabaco o consumo diminuirá) e o incómodo causado aos que não fumam.
Estes intenções e argumentos - cuja razoabilidade ou rigor não é aqui o local nem o momento para discutir - podem ser concretizados de formas ponderadas e equilibradas: pela pedagogia das entidades públicas, pelas restrições ou regras limitativas à publicidade, pela criação de espaços reservados para fumadores. O que estou a estigmatizar não é, portanto, a existência de regras que ninguém com sensatez rejeita. Do que se trata é atacar os que pretendem levar tais regras a extremos absurdos e desnecessários, em nome da "political correctness", desse modo se lesando direitos como são o direito à cultura, à verdade histórica e ao emprego. Mas, se o fundamentalismo tiver de triunfar, sempre será possível dizer que é menos lógico e adequado proibir um charuto na peça Allegiance, Winston Churchill and Michael Collins do que seria permitir não contratar um fumador por esse "horrível" motivo.
Mas o que tudo isto tem de mais preocupante é que as sociedades modernas - que legislam de forma tenaz e radical contra o tabaco e incomodam pacíficos fumadores - convivem tranquilamente com a extrema miséria, com as mais abjectas e sanguinárias ditaduras, com a mutilação dos órgãos genitais de mulheres, com chacinas em massa de populações, com doenças endémicas como a malária a que não destinam recursos e que dizimam populações inteiras, com penas degradantes e desumanas como as que ainda se aplicam em certos países muçulmanos, como a pena de morte.
Por isso é que concluo que o mundo está louco. Como uma vez disse o meu saudoso amigo Francisco Lucas Pires, um avião fez uns disparos sobre um quartel e como resposta nacionalizaram a banca. Esta tendência para a insensatez e para o totalitarismo do pensamento único continua a crescer e temo que não fique por aqui. Hoje é o tabaco, amanhã será qualquer outra coisa. E, sempre, serão coisas muito menos merecedoras de intervenção dos Estados e de coragem de punir do que são os exemplos que atrás referi, podendo seguramente apresentar muitos mais.
O que afinal significa tão-somente que a matriz das sociedades modernas passa pela criação de temas tolos que são hipostasiados e servem para simular poder e energia, e também para com isso evitar mostrar poder e energia (e já agora coragem) para ser radical e exigente em relação aos verdadeiros horrores do nosso tempo. Vamos indo assim. Mas vamos em direcção a um abismo.

24.6.06

PRÉMIO DE ROMANCE E NOVELA

ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ESCRITORES


Discurso


Gostaria de agradecer este prémio ao júri que mo concedeu, à Associação Portuguesa de Escritores, que o organiza anualmente, e, claro, às entidades que colaboraram com a APE e o tornam possível.
Já referi antes que nunca pensei recebê-lo e que foi uma surpresa a sua atribuição. Estas palavras podem confundir-se com pura imodéstia disfarçada de desprendimento, mas quem me conhece sabe que são verdadeiras e que a surpresa também o foi. Por isso, a alegria em estar aqui é maior e até mais profunda. As minhas palavras nesta circunstância apenas podem ser de gratidão e de um certo enlevo – e de vaidade, naturalmente, porque somos humanos e devemos viver, ainda que com intensidades diferentes, cada distinção e cada desaire. Distinções e desaires compõem a vida de todos – se bem que, no caso de quem escreve, o desaire deva ser entendido como um livro que não resultou e uma distinção deva ser vista como o reconhecimento pelo trabalho realizado.
Estas designações são sempre subjectivas. Cada um sabe e conhece os caminhos do seu trabalho. Cada um conhece as penumbras e as ilusões que o guiam. Cada um, cada autor, conhece o seu próprio caminho melhor do que ninguém e, por mais que tentemos escrever ou falar sobre o método, as alegrias e as dificuldades do nosso trabalho, há sempre aspectos que não conseguimos traduzir ou descrever. Podemos falar deles, claro, e falar deles com absoluta sinceridade – mas, com alguma probabilidade, não acreditariam inteiramente.
Eu escrevo histórias. De alguma maneira, imagino histórias que me comovem e que gostaria que comovessem os meus leitores. Se há alguma definição, em teoria da literatura, para o género de romance que eu gosto de escrever, acredito que seria essa. E que a frase decisiva seria essa também: “Eu escrevo histórias.” Acho que escrevo histórias porque gosto de ler as histórias dos livros dos autores que aprendi a amar desde a infância e a adolescência. Algumas delas duram mais na memória e, também aí, os factores que levam uma história a permanecer na nossa memória são também subjectivos. Podemos tentar explicá-los, mas há sempre qualquer coisa que sobrevive numa leitura – e que não conseguimos descrever. Por isso, uma das palavras de que mais gosto é “poeira”. A poeira das estradas no meio da floresta. A poeira dos caminhos. A poeira do deserto. A poeira do céu, aquela nuvem que atravessa a geografia de todos os lugares onde estivemos. A poeira, enfim.
Eu escrevo histórias, portanto, e gosto da palavra “poeira”. Tal como gosto da palavra “perturbação”. Da palavra “paisagem”, da palavra “lugar”.
Talvez por isso, por eu gostar de escrever histórias que algum dia me comoveram, não posso falar em nome dos outros nem acho que o trabalho do escritor, seja ele contador de histórias ou não, deva ser realizado em nome de outra coisa senão da alegria de escrever e, por interpostas pessoas, da alegria de ler.
Escrevo histórias porque não acredito num mundo sem história, sem memória e sem perturbação. A história e a memória mostram-nos que vivemos com os outros e que são os outros que justificam todas as narrativas; sem os outros não teríamos ninguém para contar histórias, não teríamos ninguém para ouvir as nossas histórias, ou seja, não teríamos com quem viver. A perturbação, por seu lado, ensina-nos que a pequena verdade de cada um, a pequena verdade dos outros, pode pôr em causa a nossa verdade absoluta, aquela em que acreditamos.
No meu caso, os outros, além dos meus leitores, dos meus filhos, dos meus pais, dos meus amigos mais chegados, os outros são os meus personagens. Comecei este breve discurso agradecendo o prémio. Terei de agradecer também aos meus personagens, aos personagens dos meus livros. Sem eles eu não teria conseguido escrever nem contar histórias, nem ter vivido os momentos dessa estranha e no entanto intensa felicidade que é a de ver que, subitamente, esses personagens já não dependem de mim mas da vida inteira, da vida que vem nos livros. Conheço o inspector Jaime Ramos, o detective de “Longe de Manaus”, há algum tempo. Há cerca de quinze anos que ele vive comigo e que eu conto as suas aventuras. De alguma maneira, como vêem, nem as histórias me pertencem, mas sim aos meus personagens. É verdade que o detective Jaime Ramos só existe porque eu o inventei, ou o criei, ou o escrevi. Mas isso acontece porque ele vive, melhor do que eu, esse mundo de perturbação e de poeira onde situo as minhas histórias. Ele é um homem vulgar e céptico. Talvez um pessimista, até. Tem hábitos vulgares. A sua excepcionalidade, o que para mim se revelou excepcional no seu carácter, foi a sua capacidade de permanecer vulgar, céptico, dedicado, tranquilo, apesar da vida inteira, a sua e a dos outros. Agradeço-lhe ter aceite este papel de personagem dos meus livros. Agradeço aos outros personagens que os habitam: ao inspector açoriano Filipe Castanheira, por exemplo, que não entra neste livro, mas que começou a minha série de histórias policiais. A Daniela e a Helena, de “Longe de Manaus”, por quem me apaixonei. Ao brasileiro de Manaus, Osmar Santos, que me proporcionou muitos momentos de riso. Ao detective Isaltino, a quem admiro a sua modéstia tremenda, de homem humilde. Agradeço à namorada de Jaime Ramos, Rosa, que não me importaria de ter conhecido antes de escrever os seus diálogos. E estou grato, evidentemente, aos lugares que aparecem no livro – o Porto, Trás-os-Montes, o Douro, a Guiné, Cabo Verde, Angola e, naturalmente, o Brasil. Se não existissem esses lugares, não teria podido escrever. Graças a eles viajei bastante.
Mas sobre muitas outras coisas, estou grato à língua que usam os nossos escritores – os nossos, os escritores de língua portuguesa. Este livro tem duas ortografias, a portuguesa e a brasileira, mas serve-se de uma única língua, divertida, dramática, pueril, fantástica, sitiada, brincalhona, empertigada, humilde, e dividida por vários continentes onde já não depende de nós, portugueses, mas de todos os que a falam independentemente de nós – e essa é a sua melhor promessa, a nossa melhor herança. É por ela que falam os nossos mestres, de Luís de Camões e Fernão Mendes Pinto a Machado de Assis, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Cesário Verde ou Fernando Pessoa. Eu acho que devemos venerar os mestres e as suas lições, as que atravessam o tempo e sobrevivem às inclinações do mundo, as que vêm de Fernão Lopes a Rubem Fonseca, de Sá de Miranda a Vergílio Ferreira e José Cardoso Pires. Eles são os mestres da nossa língua e a garantia de que ela existe para lá e para além dos dicionários do presente. Se algum dia a escola tiver dúvidas sobre a nossa língua, eles estão aí. Sem eles não poderíamos falar da nossa língua.
Há também um nome que gostaria de referir aqui, o de Miguel Real, autor de “Em Nome da Terra”, um livro notável que foi finalista, comigo, nesta escolha do júri do Prémio APE. Miguel Real é um autor muito raro e de altíssima qualidade, e o seu livro é uma fantástica narrativa sobre uma parte da História de Portugal. Foi das primeiras pessoas a felicitar-me porque ambos sabemos que eu seria também uma das primeiras pessoas, senão a primeira, a felicitá-lo, como já aconteceu de outras vezes.
Não quero terminar a lista de agradecimentos sem mencionar uma pessoa a quem estou ligado por laços muito mais fortes do que a simples relação, digamos, literária. Falo do meu editor Manuel Alberto Valente. Em vários momentos em que o meu pessimismo ultrapassava o do próprio detective Jaime Ramos, o meu editor ensinou-me que vale a pena insistir, persistir, não dormir às vezes, e sobretudo não ceder ao que não devemos ceder. A sua companhia, ao longo destes últimos quinze anos, foi também preciosa e não podia esquecê-lo agora.
Um prémio agradece-se. Ele honra-nos e provavelmente traz-nos alguma responsabilidade acrescida. Agradeço-o, portanto, e sinto-me honrado. A minha única responsabilidade, no entanto, é apenas para com o meu próximo livro, para com a minha próxima história.

[Francisco José Viegas]

12.6.06

Francisco José Viegas vence Grande Prémio de Romance e Novela da APE
07.06.2006 - 19h02 Lusa

O livro "Longe de Manaus", de Francisco José Viegas, é o vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 2005.

Trata-se de um mais importantes prémios literários portugueses, no valor de 15 mil euros, e foi atribuído por maioria por um júri constituído por José Correia Tavares, que presidiu, Liberto Cruz, Luis Mourão, Luiz Fagundes Duarte, Serafina Martins e Teresa Martins Marques, informou a Associação Portuguesa de Escritores (APE).

Segundo a APE, o número de livros admitidos ao concurso (90) foi o maior desde a primeira edição do prémio, há 24 anos.

Dois dos seis membros do júri do Grande Premio de Romance e Novela da APE votaram na obra "A Voz da Terra", de Miguel Real, indicou a instituição.

O prémio é patrocinado pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, Câmara de Grândola, Fundação Gulbenkian, Imprensa-Nacional Casa da Moeda, Instituto Camões e Sociedade Portuguesa de Autores.

Francisco José Viegas é actualmente director da Casa Fernando Pessoa, tendo exercido antes cargos de direcção em jornais e revistas.

Nascido em 1962 em Vila Nova de Foz Côa, viveu na aldeia de Pocinho até aos oito anos, mudando-se então com a família para Chaves, onde fez os estudos secundários. Formado em Letras pela Universidade de Lisboa, Viegas foi professor de Linguística na Universidade de Évora.

Jornalista, escreveu para jornais e revistas como o "Jornal de Notícias", "Diário de Notícias", "O Independente", "Visão", "Ler" e "Grande Reportagem". Actualmente, apresenta com periodicidade semanal programas culturais na rádio e na televisão.

Data de 1983 a sua estreia em livro, na Poesia, com "Olhos de água", a que se seguiram "As imagens", em 1987, o ano em que publicou o seu primeiro romance, "Regresso por um rio". A sua obra poética inclui ainda títulos como "Todas as coisas", de 1988, "O Medo do inverno seguido de poemas irlandeses", de 1994, e "O puro e o impuro", de 2004.
Na ficção, Viegas escreveu "Crime em Ponta Delgada", de 1989, "Morte no Estádio", de 1991, "As duas águas do mar", de 1992, "Um crime na exposição", de 1998, "Lourenço Marques", de 2002, e o agora premiado "Longe de Manaus", de 2005.

São ainda de sua autoria uma peça de teatro, "O segundo marinheiro", de 1988, e, publicado neste mesmo ano, um livro de viagens, "Comboios portugueses".

Várias das suas obras estão traduzidas na Alemanha e em França.

------------------------

Francisco José Viegas distinguido com Grande Prémio de Romance e Novela da APE








Francisco José Viegas, galardoado esta quarta-feira com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), é um dos mais jovens escritores a receber esta distinção, atribuída a autores portugueses desde 1982.

Viegas tem 44 anos. Nasceu em 1962 em Vila Nova de Foz Côa, fez os estudos secundários em Chaves, formou-se em Letras na Universidade de Lisboa e desenvolve desde então, a par da escrita, actividades múltiplas de divulgação cultural, na rádio, nos jornais e na televisão.

Hoje, numa primeira reacção ao anúncio do prémio, disse à Lusa ter ficado "surpreendido e ao mesmo tempo contente" com a distinção, que considera "um estímulo".

Viegas estreou-se nas letras em 1983, aos 21 anos, com uma recolha poética a que deu o título de "Olhos de água".

Quatro anos depois, publicou um novo título poético, "As imagens", e lançou a sua primeira ficção, "Regresso por um rio".

"Excelente poeta", na opinião do também poeta e ficcionista Vasco Graça Moura, o anterior vencedor do prémio com o romance "Por detrás da magnólia", Viegas deu já à estampa, 23 anos volvidos sobre a sua estreia, seis livros de poesia e nove de ficção.

Graça Moura, como aliás outros dos autores contactados pela Lusa - casos de Jorge Saramago e Agustina Bessa-Luís - não leu o hoje premiado "Longe de Manaus", mas tem da obra anterior do autor opinião positiva.

São, em seu entender, livros com "um resultado muito bom" e "grande eficácia literária".

Para Lídia Jorge, distinguida com o Grande Prémio em 2002, com o romance "O vento assobiando nas gruas", "Longe de Manaus" é "o melhor livro" de Viegas.

"É - disse à Lusa - um livro estupendo, que tem um enredo policial, mas também uma natureza psicológica e mítica, e que junta dos perspectivas, a portuguesa e a brasileira".

Baptista-Bastos entende ter sido "mais do que merecido" o Prémio atribuído a Viegas, porque "Longe de Manaus" é "um belíssimo romance de um grande escritor da língua portuguesa".

"Escreve - disse o autor de "Cão velho entre flores" - um português admirável, coisa que vai sendo cada vez mais rara nos escritores e nos jornalistas portugueses".

A obra ficcional de Viegas inclui títulos como "Crime em Ponta Delgada", "Morte no estádio", "As duas águas do mar" e "Lourenço Marques", romances assentes em tramas policiais mas não se limitando a um desenvolvimento linear desse "esquema".

Escreveu ainda uma peça de teatro, "O segundo marinheiro", e um livro de viagens, Comboios portugueses".

Actualmente, é o director da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.

O Grande Prémio de Romance e Novela da APE registou na edição deste ano um número recorde de obras concorrentes, 90. O seu valor pecuniário é de 15.000 euros.

Nas anteriores edições foram distinguidos autores como José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, Saramago, Agustina Bessa-Luís, David Mourão Ferreira, Vergílio Ferreira, Mário Cláudio e António Lobo Antunes.

Agência LUSA
2006-06-07 20:32:02

6.6.06

A Sagres é a mais tradicional das cervejas portuguesas, nascida em 1940. Exactamente: durante a Exposição do Mundo Português e as comemorações do Império. Daí que, doravante, a sua história esteja, também, ligada à história do design de bebidas em Portugal e, na verdade, à história da própria cerveja entre nós. Durante anos criou-se a ideia, sem dúvida desmesurada e estranha, de que se tratava de uma cerveja pesada. Erro. A Sagres foi, quase sempre, uma cerveja bem feita, bem preparada e, enfim, razoável. Os seus apreciadores detectavam nela uma simplicidade atraente e natural que os bebedores mais jovens não conseguiram compreender. Cometeram-se algumas maldades contra a Sagres. De alguma maneira, a cerveja evoluiu e abriu mais o paladar e a sua cor. Na boca reconhece-se a suavidade do malte, um tom seco, e a presença do lúpulo. Tem algum corpo, reflexos dourados, e um tom amargo que se solta do último suspiro do bebedor; a espuma é muito aberta, o que é uma pena porque muitas vezes se perde – mas o bom apreciador sabe como obter uma espuma correcta e suculenta. Sedosa, textura bastante aceitável, nada que lembre uma cerveja aguada e sensaborona, própria para almas desinteressantes.


+MARCA: Sagres
Origem: Portugal
Álcool: 5,1%
Avaliação: ***

O mundo das cervejas pretas está a mudar em Portugal. Em primeiro lugar, uma parte dos bebedores de cerveja começa a distinguir aquilo que é uma stout de várias coisas como uma dunkel ou apenas uma vaga imitação escura de outras cervejas de tom mais marcado. O apetite pelas cervejas escuras vai aumentando à medida que a qualidade dos bebedores aumenta; ou seja, aumenta o seu interesse pelas boas cervejas que não são, apenas, refrescos com alguma intensidade alcoólica ou amargor de lúpulo. A Super Bock preta apresenta-se como uma stout, e tem razões para o fazer – a essencial tem a ver com a sua densidade, e nisso é a melhor das pretas portuguesas.
Trata-se de uma boa tentativa de fazer uma stout sem excesso de caramelo e com um leve tom de chocolate em dose aperfeiçoada; tem um tom de fruto e de licor inesperado, e uma complexidade que se revela num sabor duradouro. Harmonia entre a carbonatação moderada e a suavidade proporcionada pela fermentação. Com maior densidade, o seu aroma seria (ainda mais) recompensado e ficaria mais amarga. A espuma duradoura é um presente para os bons bebedores que apreciam aquele momento em que a cerveja cai no copo e se despede para sempre da letargia em que nos aguardou – e um prémio para a persistência.

+MARCA: Super Bock Stout
Origem: Portugal
Álcool: 5%
Avaliação: ****
A minha peregrinação em busca da ruiva ideal passa, necessariamente, pela Super Bock Abadia, que foi um sucesso de mercado, tal como a sua rival directa, a Sagres Bohemia. Eu aprecio este tipo de cervejas, onde a coloração se obtém a partir de maltes trabalhados e intensos. O resultado é uma cerveja com certo tom de caramelo, de reflexos alaranjados e vagamente amargos. A Abadia não tem o amargor de outras cervejas semelhantes; pelo contrário, é suave e muito ao gosto popular, o que nem sempre é bom, embora garanta presença e acabe por tornar os seus bebedores em cidadãos mais exigentes. Bem vistas as coisas, a Abadia regista pouca intensidade para uma ale, que poderia ser bem mais “amanteigada” e com corpo mais denso. Aquele leve piquinho de citrino acaba por se transformar em sabor de frutos maduros, o que lhe dá um certo ar exótico. Mantém uma das características da Super Bock no andamento lager – a frescura. Já quanto à sua espuma, convém agitar o copo para que ela não se perca. Ao volteá-la descobre-se uma respiração folgada e intensa (atenção aos 6,4% de álcool), muito adequada a cervejas deste tipo, que não pretendem apenas servir de refresco ou de antídoto contra o calor do Verão, mas também transmitir um sabor especial, neste caso ligeiramente adocicado e frutado.

+MARCA: Super Bock Abadia
Origem: Portugal
Álcool: 6,4%
Avaliação: ***
Aprecio nas cervejas escuras o seu apelo à contenção, o seu peso e a suavidade. Não são coisas contraditórias. Ao contrário das cervejas claras, lagers clássicas e pilseners de eleição, as cervejas escuras ou mais escuras (stouts, ales, dunkels, de ruivas a pretas) chamam por nós naquele momento em que a boca se desfaz do líquido e o deixa seguir caminho; ou seja, a cerveja vai, parte, mas nós ficamos cá do alto, vigiando a descida esófago abaixo, se é que ela desce alguma vez pelo esófago – coisa que, por elegância, acredito que não fará. A designação de cerveja preta quase nunca é muito precisa, pois abarca uma série de identidade e de categorias muito distintas. A Tagus, que é uma boa lager, lançou agora a Magna, que se junta às outras cervejas escuras portuguesas. Recomendo que se proceda à sua prova: em primeiro lugar, não se trata de uma stout, antes aparece como uma dunkel de estilo alemão, quase regulamentar e bávaro, embora com um tom mais doce ou caramelizado. Olhada à luz, faz-nos tremer ligeiramente: o copo, transparente, revela um tom rubi profundo e nada envergonhado. E, se é mediana no seu aroma (nada de profundo, de facto), o paladar compensa bastante, com uma evocação simpática de sabores em suspensão, volteando e rodopiando naquele final de boca acentuado. Só o facto de não trazer impresso «stout» no rótulo é já uma coisa honesta. De facto, é uma boa dunkel portuguesa.

+MARCA: Magna
Origem: Portugal
Álcool: 5%
Avaliação: ***
Eu não vejo grande inconveniente em fazer-se cerveja com ananás, abóbora, rabanete, gasolina de avião, álcool etílico ou com ginja. O importante é haver quem a beba; não me apanharão em campanhas de rua a exigir a pureza absoluta da cerveja ou de qualquer outra coisa. Em África já me ofereceram vinho branco com Coca Cola e eu recusei – mas havia bastante gente à minha volta a segurar na mão o copo com a mistura. De volta à pátria real, descubro uma cerveja com aroma de limão e uma campanha publicitária que fala da sua leveza e dimensão angelical. Estranhei que não a tivessem feito antes – à mistura, porque a publicidade nem era má. Nada disso me incomoda, nem acho criminoso desde que não me obriguem a bebê-la em doses normais. Basta cheirá-la. Há quem invoque o hábito mexicano de tingir a claridade radical das suas cervejas com umas gotas de limão ou, mesmo, de nela mergulhar um quarto de lima para lhe transformar o sabor, tornando-a ligeiramente doce; nem isso me parece uma exclusiva mexicanização: na Europa há cervejas com um leve toque cítrico que não desconhecem de todo o caminho do pódio – pelo contrário, são muito agradáveis. Não são aquela cerveja. Não. Mas não erguerei o cadafalso para penalizar os seus autores. Ora, por falar em campanhas publicitárias de cerveja em Portugal há uma que gostaria de recordar; diz: «É boa.» Voltar à pátria a espaços tem destas vantagens: eu já conhecia a cerveja mas tinha-me passado a campanha. Não é despropositada – a Tagus é uma cerveja muito apreciável, claramente lager, seca e com um tom colorido bastante apetitoso, cerealífero. Herdeira da tradição das pequenas indústrias locais (que produziram em Portugal marcas como a Marina, Clock, Cergal ou Topázio), é necessário saber aprender a beber a Tagus: não é vulgar nem excessivamente gaseificada, como acho que pede o gosto português; tem um aroma quase perfeito e um sabor que ronda o limão, frutos frescos e um final de noz. É boa. Quer dizer: a campanha não mente. É boa e pronto. Malte puro, água pura, lúpulo – com isso se faz uma cerveja.

+MARCA: Tagus
Origem: Portugal
Álcool: 4,5%
Avaliação: ***
Nas cervejas, como em muitas outras coisas da nossa vida, há obsessões e hábitos adquiridos com a prática. A Super Bock é um dos selos da identidade do malte & lúpulo português – e, convém esclarecer, não tem nada a ver com a designação bock, que diz respeito a uma cerveja de sabor intenso, de teor alcoólico mais elevado (chega aos 16 e, no caso das Dopplebock, aos 18%), ligeiramente mais doce, originária de Einbeck (Baixa Saxónia) e que depois adquiriu diferentes significados – todos eles relacionados com a “qualidade do fabrico”. Durante muitos anos, o principal argumento do bebedor de cerveja em favor da Super Bock tinha a ver com a sua leveza de carácter. Era um ponto a seu favor, admito: transparência mais admirável no copo, uma espuma aceitável (ainda que sem muita densidade) que protegia o borbulhar, cor mais apetitosa em meses de canícula. Na verdade, era a lager portuguesa mais fácil de beber. Essa característica não se alterou muito: a Super Bock mantém um tom de frescura, ligeiramente afrutado e que tem vindo a melhorar. Na boca, começa por ter um vigor intenso que depois passa a amargo. Os seus apreciadores detectam esse final muito equilibrado que não lhe retira peso como uma cerveja que cumpre a sua função – dessedentar, refrescar, ser uma pale lager de referência, seca de paladar e limpa quando vista diante da luz. Há cervejas que têm apenas essa característica e não vem daí mal ao mundo.


+ MARCA: Super Bock

Origem: Portugal
Álcool: 5,6%
Avaliação: ***

A cerveja brasileira tem os seus admiradores pelo mundo fora – e os portugueses aceitam, de bom grado e com santa ingenuidade, que se trata, em geral, de uma cerveja superlativa. Na verdade, há casos. Mas convém relembrar que uma cerveja é o modo como ela é construída e a circunstância em que é bebida. Portanto, num cenário idílico em que as poeiras dos trópicos transformam o nosso carácter e nos conferem uma certa dose de perturbação dos sentidos, até uma Antárctica pode parecer uma boa cerveja. Mas não é. Ora, ao contrário do que se pensa, é cada vez mais difícil fabricar más cervejas. Depois de passar dois anos a escrever sobre o assunto, semanalmente, raramente encontrei más cervejas – em todo o mundo. A Sagres, que lançou uma razoável cerveja ruiva há um ano (seguida pela Super Bock, que lançou a Abadia), acaba de disparar para o mercado com a Sagres Chopp, tentando vender a imagem de uma «cerveja brasileira», leve e suave. Não conseguiu. Não tem espessura de «chopp» (que só se obtém verdadeiramente, em todo o seu esplendor, em barril), não tem a sua gloriosa espuma, não tem o seu sabor de coração frio. O rótulo é feio e desagradável, de design cavernícola – e a “carica” nem a marca leva impressa. Aroma, quase nenhum; sabor, amargo demais mas sem personalidade. Experimentei seis garrafas em copos diferentes e foi sempre desilusão. Não tem sabor, não é – ao contrário do que a sua publicidade afirma – leve e possui uma densidade que até na cor se manifesta. Um falhanço.

+MARCA: Sagres Chopp
Origem: Portugal
Álcool: 5%
Avaliação: *
Regresso à pátria depois de uma viagem pelo sul do mundo, e encontro-a cheia de novidades; não me refiro ao futebol, à política ou à meteorologia. Falo da cerveja. Tinham-me já escapado a viseense Tagus Magna, uma dunkel que não me arrependo de gabar, e a madeirense Coral Tónica, uma aproximação ligeira à dunkel. Mas eu não queria que me fugisse a Bohemia, a nova experiência da Sagres. O leitor já sabe que essas cervejas avermelhadas me caem no goto. Aliás, caem bem sobretudo no estômago (já aqui mencionei a Murphy’s Red), são ligeiramente digestivas, afrutadas e, quando servidas de acordo com as regras, a sua espuma flutua como os pássaros num poema de Yeats. A imagem é exagerada, mas é para que o leitor compreenda. É preciso dizer, antes de mais, que não se deve beber uma red do mesmo modo como se bebe uma lager simples. Há horas para tudo. Com certeza, a Bohemia não é a cerveja indicada para refeições substanciais, pois o seu açúcar pode confundir-nos o paladar – o aroma é intenso, solta-se em vagas que nos transportam até outras latitudes. Deve beber-se com concentração e desprendimento. A Bohemia cumpre as indicações (faltando-lhe aquele tom de manteiga que a fecharia mais um pouco) e seria uma pena que passasse despercebida; devemos felicitá-la pela cor e pelo aroma, que tem um final muito apreciável, que evoca maçã e frutos em maturação. Ao servi-la, atenção!, provoque-lhe uma espuma substancial. E já sabeis, leitores, qual é a minha divisa nessas circunstâncias: «Vinde a mim, ruivas!» Já é obsessão.

+MARCA: Sagres Bohemia
Origem: Portugal
Álcool: 5,6%
Avaliação: **
Para festejar o início da produção na Cervejaria da Trindade, apareceu a Sagres Bohemia 1835, uma variante mínima da Sagres Bohemia anterior. Na verdade, trata-se de uma correcção da nova marca, com um ligeiro toque de fruto no seu carácter – mais aveludada, menos amarga no seu final de boca, e mais intensa no aroma. É uma homenagem ao interessante mito dos bons frades que amavam a cerveja e a fabricavam para prazer dos homens e glória do Divino. Não me parece mal. Se fizerem a experiência, num copo adequado, a Bohemia 1835 produz uma espuma mais densa do que Bohemia normal, o que leva a pensar que é uma pena tratar-se apenas de uma série limitada. Há uns tons (mas isso depende da imaginação do provador) de cereja e frutos maduros, muito mais indicados para uma cerveja deste género – e que a afasta definitivamente do gosto popular (o que é bom), dando-lhe notas de requinte e de exotismo, conferindo-lhe densidade e tornando-a mais apetitosa. Por instantes, num final de Primavera, pode mesmo parecer uma cerveja de bar, bebida ao balcão em copo de pint (a meu ver mais adequado, para esta Bohemia 1835, do que o formato belga) uma vez que não precisa tanto de respirar nem de correr o risco de oxidar. Pelo contrário: é uma cerveja que deve beber-se em goles cheios, fustigando as papilas e mostrando-lhes que é possível produzir uma ruiva aceitável, muito aceitável, com as cores nacionais. O bebedor não sabe como se consegue isso, mas dá-se conta de que há uma melhoria. E isso é bastante. E já é muito.

+ MARCA:
Sagres Bohemia 1835
Origem: Portugal
Álcool: 5%

Avaliação: ***
Várias vezes me têm perguntado quais são as melhores cervejas portuguesas – é um risco necessário e natural. Por sorte, mais do que por aquela natural sapiência que um cronista devia ter (e não tem), tenho podido evitar respostas. Tenho a minha lista. No topo, silenciosas, seguem as minhas três de eleição. De duas delas já escrevi há tempos, ambas lager – uma de travo agudíssimo, pilsener lusitana, leve e ligeira, como uma daquelas canções cujo ritmo não engana ninguém, é uma cerveja fácil (lembra muito aquela canção Esquece Tudo o que te Disse). A outra, lager de lei, loira intensa, perfumada de lúpulo e nada mais, com o tom amargo de quem não aparece para enganar incautos ou iniciados (e que lembra o grande hit de Tony de Matos, «o vendaval passou/ nada mais resta…»). Desta vez, porém, menciono outra lager muito apropriada, a Coral, madeirense (relembro que apareceu recentemente no mercado a Coral Tónica, que é a aventura funchalense no domínio das stout). Bebê-la a copo ou em garrafa traduz uma distinção apreciável, sobretudo se o barman sabe tirar correctamente a cerveja. No continente, para pena minha, não se encontra em barril – mas as garrafas estão por aí, e não desmerecem a tradição de uma cerveja leve, de baixíssima fermentação, refrescante e de «coração frio» (à semelhança de muitas brasileiras, por exemplo – refiro-me à cerveja), mas que não se envergonha do seu piquinho que eu atribuo ao desejo de agradar ao gosto médio nacional. E aquele tom de frescura que acalma as papilas não é um acaso.

+MARCA: Coral
Origem: Portugal / Madeira
Álcool: 5,6%
Avaliação: **
Havia um tempo em que as cervejas eram todas iguais. Minto: em que nós, inocentes, julgávamos que as cervejas eram todas iguais. Eu recordo coisas simples, como essa. O gosto do primeiro golo de cerveja – o da primeira aventura como adolescentes. Era Verão. Tínhamos quinze anos. Dezasseis. Havia um brilho imbecil nas tardes de Verão, e um reflexo alaranjado no entardecer; nada que não venha na literatura. Romances de aventuras, policiais, séries de televisão, primeiros romances a sério, choupos à beira do rio, creme Nívea na praia, areal a perder de vista, pinhais, dunas. Posso mencionar o primeiro beijo? Posso. Essas coisas têm mais probabilidade de terem acontecido durante o Verão. Tal como a primeira cerveja. Nesse tempo havia marcas como Clock, Cergal, Marina, Cuca. Hoje, há mais marcas. Mas essas eram as dos Verões de há trinta anos, vinte anos. Seriam melhores do que hoje? Não sei. Não havia essas preocupações. Era apenas uma cerveja, uma transgressão. Outro dia, no supermercado, revi a Cergal. Vi-a em latas, verdinhas, com o complemento «Holland style» ou «Holland beer». Comprei duas latas, tal como já comprei, em alfarrabistas, livros escolares de há trinta anos – para rever um tempo. Lager clara, fria, sem ademanes. Procurei um sabor antigo mas não soube reconhecê-lo. Leve e ligeira, lembrou-me apenas que o tempo passava. Tinha um sabor simpático de lúpulo suave, trabalhado com cuidado. Era o nome da Cergal, com aquele rasto de cereal flutuante, filtrado com esmero (ah, que diferença em relação à antiga Cergal), um raio de luz na minha memória traiçoeira.

+ MARCA: Cergal
Origem: Portugal

Álcool: 4,5%

Avaliação: *

5.6.06

Em que país estava a ministra da Educação?
Beatriz Pacheco Pereira
[PÚBLICO DE 5.06.2006]

O passado é negro, mas a culpa não é, seguramente, dos professores. Os que resistiram a todos estes erros da responsabilidade do Ministério que tutela são quase heróis. Que mereciam ser estimados e bem pagos para permanecer na profissão.

Sucedem-se os ataques violentíssimos aos professores como únicos responsáveis pelo desaire do ensino público (note-se, público, não privado, como se eles não fossem os mesmos...).
Caso é para perguntar à sra. ministra onde andava e que informação tinha sobre o que se passava, de há trinta anos para cá, no Ministério que agora tutela. Ninguém chega a ministro sem saber o que está para trás. Mas nada se nota. Se não está bem informada do passado, aqui ficam alguns dados que explicam bem como se pode ter chegado aos descalabro que apregoa.
Pergunta-se pois, sra. ministra, onde andava quando o seu Ministério...
1- ...aprovou cursos de professores primários em que se proibiam as cópias e a memorização da tabuada (Institutos Piaget e quejandos...)
2- ...deixou professores primários dar aulas em aldeias remotas em escolas sem água, sem luz e com alojamentos dignos de eremitas? E todos ou outros em verdadeiro trabalho missionário por esse país fora?
3- ...deixou que o concurso de professores enviasse, anos e anos a fio, pessoas com uma qualificação de nível superior (as que devia mais estimar) pelo país inteiro, à custa de suas famílias destroçadas e dos filhos que não podiam ter ou ter consigo?
4- ...ignorou ostensivamente que eles pagavam os transportes do seu bolso, viajando 100-120 quilómetros até, sempre sem qualquer ajuda de custo, diminuindo dramaticamente os que lhes sobrava no fim do mês? Não seria isto imoral e desumano?
5- ...teve inúmeros ministros que se sucediam a ritmo alucinante, cada um puxando pelos seus galões de docentes universitários, vomitando reformas continuamente e sempre sem ter em conta a sua adequação, implementação e financiamento?
6- ...deixou que a dotação financeira de uma escola secundária fossse absolutamente ridícula durante décadas, mal dando para pagar a água, luz, os edifícios escolares se degradassem de tal modo que nenhum professor se aventurava nas instalações sanitárias dos alunos, e não havia recintos desportivos ou actividades extra-escolares?
7- ...permitiu horários dos alunos que alcançam as 8-9 horas por dia, uma carga insuportável para qualquer pessoa? (tive uma turma destas este ano lectivo, e eu dava a 9º aula do dia...)
8- ...não se preocupou com o tempo de estudo dos alunos. Quantas horas sobram semanalmente para os alunos estudarem? Na escola, onde se pode estudar se não há salas de estudo organizadas e, em muitas, as bibliotecas, se funcionam, não têm espaço para tal? Será em casa, à noite, com pais que se demitem cada vez mais da sua função de vigilantes e educadores?
9- ...esvaziou o quadro das escolas de funcionários, deixando que sejam poucos, mal preparados e pouco mais do que empregados de limpeza?
10- ...obrigou os professores (especialistas nas suas matérias, não se esqueçam) a passar muitas horas extra-horário, a fazer tarefas administrativas que antes competiam aos funcionários não-docentes, ou então em reuniões absolutamente improdutivas mas obrigatórias? Não sabia que os professores já passavam muitas noites e fins de semana a preparar aulas e material lectivo?
11- ...permitiu que o Sistema Disciplinar se esvaziasse, em nome da retenção quase obsessiva de alunos dentro de portas e do aumento da população discente nas escolas, minando sistematicamente a autoridade dos professores? Este ano, sei que alunos com comportamentos irregulares, e até criminosos, com 20 ou mais participações disciplinares, não foram expulsos nem submetidos a nenhum programa de reabilitação por especialistas credenciados... Porque reduziu o Ministério o poder de sanção dos professores?
12- ...só deu atenção ao número de computadores por escola e ao acesso à Internet mas não permitiu aos alunos compreender o poder dos media? Afinal os alunos passam o resto do escasso tempo diário a ver uma televisão que lhes mostra só publicidade de telemóveis, futebol, escândalos e anedotas... Os valores dos jovens hoje são ensinados pelo matraquear de televisões mal regulamentadas. Porque não age o Ministério sobre elas também? Porque será que abdicou da sua função reguladora deixando que canais abertos dêem pornografia encapotada, publicidade que ofende os direitos humanos e dos animais, programas impróprios a horas do jantar? Porque nunca interagiu o Ministério da Educação com o da Cultura?
13- ...permitiu que se extinguissem os Exames por puras razões estatísticas? Ninguém no Ministério sabia que era preciso separar os que sabiam dos que não sabiam, e desde o início da escolaridade? Porque facilitou sempre a passagem dos que tinham níveis negativos?
14- ...deixou que as escolas tivessem apenas um psicólogo (quando o tinham, claro) que além de fazer sozinho a orientação vocacional, não tinha tempo para lidar com os casos mais graves que surgiam nos alunos? Porque, entre eles, não havia futuros desajustados da sociedade, nem doentes mentais, nem vítimas de abuso sexual, nem de violência doméstica, nem problemas de droga. Ou havia?
15- ...não se deu conta da crescente feminização das nossas escolas? Por que razão isso aconteceu, é simples - ser professor era (é) das tarefas mais exigentes, mal pagas, de carreira mais difícil e incerta. Portanto, óptima para o lado mais fraco da nossa sociedade. Depois, com algum malabarismo, ainda deixava algum tempo livre para as tarefas domésticas. Os homens, simplesmente não se sujeitavam a isto e partiam para outras profissões, mesmo dentro da função pública como para repartições e organismos de gestão do Ministério da Educação. Esta acomodação a padrões de sociedade retrógrados nunca incomodou o Ministério? (A propósito, os professores-homens estão a voltar ao ensino, não porque sintam vocação, mas porque há falta de empregos...)
Podia continuar estas interrogaçãoes que apontam para coisas que a sra. ministra, estranhamente, prefere não falar. O passado é negro, concordo, as estatísticas não se podem ignorar, mas a culpa não é, seguramente, dos professores. Porque os que resistiram a todos estes erros da responsabilidade do Ministério que tutela são quase heróis. Que mereciam ser estimados e bem pagos para permanecer na profissão. Sabe a sra. ministra porque é que, em Inglaterra, já ninguém quer ser professor e andam à procura deles em Espanha e até em Portugal? Professora do ensino secundário (bpachecop@hotmail.com)

17.5.06

PAULO JOSÉ MIRANDA SOBRE SÃO PAULO

Segunda-feira
(relato de um recolher obrigatório informal ou o dia em que a cidade que não pára, PAROU, devido aos ataques do PCC – Primeiro Comando da Capital)

Após um fim de semana de violentos ataques a esquadras da polícia, dos bombeiros, autocarros, metro e civis, revoltas em inúmeras prisões, a chegada da segunda-feira e a necessidade dos cidadãos terem de ir trabalhar, levou a que este dia São Paulo tenha assistido ao pior dia da sua história. Nunca os cidadãos desta cidade se tinham sentido reféns do terror, do medo como nesta segunda-feira. De madrugada inúmeros autocarros e carros foram incendiados, agências bancárias destruídas e havia manchas de sangue espalhadas por muitas partes da cidade. Quando os cidadãos mais pobres se dirigem à paragens de autocarros para irem trabalhar deparam-se com a inexistência de circulação de autocarros. Até ao momento tinham sido destruídos mais de 50 e as empresas não arriscaram enviar mais veículos para as ruas. Devido a isto, o rodízio municipal foi anulado (sistema de circulação de viaturas, por número de matrícula), permitindo que circulasse quem quisesse, independentemente da matrícula do carro. Depois do almoço, numa entrevista na TV, Marcola, chefe do PCC, diz ao director do DEIC, da polícia, que vai matá-lo, que ele pode entrar na sua delegacia para matá-lo, mas este não pode entrar na prisão e fazer-lhe o mesmo. A tensão atinge então a sua máxima amplitude. Ninguém se sente seguro. Os estabelecimentos comerciais fecham suas portas às 3 e meia da tarde. Os serviços públicos também param; os funcionários são enviados para casa. O metro, que de madrugada tinha sido alvo de explosões, deixa de trabalhar. Neste recolher obrigatório informal a casa, São Paulo assiste ao record máximo de fila de carros: 212 km de fila de carros, às 4 da tarde. 212! O método usado pelo PCC nos seus ataques é, fundamentalmente, através de motoqueiros; muitos deles são devedores de dívidas de droga, e se não fizerem esses ataques, morrem. Entre morrer às mãos dos traficantes ou às balas dos policiais, preferem a última hipótese, pois ela ainda pode representar uma esperança, unto do PCC. Outros ataques, são ataques mais cirúrgicos: um dos comandos se aproxima de um policial em particular e dispara a arma na sua nuca, ou nos seus familiares. Em frente a uma padaria, na zona sul da cidade, um policial, com sua mulher ao lado, ajoelhou-se diante de dois comandos e foi executado. Os bandidos comunicam as suas instruções por telemóvel; a maioria vem de dentro dos presídios. Um telemóvel mata mais que um revólver ou que uma AK.

Às 7 da tarde as ruas estão desertas e, a essa mesma hora, o comandante da polícia militar de São Paulo, Sancler, dá uma conferência de imprensa onde acusa os órgãos de comunicação social de exagerar o que estava a acontecer; acusa também os comerciantes de se precipitarem a fechar os estabelecimentos mais cedo e acusa ainda os responsáveis pelas escolas e faculdades de terem tomado a decisão de enviar os alunos para casa e fecharem as portas. Às 9 da noite a cidade está mergulhada num escuro inimaginável. Um escuro que a cidade de São Paulo desconhecia que tinha dentro dela. Na zona norte da cidade, um condomínio onde vivem vários familiares de policiais começa a ser atacados. A troca de tiros continua, as mortes aumentam Na zona oeste, onde vivo, um homem é baleado neste mesmo instante, não se sabe se policia ou bandido. Numa das zonas mais ricas da cidade, aqui perto, dois bandidos são baleados. São 185 ataques até ao momento. Até ao fim, até ao acordo que o Governo de São Paulo não admite ter feito, serão 200 ataques 200 ataque, mais de 60 autocarros queimados, 52 criminosos mortos, 43 policiais e civis mortos. Os canais de TV mantêm helicópteros a sobrevoar a cidade toda noite, em comunicação com comandantes da polícia, vamos assistindo à noite, a uma imensa noite desconhecida. Um homem, ao fim do dia, de regresso a casa, dizia “estou com medo dessa bandidagem; ninguém sabe quem é quem, essa é que é a verdade”. Num programa de debate, num dos canais, o presidente dos juízes de São Paulo diz que a legislação deve mudar, deve ser mais severa; é a favor da pena de morte. “A nossa democracia não é mais desenvolvida do que a dos EUA.” Por seu lado, o responsável máximo pela investigação policial, Rebouças, diz que “quando o bandido sente que o governo é fraco, fica forte” Oiço o apresentador do programa dizer: FORAM CONVIDADOS PARA O PROGRAMA O SECRETÁRIO DA DEFESA DO GOVERNO DE SÃO PAULO, O GOVERNADOR DE SÃO PAULO E A RESPOSTA FOI “NÃO VAMOS ENVIAR NINGUÉM!” Perante isto, não sei o que dizer disto, sinceramente. O apresentador, profundamente comovido e indignado, diz: ISTO NÃO É CRIME ORGANIZADO É QUADRILHA ORGANIZADA. Julgo excelente esta contra-posição; esta é a diferença entre as cidades de Istambul ou de Hong Kong e a de São Paulo; quadrilha organizada não poderia funcionar num estado organizado, embora crime organizado exista em estados organizados; quadrilha organizada só pode funcionar em estados desorganizados (não identificar estado organizado com país desenvolvido). Não defendo o crime organizado, mas, apesar de tudo ele é um mal menor, menor do que o das quadrilhas organizadas. O crime organizado não afecta o cidadão comum, nem os policiais. O crime organizado é organizado. “Nós temos as leis mais brandas do mundo” , acrescenta o Juiz..Termino com um curioso episódio. No dia das mães, dia 14 de Maio, no fim de semana dos motins, foram liberados 2000 presidiários para visitarem suas mães. Sei que parece piada, mas é verdade. As prisões estão caóticas, a cidade sitiada e 2000 presos vão festejar este dia especial com as mães. Assim que saíram dos estabelecimentos prisionais onde se encontravam, foram directamente ao PCC buscar armas para poderem combater. Dos 39 bandidos mortos, no fim de semana, 15 eram parte desses visitantes de mães. Por conseguinte, 15 só no domingo. Perante tudo isto, entre comedia e tragédia, o problema é que os pensamentos de direita e de esquerda mais radicais começam a emergir, parecendo fazer sentido a que os escuta. Perante tudo isto, entre comedia e tragédia, é muito difícil pensar contrariá-los, quer á direita, quer à esquerda. A segunda-feira de São Paulo.

NOTA: PCC começou na prisão como time de futebol e chamava-se Comando da Capital. Mais tarde, passaram a ser uma organização de defesa dos direitos dos presos e das usas famílias. Por fim, já enquanto quadrilha, adicionaram o Primeiro, tornando-se o PCC.

Paulo José Miranda

São Paulo, 16 de Maio de 2006

25.4.06

Skol Beats || Redondo, rodopiando

A Skol tem algumas raízes portuguesas – foi mão portuguesa que a criou no Brasil. Desde a década de setenta que a Skol é, além do mais, uma marca de referência – as suas campanhas publicitárias ajudam. Há uns anos, a Skol lançou a ideia de que é a única cerveja que desce redondo; as imagens do anúncio mostravam as outras cervejas descendo como um cubo pela garganta dos bebedores; só a Skol se apresentava como uma bebida redondinha, baixando com facilidade até ao estômago. Há uns Verões, há uns anos, a Ambev (o fabricante brasileiro) lançou a Skol Beats, uma cerveja «para público jovem». Eu desconfiei: as coisas «para público jovem» são todas hip-hop e de baixa qualidade ou, pelo menos, de qualidade adulterada pelo «gosto jovem» que é, geralmente, fácil e superficial. O lema da campanha era «a cerveja que desce redondo, rodopiando». Daí que a garrafa fosse, também ela, rodopiante, como se vê pela imagem. A desconfiança transformou-se em surpresa porque a Skol Beats, tirando o ar hip-hop (que nem era fundamental…), era saborosa e, ao contrário do que fazia crer a ideia «para público jovem», não se tratava apenas de uma «cerveja leve». Mantinha uma percentagem alcoólica, digamos, sustentável (5,3%) – e era uma lager, evidentemente, e de «coração frio». Ao bebê-la, depois de a boca a saborear, ficava uma sensação de geladinha bem aceitável. A sua garrafa totalmente transparente, ondulada, com mais aderência à mão, também facilitava. Utilizei várias vezes o radical «fácil»; também não me arrependo. A Skol Beats é uma cerveja fácil de beber, elegante, sem necessidade de muita preparação (como a existência de um salgadinho prévio) e pode beber-se pela garrafa, ao contrário das cervejas «sérias» (isto não é uma vantagem mas apenas uma constatação). O Verão brasileiro, mesmo quando ainda mal começou, também é um factor importante para apreciar convenientemente esta cerveja. Ela deixa um rasto de condensação do ar, um ligeiro travo cítrico e uma paleta de cores muito aceitável enquanto rodopia. Como na campanha publicitária, ela desce redondo, rodopiando. É mesmo verdade.

+MARCA: Skol Beats
Origem: Brasil
Álcool: 5,3%
Avaliação: **

Polar || Vento polar

A viagem entre Porto Alegre e Pelotas é coisa para três horas, mas quando tem na outra ponta do fio um convite para feijoada nesse fim de tarde ou noite e para um churrasquinho no dia seguinte ao final da manhã, o tempo de viagem é amenizado. A meio da viagem, inclusive, há uma paragem para provar croquetes superlativos, coxinhas bem temperadas e até bolinho de aipim que faz inveja. Luís Fernando Veríssimo fez várias viagens para encontrar o «pastel perfeito» e encontrou-o num shopping de Gramado, como conta num dos seus livros. Eu encontro bolinho de aipim em vários lugares e ainda não me decidi pela tabela classificativa. Seja como for, a velha Pelotas aguardava-me depois de percorrer a estrada que acompanha, ao longe, as lagoas originais do Rio Grande do Sul, onde açorianos antiquíssimos pensavam que estava o paraíso na terra. Uma feijoada (mais a promessa de churrasquinho gaúcho no dia seguinte) pede contenção àquela hora. Mesa resplandecente: a comidinha tinha sido preparada num fogão de lenha, temperada e apurada pelo tempo. Mas há aquele tempo de espera que uma feijoada sempre necessita – e que foi ocupado com libações exageradas com a Polar. Bênção dos céus. Tinham-me dito que era uma pilsener (embora a marca tenha acabado de lançar uma Polar Bock, mais forte e substancial), coisa que eu ignorei: fresquíssima, leve o suficiente para evocar a grande noite do Inverno austral, mas sem desmerecer de um final seco e sem o amargor das suas congéneres europeias, a Polar manteve-se até ao fim como companheira adestrada. Bebi demais, confesso. Mas nada me toldou naquela mesa familiar, cheia de riso e de noites antigas. Três vezes me servi de feijoada, umas doze de Polar. Não me arrependi, mas devo ter causado má impressão. No dia seguinte, a tranquilidade do sistema digestivo manteve-se e o churrasquinho foi recebido com mais pilsener. Saí de Pelotas com a impressão de que tinha descoberto uma cerveja muito, mas muito agradável. Sem contar com o resto.

+MARCA: Polar
Origem: Brasil (Rio Grande do Sul)
Álcool: 4,5%
Avaliação: **

Caracu || Rodeo e cervejão

Encontro muitas vezes, nas minhas andanças, cervejas más. Creio que, ao longo de um ano de crónicas, ainda não mencionei nenhuma delas, o que se explica facilmente: com tantas cervejas boas espalhadas pelo atlas, não há razão para começar pelas que caíram no saco das reprovadas. Muitas vezes, são más por causa da água que fornece as suas cubas; ou pela sua alta fermentação; ou pela sua baixa fermentação; ou pelo excesso de levedura que não filtrou; ou porque – vamos lá – me sabe mal. É certo que, para a apreciação da cerveja, não contam apenas as suas características orgânicas, o seu sabor a frio; há outros factores. Só assim se explica que eu goste de algumas cervejas absolutamente medianas, mas que evocam uma paisagem, um destino, uma hora, uma conversa que de alguma maneira está associada ao gesto de abrir uma garrafa gelada (ou não…) e de provar o líquido. Passeando pelo globo, ao acaso, encontram-se revelações e deparamos com desilusões. É a vida.
O caracu é uma raça bovina brasileira. Os criadores de gado locais identificam o caracu com o chamado «gado quatrocentão», trazido pelos portugueses, muito rústico e capaz de esforços brutais. O gado caracu, ao que me explicaram, serve para «carregar carga e puxar arado», não tendo proximidade com a raça nelore, que os carnívoros apreciam devidamente e fazem rodar no prato. Pois em 1899 apareceu uma cerveja com essas características e com esse nome, Caracu: para puxar arado e carregar peso. Há alguns anos (em 1996, e com a ajuda do actor José Wilker, que lhe deu a voz) foi rejuvenescida, mas mantém o essencial do seu aspecto rústico – cerveja escura, amarga, com poeiras de levedura, muito «alimentícia». Tendencialmente stout, portanto, se não fosse uma certa timidez na espessura, o que, aliado à sua dança com o caramelo, lhe empresta um tom doce que seria dispensável. Cai muito bem no copo e não recomendo que se beba directamente da garrafa: convém misturá-la antes de a beber. A sua espuma é volátil (outro defeito) mas muito branquinha. Os brasileiros do interior, sobretudo da zona do centro-oeste e do sudoeste, habituados ao rodeo, ao churrasco e aos duos sertanejos, dizem que ela dá pique. Esperam que compreendam o que isso significa. Não a misturem com pó de guaraná. Ela, por si só, já é pique suficiente. Deus nos livre, se posso exprimir-me assim.

+MARCA: Caracu
Origem: Brasil
Álcool: 5,3
Avaliação: **

Bohemia Weiss || Ela voltou, sensual

Foi uma excepção durante as comemorações da instalação da Cervejaria Bohemia sob o clima fresco e verdejante de Petrópolis, mal se sobe do Rio de Janeiro: nessa altura, e numa série de milhares de garrafas, apareceu no mercado a Bohemia Weiss, uma cerveja turva, de boa e acentuada fermentação, com sabor a trigo. Devemos-lhe algum destaque, uma vez que a tradição cervejeira portuguesa em terras brasileiras não é inócua ou distante: foram mãos portuguesas que criaram a Skol brasileira, e que a impuseram como a primeira cerveja vendida em lata. Hoje, é provavelmente a terceira melhor de todas as loirinhas pilsener e maisntream no mercado do lado de lá do mar. E porquê? Porque há muitas razões e eu voltarei a elas. Pois houve reivindicações e exigências do mercado: e a Bohemia Weiss regressou. Pode encontrar-se na sua garrafa de 550 ml, dose cabal e interessante para apreciadores: a sua cabeleira loira e turva ondula dentro da garrafa e cai em cascata para o copo, deixando na boca um tom amargo (para quem já consumiu a Franziskaner, por exemplo, sabe ao que me refiro) que, em princípio, não seria admissível nos trópicos do Atlântico Sul. Pois é essa surpresa que é importante distinguir: o que parece uma cerveja europeia (e é) acaba por se transformar num sabor muito apetecível. Numa das últimas vezes bebi-a nos arredores de Porto Alegre, em Nova Petrópolis, no restaurante Colina Verde. Meu Deus. O garçom avançou por entre as mesas, segurando a garrafinha de Bohemia Weiss numa das mãos, os copos na outra; serviu um bom pedaço – fez espuma. Agitou em seguida a garrafa, para que não assentassem lá dentro nenhumas matérias flutuantes, e tudo se parecesse com aquele vasto mar de sargaços de que falava Jean Rhys. Depois, completou o copo com aquela espuma turva, especiosa, danada, safada, gostosa. Enfim, cheia de libido. O preço é incomparável. O sabor, esse, não tem preço. É boa.

+MARCA: Bohemia Weiss
Origem: Brasil
Álcool: 5,6
Avaliação: ***

La Brunette || Morena e essas coisas

Os fabricantes da La Brunette, que também são responsáveis por uma ale nada negligenciável (a Schmitt Ale), advertem que o lúpulo utilizado na preparação desta cerveja é importado para o Brasil directamente da Nova Zelândia – esse é um pormenor na sua construção muito cuidadosa. Eu situá-la-ia na zona das dunkel mas a sua espuma volumosa e densa lembra-me quase uma stout. Na verdade, vista à luz, ela aproxima-se das grandes cervejas escuras alemãs ou vienenses (talvez um pouco mais), com reverberações de chocolate quando o brilho do sol incide sobre ela directamente. Chamar a uma cerveja assim La Brunette é um risco substancial que se corre – estamos no Brasil e la brunette deve ser traduzido por morena, e morena deve ser traduzido com o acréscimo colaborante de qualquer outra palavra que designe a sensualidade, a concupiscência, essas coisas. Uma cerveja assim deve ser assinalada: o sabor é acidentalmente adocicado mas, mal se afasta o copo, a boca dá-se conta de ter sido invadida por aquele tom amargo que faz as delícias do bebedor, que gosta de uma espuma prolongada e, quando está para aí virado, de uma boa densidade. Há uma certa harmonia entre a carbonatação moderada e a sensação de suavidade proporcionada pelos açúcares da fermentação e pelo amargor do lúpulo neo-zelandês. Como o Rio Grande do Sul tem Outonos temperados e tépidos, acho uma pena não ser mais fácil encontrá-la nas lojas, uma vez que é a cerveja ideal para sobremesas.

+MARCA: La Brunette
Origem: Brasil
Álcool: 4,5%
Avaliação: ***