10.1.09


1.5.08

O beijo de um académico em Paris.


O beijo é talvez uma matéria antiga.
Assunto de poesia contemplativa,
bom para versos parnasianos. Uma flecha,
o tímido clangor, a vibração do arco,
sílaba, medida, questão de técnica, afinal.
Há uma grande literatura, arrumada,
sobre a melancolia do beijo: amantes
que se arrastam no meio das pontes,
palavras sérias, despedidas, mal-estar,
quartos de hotel, um espelho, a luz,

e Paris, as cidades onde outros beijos
foram famosos, Veneza, Praga, Florença.
Os académicos flutuam com saudades
desses beijos de Paris, lânguidos ou
a preto e branco, desbotados, cheios
de literatura, de espuma e de eternidade:
sombrio retrato do beijo, entre legumes
dos mercados e estátuas dos palácios,
penumbras das praças, empedrados
onde alguém acena com um lenço.

Estranha dívida da imaginação, questão
de técnica, afinal: havendo cenário,
então há um beijo, entre muros e rosas;
os amantes merecem esse entardecer,
nenhum outro beijo é tão nostálgico como
o beijo que nunca aconteceu, perdido
no meio de um livro, como uma gardénia
entre chilreios neoclássicos, aflorada,
desfolhada, morrendo devagar, apenas
uma imagem dramática, aprendida de cor.

Simples amor europeu, como escrevem
os querubins, doentes de má bibliografia,
tingidos de palidez, temendo a ironia.
“Ali nós estávamos cercados, era o Maio
de sessenta e oito, acabávamos de inventar
o mundo.” J’aime votre librairie, madame.
O primeiro beijo, aquele mais clandestino,
aconteceu entre as estantes de psicanálise
e restos de filosofia, tudo matéria nobre,
como o beijo. Questão de técnica, afinal.

Como uma mancha na memória, esse beijo
de Paris – com tradição, prefácio, notas,
livros, distinção, adultério, casas vazias
anoitecendo em bairros perto do Sena,
discos da Greco, baladas, despedidas,
comboios no meio do Outono, sufocantes.
Talvez fique apenas um retrato, um veneno,
uma revolução reconciliada com os deuses,
um rasgão na camisa, uma memória onde
tudo apodrece, devagar, no meio da febre

ou daquela solidão que destroça a vaidade.
Ah, como nós éramos revolucionários,
como o vinho e os livros eram tão franceses,
como o mundo tinha coisas tão fantásticas,
mulheres abandonadas, filhos aqui e ali,
chuvas, e uma pátria onde se podia regressar,
relâmpagos, canaviais, enredos, infortúnios,
segredos, telhados de Paris a meio da tarde,
esplanadas onde os filósofos adormeciam
– bêbedos e consentidos, murmurando

desculpas e vagas propostas de equilíbrio.
Questão de técnica, afinal, como as coisas
que agonizam no meio, bem no meio da vida.
Sereníssimo beijo académico, saudade
de como o mundo era perfeito, falado em
francês, sem escuridão, calafrio, ou a ironia
dos descrentes. Eram dentes assim, levemente
manchados pelos Gitanes, línguas pequenas,
cheias de pudor a princípio, uma gota de suor
no decote (faz calor em Paris durante o Verão).

Tudo o resto, ou quase, era literatura, árdua
e elíptica, obscura, dissolvida e depois escrita
no meio de incêndios, cheia de jogos e sinais,
como um beijo que interrompe a cegueira
numa esquina do Sena, numa ponte humedecida,
num sótão cheio de cadernos e de vinho barato.
Coisas românticas. Vulcões abertos sobre
a vida inteira. Negrume de vinganças tardias.
Inquietações, velhos retratos do Che, coitado,
autoridades, clérigos, melancolias e suspiros.

Talvez seja da altitude; as livrarias de Paris
ficam acima do nível das águas do mar,
mas não tanto, afinal. As universidades também.
E as ruas do Quartier Latin, ensombradas
por tanta melancolia, lua-de-mel, passeios
no meio da chuva, abrigos de amantes nos livros,
fraquezas espirituais. Pequenas cedências
começam aí, quando se perde uma namorada
que não sabe o nome dessas ventanias,
tudo por causa dos livros e do lixo de Austerlitz.

Muitos anos mais tarde, olhando a sombra
sem olhar a sua morte: a vida é um monólogo
cheio de literatura, remorsos, coisas perdidas,
textos sagrados, obra irrelevante, implorando
saúde e reconhecimento. Ah, o verdadeiro beijo
(questão de técnica, afinal) só existe em Paris,
pobre beijo a preto e branco, aristocrático, triste.
O sopro da humanidade não interessa; apenas
vagamente existe em redor, empurrado
pela vileza, negligente, cheio de más traduções.

In Se me Comovesse o Amor. Quási, 2007.

Sondagem Expresso/SIC/RR/Eurosondagem

Apesar de tod a contestação, o Partido Socialista continua, a um ano das eleições legislativas, no limiar da maioria absoluta, e José Sócrates com um saldo de popularidade invulgar. Este mês o PM volta a subir mais umas décimas estando quase nos 30%, sendo apenas ultrapassado pelo Presidente da República. À esquerda do PS, PCP e BE mantêm a tendência de subida, atingindo – quando somados – 18,8% das intenções de voto. Já os partidos à direita dos socialistas – PSD e CDS/PP – reúnem 33,2% das intenções de voto, estando assim abaixo do resultado obtido nas últimas eleições legislativas.

No mês em que se demite e depois de conhecida a sua decisão, Luís Filipe Menezes obtém a sua maior subida e atinge o saldo positivo que lhe escapava há seis meses estando próximo dos 4%.

Por outro lado, Cavaco Silva regista a sua maior quebra na bolsa de popularidade, porventura resultado da condescendência com que tratou o presidente do governo regional da Madeira durante a sua recente visita à região. O Presidente da República cai 7,4% em termos de popularidade podendo inferir-se deste resultado que, ao contrário da doutrina fixada por Jorge Coelho para o PS, quem não se mete com Alberto João Jardim, leva!

Que segredo terá José Sócrates para manter a sua popularidade tão elevada? Será mesmo que, para os continentais, elogiar Jardim é motivo de punição? \Se sim, que leva o líder regional a sonhar a liderança do PSD?

18.4.08

«Desde que os autores não tenham contratos assinados
é evidente que os posso trazer»


Meses depois da compra das Edições Asa pelo grupo Leya, o editor Manuel Alberto Valente,
62 anos, bateu com a porta e explica porquê. Está a preparar um novo projecto editorial

Manuel Alberto Valente, 62 anos, entrou para as Publicações Dom Quixote, em 1981, como director editorial. Dez anos depois foi convidado por Américo Areal para as Edições Asa, onde ficou 17 anos. Primeiro como director editorial e, mais tarde, como director-geral especialista no catálogo de literatura. No ano passado, Américo Areal vendeu a sua empresa familiar a Miguel Pais do Amaral. Este criou o grupo editorial Leya, que hoje inclui, entre outras, a Asa, a Dom Quixote, a Texto e a Caminho. Em Março, Manuel Alberto Valente, na altura editor da Asa com a responsabilidade dos portugueses e dos autores de língua espanhola e francesa, apresentou a demissão.

PÚBLICO - Quando se demitiu das Edições Asa, não quis revelar as razões que o levaram a abandonar o grupo Leya. Pode fazê-lo agora?
MANUEL ALBERTO VALENTE - Aquilo que me levou a sair foi um enorme desencanto profissional. Poder-se-á pensar que é uma posição contra a concentração editorial, mas, à partida, não tenho nada nem contra os grupos nem contra a concentração. Temos que fazer uma distinção clara entre grupos que são do livro e grupos que não o são. Concretizando: a Bertelsmann ou a Porto Editora são grupos do livro, nasceram e viveram com o livro toda a vida.
Têm tradição na área.
Há uma tradição familiar de negócio do livro. Os outros dois grupos que estão neste momento no mercado português - o Explorer Investments e o Leya - não têm nada a ver com o livro. Estão no livro por mero negócio. O Explorer é um fundo de investimento e está no livro até ao momento de poder ganhar mais-valias com a venda das editoras que comprou e dizem-no abertamente; e o grupo Leya, embora o esconda, está na mesma posição. Está na área do livro até lhe surgir uma oportunidade boa de vender o grupo a qualquer comprador nacional ou estrangeiro.
Porque é que o esconde?
Porque não tem assumido abertamente que comprou para vender.
Desencanto profissional porquê?
Quando a Asa foi comprada, pensei que o grupo Leya ia trazer à Asa, por um lado, dinheiro, mas, por outro lado, organização, eficácia, profissionalismo. Portanto, olhei com muito optimismo e com uma boa expectativa a entrada da Asa no grupo. Curiosamente, o que a prática me veio revelar foi que dinheiro passou a haver, efectivamente, mas tudo o resto era mentira. A desorganização é completa, a falta de eficiência é completa, a falta de profissionalismo é completa. A Asa antiga era um mimo de organização e de excelência de trabalho comparada com aquilo em que a Asa foi transformada.
Não foram então questões de opção editorial.
Embora aí também houvesse desinteligências. Foi realmente ver-me rodeado de uma falta de eficácia, de organização e de profissionalismo com a qual não podia pactuar. Ajudei durante 17 anos a construir a Asa, não podia ser cúmplice da sua destruição. É um desencanto muito grande quer com as políticas editoriais que estão a ser seguidas, quer com a falta da competência profissional da maior parte dos quadros que entraram para a estrutura com a constituição do grupo.
Construir um grupo com várias editoras que nunca trabalharam juntas demorará o seu tempo em termos de logística e organização.
Julgo que já teriam tempo para isso. As Edições Asa foram integradas em Setembro. Houve, evidentemente, uma confusão inicial, mas estamos em Abril e não há sinais. Todos os sinais que foram dados não auguram nada de bom. Isaías Gomes Teixeira, administrador executivo do grupo Leya, no momento em que me despedi, disse-me que compreendia perfeitamente que um homem que tinha idade para ser pai dele já não se adaptava a estas novas dinâmicas do mundo editorial. É um bocado verdade.
Porquê?
Sou de uma geração e tenho uma escola em que houve sempre uma enorme preocupação com a rentabilidade dos projectos, mas essa rentabilidade passava por uma frase que repeti muitas vezes: "Publica-se o que dá para se poder publicar o que não dá." Uma das primeiras frases que Isaías Gomes Teixeira disse quando entrou para o grupo foi: "Mas para que é que vocês publicam o que não dá?" Isto transmite toda uma filosofia com a qual não estou minimamente de acordo.
Houve uma diminuição da importância da Asa dentro do grupo ao lado de editoras como a Caminho e a Dom Quixote?
Não, não é isso que está em causa. A Dom Quixote, para todos os efeitos, só agora é que está a começar a ser integrada. Há, efectivamente, uma diminuição da capacidade de actuação da editora que se está a reflectir nas próprias vendas e na maneira como os livreiros estão a encarar o trabalho do grupo, que do ponto de vista logístico é desastroso.
Uma das inovações da Leya foi a integração de um gestor de marca a acompanhar o editor.
Essa é uma ideia contra a qual não tenho nada, isto se os gestores de marca escolhidos fossem pessoas habilitadas a cumprir esse papel. O que acontece é que, pelo menos em alguns casos, as pessoas que foram escolhidas como gestores de marca não têm a mínima ideia do negócio editorial e, portanto, não estão em condições de poder cumprir as suas funções.
Abandonou o grupo Leya por sua própria vontade, não recebeu indemnização, não negociou a sua saída. E agora?
Tenho estado a construir um projecto que quero que seja consistente, de qualidade, de excelência. E há duas hipóteses: ou avanço para esse projecto sozinho, ou encontro um interlocutor que o aceita e inclui numa estrutura editorial já forte. Como é ambicioso, gostava de o ver integrado numa estrutura que lhe desse garantias de eficácia.
Pode ser mais concreto?
É um projecto editorial que passa pela publicação de autores portugueses e de obras traduzidas na área da ficção e da não-ficção. Não é para publicar os restos do que sobra dos grandes grupos. Quero que possa ser um projecto concorrente dos grandes grupos. Quero publicar livros já este ano, na rentrée, em Setembro.
São livros que já estavam acordados?
Não posso trazer das Edições Asa livros previstos no seu programa editorial e que já estavam contratados. Mas autores posso. Desde que os autores não tenham contratos assinados para obras novas, evidentemente que os posso trazer. E conto com eles, aliás, quer portugueses, quer estrangeiros.

Público, 18 de Abril 2008

28.3.08

O GOSTO ÚNICO
















José Eduardo Agualusa | Capital | Luanda

Não posso dizer que tenha ficado surpreendido com algumas das reacções a uma entrevista que concedi recentemente ao Semanário Angolense. Atravessamos um tempo um pouco estranho, de transição de um regime de pensamento único para aquilo que, espero, venha a ser uma verdadeira democracia. O que diferencia uma ditadura de uma democracia é a pluralidade de ideias e de opiniões sobre qualquer assunto, e a forma como essas ideias são recebidas não apenas pelos governantes, mas pela generalidade da população.

Os ditadores esforçam-se por estabelecer primeiro uma determinada ideologia política, mas raramente se detêm aqui – tentam a seguir impor a toda a gente os seus próprios gostos sobre música, literatura, artes plásticas, desporto, sexo, ou mesmo moda. Hitler, que foi um medíocre pintor de paisagens, embirrava com o cubismo e o expressionismo, classificados como “arte degenerada”. As obras de grandes pintores, como Chagall, Mondrian ou Max Ernst, foram então consideradas produtos de mentes doentias. "De agora em diante iremos empreender uma guerra implacável contra os últimos remanescentes da desintegração cultural”, assegurou Hitler num famoso discurso sobre arte moderna, em 1937: “Por tudo que nós apreciamos, esses bárbaros pré-históricos da Idade da Pedra podem retornar às cavernas de seus ancestrais e lá realizar os seus rabiscos primitivos internacionais”. Os seguidores de Hitler, evidentemente, elogiavam os dotes artísticos do fuher. Mas, claro, quem acabou triunfando não foi Hitler, e sim os artistas ditos degenerados.

Mobutu não gostava de calças à boca de sino. Mugabe odeia (e persegue) os homossexuais. No Chile de Pinochet, e em Moçambique, no tempo de Samora Machel, jovens com cabelo comprido não eram muito apreciados pelo regime.

No seio do partido no poder confrontam-se hoje em dia democratas autênticos, democratas de fantasia – que ainda há poucos anos defendiam o sistema de partido único –, e uma mão cheia de órfãos da ditadura, mortos-vivos que não conseguem adaptar-se aos novos tempos e insistem em classificar como traidores à pátria todos os que se atrevam a contestá-los. Partido e pátria são para estas pessoas exactamente o mesmo, ou, ao menos, o partido constitui uma extensão da pátria.
Estes zombies são hoje, dentro do MPLA, um arcaísmo deselegante. Tenho a certeza de que incomodam, com a sua brutalidade, os próprios companheiros de partido. Julgo que têm os dias contados. Já não é possível, como se fez em 1975, acusar adversários políticos de se alimentarem de carne humana (recuperando desta forma, e talvez não por acaso, uma das mais racistas e abjectas fantasias coloniais). Felizmente esse tempo passou.

20.10.07

Palavras que nos fazem cócegas.
[Por ordem alfabética]

abemolar,
acédia,
acutilância,
adstringente,
alapardado,
alarifona,
albacora,
alcagoita,
alcouce,
alforreca,
almoxarifado,
amásia,
ambrósia.
ambulacriforme,
amodorrado,
amunhecar,
apostasia,
apotegma,
araponga,
arre chiça,
atrabiliário,
azurrador,
badalhoca,
bambúrrio,
bandulho,
baranga,
barbicha,
barnabé,
barzoneiro,
bem-te-vi-de-igreja,
biltre,
bisbilhotar,
borogodó,
boto,
bruaca,
brundúzio,
bugiganga,
bujarrona,
cachalote,
cachopo,
caganita,
camandro,
camisa-de-vénus,
cânhamo,
cardão,
catraio,
caturra,
cavanhaque,
cerambicinos,
chilique,
chimpar,
chocolateira,
clitoridiana,
clitóris,
coima,
concupiscência,
condómino,
cornogodinho,
corrupiana,
covilhete,
coxote,
crestomatia arcaica,
daguerreótipo,
dar-de-vaia
deliquescente,
desenxabido,
desmilinguido,
dildo,
ditirâmbico,
donairoso,
draconiano,
elipsígrafo,
encanitar,
encurvadura,
engaramponar,
enxárcia,
escaganifobético,
escanção,
esfíncter,
espongiforme,
esprovamento,
esputação,
esquixa,
estai,
esternocleidomastóideo,
estrambótico,
facécia,
fanchono,
fedúncia,
feiteira,
fescenino,
franganote,
funâmbulo,
futrica,
fuxico,
gaivagem,
galfarro,
galocha,
gambérria,
gáspea,
gemedeira,
gorgomilo,
gororoba,
gralheira,
guilha,
gurupés,
hieróglifo,
hirundino,
inadimplente,
inhame,
Itaquaquecetuba,
jagodes,
labéu,
lábia,
lagalhé,
lambanceiro,
lampadejar,
lapardeiro,
lapouço,
lesbiano,
libidinoso,
longicórneos,
luzimento,
maçaranduba,
macaxeira,
malino,
marafona,
mariola,
marruaz,
meditabundo,
mequetrefe,
meretriz,
mezena,
moçoila,
narguilé,
néscio
Nitrato do Chile,
ovante,
palatinado,
pantomineiro,
pardizela,
parlatório,
parlenga,
peralvilho,
Pindamonhangaba,
pitanga,
pitomba,
pomologista,
ponderoso,
pororoca,
porreiro, pá
Procópio,
prosápia,
pudicícia,
rabónico,
rameloso,
rebaldaria,
roaz,
rubicundo,
sacanagem,
sacripanta,
salamaleque,
sapatinhos-de-ver-a-deus,
sazonar,
senzala,
serendipismo,
sestroso,
siririca,
sodomita,
suruba,
tainar,
teodolito,
teratogenia,
topete,
tramazeira,
tramontana,
tranglomango,
traquete,
tribufu,
trombudo,
umbú,
urubu,
urumbela,
valhacouto,
vasqueiro,
viperino,
vulva,
xexelento,
xoxota.

6.10.07

BICICLETAS EM LISBOA. Mail de Duarte Sobral:

Tive o prazer de ler a conversa que trocou com Tiago Carvalho a propósito de bicicletas em Lisboa e gostava de me intrometer, mas n'A Oigem das Espécies não há a possibilidade de fazer comentários directamente.

Uso a bicicleta como meio de transporte, não uso capacete e também não gosto de astronautas. Quanto à lycra uso-a exclusivamente nos desportos aquáticos porque, além de não a achar confortável em terra, associo-a directa e inconscientemente ao desporto hardcore e a transpiração extrema, de tal forma que só de ver alguém vestido de lycra sinto comichões. Há uns meses vim trabalhar para Sines onde fiz uma descoberta aterradora. Descobri então que algumas pessoas desta pequeníssima cidade se fazem deslocar diariamente de carro para todo o lado (por vezes em distâncias inferiores a 400 m). Fiquei ainda mais surpreendido quando encontrei algumas dessas pessoas trajadas de astronauta, com calções de lycra, sweat-shirts e garrafinha de água na mão, a marchar furiosamente pela marginal aos pares e aos trios... com o espanto demorei a perceber que estavam a praticar o footing porque, dizem os médicos, é uma actividade desportiva muito benéfica para a saúde e muito eficaz na redução do risco de doenças cardio-vasculares. Apeteceu-me gritar: Vão-se Footing, pá! Passam o dia sentados no escritório ou no café, para onde vão sentados no carro, e ao fim da tarde vão suar que nem umas bestas, a praticar o footing!!!

Como urbanista, considero esta perspectiva da actividade física perversa e perigosa para as nossas cidades... pessoalmente acho-a completamente idiota e só encontro explicação para ela no domínio da psicanálise.

O perigo da amnésia ou Tal como algumas pessoas já não concebem a vida sem telemóvel:

Se entendemos a locomoção humana, o andar a pé, como uma coisa do domínio do desporto estamos, desde logo, a renegar uma adaptação natural conseguida ao longo de milhões de anos de evolução, que nos permite gastar menos um terço da energia que um quadrúpede, por unidade de distância percorrida, e 15 vezes menos que um automóvel!

Suponhamos, por absurdo, que no futuro o andar a pé "ascende" à categoria de desporto. Numa cidade como Lisboa, onde os passeios já são barbaramente invadidos por automóveis, a solução "natural" seria convertê-los em estacionamento e substituí-los por modernas pistas de footing ao longo das marginais ou dos parques – ainda mais modernas que as actualmente existentes no Estoril ou Algés. Seria o fim da cidade tal como descrita por Jane Jacobs ou Manuel Leal da Costa Lobo, e a concretização tardia do delírio Modernista de Le Corbusier, num momento em que a carta de Atenas já não passa de uma curiosidade histórica, comprovadamente descabida para servir o desenho de habitats humanos.

Encontro claramente um paralelismo entre os astronautas do pedal e os astronautas do footing. Para muitas pessoas o facto de eu chegar ao trabalho de bicicleta faz de mim um desportista... e qualquer dia acontecerá o mesmo a quem chegar a pé?

A necessária inversão da perspectiva:

Num Mundo acelerado, em que o espaço e o tempo são recursos cada vez mais escassos, encontramos na multifuncionalidade dos espaços e do tempo soluções muito interessantes. Para dar um exemplo: ao contrário de algumas pessoas que aceleram (e travam... e voltam a acelerar e a travar) as suas viaturas de casa para o trabalho, do trabalho para o ginásio (onde praticam o footing em passadeiras e o ciclismo dá pelo nome de RPM) e do ginásio para casa, eu, na minha bicicleta faço o exercício do ginásio, de casa para o trabalho, do trabalho para a mercearia, da mercearia para casa. Não o faço pelo incentivo do Sr. António Costa mas porque assim poupo tempo, poupo espaço e, mais importante que tudo, poupo dinheiro (além do gozo que me dá passar por entre os carros na Av. De Roma na hora de ponta)... e assim o tenho feito desde há 5 anos para cá. Teria sido uma ideia genial se não fosse tão óbvia e estaria rico se, à semelhança da Lycra, esta descoberta fosse patenteável.

Um exemplo mais comum pode ser encontrado no espaço do WC e no tempo de enviar um fax onde muita gente aproveita simultaneamente para pôr a leitura em dia. Le Corbusier diria: até leria na casa de banho se não preferisse a biblioteca (tal como FJV prefere o paredão do Estoril), Hitler proibiria a leitura no WC (tal como proibiu a circulação de bicicletas fora das ciclovias, que por sinal foram inventadas pelo III Reich como forma de abrir as ruas ao Volksvagen). E assim se perpetua o despautério Modernista, que despreza a história e reinventa a pólvora para mais tarde perceber que a solução original era melhor.

Por trabalhar em planeamento urbano tenho que considerar as realidades emergentes e tentar antecipar as tendências futuras, a intuição diz-me que mais cedo ou mais tarde vamos ser obrigados a mudar os nossos hábitos de mobilidade. A questão é se temos a coragem de defender a mudança necessária e o estômago para aguentar comentários de "velhos do Restelo", ou se nos resignamos a ser confortáveis cidadãos dum País que vai a reboque e só muda quando já não tem alternativa. Nunca tive dúvidas que a política exige estômago mas fico contente por ver algumas demonstrações de coragem.

Duarte Sobral

4.9.07

«Lourenço Marques»
À Solta


[Entrevista ao site do Círculo de Leitores]


Cachimbo, imagens, montagem e banda sonora. O papel e a caneta foram substituídos pelo computador. Manuscritos e manuseáveis continuam os caderninhos de apontamentos que guarda entre viagens. Para este livro foram seis ou sete, não precisa. Nem precisa o exacto balanço entre oficial e anónimo. Ouviu, pesquisou, conheceu os lugares de um dito paraíso.

Entre as acácias, o calor e a ruína a travessia impôs-se dura. Miguel, o seu protagonista, regressa a Maputo passados mais de vinte anos com o pretexto de encontrar Maria, o seu primeiro amor. O autor, curioso da Lourenço Marques que sempre ouvira contar, regressa a um tempo perdido e faz-nos perder na paisagem de personagens, suspeitos e ironias. Seguindo a trama de um policial rompe na verdade com um complexo. O complexo colonial.

À solta mas com mapas Francisco José Viegas falou connosco na redacção da «Grande Reportagem». Jornalista, crítico e escritor, colaborou no JL, no Expresso e no Semanário tendo sido director da revista literária LER durante doze anos. Da poesia ao teatro, do romance ao conto, rejeita pretensões e aponta a brevidade dos momentos de revelação. A conversa correu leve, entre as gargalhadas e inflexões que a transcrição da entrevista não captam na íntegra. Podemos contudo adiantar que ao som das respostas o autor acrescentou as músicas que ouviu durante a escrita do livro. Privilégios da entrevistadora que aqui partilha as várias hipóteses de leitura de um livro que se pretende avesso a caminhos em linha recta.

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Círculo de Leitores online - Como nasceu este livro ?

Francisco José Viegas - Como quase todos os meus livros, nasceu de uma viagem. Neste caso uma viagem a Moçambique. Depois de uma primeira passagem pelo país fiquei com a impressão que tinha uma história a contar, uma história com mistura de policial. Com o tempo dei-me conta que o que tinha a contar ultrapassava os limites do policial. Por isso voltei quatro vezes a Moçambique para apanhar histórias, para encontrar personagens - se bem que no final tenha acabado por perceber que os grandes personagens da história estavam aqui em Portugal.

CLonline - «Lourenço Marques» é um livro repleto de memórias, detalhes, sons, cheiros e imagens. Como é possível chegar a esse tipo de detalhe sem ter de facto vivido em Moçambique no tempo que descreve ?

FJV - Trabalhando. As viagens a Moçambique foram muito simples, viagens de terra em terra, de jipe, de «chapa» (o autocarro colectivo), viagens de reconhecimento. Depois existe o espantoso, o lado espantoso da descoberta de África por um europeu.

CLonline - Viaja sozinho ?

FJV - Algumas vezes sim.

CLonline - Tira apontamentos, anota?

FJV - Vou à solta. Se uma pessoa não for à solta, se não estiver disponível não encontra nada, ou então só encontra aquilo que quer encontrar. Nesse caso é melhor não viajar. Embora eu soubesse onde queria ir - à ilha, a Nampula, Pemba.

CLonline - E porquê esses sítios em específico?

FJV - Porque eram os sítios que haviam marcado a memória das pessoas que eu tinha conhecido. Eu brinco muito com esta história, mas é verdadeira: o primeiro umbigo de mulher que vi foi o de uma rapariga do meu liceu que tinha vinda de Moçambique. Sempre me fascinou essa gente vindo de Moçambique. Representavam um mundo extraordinário de pessoas completamente diferentes dos portugueses da metrópole. Vinham de um mundo mais livre, mais apetitoso, de um local mais aberto, com sol, com outros hábitos, de um mundo em que se bebia «Coca-Cola». As pessoas não se lembram mas em Portugal não se vendia «Coca-Cola», era proibido.

CLonline - Durante as suas viagens falava com pessoas que já lhe tinham sido indicadas ou houve uma procura de testemunhos ?

FJV - Consultei os arquivos históricos de Maputo, os jornais da época, e entrevistei algumas pessoas, quer dizer, não entrevistei, falei com as pessoas. Não há no livro uma fonte oficial. Não digo a transição do poder em Moçambique foi ‘assim’. Usei vozes comuns - mais do que vozes anónimas, vozes comuns. O método de escrita passou muito pela recolha de material. Só que, e este é o drama do livro, eu sabia que não seria capaz de escrever o livro como planeado, como um policial, e durante muito tempo o livro esteve parado. No tempo em que estive parado escrevi mais dois livros. O grosso de «Lourenço Marques» acabou por ser escrito em 2002.

CLonline - E o que o fez retomar a escrita ?

FJV - O ter rompido com um complexo, o complexo da culpa colonial. Só acabei o livro quando eu próprio consegui romper com esse complexo. Uma senhora perguntou-me porque é que eu não tinha dado o título de «Maputo» ao livro, e eu respondi que nada tinha a ver com Maputo. Esta história não é uma história sobre moçambicanos, é sobre a África dos portugueses. Não podemos arrancar a memória. Não podemos branquear o colonialismos, nem os seus crimes, nem a violência, embora eu não tenha tentado fazer uma história dessa violência colonial nem do racismo. Procurei o lado feliz. Mas o livro não deixa de ser sarcástico com os brancos.

CLonline - A nostalgia atravessa aliás todo o livro.

FJV - Conheci muita gente em Portugal com saudades de um lugar chamada Lourenço Marques. Com a perda da cidade houve a perda de um mundo, a perda real de pessoas que tiveram de reconstruir a sua vida a partir do nada. E o Portugal dessa época foi muito hostil com os retornados. Uma posição que hoje, a esta distância, me parece injusta porque eles foram uma força transformadora, com capacidade de iniciativa, e acabaram por mudar Portugal e a estrutura económica do país. Também mudaram as nossas ementas nos restaurantes, a forma de vestir, de falar, o nosso imaginário que passou a ter novas referências. Quando se diz o nome ‘Lourenço Marques’ essas pessoas parecem ficar com um clarão no olhar, um clarão de nostalgia, não de saudade troglodita colonial.

CLonline - Miguel, o protagonista, procura Maria de Lurdes ou procura as suas memórias ?

FJV - É difícil separar as duas. Há duas perdas, a perda de um mundo e a perda de um amor não concluído. As duas cruzam-se.

CLonline - Existe também uma certa ideia de paraíso perdido. Esse paraíso localizado no passado é já uma elaboração da memória ?

FJV - O paraíso só existe no passado. As coisas no passado tem uma textura que não têm no presente, a nossa memória é muito selectiva e as coisas voam-nos... Por outro lado aquele passado está de facto marcado por várias coisas, pelo amor, pela família, pela natureza. A vida em Moçambique era muito melhor que a vida que encontraram aqui. Era uma vida mais livre. Se pensarmos que em Moçambique passavam filmes proibidos aqui percebemos a diferença de hábitos sociais, sexuais e culturais - muito mais livres que os nossos em Portugal. E, realmente, o calor afecta e dilata os corpos.

CLonline - Das histórias que recolheu e ouviu quais as que usou no livro ?

FJV - Conto histórias que aconteceram e outras não. Algumas das histórias coincidem com o período de loucura que se viveu em Moçambique, por exemplo, uma pessoa podia ir a sair do cinema, no centro de Maputo, e pediam-lhe os papéis. A pessoa dizia que não tinha, que ia buscá-los e era convidada a entrar num veículo. Uma semana depois estava no Niassa. Geralmente existe o mito de que o autor tem imensas coisas a dizer sobre o livro. Eu fui fazendo-o, escrevendo-o. Algumas personagens tocaram-me de uma maneira quase brutal, como o médico de Lichinga que mantém um resto de dignidade notável - e ainda hoje dou por mim a pensar na pessoa real por detrás do personagem. O xeque Abdurrazaque também existe e tem este nome.

CLonline - Mas quando parte para a escrita já tem as personagens delineadas ?

FJV - Sabia quem era Maria de Lurdes, que ela se atirava à piscina e que era perversa o suficiente para despir o maiô. Tinha uns seis ou sete blocos de apontamentos a que ia buscar o que precisava, pormenores que não pareciam importantes mas que depois, de repente, se revelaram explosões. O meu método é muito cinematográfico, funciono por imagens, por cenas. Escrevo directamente no computador, escrevo sempre acompanhado de um conjunto limitado de discos, que gravo no computador e que funcionam como banda sonora. Cada personagem tem uma canção, cada ambiente tem uma música, o que me ajuda a escrever. A dada altura já não podia ouvir Tindersticks...

CLonline - Que eram a banda sonora de quem ?

FJV - Do Miguel. Da Sara é uma confusão, desde Chillout a música mediterrânica. O Domingos Assor é muito música instrumental por causa dos seus delírios.

CLonline - A trama policial acaba por ser um pano de fundo, um pretexto ?

FJV - Nos outros livros o policial é declaradamente um pretexto. Neste é menos. Acontece um crime e existe uma investigação pelo que precisava de um personagem que fosse o Domingos Assor, que se está nas tintas para o dito passado glorioso. Ele sabe tudo e até ao fim mantém a esperança de que Miguel mereça saber a verdade. Leva o saco de Maria quando se vai despedir dele ao aeroporto porque espera que no último instante ele mereça a verdade. Mas o Miguel desiste, o Miguel é no fundo isso mesmo.

CLonline - Miguel não queria de facto encontrar Maria ?

FJV - Ele queria encontrá-la, o problema é que só recuperamos o passado quando o merecemos. Às vezes só conquistamos uma felicidade passada quando somos suficientemente loucos para, num gesto, colocarmos tudo em causa. Foi o que a Maria fez, mas Miguel nunca o fará. No livro alguns dizem que a Maria morreu, outros que foi ela quem matou Madane, são hipóteses. Nunca revelo o criminoso nos meus livros, sugiro apenas que poderia ter sido este ou aquele.

CLonline - Joga então com o leitor como se também ele tivesse de merecer a verdade. A irresolução é então aparente ?

FJV - Há sempre um sinal de quem é o criminoso, há sempre uma frase, um parágrafo onde a verdade aparece. Mas também o leitor tem de perceber que a vida não tem um único sentido. Mas sim, há sempre um sinal de como a história se poderia ter resolvido.

CLonline - Diria que há um ciclo de vingança inerente aos acontecimentos ? O português Zacararias dos Anjos morre nas águas onde Gungunhana fora preso por Mouzinho; na fotografia do paraíso de infância de Maria, Assor detecte o então criado Madane que se torna, com a independência, um temido capitão dos campos de reeducação, que será morto por um dos seus conterrâneos. Cumpre-se uma vingança ? Ou uma forma de justiça ?

FJV - A História é feita de vinganças. Há um ciclo de violência, um ciclo de racismo contra os brancos, e agora um tentar fascinar e cativar os fazendeiros brancos como aconteceu no caso do Zimbabwe. São os ciclos da história.

CLonline - Mas a sequência de acontecimentos, em específico a ligação entre esses três momentos, é uma acaso da História ?

FJV - É uma inevitabilidade. A História não pára, e sobretudo não pára em nome das loucuras que se cometem em seu nome. Era inevitável que as coisas acontecem-se daquela forma, que houvesse guerra, que surgisse uma perseguição aos brancos, que os brancos moçambicanos fossem mais radicais que os negros, que com o tempo as pessoas sentissem saudades. A História implica ciclos de aceitação e recusa, ciclos de fascínio e de repulsa. Quem é que em perfeita saúde mental aparecia na televisão a dizer que os portugueses deviam ser todos queimados ? No entanto era natural que isso acontece-se e que alguém, passados trinta anos dissesse, acabou, acabou o luto.

CLonline - Como falam hoje os moçambicanos desse período ?

FJV - Depende da geração. A geração com mais de cinquenta anos tem uma certa memória, uma memória que não é totalmente má. As pessoas de trinta a quarenta anos vivem entre o estar-se nas tintas e o reconhecer que há uma ligação estreita. Para os adolescentes os portugueses são apenas brancos como os holandeses, os franceses.

CLonline - As cidades que visitou guardam marcas da presença portuguesa ?

FJV - Em todos elas existem marcas dessa presença, mesmo nas cidades mais destruídas. Essa é também uma das inevitabilidades da História: o ser impossível apagar a passagem dos portugueses. No tecto da Igreja da Nossa Senhora da Consolação dos Militares, no Brasil, foi pintada a batalha dos montes] Guararapes. A primeira em que se fala de uma consciência brasileira, em que portugueses, índios, negros e pessoas que já tinham nascido no Brasil lutaram contra os holandeses na recuperação do Nordeste. O quadro é genial mas alguém teve o cuidado de, no final do século XIX, tapar as bandeiras dos soldados portugueses. Vemos os soldados no campo de batalha sem bandeira.

CLonline - Então o apagamento existe.

FJV - É inevitável que as pessoas apaguem o que lhes foi doloroso. Os portugueses também não eram pêra doce. Temos em África um historial de violência, embora com o tempo isso se relativize e compreenda.

CLonline - Queria voltar precisamente ao português que no seu livro decide ficar, o último médico branco em Lichinga que fala de deus como um controlador aéreo.

FJV - Ele é o branco que assiste ao delapidar do país, que assiste à violência. Os portugueses têm memória da guerra colonial mas não da guerra civil. Não temos ideia da violência da guerra civil em Moçambique, dos miúdos que foram obrigados a matar os pais para provar a sua lealdade ao movimento, obrigados a denunciá-los, a beber o seu sangue. Para quem anda pelo país e vê as povoações abandonados, as carruagens calcinadas, os buracos abertos, percebe que aquele é um mundo muito estranho. E ele, o médico branco de Lichinga, assistiu a isso, à violência, à hipocrisia ocidental. Para além disso ele é um homem doente que sabe o seu destino, que sabe que vai morrer...

CLonline - E que não parece muito desesperado com isso...

FJV - É médico e sabe que não pode fazer nada. «Lourenço Marques» é também uma história sobre o encontro com Deus. O próprio Domingos Assor tem uma visão dessa transposição dos ritos monoteísta para a África - é aliás impossível estar em África e não sentir esse conflito. Existem afinal duas relações possíveis com Deus. De mal-estar: como é possível que Deus exista e que exista a miséria e a violência da guerra? E existe outra saída: o inexplicar o mundo. O médico diz que deve haver alguém a controlar o tráfego aéreo porque existe tanta ordem e tanta desordem no mundo que deve haver alguém que estude as coincidências, alguém que faça as suas excepções. As pessoas mais religiosas são, do ponto vista formal, a Sara, uma judia, e o Domingos Assor. O xeque que prega partidas citando versículos do Alcorão ao contrário para que Miguel encontre verdadeiramente o caminho

CLonline - O médico diz a Miguel que «Não é qualquer um que pode chegar ao lago e olhá-lo e voltar, regressar a casa. Há sempre qualquer coisa que fica a marcar-nos para sempre». O que quer dizer com isso ?

FJV - Não se pode passar pelas coisas impune. Ver o lago Niassa implica passar por uma certa provação. Por isso depois de uma viagem de seis dias de carro quando se chega ao lago parece ter-se chegado ao princípio do mundo.

CLonline - Para além da beleza descreve a ruína.

FJV - Os portugueses deixaram um mundo europeu de ordem, autoridade, disciplina. Tudo isso foi sendo abandonado. Há uma luta muito séria em todos esses países contra a ruína. Quando se assiste ao que se passou no Ruanda e no Zaire percebe-se que a dignidade humana acabou. No judaísmo a história deixa de ter sentido a partir do holocausto, a sohoah, em que o mal anda à solta, um mal puro, uma violência sem explicação. Quem viu o Ruanda não esquece. Em poucas dias foram milhares de mortos. Como é possível a poesia depois de Auschwitz ? Uma outra pergunta: porque é que o povo hebreu ficou quarenta anos no deserto e não foi directamente para a terra prometida ? Porque tinham de passar aqueles quarenta anos. Esses quarenta anos são o espaço de uma geração. Quer dizer, só era permitida a entrada na terra prometida aos que não tinham memória do horror. É exactamente o que se passa com Moçambique, quando passar uma geração, a das pessoas que conheceram o terror, a morte, os amputados, os deslocados, então será possível um mundo melhor. O símbolo da travessia do deserto, a metáfora do estar perdido, é também uma das histórias do livro. É preciso deixar passar o tempo.

CLonline - Visita na sua escrita a poesia, a ficção, viagens, conto, teatro, crítica. A escrita de diferentes géneros exigem-lhe diferentes disposições ? E consegue escrever ao mesmo tempo em géneros distintos ?

FJV - Não, tenho de os separar. O esforço é o mesmo, o tipo de trabalho é que é muito diferente. Não tenho nem lei nem ordem para escrever poesia, acontece ou não. O romance exige coerência, dados - um personagem não é um nome, é um banco de dados e as personagens de um romance só são verdadeiras quando começam a voar, quando começam a ter vida própria.

CLonline - Qual o género em que entre aquilo que quer escrever e o que consegue escrever o abismo é menor ?

FJV - Não há um género, existem certos parágrafos. Certos parágrafos em que me sinto melhor, momentos em que se toca algo com o sabor de revelação, em que podemos dizer “isto fica”. Em «Lourenço Marques» tenho dois ou três momentos assim.

CLonline - Quais ?

FJV - O delírio do Domingos Assor, a fala do médico e uma parte da conversa do Domingos sobre África, sobre o mundo dos brancos e dos pretos e como nunca conseguiremos explicar o que opõe ou une homens e mulheres, o que opõe ou une brancos e pretos, no fundo o que une os contrários. Nessa fala o Domingos Assor encontra uma explicação. Diria que esses três momentos não estão mal conseguidos.

CLonline - Permita-me a invasão (tal como o polícia Assor invade “uma vida inteira” ao vasculhar os objectos deixados por Maria numa mala). Se numa viagem perdesse a sua mala que objectos lá encontraríamos ? E que objectos preferiria que não encontrássemos ?

FJV - Preferia que não encontrassem a minha mala. Não tenho da vida uma ideia muito gloriosa ou cheia de charme, tenho da vida a ideia de que se repetem sempre as mesmas asneiras e patifarias. Encontrariam na minha mala coisas normalíssimas e pecaminosas como se encontra em todas as malas, e encontrariam mapas. Mapas para as viagens que gosto de fazer, meia dúzia de livros, meia dúzia de discos necessariamente, fotografias das pessoas que eu amo, das pessoas de quem dependo, e um poema ou outro, solto, de Yeats. Pouco mais.

20.8.07

Conversa de cerveja, interminável

[Publicado na Pública, de 19/08/2007]

O meu guru, durante vários anos, foi Wolfram Koehler, o mestre cervejeiro alemão com quem bebi o maior número possível de “Belikins” ao balcão do Bellevue Hotel, um pequeno hotel de Belize City. O hotel já fechou, sobrecarregado de dívidas e de maus negócios de George, o escocês que o comprou e passou a dirigir quando as Honduras Britânicas passaram a ser o Belize independente, em 1980. George gostava de cerveja e de brandy, e a irmã Nathalie, que era casada com um oficial britânico da RAF, preferia vinho. Bebiam o que queriam. O Bellevue Hotel era um lugar onde cada um bebia o que queria, porque estava cheio de personagens de Somerset Maugham, geralmente fugidos à inspecção fiscal americana, a esposas que os aguardavam em Nova Iorque ou no Minesota, a namoradas que nunca casariam com eles em New Orleans, ou a um destino qualquer em qualquer outra parte do mundo. Com clientela assim, o Bellevue teria de falir. Os quartos também não eram grande coisa e o marido de Nathalie, o oficial da RAF, bebia vinho do Porto com queijo “stilton”. Essa foi uma das razões do seu divórcio, há um par de anos, porque ela conheceu um produtor de reggae que bebia cerveja e trazia “Dragon’s Stout” às caixas, da Jamaica, onde acabaram por abrir um bar. George, por seu lado, falava demais até às dez da noite; depois das dez da noite ninguém conseguia entendê-lo porque a gramática se enredava em ondas de álcool, para provar que as frases com sujeito, predicado e complemento directo eram incompatíveis com brandy de origem duvidosa.

Na verdade, eu conheci Wolfram Koehler porque River Phoenix não bebia café. Eu não falei com River Phoenix mas, nessa temporada de Belize City, ia frequentemente ao Lily Rose Cafe & Patio, onde River Phoenix bebia muito quando era vivo. Ele ia beber. Eu ia almoçar porque me levantava muito cedo e tinha fome por volta do meio-dia. Depois de um almoço de galinha frita e arroz de feijão com côco era insuportável estar no Lily Rose Cafe & Patio porque não havia café, nem chá, nem nenhuma bebida quente. Só havia cerveja. River Phoenix só precisava de cerveja e não gostava de café. Fui a pé para o hotel, onde deveria sentar-me ao balcão do pequeno bar do jardim, de onde se viam os barcos que regressavam dos recifes, e onde se podia tomar café expresso e fumar charuto. Wolfram Koehler estava lá e, meia-hora depois de nos termos apresentado, ele começou a pedir cervejas. Quatro horas depois estávamos, com George, o dono do Bellevue Hotel, numa ilha a hora e meia de barco de Belize City, sentados num areal diante daquele mar de cartolina azul, coqueiros, casas de madeira que tinham sobrevivido ao tufão anual. Só saímos da ilha no dia seguinte, depois de um jantar fatal, de muitas horas de conversa e de muita cerveja bebida.

Só de manhã soube por que razão já “podíamos regressar a Belize City”: Wolfram também era um personagem de Somerset Maugham e o seu casamento com uma argentina relativamente fogosa e possessiva (eu nunca a conheci) estava marcado para a noite anterior em New Orleans. Na ilha não havia telefone e Wolfram podia regressar, livre, à cidade, depois de ter anulado o casamento uns dias antes.

O que tem isto a ver com cerveja? Tudo. Em primeiro lugar é conversa de bebedor de cerveja, interminável (podia escrever várias histórias sobre o oficial britânico da RAF, que sempre me pareceu uma espécie de Chatterley); em segundo lugar, Wolfram era um mestre-cervejeiro de quarenta anos, cujo pai tinha sido mestre-cervejeiro em Munique, cujo avô foi mestre-cervejeiro em Colónia. Ele desempenhou essas funções em França, na Alemanha, no Brasil, nos EUA e, finalmente, no Belize. Conheci-o quando estava de férias – nessa altura ele dirigia o seu próprio restaurante em New Orleans, onde fabricava três cervejas superlativas: uma pilsener clarinha, leve, de coração frio; uma dunkel apetitosa com tons de caramelo; e uma red-ale, ruiva e profundíssima. Há anos, ele tinha aceite a oferta de um emprego naquele país que ninguém conhecia: reformular e relançar a “Belikin”, transformando-a numa lager ao gosto de quem apanhava o iodo do Mar dos Sargaços.

Até aí, confesso, eu só gostava de cerveja. Quem pagou a minha primeira cerveja foi o meu avô. Estávamos em Agosto e eu tinha 14 anos. Prometi que, durante esse Verão, não beberia mais nenhuma. Não bebi. Só no Verão seguinte voltei a pedir-lhe que me pagasse um novo “fino” no Café Carneiro, diante da estação dos caminhos-de-ferro, mais ou menos à hora a que estacionava o rápido do Porto, que nesses anos ainda chegava a Barca d’Alva e tinha ligação para Freixeneda do outro lado da ponte sobre o Douro, ou seja, para Espanha.

Havia três coisas que nós – os miúdos que passavam férias no Douro – aprendíamos durante o Verão e íamos aprofundando ao longo dos anos da adolescência. Primeira: que na Quinta do Vale Meão, mesmo diante da aldeia mas na mesma margem do rio, se produzia “o melhor vinho do mundo” conhecido pelo seu nome (que seria “Barca Velha”). Segunda: um rapaz só era rapaz quando se atrevesse a saltar para o rio de noite, junto das rochas da Casa do Douro, ou soubesse trautear “Bad Moon Rising”, dos Credence Clearwater Revival. Terceira: as melhores imperiais ou finos das redondezas eram servidas nas esplanadas de Moncorvo, a que íamos muito (por causa das raparigas), no balcão de zinco de Salomão Carneiro (dentro de portas, portanto) e num café do Jardim do Tabolado em Vila Nova de Foz Côa, a que não íamos muito (por causa das raparigas).

Os meus Verões no Douro eram monótonos – e essa monotonia era saborosa. Havia livros da carrinha da Gulbenkian, pesca duas vezes por semana, festas da aldeia na segunda semana de Agosto (o que se traduzia por uma guerra ruidosa entre fanáticos de “Smoke on the Water” – nós – e adeptos da filarmónica de Felgar, que vinha para os últimos dois dias), vindimas a partir da primeira semana de Setembro, filhas de proprietários ou administradores de quintas, cinema ao ar livre (por três vezes vi “Os Canhões de Navarone” e “A Túnica”) e a comida da minha avó. A tudo isto veio juntar-se a explosão de frescura e de devassidão prometida pelas primeiras imperiais da adolescência. Muitos anos depois, na esplanada de um bar de São Paulo, e lembrando-me sempre de Wolfram Koehler, a quem contei o projecto (em Lisboa, num restaurante onde falámos de futebol todo o tempo) quis começar a escrever o guia das minhas cervejas preferidas. A primeira coisa de que me lembrei foi essa impressão de frescura amarga – e do sorriso do meu avô, que só bebeu meia dúzia de cervejas ao longo da vida, mas me deixou conhecer esse sabor.

Era impossível escrever esse guia. As primeiras cervejas são ruidosas na memória – mas, geralmente, não têm qualidade. Basta-lhes serem frias e constituírem uma etapa na adolescência. Depois, vieram muitas cervejas bebidas em inter-rail. Por sorte, os meus inter-rails levaram-me aos países da cerveja: Alemanha, Bélgica, Suécia, Suíça, Dinamarca ou Holanda – e Inglaterra, naturalmente, onde qualquer português garantia que existia a pior cerveja do mundo. Nessa altura, a Checoslováquia era demasiado longe. Ficou para depois. Nesses anos, era um coleccionador que tentava provar a maior quantidade de cervejas antes de regressar à faculdade. Bares de Hamburgo, de Munique, de Estocolmo e de Copenhaga; esplanadas de Antuérpia, Amesterdão ou Groninguem; pequenas estalagens nas montanhas da Suíça; em todos esses lugares coleccionava rótulos de garrafas de cerveja. Quando regressava, trazia experiências na mochila para enfrentar o pelotão de Super Bock, Sagres, Cristal, Cergal, Marina e Clock (a Especial Mello Abreu e a Coral, insulares, só vieram depois). As últimas três desapareceram entretanto e pouca gente sentiu falta. Eu senti – mas sobretudo penei pelo desaparecimento da Topázio e da Ónix, as cervejas de Coimbra (e havia Cuca na minha infância) e de uma Boémia que se bebia em Lisboa. Em Lisboa, havia poucos lugares onde se bebiam cervejas estrangeiras – além das que eram distribuídas com garantia, a Carlsberg e a Tuborg (apenas as “lager”). Portugal era um país vinícola cheio de “adegas cooperativas” onde o vinho era geralmente mau, e a cerveja era uma bebida sem prestígio. No final do Verão, eu continuava a subir de novo ao Douro para ajudar o meu avô paterno a fazer vinho. Erguíamo-nos de madrugada, conheci o cheiro dos lagares e percebi que havia uma profundíssima alquimia nesse processo que nos deixava os pés sujos e uma impressão de alegria embriagada. Nunca percebi, de qualquer maneira, por que razão não poderíamos beber cerveja, nós, os deserdados da erudição vinícola. Nunca percebi por que razão uma coisa teria de excluir a outra.

Foi na Irlanda, de qualquer modo, que percebi. Num pub de Galway pedi uma pint de Guinness e o empregado, depois de ver a minha alegria, sugeriu que voltasse no dia seguinte para provar a cerveja do próprio bar. Tinham esgotado a reserva e a nova produção tinha começado há quinze dias. Amanhã estaria pronta. Fui. Não era a pior cerveja do mundo, não era fria, não tinha perdido o amargor: fresca, amarga, ligeiramente alaranjada, com tons de caramelo e café, e existia em apenas vinte barris mensais. Aprendi como se fazia cerveja e descobri como era um ingrato: quinze anos atrás, em plena infância, o meu avô materno – em Vinhais, Ousilhão – produzia lúpulo para vender a uma empresa de cervejas do Porto. Nunca liguei. Arrependi-me. Amargamente, como convém ao lúpulo e à sua flor.

E, depois de mais uns percursos, cheios de stouts e imperial stouts, de porters e de red ales, de pale ales, de dunkels e de weissbiers, de bocks, rauchbier, trapistas, pilseners e trippels, doppelbocks, amber ales e bitters, passei a não compreender os que, ao aproximarem-se da nossa fronteira, rezavam em coro: “Ah, não há cerveja como a nossa!” Havia. Se havia.

Havia, e desde antes de antes. Estrabão cita os lusitanos como aquele povo que sabemos – mas, para o que nos interessa, eles bebiam cerveja. Abundantemente, aliás. Não é um hábito diferente de todos os povos com agricultura – de que provém a cerveja. Apenas os arborígenes da Austrália e os esquimós não fabricaram cerveja; precisamente, porque não tiveram agricultura. O “pão líquido” dos antigos (era assim que era tratada a cerveja, como um alimento), aliás, é um dos grandes argumentos contra o criacionismo religioso: acreditar que o mundo foi criado há exactamente 6000 anos (mais exactamente 5767 na nossa tradição, quase 5768, uma vez que se aproxima Rosh Hashana) significa esquecer que existe cerveja cerca de 3000 anos antes dessa data. É uma injustiça. A menos que, antes disso, só o Criador tivesse o privilégio de bebê-la.

Hoje, é difícil criar uma cerveja má. Consegue-se, evidentemente, mas podemos reconhecê-la como aquela bebida com ligeira presença de lúpulo e alegadamente de malte, mas sem gosto e sem aroma. Nos EUA conheci cervejas magníficas (foram a minha última surpresa a acrescentar); recentemente descobri que só no estado de Santa Catarina, no Brasil, há sessenta e cinco cervejas desconhecidas à minha espera; aguardo uma viagem à Austrália para provar as setenta que se fabricam ali; as cervejas do norte e do centro de Inglaterra ainda guardam segredos fatais. Em todos os lugares do mundo há cervejas novas que recriam o pão líquido dos antepassados do Crescente Fértil, a “chicha” das Américas, a “ole” dos saxões.

Há dois anos, quando pensei que tinha chegado ao fim do mundo, para lá do sul, em Ushuaia, às portas da Antártctida, entrei num bar ao fim da tarde, o The Irish Pub at Ushuaia (para quem não saiba, ó pormenores fatais, fica a poucos metros de uma livraria que só vende livros de viagem e mesmo diante do derradeiro ancoradouro do Canal Beagle, onde Charles Darwin desceu), e senti-lhe o cheiro, à cerveja artesanal: ligeiramente tocada por citrinos, pressenti o amargor definitivo, imaginei a pérola de espuma a formar-se – e fechei os olhos. O barman, um argentino recortado sobre um quadro onde tinham emoldurado uma camisola de Diego Maradona, sorriu quando lhe perguntei se tinham cerveja. “La mejor!” Em toda a Argentina, de Corrientes, na fronteira do Paraná, até aos Andes e ao estreito de Magalhães, provei cervejas magníficas, brutais. Os velhos hippies de El Bolsón, na Patagónia andina, por exemplo, fabricam uma dezena de cervejas artesanais que pedem meças a qualquer uma que possamos beber em Manchester ou em Bruxelas. “La mejor que venga”, propus eu. E veio. Nunca mais, repito, nunca mais bebi uma cerveja assim, como a “Ushuaia” – pareceu-me ter um travo de limão, um diabo à solta dentro da caneca de vidro. Voltei nessa noite, e no dia seguinte, e mais duas ou três noites, e despedi-me comovido da última garrafa que trouxe comigo, umas semanas depois, já em Portugal. Era boa? Era. Era a melhor? Naquela hora, sim. Eu tinha feito uma caminhada de doze quilómetros até ao sopé do glaciar El Martial, e foi a melhor cerveja do mundo. Essa é a grande lição da cerveja: a sua circunstância.

2.8.07

«Longe de Manaus»
Entre a poesia e a ficção.
E com humor, com muito humor
O policial Jaime Ramos volta a investigar...



Há um crime, um corpo que nada diz. Mas uma série de vestígios, de pequenos nadas que o persistente inspector Jaime Ramos, conhecida personagem de Francisco José Viegas, monta passo a passo. Recolhendo pistas, detalhes, traça, na verdade, a biografia de uma vida interrompida. E é a partir desse abrupto do crime que vasculha casas e vidas, e descobre tragédias, amores, e os tantos lugares em que o português se perdeu pelo mundo.

Natural de Vila Nova de Foz de Côa, onde nasceu no ano de 1962, Francisco José Viegas, actual director da Casa Fernando Pessoa, obteve com este livro o Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB 2006. Do Porto a Luanda, da Guiné ao Manaus, o seu personagem, Jaime Ramos, investiga um caso que nos leva em viagem. Conhecendo as cidades que conta, o autor deixa que a língua (que os diferentes ocupantes da língua) lhe dêem uma riqueza e perspectiva próprias. Mais uma vez o policial é em Francisco José Viegas uma magistral forma de poesia e ficção que condimenta a inconfundível humor. Flui, tudo flui na leitura de «Longe de Manaus»... (Ao prazer da leitura acrescente-se a inteligência do retrato.)


...gente com vidas interrompidas

Círculo de Leitores online - Polícia, biógrafo e escritor – como liga estas profissões? Tem o seu investigador Jaime Ramos algo de biógrafo, e tem o Francisco José Viegas algo de investigador de vidas?

Franscisco José Viegas - Há uma cumplicidade entre mim e o Jaime Ramos. Eu sou um admirador da sua minúcia, da sua actividade de investigador. Nessa medida, ele é um personagem que existe independentemente de mim. Ao fim destes oito livros em que ele aparece como personagem, já não posso comandá-lo totalmente, como acontecia no princípio, até por respeito para com os leitores, que conhecem alguns pontos essenciais da sua vida. Ele tem uma biografia, uma vida cheia de memórias, tem tiques, hábitos, tem idade, defeitos, tudo o que acontece geralmente a uma pessoa viva. Nessa medida, do ponto de vista do “jogo de criação literária”, eu sou um biógrafo de Jaime Ramos. Não me desagrada totalmente essa opção, uma vez que eu acho que o romance tem de viver sobretudo de personagens, ou pelo menos funciona em seu redor. Claro que ele é o meu instrumento, mas enquanto instrumento puramente literário ele faz coisas que eu não posso fazer… Em cada livro há como que uma biografia de um personagem.

CLonline - Volto agora atrás, ao começo. Como surgiu a escrita deste romance?

FJV- Havia uma ideia inicial, a de escrever sobre um personagem que não queria regressar a Portugal depois de muitos anos a viajar pelo mundo, trabalhando aqui e ali. Com o tempo, a ideia foi mudando, e cheguei à definição de um personagem que tem laços a prendê-lo a todos os lugares onde Portugal esteve, Guiné, Brasil, Angola, por aí fora… E acabou refugiado em Manaus depois de tudo. Uma notícia no “Jornal de Notícias”, naquelas páginas do interior, acabou por dar corpo à ideia, foi uma espécie de motor para a ideia que eu já tinha e que encontrava, assim, correspondência com a realidade. Fundamentalmente, gente com vidas interrompidas pelas circunstâncias da História – da guerra colonial, de um casamento medíocre, de um passado funesto, de um passo mal dado. Coisas que aparecem em todos os meus livros. Acho que nunca há uma história precisa de um livro, uma história rigorosa… Por exemplo, em “Longe de Manaus” aparecem personagens que não fazem parte da história principal, mas pelas quais me apaixonei, como Daniela e Helena – elas teriam de aparecer, justamente porque na nossa vida também há gente que aparece sem razão. Aparece e pronto. Aparece.



Notas, cadernos de viagem, papéis soltos...

CLonline - E poderia falar-nos um pouco do seu método de escrita para este livro?

FJV -Escrevo à mão e no computador, indiferentemente. Sirvo-me de muitas notas de viagem e, sobretudo, gosto sempre de manter alguma fidelidade em relação aos lugares. Manaus é Manaus, São Paulo é São Paulo, Porto é o Porto, Vila Flor é Vila Flor… De resto, escrevo em planos-sequência, sigo um método de montagem que me salva da dispersão. Estou sempre a voltar atrás, a corrigir datas, a obrigar-me a manter uma certa coerência naquilo que é o fio da narrativa. Quando chega a altura de escrever a versão final uso todos os materiais onde fui escrevendo – notas dispersas, cadernos de viagem, papéis soltos, blocos onde fui tomando nota de frases, pormenores, micro-histórias, genealogias…

CLonline - Uma curiosidade mais quanto à construção (ao nascimento) das suas personagens. Não consigo deixar de pensar nas palavras vestígio, desarrumação, nessa procura dos pequenos nadas de Jaime Ramos durante as suas investigações criminais. É também assim que encontra as suas personagens: entrando nas suas casas, no seus quartos, sabendo o que guardam no frigorífico, nas gavetas... Como investigou, por exemplo, a vida de Jaime Ramos?

FJV -Uma coisa que me impressiona muito é a natureza das coisas que se deixam dispersas depois da morte. Os bilhetes, a arrumação da casa, etc. Jaime Ramos percorre esses cenários fazendo o inventário de coisas interrompidas. Um homicídio, naquilo que tem de trágico, é sempre uma interrupção na biografia de alguém. E por isso ele pergunta-se sempre: o que faria este homem, ou esta mulher, se não tivesse sido assassinado? Mas a única ligação que temos com esse personagem são objectos deixados ao abandono, rastos, pegadas invisíveis numa casa ou onde quer que seja. É verdade que ele gosta de espiolhar nos frigoríficos porque tem essa obsessão, saber o que as pessoas comem, como elas se definem pelo que comem. No caso de Jaime Ramos, ele foi crescendo nos livros, e eu fui acumulando dados sobre a sua vida – o que veste, o que come, qual a natureza da sua conta bancária, onde mora, tudo pormenores que acho importantes para definir o personagem com alguma coerência. Imagino a sua cozinha, o seu quarto, recorto fotografias daqui e dali, desenho pormenores da varanda da casa dele, faço listas de compras que ele fará depois, vejo como são os pescadores da Ria da Aveiro, etc.



Policial como modelo de descoberta
Tragédia e Drama

CLonline - Negada a estrutura convencional de policial (quer por si, logo no início do livro, quer pela sua leitura), porque recorre ainda assim a esse fio da investigação criminal?

FJV -Porque o policial garante um modelo de descoberta, uma história com princípio, meio e fim – embora não tenha, necessariamente, de começar pelo princípio, ou de terminar no fim. O policial é uma espécie de método, de ideal de perseverança numa investigação. Toda a literatura, nessa medida, é policial – além de se preocupar com a morte, o desaparecimento, o crime, o mistério, que são os motores da narrativa policial. No meu caso não me interessa o policial como interrogação social ou sociológica sobre o mundo do crime ou da violência. Não sou sociólogo nem o escritor tem de se preocupar com a sociologia; em meu entender, o policial constitui uma reinvenção do mundo a partir de uma tragédia (o crime) e de um drama (a necessidade de saber, a possibilidade de punir). Num outro livro, uma novela, “A Poeira que Cai sobre a Terra” (Visão, 2006), Jaime Ramos sabe tudo sobre os crimes, sabe tudo – mas recusa-se a avançar na investigação, vai acabar por eliminar os vestígios e as provas. Ele assume o lugar do juiz. Assume o lugar da moral. O policial tem essa possibilidade.

CLonline - Sente que convoca os diferentes “géneros” que povoam o seu romance, ou que eles simplesmente fluem até à sua escrita? Pergunto talvez que influências sente trazer para este livro, de que outros autores, de que outros livros?

FJV - Acho que “Longe de Manaus” está um pouco marcado pela literatura brasileira dos anos noventa. Rubem Fonseca, Noll, Assis Brasil, Hatoum. Eles são excelentes escritores, creio que a literatura brasileira tem uma vitalidade e uma originalidade muito maiores do que a ficção portuguesa de hoje. E reinventaram a forma de contar uma história na nossa língua. Mas não abdico daquilo que se costuma dizer que os meus policiais são: um cruzamento entre poesia e ficção. E humor. Gosto que Jaime Ramos tenha humor. Não gostaria dele se não tivesse humor.



...os portugueses ficam melhores quando se misturam com outra gente ou quando conhecem outras terras.

CLonline - Habitado por tantos lugares, por tantas personagens que o investigador Jaime Ramos vai descobrindo, existe aqui o retrato do ‘português’?

FJV - De uma certa forma de ser português, sim. O português que conheceu África e o Brasil e para quem a pequena pátria é uma ameaça. Não sou patriota nem nacionalista, como, aliás, acontece com quase todos os portugueses. Há uma cena no livro, uma viagem até Trás-os-Montes, em que Jaime Ramos está fascinado pela paisagem, pelas montanhas – e aparece-lhe uma lixeira a céu aberto, lixo ao longo das estradas. Não é um país limpo. É um país bonito, sim, mas encoberto pela vileza e pelas lixeiras contínuas. E um país inexplicavelmente triste. Mas é o nosso.

CLonline - O como se diluiu (transformou) esse português pelo mundo?

FJV - Dilui-se muito bem. Provavelmente, é o povo que melhor se mistura com os outros, que melhor assume outras condições culturais, outras influências, outras gastronomias, outras línguas. Acho isso uma vantagem enorme. Acho que é uma das nossas melhores características, que, aliás, mitigou um pouco o nosso racismo, o nosso colonialismo – que nunca foram tão abjectos como o inglês ou o espanhol, por exemplo. Acho que os portugueses ficam melhores quando se misturam com outra gente ou quando conhecem outras terras. Quando se libertam da pequena pátria.

CLonline - O que pode também levar à pergunta da língua. Usa a sintaxe e fraseologia desses diferentes lugares no mundo onde se fala o português. Mais uma vez, essa foi uma opção natural de escrita? Ou uma opção deliberada?

FJV - Foi uma opção deliberada. Vivi cerca de ano e meio, dois anos, no Brasil, e percebi que os personagens brasileiros tinham de falar em português do Brasil, o que, para mim, nem representa uma grande dificuldade, uma vez que escrevo correntemente em português de lá. E há uma certa poesia nessa mistura, nessa perda de gramática.

CLonline - E nesse encontro com esses diferentes formas de falar o português, sente-se uma diferença de alma, uma diferença do sentir, de viver?

FJV -Sim, naturalmente. Necessariamente. O português é uma realidade que existe independentemente de nós. Já não somos os proprietários da língua – somos ocupantes, como os brasileiros, os angolanos, os moçambicanos, os cabo-verdianos. E é tão diferente a forma de pronunciar, dizer, falar – como de conhecer o mundo através de um sotaque diferente. Esses meus tempos no Brasil foram os mais felizes da minha vida.

Longe de Manaus


Alguns aspectos linguístico-textuais da construção de um "não romance policial"

Ana Martins

1. Uma questão de género

Quando vagueamos numa livraria e somos levados a pegar num livro, procuramos no paratexto, mais ou menos inconscientemente, o género ou tipo textual.

Longe de Manaus tem uma nota prévia, colocada mesmo antes da epígrafe: "Um romance policial, como se sabe, tem as suas regras. Este não tem."

Ora isto é uma contradição: as regras de um romance policial são regras constitutivas de género. Se este romance não tem essas regras não é um romance policial.

Mas então perguntamos: porquê a invocação do policial nessa nota prévia?

Em primeiro lugar, há um crime e um processo de investigação. Por conseguinte, está presente o universo de referência da criminologia, o contexto geral de referenciação de objectos e situações pertencentes à área da investigação policial. Temos, então, palavras e expressões como:

"corpo" , "matar", "polícia", obviamente,

mas também:

"contusões", "arranhões", "estrangulamento" (p.159)
"autópsia" (p.160)
"relatórios" (p. 177)
"fotografias da perícia" (p.238)
"rusga" (p.244)
"cadáveres" (p. 271)
"faquista"(p. 364)
"exames tanatológicos" (p.394)
"decúbito dorsal" (p.430)
"Ferida perfuro-contusa" (p. 430)

2. Especificidade do regime narrativo deste romance

Um dos traços centrais da ficção policial é a narração de orientação retrógrada: as movimentações e decisões do inspector/investigador são colocadas no presente e a partir deste presente vão partir evocações de acções dos agentes directos ou indirectos do crime. Estas acções estão situadas no passado. O narrador pode coincidir com uma personagem (o narrador homodiegético, para usar a terminologia da análise estrutural da narrativa) ou ser uma entidade não personificável, acima da consciência de qualquer personagem, mas sem carácter omnisciente. Note-se que uma regra básica do policial está em impedir que o leitor saiba mais do que o detective, justamente porque só assim há suspense.

Mas em Longe de Manaus o narrador funde-se na consciência de cada personagem, a que geralmente é dedicado um capítulo integral: isso acontece com Jaime Ramos, primordialmente, mas também com José Corsário e com Helena e Daniela. Outras vezes o narrador é uma entidade difusa e ficamos sem saber ao certo se as informações disponibilizadas emanam de alguma personagem. Veja-se, a título de exemplo, a ambiguidade que ocorre na transição do capítulo 14 para o 15: no capítulo 14, é Ramiro que fornece as informações sobre o passado africano de Portocarrero; no 15, esse relato prossegue como se não houvesse ninguém a proferi-lo, sem indicações quanto à presença ou identificação do sujeito da enunciação.

Não há aqui nada de narrativa póstuma, de reconstituição de factos, a cargo de um narrador homogéneo. Pelo contrário, o discurso avança através de constantes monólogos interiores, com diversos graus de interferência por parte do narrador.
Este regime enunciativo heterogéneo é secundado por numerosas instanciações discursivas: há vários pontos de partida temporais e espaciais; há vários "eu-tu-aqui agora". Não há só um presente, uma só actualidade (que seria grosso modo o tempo pós-crime) mas sim diferentes actualidades, diferentes projecções de momentos actuais. Esta técnica, aliás, reconhecida do romance existencialista e pós-moderno, é assinalada pelo recurso recorrente a deícticos (tempos verbais da série do presente, advérbios de tempo e espaço) que não apontam nem para o tempo nem para o espaço do processo de investigação do crime.

3. Referenciação do tempo e do espaço

Os tempos onde se situa o narrador são de diferente ordem:

• podem ser tempos ligeiramente dessincronizados da actualidade do processo de investigação (podem até ser fragmentos de tempos incluídos na actualidade da investigação):
" e sentiu que a hora de recordar a conversa de Corsário das Neves tinha passado. Mas ali, a caminho de São Paulo, foi a primeira imagem que veio ter com ele (...) José Corsário das Neves contara-lhe coisas que sabia." (...) Jaime Ramos acendera um robusto quando chegara ao Bonaparte e reacendera-o agora (...) (p. 229)

• podem ser tempos com um distanciamento de 30 anos (2004 ?1973):
"O dia caía redondo sobre a praia, iam as pretas muito juntas, rindo à beira da água (...) (p.74)
"Alferes Jaime da Fonseca Ramos, dando costas ao capitão e encaminhando-se para a proa do Diogo Cão com saudades da terra, não as mesmas que tem agora, quando caminha pelo molhe (...)" (p.76)

As reinstanciações espaciais são também abundantes:

a) Guiné
b) Luanda
c) São Paulo
d) Rio
e) Manaus

No que diz respeito à referenciação do espaço, é importante de assinalar o recurso a descrições definidas na abertura de capítulos, especificamente, a presença de nomes comuns antecedidos de artigo definido, determinante possessivo ou demonstrativo. Ora, estas descrições definidas dão como identificável pelo leitor os objectos e espaços referenciados. Se esta operação é realizada logo na abertura de um capítulo, há um efeito de imersão imediata do leitor numa situação nova.

"O escritório era uma espécie de armazém onde se amontoavam catálogos (...)." (abertura do cap. 27, p. 150)

"Aquelas mesas, Jaime Ramos conhecia aquelas mesas. E conhecia aquela luz. Mesas e luz, e inox, e instrumentos, e o cheiro." (abertura do cap. 30, p. 165)

"Aquele ruído, Jaime Ramos não o esqueceria tão cedo." (abertura do cap. 46, p. 263)

"Há quantos anos conhecia este bar?" (abertura do cap. 37, p. 206)

Algo de idêntico acontece na referenciação de pessoa. O leitor, ao iniciar um capítulo, é muitas vezes defrontado com uma personagem apenas pronominalizada, o que o obriga a uma inclusão total num contexto sem antecedente no capítulo anterior.

"Quase como uma música. Era mesmo uma música, o som do clarinete ao fim da tarde. Só depois disto choveu, ele diria "choveu tremendamente (...)" (abertura do cap 2, p. 13)

"Era uma casa de dois pisos, mais um cravado na rocha, em baixo, de tijolo amarelo (...) Um ar irrespirável ele lembrava-se (...)" (abertura do cap. 26, p. 146)

"Ela gostaria de saber com que frequência chove no Rio nesta altura do ano." (abertura do cap. 49, p. 293)

Esta proliferação de tempos e espaços exige do leitor um trabalho esgotante de relocalização e de reconstituição do contexto da acção que o distrai da procura do assassino e o dispersa pelas diferentes biografias e reflexões de ordem social e existencial. Veja-se a profundidade psicológica que adquirem personagens como Helena, Daniela, José Corsário, Osmar e, inclusivamente, o homem que depõe Shirlei no seu leito de morte.

4. Hibridismo enunciativo

Excluindo Jaime Ramos, aquelas personagens que são fruto de um maior trabalho de construção de carácter são Helena e Daniela.
Nos capítulos em que estas duas personagens entram em cena, o narrador ora relata factos objectivamente, ora assume a perspectiva da personagem, ora faz da personagem fonte de elocução directa. Este regime enunciativo - aliás, associável ao discurso indirecto livre - permite ao leitor aceder directamente à consciência da personagem na situação simultânea das suas reflexões, pensamentos e sentimentos.

Este regime é marcado pela presença de:

(i) Construções oralizantes de terceira pessoa

"Ah, ela gostara sempre de homens mais velhos (...)" (p.66)
"Ela gostava de Raí, sim." (p. 70)
"Era o português, sim, ao volante de um carro (...)" (p. 71)

(ii) Contiguidade de deícticos de sistemas temporais distintos

"Edilson explicara quase tudo o que é necessário fazer durante o dia de hoje (...)" (p. 65)

" O cigarro terminava e ela levantou-se, já não vinha ao jardim da Praça Buenos Aires há meses."(p. 71)

(iii) Modalização

"(...) podia lê-lo daí a uma hora ou duas, sentada à mesa da cozinha (...) podia ver as árvores da rua da Consolação (...) poderiam sair (...)" (p.89-90)

"(...) precisava falar com Helena, (...)" (p. 109)

O curioso é que é neste contexto - o contexto de reprodução (e demonstração encenada de uma consciência) - que tem lugar a activação da variedade do português do Brasil. Helena e Daniela são brasileiras, vivem em São Paulo, e a transparência daquilo que sentem e pensam, assume forma, verosimilmente, em português do Brasil.

É certo que há ocorrências lexicais e sintácticas desta variedade do português em capítulos que não dizem respeito a estas duas personagens. Quando assim é, essas ocorrências dão-se ou em discurso directo ou nos capítulos em que Jaime Ramos se desloca ao Brasil e não é de estranhar, então, a referenciação de instituições e locais que recebem designações específicas do sistema e modos de vida brasileiros: "delegacia"; "delegado"; "lanchonete".

Em todo o caso, são ocorrências lexicais esporádicas, ao passo que na construção das personagens Helena e Daniela as ocorrências são abundantes e diversificadas.

5. Variedade do português do Brasil

Contrastes lexicais
Palavras denotativas de realidades específicas do Brasil Contrastes preferenciais Empréstimos Etimologia
"o pampa"
"gaúcho" (p.330

"a cuia de chimarrão"
"bombachas"
"estanceiro" (p.331)

"boto" (p.309)
"ônibus"
"quadras"
"banheiro"
"suco" (p. 63)

"torcedora" (p. 64)

"terno"
"açougue" (p. 65)

"chope"
"caipira"
"babás" (p. 70)

"balanços" (p.90)
"time" (p. 91)

"fuscas" (p. 96)

"aposentadoria" (p.99)

"policial" (214)

"xícara"
"manobristas" (p. 221, 291)

"engraxates"(293)

"garoa"
"sebo" (p. 294)

"camiseta"
"camelôs" (229)

"dirigir" (carro) (p. 300)

"babaca"
"baseado" (p. 332)
"a box" (p. 63)

"cavanhaque" (p. 215)
(empréstimo a partir de um antropónimo Eugéne Cavaignac: general francês que usava barba crescida e aparada em ponta no queixo.)

"maillot" (maiô) (p. 90)

"garçom" (p. 295)

"containers" (p.330)

"suéter" (p. 96)
— do quimbundo:
"maconha" (p. 95)

" cacimba" (p.10)

— do tupi:
"cuia"(p. 331)

"muriçocas" (espécie de mosquito( (p. 13)

Contrastes sintácticos
Activação preferencial da próclise Ausência de artigo Preferência por formas não reflexas do verbo Diferenças na selecção de preposição
"O seu pai a levara ..."
"Se apaixonara por Raí" (p.64)

"A princípio lhe emprestara livros... " (p. 105)

"O pai lhe deixara..." (p. 213)
"Ela seguia suas jogadas..." (p. 64)

"Suas perguntas eram delicadas..." (p. 215)
" lembrava da primeira vez..." (p. 105)

"sentava na cozinha..." (p. 212)
"Olhou no espelho..." (p. 90)

Contrastes morfológicos
Diferenças de género Activação preferencial do gerúndio Recursividade do diminutivo
"uma ducha" (p.63)
"um misto quente" (p.63)
"um gin tônica" (294)
"ele sorrindo e afastando a cadeira, preparado para se levantar mas esperando ainda qualquer coisa..." (p.220)
"Daniela ficou vendo Walmir partir..." (p.398)
"barzinho" (p.71)
"menininha" (p.91)
"sacaninha" (p.97)

Contastes ortográficos e fonéticos
Grafia Fonia
— uso do trema:
"tranqüilidade" (p. 63)

"tranqüilo" (p. 214)

"freqüência" (p.293)

— acento circunflexo a marcar fechamento de vogal:
"ingênuas" (p.96)

— afectação de sequência consonantais:
"teto" (p. 95)

"deceção" (p.104)

"insetos" (p.11)

"objetos" (p. 217)

"ato" (p. 312)

— outras grafias:
"xampu" (p. 90)
— articulação
"...dobrava até os erres quando falava..." (p. 70)

— articulação e entoação:
"Acento caipira, dobrando os erres, subindo e descendo como uma pauta de sinfonia..." (p. 90)

6. Valorização manifesta da língua portuguesa

Percorrem o romance alguns "ralhetes" na medida em que se criticam más práticas no uso da língua por parte quer de advogados, quer de polícias.

"E tinha uma coisa rara, inspector: tinha boa gramática. Isso espanta-me muito hoje em dia." (p. 62)

"Jaime Ramos teria o caminho aberto, mas pouparia Portocarrero à humilhação de ser um advogado como os outros - podendo ser interrogado, ouvido nos autos, indicado como suspeito, ter de atender os telefonemas de agentes da polícia, cheios de má gramática (...)" (p. 113)

"Jaime Ramos admirava profundamente os advogados que falavam com uma gramática no cérebro, dispondo as palavras em camadas, organizadas por grau de dificuldade em função do fio da navalha em que se encontravam." (p.115)

"Meu português é bom, Daniela. Anotei sem erros" (...) "Ainda bem que seu português é bom, Walmir. Erro ortográfico é feio." (p. 220)

Mas também há a crítica a um uso pernicioso da língua no plano discursivo, a crítica à retórica balofa que tolhe o raciocínio e faz tropeçar a lógica.

"Este país é muito correto em tudo, é um país que gosta de falar e de ouvir-se. Frases cheias de advérbios. Verbos sonantes. Temos grandes poetas parnasianos, o nosso barroco é quase tão bom como o vosso, gastamos em gramática o que nos falta em verdade e clareza." (p. 277)

Para além da crítica, há a destacar a notação comovida da dimensão e diversidade da comunidade de falantes da língua portuguesa:
"Nessa noite relembraria o momento: ao olhar pela janela do avião reconheceu a mesma língua numa terra distante." (p.227)

"...e somente numa semana a sua língua mudara embora fosse a mesma. Essa língua mais sonora, cheia de vogas abertas e de alegrias desconhecidas, falada por africanos e por árabes, por homens como Padilha, brancos e pálidos, ou como Osmar, morenos e irónicos, sorridentes, ou pelo empregado oriental do bar do hotel." (p.362)

* Texto-base sobre o tema de emissão do programa Páginas de Português do dia 8 de Outubro de 2006.

23/10/2006

Há barcos que têm o destino traçado

© Francisco José Viegas || Visão


“Há barcos que têm o destino traçado”, disse o homem mais alto – o de óculos escuros – para o outro, que seguia atrás, com o charuto pendente dos dedos. Imaginara-o mais atarracado e mais magro, mas quando ele apareceu, nessa manhã, surpreendeu-o também que ele falasse tão pouco e tivesse aquele ar cansado de quem atravessou o país, ou pelo menos o Alentejo, para lhe dizer que estávamos em Agosto e que isso era uma grande contrariedade. Não foi bem assim. Mas na altura pareceu-lhe.

“Agosto é o mês mais fodido.”

Ele olhou-o então, de frente e de baixo para cima (porque estava sentado e o outro de pé) e não pôde deixar escapar um sorriso.

“E Abril é o mês mais cruel”, disse Alexandre Monteiro, como se fosse a segunda parte de um diálogo, esperendo resposta. Mas o outro não respondeu ao sorriso. Não respondeu a nada, aliás, limitando-se a acender o pequeno charuto com um fósforo que retirou de uma caixa. Só então o olhou para recitar, como se estivesse numa esquadra:

“Homicídio qualificado, profanação e ocultação de cadáver, destruição de bens, ataque em alto mar, roubo, utilização de drogas.”

“Não foi em alto mar”, disse, mas o outro não ligou.

“O alto mar é onde os barcos andam.”

“Não é isso. Eles podiam tê-lo morto mais perto da terra e levá-lo depois para o alto mar.”

“Eu sei. Mas, para mim, foi já longe de terra. É onde já não tenho pé.”

“Não gosta do mar?”, Alexandre Monteiro olhando-o de novo, retomando aquela espécie de conversa.

“Não”, disse ele ao levantar-se. “Nem de algas, nem de rochas escuras, nem de Agosto. Nem de naufrágios. Muito menos de náufragos. Já há malucos suficientes em terra.”

“Estranho, muito estranho. Nunca gostou do mar?”, voltou Alexandre Monteiro.

“Já”, murmurou o outro. “Mas foi há muito tempo.”

“Então, que o interessa neste caso? Só o crime? Saber quem matou e porque matou?”

“Interesso-me pela vida dos outros. É a coisa que mais interessa um polícia. Os polícias interessam-se cada vez mais por sexo, informática, filosofia, direito, vidas obscuras, hábitos conjugais, esoterismo.”

“Uma espécie de enciclopedistas.”

“Uma espécie. Qualquer dia vamos para a Ilha da Páscoa estudar rongorongo. Quando posso ver o barco?”

“Amanhã, se quiser. Está selado à ordem do tribunal, e não vai encontrar nada. Tudo o que havia para descobrir está já descrito nos relatórios e no processo. Análises de DNA, inventário, mapas, tudo. Até a quantidade de provisões.”

“Isso interessa-me, as provisões.”

“Davam para um banquete.”

“Hoje em dia, com a cozinha de fusão, tudo se faz”, ouviu-o ainda comentar. Já lhe tinham falado de Jaime Ramos, mas supunha que era outra pessoa.



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“Havia três comboios depois dessa hora. Apanharam o que chegou a Olhão um pouco depois do meio-dia. Exactamente aqui, em Vila Real de Santo António.”

“De onde vieram antes?”, perguntou Jaime Ramos.

“De Espanha. Só se pode vir de Espanha, a menos que gostassem das vistas e tivessem ido fazer turismo. Nunca se sabe. Hoje em dia há surpresas em todo o lado.”

Alexandre Monteiro não gostava do fumo do charuto, nem apreciava o desleixo do outro. Qualquer investigador seria melhor do que este homem vestido de jeans, t-shirt, e um blusão azul cheio de vincos. Mas ele não era bem um investigador.

“Deixaram o carro aqui”, murmurou. Continuava sempre a murmurar, como tinha murmurado durante a viagem entre Faro e Vila Real de Sto. António, de vez em quando olhando à direita, como se estivesse à espera que o mar subisse terra dentro para engolir torres, aldeamentos, campos de golfe, sapatarias, bares de alterne e camiões carregados de materiais de construção. Quando chegaram a Vila Real saiu do carro e perguntou a que distância ficava Cádiz.

“Cádiz? Duas horas, mais ou menos.”

“E o carro, como apareceu aqui?”

“Foi descoberto a 4 de Setembro, três semanas depois. É normal aparecerem carros abandonados deste lado da fronteira. Até houve espanhóis que vinham cá deixar os carros velhos, os destroços que já não queriam.”

“E barcos?”

“Barcos nunca deixaram aqui.”

“Mas pode vir a acontecer. Têm-me dito que no Algarve tem acontecido um pouco de tudo.”



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Jaime Ramos encostou-se à janela do hotel para ver melhor como o dia ia nascendo. Uma luz ténue, azulada, luzes de carros, gargalhadas na rua, um zumbido. Desagradava-lhe aquele caso e todos os materiais que coleccionara. Ele chamava materiais de colecção às pastas meticulosas que Isaltino de Jesus lhe deixava na secretária, debaixo de um dos cinzeiros que não tinha sido atingido pelos seus charutos.

“Está aqui tudo, chefe.”

Estava, quase sempre. Fotocópias de jornais, fotografias, papéis minuciosamente procurados nos arquivos e, às vezes, ilegalmente retirados de processos que estavam a milhares de quilómetros. Como este, de Cádiz. Puerto Sherry. Playa de la Puntilla. Uma fotografia de um barco, um trimarã esperando que a praia-mar o devolvesse à ondulação.

“Como consegues tu isto, Isaltino?”

“Com sorte, chefe, com sorte.”

Mas Jaime Ramos sabia que não se tratava apenas de sorte. Havia um incêndio no olhar de Isaltino ao aproximar-se do gabinete: primeiro olhava para o rosto de Teofilo Cubillas, pendurado na parede – um velho poster quase descolorido do “Norte Desportivo” que Jaime Ramos arrastava consigo de gabinete em gabinete, em mudanças que lhe desorganizavam a secretária e a paciência; depois, olhava com ar de censura para a secretária desarrumada; finalmente, falava.

“Chefe. Ontem andei a abrir-lhe o caminho”, ajeitando a camisa de manga curta, puxando ligeiramente a perna das calças antes de se sentar. Jaime Ramos não lhe invejava nem a disciplina nem a arrumação – considerava ambas resultado de um talento providencial que tocara a nova pequena-burguesia dos subúrbios, gente que tinha subido a pulso em carreiras insignificantes e que não largava os velhos hábitos dos pais. Isaltino era parte do antigo Porto.

“Chamam-no ao Algarve, chefe, é melhor levar isto.”

“É a nossa internacionalização, Isaltino. Já vamos ao Algarve.”

“Algarve é Portugal, chefe.”

“Talvez, Isaltino, talvez. Para lá do mercado de Espinho e da ria de Aveiro é tudo uma grande incógnita.”

Jaime Ramos chegara nessa manhã e percorrera a costa do Algarve ouvindo o relato daquele homem diligente que o recebera e lhe passara as informações do processo. Alexandre Monteiro usava gravata e um fato que mostrava como a polícia, agora, se incomodava com a imagem que deixava nas fotografias dos jornais, à mistura com aquela linguagem dos novos bacharéis de Direito processual. Na viagem entre Campanhã e Faro lera todos os materiais de colecção reunidos por Isaltino de Jesus. À medida que se aproximava do Algarve sentia como era inexplicável aquela simplicidade de um crime cometido por gente inábil que tinha entrado num barco e matara o tripulante depois de o deixar amarrado e à deriva no mar. E, mentalmente, reconstituíra todo o guião preparado para explicar um crime simples e banal – um homem e uma mulher de um lado, um belga solitário do outro. Mas a solidão deste solitário não era a solidão dos simples, Jaime Ramos pressentia. Até que viu o sublinhado providencial de Isaltino, traçado sobre aquele nome: Cádiz.

E o que Cádiz lhe lembrava não vinha em nenhum dos processos e ainda não fora mencionado nos jornais. Muros fenícios, ruínas de Cartago, gregos e árabes, e o ruído do mar. Ele lembrava-se do ruído do mar porque Rosa gostava de camarões grelhados como se comiam em Puerto de Santa María, e um dia quiseram conhecer o Mediterrâneo.

“O mar é aquela quantidade de água azul”, ela, Rosa, mostrando-lhe o Mediterrâneo. Teria sido há dois, três anos, pela Páscoa. Mas o seu Mediterrâneo não era o daquele trimarã que parecia abandonado na Playa de la Puntilla, e que depois entrou em Puerto Sherry. Eles não sabiam isso. Ele sabia. Isaltino tinha descoberto sem entrar nesses delírios, conversa sobre naufrágios e sobre as aventuras no mar. Ele sabia que a história não se poderia reduzir a uma mulher e um homem entrando num barco para matar o dono, deixando-o amarrado e entregue à tempestade que havia de transformá-lo num náufrago. Era isso que o interessava: a onda que se elevava mais alto que as outras. Esse resumo podia facilitar as coisas. Mas a vida não é fácil.



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Três mulheres estiveram no barco naquela noite. Jaime Ramos está sentado num muro diante da penumbra da ilha da Armona e ouve o ruído de um pequeno barco que se afasta do cais, naquela noite de Agosto, levando dois passageiros e caixas de provisões. Um banquete. Ouve vozes e risos. Ouve a água batendo no casco do trimarã, fundeado ao largo, entre as sombras de Agosto. Brisas que volteiam nos pequenos golfos, baías, enseadas, entre ondulações. A meia-idade no Verão, pensa ele reparando nas fotografias daquele homem de sessenta anos que dois dias depois é retirado das águas, amarrado como num cerimonial erótico. Três mulheres, talvez dois homens apenas. Um velho funcionário público belga, retirado com as suas economias, fascinado pelo azul do Mediterrâneo, inútil longe de casa, do seu trabalho insignificante.

Cerimonial erótico, expressão que não quer dizer nada. Um atrevimento súbito no Mediterrâneo, em plena madrugada, em plena tontura da embriaguez. Os fantasmas do Mediterrâneo levantam-se das águas, naquela tepidez de Agosto.

“Não gosta do mar?”, Alexandre Monteiro perguntara-lhe.

“Não.” Mas não era realmente verdade, tratava-se apenas de uma defesa contra o perigo da melancolia.

Duas mulheres e um homem tinham atravessado aquele canal no dia seguinte, devolvidos a um aldeamento com açoteias pré-fabricadas e varrido pelo vento. O único rasto era o daquele casal que fora depois recolhido no alto mar. E Cádiz.



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A nota, deixada por Isaltino de Jesus, era uma notícia do “Diario de Cadiz”, de 12 de Agosto, que assinalava uma “rotura de la cadena del ancla que lo tenía fondeado frente a la playa de El Aculadero, en las proximidades de Puerto Sherry. Su único tripulante, un varón francés de mediana edad que hace un recorrido turístico por la costa española, dio aviso de socorro al no poder controlar la embarcación que minutos después embarrancaba en plena arena de La Puntilla”. Há barcos que têm o destino traçado. Nada se teria passado no mar que não fosse uma repetição de um encontro anterior em Cádiz. Um marinheiro enviou a mensagem: que el timos y la elice no tienen buena pinta” e teria de ser reparado em Puerto Sherry, onde aquele homem que se recusava a ser velho conheceu o casal.

“Não tem provas disso”, comentou Alexandre Monteiro, que aproveitou a dúvida para ajeitar o alfinete dourado da gravata.

“Não tenho provas de nada. O mar não é bom para a cabeça das pessoas.” A vida que acaba de qualquer modo, sorriu Jaime Ramos, finalmente. Tudo o que diria um juiz, diante daquele relatório policial que menciona sevícias e tortura e um corpo amarrado. O velho era mau marinheiro e despedia-se da vida.

“O senhor imagina isso só por eles serem franceses. Eles mataram-no porque queriam o dinheiro dele. Não se iluda, eles sabiam o que queriam. Não vá em orgias. Quem quer dar uma foda tem bons hotéis em terra.”

Alexandre Monteiro não tinha a imaginação prodigiosa daqueles que temem o mar. Mas a vida ronda essa tepidez que tanto se sente em Cádiz como em Olhão, como nas sombras da Ilha da Armona.

Jaime Ramos concordou, acenando com a cabeça. O mundo estava cheio de maus marinheiros.