
We have no more beginnings {George Steiner}
Sondagem Expresso/SIC/RR/Eurosondagem
Apesar de tod a contestação, o Partido Socialista continua, a um ano das eleições legislativas, no limiar da maioria absoluta, e José Sócrates com um saldo de popularidade invulgar. Este mês o PM volta a subir mais umas décimas estando quase nos 30%, sendo apenas ultrapassado pelo Presidente da República. À esquerda do PS, PCP e BE mantêm a tendência de subida, atingindo – quando somados – 18,8% das intenções de voto. Já os partidos à direita dos socialistas – PSD e CDS/PP – reúnem 33,2% das intenções de voto, estando assim abaixo do resultado obtido nas últimas eleições legislativas.
No mês em que se demite e depois de conhecida a sua decisão, Luís Filipe Menezes obtém a sua maior subida e atinge o saldo positivo que lhe escapava há seis meses estando próximo dos 4%.
Por outro lado, Cavaco Silva regista a sua maior quebra na bolsa de popularidade, porventura resultado da condescendência com que tratou o presidente do governo regional da Madeira durante a sua recente visita à região. O Presidente da República cai 7,4% em termos de popularidade podendo inferir-se deste resultado que, ao contrário da doutrina fixada por Jorge Coelho para o PS, quem não se mete com Alberto João Jardim, leva!
Que segredo terá José Sócrates para manter a sua popularidade tão elevada? Será mesmo que, para os continentais, elogiar Jardim é motivo de punição? \Se sim, que leva o líder regional a sonhar a liderança do PSD?
BICICLETAS EM LISBOA. Mail de Duarte Sobral:
Tive o prazer de ler a conversa que trocou com Tiago Carvalho a propósito de bicicletas em Lisboa e gostava de me intrometer, mas n'A Oigem das Espécies não há a possibilidade de fazer comentários directamente.
Uso a bicicleta como meio de transporte, não uso capacete e também não gosto de astronautas. Quanto à lycra uso-a exclusivamente nos desportos aquáticos porque, além de não a achar confortável em terra, associo-a directa e inconscientemente ao desporto hardcore e a transpiração extrema, de tal forma que só de ver alguém vestido de lycra sinto comichões. Há uns meses vim trabalhar para Sines onde fiz uma descoberta aterradora. Descobri então que algumas pessoas desta pequeníssima cidade se fazem deslocar diariamente de carro para todo o lado (por vezes em distâncias inferiores a 400 m). Fiquei ainda mais surpreendido quando encontrei algumas dessas pessoas trajadas de astronauta, com calções de lycra, sweat-shirts e garrafinha de água na mão, a marchar furiosamente pela marginal aos pares e aos trios... com o espanto demorei a perceber que estavam a praticar o footing porque, dizem os médicos, é uma actividade desportiva muito benéfica para a saúde e muito eficaz na redução do risco de doenças cardio-vasculares. Apeteceu-me gritar: Vão-se Footing, pá! Passam o dia sentados no escritório ou no café, para onde vão sentados no carro, e ao fim da tarde vão suar que nem umas bestas, a praticar o footing!!!
Como urbanista, considero esta perspectiva da actividade física perversa e perigosa para as nossas cidades... pessoalmente acho-a completamente idiota e só encontro explicação para ela no domínio da psicanálise.
O perigo da amnésia ou Tal como algumas pessoas já não concebem a vida sem telemóvel:
Se entendemos a locomoção humana, o andar a pé, como uma coisa do domínio do desporto estamos, desde logo, a renegar uma adaptação natural conseguida ao longo de milhões de anos de evolução, que nos permite gastar menos um terço da energia que um quadrúpede, por unidade de distância percorrida, e 15 vezes menos que um automóvel!
Suponhamos, por absurdo, que no futuro o andar a pé "ascende" à categoria de desporto. Numa cidade como Lisboa, onde os passeios já são barbaramente invadidos por automóveis, a solução "natural" seria convertê-los em estacionamento e substituí-los por modernas pistas de footing ao longo das marginais ou dos parques – ainda mais modernas que as actualmente existentes no Estoril ou Algés. Seria o fim da cidade tal como descrita por Jane Jacobs ou Manuel Leal da Costa Lobo, e a concretização tardia do delírio Modernista de Le Corbusier, num momento em que a carta de Atenas já não passa de uma curiosidade histórica, comprovadamente descabida para servir o desenho de habitats humanos.
Encontro claramente um paralelismo entre os astronautas do pedal e os astronautas do footing. Para muitas pessoas o facto de eu chegar ao trabalho de bicicleta faz de mim um desportista... e qualquer dia acontecerá o mesmo a quem chegar a pé?
A necessária inversão da perspectiva:
Num Mundo acelerado, em que o espaço e o tempo são recursos cada vez mais escassos, encontramos na multifuncionalidade dos espaços e do tempo soluções muito interessantes. Para dar um exemplo: ao contrário de algumas pessoas que aceleram (e travam... e voltam a acelerar e a travar) as suas viaturas de casa para o trabalho, do trabalho para o ginásio (onde praticam o footing em passadeiras e o ciclismo dá pelo nome de RPM) e do ginásio para casa, eu, na minha bicicleta faço o exercício do ginásio, de casa para o trabalho, do trabalho para a mercearia, da mercearia para casa. Não o faço pelo incentivo do Sr. António Costa mas porque assim poupo tempo, poupo espaço e, mais importante que tudo, poupo dinheiro (além do gozo que me dá passar por entre os carros na Av. De Roma na hora de ponta)... e assim o tenho feito desde há 5 anos para cá. Teria sido uma ideia genial se não fosse tão óbvia e estaria rico se, à semelhança da Lycra, esta descoberta fosse patenteável.
Um exemplo mais comum pode ser encontrado no espaço do WC e no tempo de enviar um fax onde muita gente aproveita simultaneamente para pôr a leitura em dia. Le Corbusier diria: até leria na casa de banho se não preferisse a biblioteca (tal como FJV prefere o paredão do Estoril), Hitler proibiria a leitura no WC (tal como proibiu a circulação de bicicletas fora das ciclovias, que por sinal foram inventadas pelo III Reich como forma de abrir as ruas ao Volksvagen). E assim se perpetua o despautério Modernista, que despreza a história e reinventa a pólvora para mais tarde perceber que a solução original era melhor.
Por trabalhar em planeamento urbano tenho que considerar as realidades emergentes e tentar antecipar as tendências futuras, a intuição diz-me que mais cedo ou mais tarde vamos ser obrigados a mudar os nossos hábitos de mobilidade. A questão é se temos a coragem de defender a mudança necessária e o estômago para aguentar comentários de "velhos do Restelo", ou se nos resignamos a ser confortáveis cidadãos dum País que vai a reboque e só muda quando já não tem alternativa. Nunca tive dúvidas que a política exige estômago mas fico contente por ver algumas demonstrações de coragem.
Duarte Sobral
«Lourenço Marques»
À Solta
[Entrevista ao site do Círculo de Leitores]
Cachimbo, imagens, montagem e banda sonora. O papel e a caneta foram substituídos pelo computador. Manuscritos e manuseáveis continuam os caderninhos de apontamentos que guarda entre viagens. Para este livro foram seis ou sete, não precisa. Nem precisa o exacto balanço entre oficial e anónimo. Ouviu, pesquisou, conheceu os lugares de um dito paraíso.
Entre as acácias, o calor e a ruína a travessia impôs-se dura. Miguel, o seu protagonista, regressa a Maputo passados mais de vinte anos com o pretexto de encontrar Maria, o seu primeiro amor. O autor, curioso da Lourenço Marques que sempre ouvira contar, regressa a um tempo perdido e faz-nos perder na paisagem de personagens, suspeitos e ironias. Seguindo a trama de um policial rompe na verdade com um complexo. O complexo colonial.
À solta mas com mapas Francisco José Viegas falou connosco na redacção da «Grande Reportagem». Jornalista, crítico e escritor, colaborou no JL, no Expresso e no Semanário tendo sido director da revista literária LER durante doze anos. Da poesia ao teatro, do romance ao conto, rejeita pretensões e aponta a brevidade dos momentos de revelação. A conversa correu leve, entre as gargalhadas e inflexões que a transcrição da entrevista não captam na íntegra. Podemos contudo adiantar que ao som das respostas o autor acrescentou as músicas que ouviu durante a escrita do livro. Privilégios da entrevistadora que aqui partilha as várias hipóteses de leitura de um livro que se pretende avesso a caminhos em linha recta.
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Círculo de Leitores online - Como nasceu este livro ?
Francisco José Viegas - Como quase todos os meus livros, nasceu de uma viagem. Neste caso uma viagem a Moçambique. Depois de uma primeira passagem pelo país fiquei com a impressão que tinha uma história a contar, uma história com mistura de policial. Com o tempo dei-me conta que o que tinha a contar ultrapassava os limites do policial. Por isso voltei quatro vezes a Moçambique para apanhar histórias, para encontrar personagens - se bem que no final tenha acabado por perceber que os grandes personagens da história estavam aqui em Portugal.
CLonline - «Lourenço Marques» é um livro repleto de memórias, detalhes, sons, cheiros e imagens. Como é possível chegar a esse tipo de detalhe sem ter de facto vivido em Moçambique no tempo que descreve ?
FJV - Trabalhando. As viagens a Moçambique foram muito simples, viagens de terra em terra, de jipe, de «chapa» (o autocarro colectivo), viagens de reconhecimento. Depois existe o espantoso, o lado espantoso da descoberta de África por um europeu.
CLonline - Viaja sozinho ?
FJV - Algumas vezes sim.
CLonline - Tira apontamentos, anota?
FJV - Vou à solta. Se uma pessoa não for à solta, se não estiver disponível não encontra nada, ou então só encontra aquilo que quer encontrar. Nesse caso é melhor não viajar. Embora eu soubesse onde queria ir - à ilha, a Nampula, Pemba.
CLonline - E porquê esses sítios em específico?
FJV - Porque eram os sítios que haviam marcado a memória das pessoas que eu tinha conhecido. Eu brinco muito com esta história, mas é verdadeira: o primeiro umbigo de mulher que vi foi o de uma rapariga do meu liceu que tinha vinda de Moçambique. Sempre me fascinou essa gente vindo de Moçambique. Representavam um mundo extraordinário de pessoas completamente diferentes dos portugueses da metrópole. Vinham de um mundo mais livre, mais apetitoso, de um local mais aberto, com sol, com outros hábitos, de um mundo em que se bebia «Coca-Cola». As pessoas não se lembram mas em Portugal não se vendia «Coca-Cola», era proibido.
CLonline - Durante as suas viagens falava com pessoas que já lhe tinham sido indicadas ou houve uma procura de testemunhos ?
FJV - Consultei os arquivos históricos de Maputo, os jornais da época, e entrevistei algumas pessoas, quer dizer, não entrevistei, falei com as pessoas. Não há no livro uma fonte oficial. Não digo a transição do poder em Moçambique foi ‘assim’. Usei vozes comuns - mais do que vozes anónimas, vozes comuns. O método de escrita passou muito pela recolha de material. Só que, e este é o drama do livro, eu sabia que não seria capaz de escrever o livro como planeado, como um policial, e durante muito tempo o livro esteve parado. No tempo em que estive parado escrevi mais dois livros. O grosso de «Lourenço Marques» acabou por ser escrito em 2002.
CLonline - E o que o fez retomar a escrita ?
FJV - O ter rompido com um complexo, o complexo da culpa colonial. Só acabei o livro quando eu próprio consegui romper com esse complexo. Uma senhora perguntou-me porque é que eu não tinha dado o título de «Maputo» ao livro, e eu respondi que nada tinha a ver com Maputo. Esta história não é uma história sobre moçambicanos, é sobre a África dos portugueses. Não podemos arrancar a memória. Não podemos branquear o colonialismos, nem os seus crimes, nem a violência, embora eu não tenha tentado fazer uma história dessa violência colonial nem do racismo. Procurei o lado feliz. Mas o livro não deixa de ser sarcástico com os brancos.
CLonline - A nostalgia atravessa aliás todo o livro.
FJV - Conheci muita gente em Portugal com saudades de um lugar chamada Lourenço Marques. Com a perda da cidade houve a perda de um mundo, a perda real de pessoas que tiveram de reconstruir a sua vida a partir do nada. E o Portugal dessa época foi muito hostil com os retornados. Uma posição que hoje, a esta distância, me parece injusta porque eles foram uma força transformadora, com capacidade de iniciativa, e acabaram por mudar Portugal e a estrutura económica do país. Também mudaram as nossas ementas nos restaurantes, a forma de vestir, de falar, o nosso imaginário que passou a ter novas referências. Quando se diz o nome ‘Lourenço Marques’ essas pessoas parecem ficar com um clarão no olhar, um clarão de nostalgia, não de saudade troglodita colonial.
CLonline - Miguel, o protagonista, procura Maria de Lurdes ou procura as suas memórias ?
FJV - É difícil separar as duas. Há duas perdas, a perda de um mundo e a perda de um amor não concluído. As duas cruzam-se.
CLonline - Existe também uma certa ideia de paraíso perdido. Esse paraíso localizado no passado é já uma elaboração da memória ?
FJV - O paraíso só existe no passado. As coisas no passado tem uma textura que não têm no presente, a nossa memória é muito selectiva e as coisas voam-nos... Por outro lado aquele passado está de facto marcado por várias coisas, pelo amor, pela família, pela natureza. A vida em Moçambique era muito melhor que a vida que encontraram aqui. Era uma vida mais livre. Se pensarmos que em Moçambique passavam filmes proibidos aqui percebemos a diferença de hábitos sociais, sexuais e culturais - muito mais livres que os nossos em Portugal. E, realmente, o calor afecta e dilata os corpos.
CLonline - Das histórias que recolheu e ouviu quais as que usou no livro ?
FJV - Conto histórias que aconteceram e outras não. Algumas das histórias coincidem com o período de loucura que se viveu em Moçambique, por exemplo, uma pessoa podia ir a sair do cinema, no centro de Maputo, e pediam-lhe os papéis. A pessoa dizia que não tinha, que ia buscá-los e era convidada a entrar num veículo. Uma semana depois estava no Niassa. Geralmente existe o mito de que o autor tem imensas coisas a dizer sobre o livro. Eu fui fazendo-o, escrevendo-o. Algumas personagens tocaram-me de uma maneira quase brutal, como o médico de Lichinga que mantém um resto de dignidade notável - e ainda hoje dou por mim a pensar na pessoa real por detrás do personagem. O xeque Abdurrazaque também existe e tem este nome.
CLonline - Mas quando parte para a escrita já tem as personagens delineadas ?
FJV - Sabia quem era Maria de Lurdes, que ela se atirava à piscina e que era perversa o suficiente para despir o maiô. Tinha uns seis ou sete blocos de apontamentos a que ia buscar o que precisava, pormenores que não pareciam importantes mas que depois, de repente, se revelaram explosões. O meu método é muito cinematográfico, funciono por imagens, por cenas. Escrevo directamente no computador, escrevo sempre acompanhado de um conjunto limitado de discos, que gravo no computador e que funcionam como banda sonora. Cada personagem tem uma canção, cada ambiente tem uma música, o que me ajuda a escrever. A dada altura já não podia ouvir Tindersticks...
CLonline - Que eram a banda sonora de quem ?
FJV - Do Miguel. Da Sara é uma confusão, desde Chillout a música mediterrânica. O Domingos Assor é muito música instrumental por causa dos seus delírios.
CLonline - A trama policial acaba por ser um pano de fundo, um pretexto ?
FJV - Nos outros livros o policial é declaradamente um pretexto. Neste é menos. Acontece um crime e existe uma investigação pelo que precisava de um personagem que fosse o Domingos Assor, que se está nas tintas para o dito passado glorioso. Ele sabe tudo e até ao fim mantém a esperança de que Miguel mereça saber a verdade. Leva o saco de Maria quando se vai despedir dele ao aeroporto porque espera que no último instante ele mereça a verdade. Mas o Miguel desiste, o Miguel é no fundo isso mesmo.
CLonline - Miguel não queria de facto encontrar Maria ?
FJV - Ele queria encontrá-la, o problema é que só recuperamos o passado quando o merecemos. Às vezes só conquistamos uma felicidade passada quando somos suficientemente loucos para, num gesto, colocarmos tudo em causa. Foi o que a Maria fez, mas Miguel nunca o fará. No livro alguns dizem que a Maria morreu, outros que foi ela quem matou Madane, são hipóteses. Nunca revelo o criminoso nos meus livros, sugiro apenas que poderia ter sido este ou aquele.
CLonline - Joga então com o leitor como se também ele tivesse de merecer a verdade. A irresolução é então aparente ?
FJV - Há sempre um sinal de quem é o criminoso, há sempre uma frase, um parágrafo onde a verdade aparece. Mas também o leitor tem de perceber que a vida não tem um único sentido. Mas sim, há sempre um sinal de como a história se poderia ter resolvido.
CLonline - Diria que há um ciclo de vingança inerente aos acontecimentos ? O português Zacararias dos Anjos morre nas águas onde Gungunhana fora preso por Mouzinho; na fotografia do paraíso de infância de Maria, Assor detecte o então criado Madane que se torna, com a independência, um temido capitão dos campos de reeducação, que será morto por um dos seus conterrâneos. Cumpre-se uma vingança ? Ou uma forma de justiça ?
FJV - A História é feita de vinganças. Há um ciclo de violência, um ciclo de racismo contra os brancos, e agora um tentar fascinar e cativar os fazendeiros brancos como aconteceu no caso do Zimbabwe. São os ciclos da história.
CLonline - Mas a sequência de acontecimentos, em específico a ligação entre esses três momentos, é uma acaso da História ?
FJV - É uma inevitabilidade. A História não pára, e sobretudo não pára em nome das loucuras que se cometem em seu nome. Era inevitável que as coisas acontecem-se daquela forma, que houvesse guerra, que surgisse uma perseguição aos brancos, que os brancos moçambicanos fossem mais radicais que os negros, que com o tempo as pessoas sentissem saudades. A História implica ciclos de aceitação e recusa, ciclos de fascínio e de repulsa. Quem é que em perfeita saúde mental aparecia na televisão a dizer que os portugueses deviam ser todos queimados ? No entanto era natural que isso acontece-se e que alguém, passados trinta anos dissesse, acabou, acabou o luto.
CLonline - Como falam hoje os moçambicanos desse período ?
FJV - Depende da geração. A geração com mais de cinquenta anos tem uma certa memória, uma memória que não é totalmente má. As pessoas de trinta a quarenta anos vivem entre o estar-se nas tintas e o reconhecer que há uma ligação estreita. Para os adolescentes os portugueses são apenas brancos como os holandeses, os franceses.
CLonline - As cidades que visitou guardam marcas da presença portuguesa ?
FJV - Em todos elas existem marcas dessa presença, mesmo nas cidades mais destruídas. Essa é também uma das inevitabilidades da História: o ser impossível apagar a passagem dos portugueses. No tecto da Igreja da Nossa Senhora da Consolação dos Militares, no Brasil, foi pintada a batalha dos montes] Guararapes. A primeira em que se fala de uma consciência brasileira, em que portugueses, índios, negros e pessoas que já tinham nascido no Brasil lutaram contra os holandeses na recuperação do Nordeste. O quadro é genial mas alguém teve o cuidado de, no final do século XIX, tapar as bandeiras dos soldados portugueses. Vemos os soldados no campo de batalha sem bandeira.
CLonline - Então o apagamento existe.
FJV - É inevitável que as pessoas apaguem o que lhes foi doloroso. Os portugueses também não eram pêra doce. Temos em África um historial de violência, embora com o tempo isso se relativize e compreenda.
CLonline - Queria voltar precisamente ao português que no seu livro decide ficar, o último médico branco em Lichinga que fala de deus como um controlador aéreo.
FJV - Ele é o branco que assiste ao delapidar do país, que assiste à violência. Os portugueses têm memória da guerra colonial mas não da guerra civil. Não temos ideia da violência da guerra civil em Moçambique, dos miúdos que foram obrigados a matar os pais para provar a sua lealdade ao movimento, obrigados a denunciá-los, a beber o seu sangue. Para quem anda pelo país e vê as povoações abandonados, as carruagens calcinadas, os buracos abertos, percebe que aquele é um mundo muito estranho. E ele, o médico branco de Lichinga, assistiu a isso, à violência, à hipocrisia ocidental. Para além disso ele é um homem doente que sabe o seu destino, que sabe que vai morrer...
CLonline - E que não parece muito desesperado com isso...
FJV - É médico e sabe que não pode fazer nada. «Lourenço Marques» é também uma história sobre o encontro com Deus. O próprio Domingos Assor tem uma visão dessa transposição dos ritos monoteísta para a África - é aliás impossível estar em África e não sentir esse conflito. Existem afinal duas relações possíveis com Deus. De mal-estar: como é possível que Deus exista e que exista a miséria e a violência da guerra? E existe outra saída: o inexplicar o mundo. O médico diz que deve haver alguém a controlar o tráfego aéreo porque existe tanta ordem e tanta desordem no mundo que deve haver alguém que estude as coincidências, alguém que faça as suas excepções. As pessoas mais religiosas são, do ponto vista formal, a Sara, uma judia, e o Domingos Assor. O xeque que prega partidas citando versículos do Alcorão ao contrário para que Miguel encontre verdadeiramente o caminho
CLonline - O médico diz a Miguel que «Não é qualquer um que pode chegar ao lago e olhá-lo e voltar, regressar a casa. Há sempre qualquer coisa que fica a marcar-nos para sempre». O que quer dizer com isso ?
FJV - Não se pode passar pelas coisas impune. Ver o lago Niassa implica passar por uma certa provação. Por isso depois de uma viagem de seis dias de carro quando se chega ao lago parece ter-se chegado ao princípio do mundo.
CLonline - Para além da beleza descreve a ruína.
FJV - Os portugueses deixaram um mundo europeu de ordem, autoridade, disciplina. Tudo isso foi sendo abandonado. Há uma luta muito séria em todos esses países contra a ruína. Quando se assiste ao que se passou no Ruanda e no Zaire percebe-se que a dignidade humana acabou. No judaísmo a história deixa de ter sentido a partir do holocausto, a sohoah, em que o mal anda à solta, um mal puro, uma violência sem explicação. Quem viu o Ruanda não esquece. Em poucas dias foram milhares de mortos. Como é possível a poesia depois de Auschwitz ? Uma outra pergunta: porque é que o povo hebreu ficou quarenta anos no deserto e não foi directamente para a terra prometida ? Porque tinham de passar aqueles quarenta anos. Esses quarenta anos são o espaço de uma geração. Quer dizer, só era permitida a entrada na terra prometida aos que não tinham memória do horror. É exactamente o que se passa com Moçambique, quando passar uma geração, a das pessoas que conheceram o terror, a morte, os amputados, os deslocados, então será possível um mundo melhor. O símbolo da travessia do deserto, a metáfora do estar perdido, é também uma das histórias do livro. É preciso deixar passar o tempo.
CLonline - Visita na sua escrita a poesia, a ficção, viagens, conto, teatro, crítica. A escrita de diferentes géneros exigem-lhe diferentes disposições ? E consegue escrever ao mesmo tempo em géneros distintos ?
FJV - Não, tenho de os separar. O esforço é o mesmo, o tipo de trabalho é que é muito diferente. Não tenho nem lei nem ordem para escrever poesia, acontece ou não. O romance exige coerência, dados - um personagem não é um nome, é um banco de dados e as personagens de um romance só são verdadeiras quando começam a voar, quando começam a ter vida própria.
CLonline - Qual o género em que entre aquilo que quer escrever e o que consegue escrever o abismo é menor ?
FJV - Não há um género, existem certos parágrafos. Certos parágrafos em que me sinto melhor, momentos em que se toca algo com o sabor de revelação, em que podemos dizer “isto fica”. Em «Lourenço Marques» tenho dois ou três momentos assim.
CLonline - Quais ?
FJV - O delírio do Domingos Assor, a fala do médico e uma parte da conversa do Domingos sobre África, sobre o mundo dos brancos e dos pretos e como nunca conseguiremos explicar o que opõe ou une homens e mulheres, o que opõe ou une brancos e pretos, no fundo o que une os contrários. Nessa fala o Domingos Assor encontra uma explicação. Diria que esses três momentos não estão mal conseguidos.
CLonline - Permita-me a invasão (tal como o polícia Assor invade “uma vida inteira” ao vasculhar os objectos deixados por Maria numa mala). Se numa viagem perdesse a sua mala que objectos lá encontraríamos ? E que objectos preferiria que não encontrássemos ?
FJV - Preferia que não encontrassem a minha mala. Não tenho da vida uma ideia muito gloriosa ou cheia de charme, tenho da vida a ideia de que se repetem sempre as mesmas asneiras e patifarias. Encontrariam na minha mala coisas normalíssimas e pecaminosas como se encontra em todas as malas, e encontrariam mapas. Mapas para as viagens que gosto de fazer, meia dúzia de livros, meia dúzia de discos necessariamente, fotografias das pessoas que eu amo, das pessoas de quem dependo, e um poema ou outro, solto, de Yeats. Pouco mais.
Conversa de cerveja, interminável
O meu guru, durante vários anos, foi Wolfram Koehler, o mestre cervejeiro alemão com quem bebi o maior número possível de “Belikins” ao balcão do Bellevue Hotel, um pequeno hotel de Belize City. O hotel já fechou, sobrecarregado de dívidas e de maus negócios de George, o escocês que o comprou e passou a dirigir quando as Honduras Britânicas passaram a ser o Belize independente, em 1980. George gostava de cerveja e de brandy, e a irmã Nathalie, que era casada com um oficial britânico da RAF, preferia vinho. Bebiam o que queriam. O Bellevue Hotel era um lugar onde cada um bebia o que queria, porque estava cheio de personagens de Somerset Maugham, geralmente fugidos à inspecção fiscal americana, a esposas que os aguardavam em Nova Iorque ou no Minesota, a namoradas que nunca casariam com eles em New Orleans, ou a um destino qualquer em qualquer outra parte do mundo. Com clientela assim, o Bellevue teria de falir. Os quartos também não eram grande coisa e o marido de Nathalie, o oficial da RAF, bebia vinho do Porto com queijo “stilton”. Essa foi uma das razões do seu divórcio, há um par de anos, porque ela conheceu um produtor de reggae que bebia cerveja e trazia “Dragon’s Stout” às caixas, da Jamaica, onde acabaram por abrir um bar. George, por seu lado, falava demais até às dez da noite; depois das dez da noite ninguém conseguia entendê-lo porque a gramática se enredava em ondas de álcool, para provar que as frases com sujeito, predicado e complemento directo eram incompatíveis com brandy de origem duvidosa.
Na verdade, eu conheci Wolfram Koehler porque River Phoenix não bebia café. Eu não falei com River Phoenix mas, nessa temporada de Belize City, ia frequentemente ao Lily Rose Cafe & Patio, onde River Phoenix bebia muito quando era vivo. Ele ia beber. Eu ia almoçar porque me levantava muito cedo e tinha fome por volta do meio-dia. Depois de um almoço de galinha frita e arroz de feijão com côco era insuportável estar no Lily Rose Cafe & Patio porque não havia café, nem chá, nem nenhuma bebida quente. Só havia cerveja. River Phoenix só precisava de cerveja e não gostava de café. Fui a pé para o hotel, onde deveria sentar-me ao balcão do pequeno bar do jardim, de onde se viam os barcos que regressavam dos recifes, e onde se podia tomar café expresso e fumar charuto. Wolfram Koehler estava lá e, meia-hora depois de nos termos apresentado, ele começou a pedir cervejas. Quatro horas depois estávamos, com George, o dono do Bellevue Hotel, numa ilha a hora e meia de barco de Belize City, sentados num areal diante daquele mar de cartolina azul, coqueiros, casas de madeira que tinham sobrevivido ao tufão anual. Só saímos da ilha no dia seguinte, depois de um jantar fatal, de muitas horas de conversa e de muita cerveja bebida.
Só de manhã soube por que razão já “podíamos regressar a Belize City”: Wolfram também era um personagem de Somerset Maugham e o seu casamento com uma argentina relativamente fogosa e possessiva (eu nunca a conheci) estava marcado para a noite anterior em New Orleans. Na ilha não havia telefone e Wolfram podia regressar, livre, à cidade, depois de ter anulado o casamento uns dias antes.
O que tem isto a ver com cerveja? Tudo. Em primeiro lugar é conversa de bebedor de cerveja, interminável (podia escrever várias histórias sobre o oficial britânico da RAF, que sempre me pareceu uma espécie de Chatterley); em segundo lugar, Wolfram era um mestre-cervejeiro de quarenta anos, cujo pai tinha sido mestre-cervejeiro em Munique, cujo avô foi mestre-cervejeiro em Colónia. Ele desempenhou essas funções em França, na Alemanha, no Brasil, nos EUA e, finalmente, no Belize. Conheci-o quando estava de férias – nessa altura ele dirigia o seu próprio restaurante em New Orleans, onde fabricava três cervejas superlativas: uma pilsener clarinha, leve, de coração frio; uma dunkel apetitosa com tons de caramelo; e uma red-ale, ruiva e profundíssima. Há anos, ele tinha aceite a oferta de um emprego naquele país que ninguém conhecia: reformular e relançar a “Belikin”, transformando-a numa lager ao gosto de quem apanhava o iodo do Mar dos Sargaços.
Até aí, confesso, eu só gostava de cerveja. Quem pagou a minha primeira cerveja foi o meu avô. Estávamos em Agosto e eu tinha 14 anos. Prometi que, durante esse Verão, não beberia mais nenhuma. Não bebi. Só no Verão seguinte voltei a pedir-lhe que me pagasse um novo “fino” no Café Carneiro, diante da estação dos caminhos-de-ferro, mais ou menos à hora a que estacionava o rápido do Porto, que nesses anos ainda chegava a Barca d’Alva e tinha ligação para Freixeneda do outro lado da ponte sobre o Douro, ou seja, para Espanha.
Havia três coisas que nós – os miúdos que passavam férias no Douro – aprendíamos durante o Verão e íamos aprofundando ao longo dos anos da adolescência. Primeira: que na Quinta do Vale Meão, mesmo diante da aldeia mas na mesma margem do rio, se produzia “o melhor vinho do mundo” conhecido pelo seu nome (que seria “Barca Velha”). Segunda: um rapaz só era rapaz quando se atrevesse a saltar para o rio de noite, junto das rochas da Casa do Douro, ou soubesse trautear “Bad Moon Rising”, dos Credence Clearwater Revival. Terceira: as melhores imperiais ou finos das redondezas eram servidas nas esplanadas de Moncorvo, a que íamos muito (por causa das raparigas), no balcão de zinco de Salomão Carneiro (dentro de portas, portanto) e num café do Jardim do Tabolado em Vila Nova de Foz Côa, a que não íamos muito (por causa das raparigas).
Os meus Verões no Douro eram monótonos – e essa monotonia era saborosa. Havia livros da carrinha da Gulbenkian, pesca duas vezes por semana, festas da aldeia na segunda semana de Agosto (o que se traduzia por uma guerra ruidosa entre fanáticos de “Smoke on the Water” – nós – e adeptos da filarmónica de Felgar, que vinha para os últimos dois dias), vindimas a partir da primeira semana de Setembro, filhas de proprietários ou administradores de quintas, cinema ao ar livre (por três vezes vi “Os Canhões de Navarone” e “A Túnica”) e a comida da minha avó. A tudo isto veio juntar-se a explosão de frescura e de devassidão prometida pelas primeiras imperiais da adolescência. Muitos anos depois, na esplanada de um bar de São Paulo, e lembrando-me sempre de Wolfram Koehler, a quem contei o projecto (em Lisboa, num restaurante onde falámos de futebol todo o tempo) quis começar a escrever o guia das minhas cervejas preferidas. A primeira coisa de que me lembrei foi essa impressão de frescura amarga – e do sorriso do meu avô, que só bebeu meia dúzia de cervejas ao longo da vida, mas me deixou conhecer esse sabor.
Era impossível escrever esse guia. As primeiras cervejas são ruidosas na memória – mas, geralmente, não têm qualidade. Basta-lhes serem frias e constituírem uma etapa na adolescência. Depois, vieram muitas cervejas bebidas em inter-rail. Por sorte, os meus inter-rails levaram-me aos países da cerveja: Alemanha, Bélgica, Suécia, Suíça, Dinamarca ou Holanda – e Inglaterra, naturalmente, onde qualquer português garantia que existia a pior cerveja do mundo. Nessa altura, a Checoslováquia era demasiado longe. Ficou para depois. Nesses anos, era um coleccionador que tentava provar a maior quantidade de cervejas antes de regressar à faculdade. Bares de Hamburgo, de Munique, de Estocolmo e de Copenhaga; esplanadas de Antuérpia, Amesterdão ou Groninguem; pequenas estalagens nas montanhas da Suíça; em todos esses lugares coleccionava rótulos de garrafas de cerveja. Quando regressava, trazia experiências na mochila para enfrentar o pelotão de Super Bock, Sagres, Cristal, Cergal, Marina e Clock (a Especial Mello Abreu e a Coral, insulares, só vieram depois). As últimas três desapareceram entretanto e pouca gente sentiu falta. Eu senti – mas sobretudo penei pelo desaparecimento da Topázio e da Ónix, as cervejas de Coimbra (e havia Cuca na minha infância) e de uma Boémia que se bebia em Lisboa. Em Lisboa, havia poucos lugares onde se bebiam cervejas estrangeiras – além das que eram distribuídas com garantia, a Carlsberg e a Tuborg (apenas as “lager”). Portugal era um país vinícola cheio de “adegas cooperativas” onde o vinho era geralmente mau, e a cerveja era uma bebida sem prestígio. No final do Verão, eu continuava a subir de novo ao Douro para ajudar o meu avô paterno a fazer vinho. Erguíamo-nos de madrugada, conheci o cheiro dos lagares e percebi que havia uma profundíssima alquimia nesse processo que nos deixava os pés sujos e uma impressão de alegria embriagada. Nunca percebi, de qualquer maneira, por que razão não poderíamos beber cerveja, nós, os deserdados da erudição vinícola. Nunca percebi por que razão uma coisa teria de excluir a outra.
Foi na Irlanda, de qualquer modo, que percebi. Num pub de Galway pedi uma pint de Guinness e o empregado, depois de ver a minha alegria, sugeriu que voltasse no dia seguinte para provar a cerveja do próprio bar. Tinham esgotado a reserva e a nova produção tinha começado há quinze dias. Amanhã estaria pronta. Fui. Não era a pior cerveja do mundo, não era fria, não tinha perdido o amargor: fresca, amarga, ligeiramente alaranjada, com tons de caramelo e café, e existia em apenas vinte barris mensais. Aprendi como se fazia cerveja e descobri como era um ingrato: quinze anos atrás, em plena infância, o meu avô materno – em Vinhais, Ousilhão – produzia lúpulo para vender a uma empresa de cervejas do Porto. Nunca liguei. Arrependi-me. Amargamente, como convém ao lúpulo e à sua flor.
E, depois de mais uns percursos, cheios de stouts e imperial stouts, de porters e de red ales, de pale ales, de dunkels e de weissbiers, de bocks, rauchbier, trapistas, pilseners e trippels, doppelbocks, amber ales e bitters, passei a não compreender os que, ao aproximarem-se da nossa fronteira, rezavam em coro: “Ah, não há cerveja como a nossa!” Havia. Se havia.
Havia, e desde antes de antes. Estrabão cita os lusitanos como aquele povo que sabemos – mas, para o que nos interessa, eles bebiam cerveja. Abundantemente, aliás. Não é um hábito diferente de todos os povos com agricultura – de que provém a cerveja. Apenas os arborígenes da Austrália e os esquimós não fabricaram cerveja; precisamente, porque não tiveram agricultura. O “pão líquido” dos antigos (era assim que era tratada a cerveja, como um alimento), aliás, é um dos grandes argumentos contra o criacionismo religioso: acreditar que o mundo foi criado há exactamente 6000 anos (mais exactamente 5767 na nossa tradição, quase 5768, uma vez que se aproxima Rosh Hashana) significa esquecer que existe cerveja cerca de 3000 anos antes dessa data. É uma injustiça. A menos que, antes disso, só o Criador tivesse o privilégio de bebê-la.
Hoje, é difícil criar uma cerveja má. Consegue-se, evidentemente, mas podemos reconhecê-la como aquela bebida com ligeira presença de lúpulo e alegadamente de malte, mas sem gosto e sem aroma. Nos EUA conheci cervejas magníficas (foram a minha última surpresa a acrescentar); recentemente descobri que só no estado de Santa Catarina, no Brasil, há sessenta e cinco cervejas desconhecidas à minha espera; aguardo uma viagem à Austrália para provar as setenta que se fabricam ali; as cervejas do norte e do centro de Inglaterra ainda guardam segredos fatais. Em todos os lugares do mundo há cervejas novas que recriam o pão líquido dos antepassados do Crescente Fértil, a “chicha” das Américas, a “ole” dos saxões.
Há dois anos, quando pensei que tinha chegado ao fim do mundo, para lá do sul, em Ushuaia, às portas da Antártctida, entrei num bar ao fim da tarde, o The Irish Pub at Ushuaia (para quem não saiba, ó pormenores fatais, fica a poucos metros de uma livraria que só vende livros de viagem e mesmo diante do derradeiro ancoradouro do Canal Beagle, onde Charles Darwin desceu), e senti-lhe o cheiro, à cerveja artesanal: ligeiramente tocada por citrinos, pressenti o amargor definitivo, imaginei a pérola de espuma a formar-se – e fechei os olhos. O barman, um argentino recortado sobre um quadro onde tinham emoldurado uma camisola de Diego Maradona, sorriu quando lhe perguntei se tinham cerveja. “La mejor!” Em toda a Argentina, de Corrientes, na fronteira do Paraná, até aos Andes e ao estreito de Magalhães, provei cervejas magníficas, brutais. Os velhos hippies de El Bolsón, na Patagónia andina, por exemplo, fabricam uma dezena de cervejas artesanais que pedem meças a qualquer uma que possamos beber em Manchester ou em Bruxelas. “La mejor que venga”, propus eu. E veio. Nunca mais, repito, nunca mais bebi uma cerveja assim, como a “Ushuaia” – pareceu-me ter um travo de limão, um diabo à solta dentro da caneca de vidro. Voltei nessa noite, e no dia seguinte, e mais duas ou três noites, e despedi-me comovido da última garrafa que trouxe comigo, umas semanas depois, já em Portugal. Era boa? Era. Era a melhor? Naquela hora, sim. Eu tinha feito uma caminhada de doze quilómetros até ao sopé do glaciar El Martial, e foi a melhor cerveja do mundo. Essa é a grande lição da cerveja: a sua circunstância.
«Longe de Manaus»
Entre a poesia e a ficção.
E com humor, com muito humor
O policial Jaime Ramos volta a investigar...
Há um crime, um corpo que nada diz. Mas uma série de vestígios, de pequenos nadas que o persistente inspector Jaime Ramos, conhecida personagem de Francisco José Viegas, monta passo a passo. Recolhendo pistas, detalhes, traça, na verdade, a biografia de uma vida interrompida. E é a partir desse abrupto do crime que vasculha casas e vidas, e descobre tragédias, amores, e os tantos lugares em que o português se perdeu pelo mundo.
Natural de Vila Nova de Foz de Côa, onde nasceu no ano de 1962, Francisco José Viegas, actual director da Casa Fernando Pessoa, obteve com este livro o Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB 2006. Do Porto a Luanda, da Guiné ao Manaus, o seu personagem, Jaime Ramos, investiga um caso que nos leva em viagem. Conhecendo as cidades que conta, o autor deixa que a língua (que os diferentes ocupantes da língua) lhe dêem uma riqueza e perspectiva próprias. Mais uma vez o policial é em Francisco José Viegas uma magistral forma de poesia e ficção que condimenta a inconfundível humor. Flui, tudo flui na leitura de «Longe de Manaus»... (Ao prazer da leitura acrescente-se a inteligência do retrato.)
Círculo de Leitores online - Polícia, biógrafo e escritor – como liga estas profissões? Tem o seu investigador Jaime Ramos algo de biógrafo, e tem o Francisco José Viegas algo de investigador de vidas?
Franscisco José Viegas - Há uma cumplicidade entre mim e o Jaime Ramos. Eu sou um admirador da sua minúcia, da sua actividade de investigador. Nessa medida, ele é um personagem que existe independentemente de mim. Ao fim destes oito livros em que ele aparece como personagem, já não posso comandá-lo totalmente, como acontecia no princípio, até por respeito para com os leitores, que conhecem alguns pontos essenciais da sua vida. Ele tem uma biografia, uma vida cheia de memórias, tem tiques, hábitos, tem idade, defeitos, tudo o que acontece geralmente a uma pessoa viva. Nessa medida, do ponto de vista do “jogo de criação literária”, eu sou um biógrafo de Jaime Ramos. Não me desagrada totalmente essa opção, uma vez que eu acho que o romance tem de viver sobretudo de personagens, ou pelo menos funciona em seu redor. Claro que ele é o meu instrumento, mas enquanto instrumento puramente literário ele faz coisas que eu não posso fazer… Em cada livro há como que uma biografia de um personagem.
CLonline - Volto agora atrás, ao começo. Como surgiu a escrita deste romance?
FJV- Havia uma ideia inicial, a de escrever sobre um personagem que não queria regressar a Portugal depois de muitos anos a viajar pelo mundo, trabalhando aqui e ali. Com o tempo, a ideia foi mudando, e cheguei à definição de um personagem que tem laços a prendê-lo a todos os lugares onde Portugal esteve, Guiné, Brasil, Angola, por aí fora… E acabou refugiado em Manaus depois de tudo. Uma notícia no “Jornal de Notícias”, naquelas páginas do interior, acabou por dar corpo à ideia, foi uma espécie de motor para a ideia que eu já tinha e que encontrava, assim, correspondência com a realidade. Fundamentalmente, gente com vidas interrompidas pelas circunstâncias da História – da guerra colonial, de um casamento medíocre, de um passado funesto, de um passo mal dado. Coisas que aparecem em todos os meus livros. Acho que nunca há uma história precisa de um livro, uma história rigorosa… Por exemplo, em “Longe de Manaus” aparecem personagens que não fazem parte da história principal, mas pelas quais me apaixonei, como Daniela e Helena – elas teriam de aparecer, justamente porque na nossa vida também há gente que aparece sem razão. Aparece e pronto. Aparece.
CLonline - E poderia falar-nos um pouco do seu método de escrita para este livro?
FJV -Escrevo à mão e no computador, indiferentemente. Sirvo-me de muitas notas de viagem e, sobretudo, gosto sempre de manter alguma fidelidade em relação aos lugares. Manaus é Manaus, São Paulo é São Paulo, Porto é o Porto, Vila Flor é Vila Flor… De resto, escrevo em planos-sequência, sigo um método de montagem que me salva da dispersão. Estou sempre a voltar atrás, a corrigir datas, a obrigar-me a manter uma certa coerência naquilo que é o fio da narrativa. Quando chega a altura de escrever a versão final uso todos os materiais onde fui escrevendo – notas dispersas, cadernos de viagem, papéis soltos, blocos onde fui tomando nota de frases, pormenores, micro-histórias, genealogias…
CLonline - Uma curiosidade mais quanto à construção (ao nascimento) das suas personagens. Não consigo deixar de pensar nas palavras vestígio, desarrumação, nessa procura dos pequenos nadas de Jaime Ramos durante as suas investigações criminais. É também assim que encontra as suas personagens: entrando nas suas casas, no seus quartos, sabendo o que guardam no frigorífico, nas gavetas... Como investigou, por exemplo, a vida de Jaime Ramos?
FJV -Uma coisa que me impressiona muito é a natureza das coisas que se deixam dispersas depois da morte. Os bilhetes, a arrumação da casa, etc. Jaime Ramos percorre esses cenários fazendo o inventário de coisas interrompidas. Um homicídio, naquilo que tem de trágico, é sempre uma interrupção na biografia de alguém. E por isso ele pergunta-se sempre: o que faria este homem, ou esta mulher, se não tivesse sido assassinado? Mas a única ligação que temos com esse personagem são objectos deixados ao abandono, rastos, pegadas invisíveis numa casa ou onde quer que seja. É verdade que ele gosta de espiolhar nos frigoríficos porque tem essa obsessão, saber o que as pessoas comem, como elas se definem pelo que comem. No caso de Jaime Ramos, ele foi crescendo nos livros, e eu fui acumulando dados sobre a sua vida – o que veste, o que come, qual a natureza da sua conta bancária, onde mora, tudo pormenores que acho importantes para definir o personagem com alguma coerência. Imagino a sua cozinha, o seu quarto, recorto fotografias daqui e dali, desenho pormenores da varanda da casa dele, faço listas de compras que ele fará depois, vejo como são os pescadores da Ria da Aveiro, etc.
Tragédia e Drama
CLonline - Negada a estrutura convencional de policial (quer por si, logo no início do livro, quer pela sua leitura), porque recorre ainda assim a esse fio da investigação criminal?
FJV -Porque o policial garante um modelo de descoberta, uma história com princípio, meio e fim – embora não tenha, necessariamente, de começar pelo princípio, ou de terminar no fim. O policial é uma espécie de método, de ideal de perseverança numa investigação. Toda a literatura, nessa medida, é policial – além de se preocupar com a morte, o desaparecimento, o crime, o mistério, que são os motores da narrativa policial. No meu caso não me interessa o policial como interrogação social ou sociológica sobre o mundo do crime ou da violência. Não sou sociólogo nem o escritor tem de se preocupar com a sociologia; em meu entender, o policial constitui uma reinvenção do mundo a partir de uma tragédia (o crime) e de um drama (a necessidade de saber, a possibilidade de punir). Num outro livro, uma novela, “A Poeira que Cai sobre a Terra” (Visão, 2006), Jaime Ramos sabe tudo sobre os crimes, sabe tudo – mas recusa-se a avançar na investigação, vai acabar por eliminar os vestígios e as provas. Ele assume o lugar do juiz. Assume o lugar da moral. O policial tem essa possibilidade.
CLonline - Sente que convoca os diferentes “géneros” que povoam o seu romance, ou que eles simplesmente fluem até à sua escrita? Pergunto talvez que influências sente trazer para este livro, de que outros autores, de que outros livros?
FJV - Acho que “Longe de Manaus” está um pouco marcado pela literatura brasileira dos anos noventa. Rubem Fonseca, Noll, Assis Brasil, Hatoum. Eles são excelentes escritores, creio que a literatura brasileira tem uma vitalidade e uma originalidade muito maiores do que a ficção portuguesa de hoje. E reinventaram a forma de contar uma história na nossa língua. Mas não abdico daquilo que se costuma dizer que os meus policiais são: um cruzamento entre poesia e ficção. E humor. Gosto que Jaime Ramos tenha humor. Não gostaria dele se não tivesse humor.
CLonline - Habitado por tantos lugares, por tantas personagens que o investigador Jaime Ramos vai descobrindo, existe aqui o retrato do ‘português’?
FJV - De uma certa forma de ser português, sim. O português que conheceu África e o Brasil e para quem a pequena pátria é uma ameaça. Não sou patriota nem nacionalista, como, aliás, acontece com quase todos os portugueses. Há uma cena no livro, uma viagem até Trás-os-Montes, em que Jaime Ramos está fascinado pela paisagem, pelas montanhas – e aparece-lhe uma lixeira a céu aberto, lixo ao longo das estradas. Não é um país limpo. É um país bonito, sim, mas encoberto pela vileza e pelas lixeiras contínuas. E um país inexplicavelmente triste. Mas é o nosso.
CLonline - O como se diluiu (transformou) esse português pelo mundo?
FJV - Dilui-se muito bem. Provavelmente, é o povo que melhor se mistura com os outros, que melhor assume outras condições culturais, outras influências, outras gastronomias, outras línguas. Acho isso uma vantagem enorme. Acho que é uma das nossas melhores características, que, aliás, mitigou um pouco o nosso racismo, o nosso colonialismo – que nunca foram tão abjectos como o inglês ou o espanhol, por exemplo. Acho que os portugueses ficam melhores quando se misturam com outra gente ou quando conhecem outras terras. Quando se libertam da pequena pátria.
CLonline - O que pode também levar à pergunta da língua. Usa a sintaxe e fraseologia desses diferentes lugares no mundo onde se fala o português. Mais uma vez, essa foi uma opção natural de escrita? Ou uma opção deliberada?
FJV - Foi uma opção deliberada. Vivi cerca de ano e meio, dois anos, no Brasil, e percebi que os personagens brasileiros tinham de falar em português do Brasil, o que, para mim, nem representa uma grande dificuldade, uma vez que escrevo correntemente em português de lá. E há uma certa poesia nessa mistura, nessa perda de gramática.
CLonline - E nesse encontro com esses diferentes formas de falar o português, sente-se uma diferença de alma, uma diferença do sentir, de viver?
FJV -Sim, naturalmente. Necessariamente. O português é uma realidade que existe independentemente de nós. Já não somos os proprietários da língua – somos ocupantes, como os brasileiros, os angolanos, os moçambicanos, os cabo-verdianos. E é tão diferente a forma de pronunciar, dizer, falar – como de conhecer o mundo através de um sotaque diferente. Esses meus tempos no Brasil foram os mais felizes da minha vida.
1. Uma questão de género
Quando vagueamos numa livraria e somos levados a pegar num livro, procuramos no paratexto, mais ou menos inconscientemente, o género ou tipo textual.
Longe de Manaus tem uma nota prévia, colocada mesmo antes da epígrafe: "Um romance policial, como se sabe, tem as suas regras. Este não tem."
Ora isto é uma contradição: as regras de um romance policial são regras constitutivas de género. Se este romance não tem essas regras não é um romance policial.
Mas então perguntamos: porquê a invocação do policial nessa nota prévia?
Em primeiro lugar, há um crime e um processo de investigação. Por conseguinte, está presente o universo de referência da criminologia, o contexto geral de referenciação de objectos e situações pertencentes à área da investigação policial. Temos, então, palavras e expressões como:
2. Especificidade do regime narrativo deste romance
Um dos traços centrais da ficção policial é a narração de orientação retrógrada: as movimentações e decisões do inspector/investigador são colocadas no presente e a partir deste presente vão partir evocações de acções dos agentes directos ou indirectos do crime. Estas acções estão situadas no passado. O narrador pode coincidir com uma personagem (o narrador homodiegético, para usar a terminologia da análise estrutural da narrativa) ou ser uma entidade não personificável, acima da consciência de qualquer personagem, mas sem carácter omnisciente. Note-se que uma regra básica do policial está em impedir que o leitor saiba mais do que o detective, justamente porque só assim há suspense.
Mas em Longe de Manaus o narrador funde-se na consciência de cada personagem, a que geralmente é dedicado um capítulo integral: isso acontece com Jaime Ramos, primordialmente, mas também com José Corsário e com Helena e Daniela. Outras vezes o narrador é uma entidade difusa e ficamos sem saber ao certo se as informações disponibilizadas emanam de alguma personagem. Veja-se, a título de exemplo, a ambiguidade que ocorre na transição do capítulo 14 para o 15: no capítulo 14, é Ramiro que fornece as informações sobre o passado africano de Portocarrero; no 15, esse relato prossegue como se não houvesse ninguém a proferi-lo, sem indicações quanto à presença ou identificação do sujeito da enunciação.
Não há aqui nada de narrativa póstuma, de reconstituição de factos, a cargo de um narrador homogéneo. Pelo contrário, o discurso avança através de constantes monólogos interiores, com diversos graus de interferência por parte do narrador.
Este regime enunciativo heterogéneo é secundado por numerosas instanciações discursivas: há vários pontos de partida temporais e espaciais; há vários "eu-tu-aqui agora". Não há só um presente, uma só actualidade (que seria grosso modo o tempo pós-crime) mas sim diferentes actualidades, diferentes projecções de momentos actuais. Esta técnica, aliás, reconhecida do romance existencialista e pós-moderno, é assinalada pelo recurso recorrente a deícticos (tempos verbais da série do presente, advérbios de tempo e espaço) que não apontam nem para o tempo nem para o espaço do processo de investigação do crime.
3. Referenciação do tempo e do espaço
Os tempos onde se situa o narrador são de diferente ordem:
No que diz respeito à referenciação do espaço, é importante de assinalar o recurso a descrições definidas na abertura de capítulos, especificamente, a presença de nomes comuns antecedidos de artigo definido, determinante possessivo ou demonstrativo. Ora, estas descrições definidas dão como identificável pelo leitor os objectos e espaços referenciados. Se esta operação é realizada logo na abertura de um capítulo, há um efeito de imersão imediata do leitor numa situação nova.
Algo de idêntico acontece na referenciação de pessoa. O leitor, ao iniciar um capítulo, é muitas vezes defrontado com uma personagem apenas pronominalizada, o que o obriga a uma inclusão total num contexto sem antecedente no capítulo anterior.
Esta proliferação de tempos e espaços exige do leitor um trabalho esgotante de relocalização e de reconstituição do contexto da acção que o distrai da procura do assassino e o dispersa pelas diferentes biografias e reflexões de ordem social e existencial. Veja-se a profundidade psicológica que adquirem personagens como Helena, Daniela, José Corsário, Osmar e, inclusivamente, o homem que depõe Shirlei no seu leito de morte.
4. Hibridismo enunciativo
Excluindo Jaime Ramos, aquelas personagens que são fruto de um maior trabalho de construção de carácter são Helena e Daniela.
Nos capítulos em que estas duas personagens entram em cena, o narrador ora relata factos objectivamente, ora assume a perspectiva da personagem, ora faz da personagem fonte de elocução directa. Este regime enunciativo - aliás, associável ao discurso indirecto livre - permite ao leitor aceder directamente à consciência da personagem na situação simultânea das suas reflexões, pensamentos e sentimentos.
Este regime é marcado pela presença de:
(i) Construções oralizantes de terceira pessoa
"Ah, ela gostara sempre de homens mais velhos (...)" (p.66)
"Ela gostava de Raí, sim." (p. 70)
"Era o português, sim, ao volante de um carro (...)" (p. 71)
(ii) Contiguidade de deícticos de sistemas temporais distintos
"Edilson explicara quase tudo o que é necessário fazer durante o dia de hoje (...)" (p. 65)
" O cigarro terminava e ela levantou-se, já não vinha ao jardim da Praça Buenos Aires há meses."(p. 71)
(iii) Modalização
"(...) podia lê-lo daí a uma hora ou duas, sentada à mesa da cozinha (...) podia ver as árvores da rua da Consolação (...) poderiam sair (...)" (p.89-90)
"(...) precisava falar com Helena, (...)" (p. 109)
O curioso é que é neste contexto - o contexto de reprodução (e demonstração encenada de uma consciência) - que tem lugar a activação da variedade do português do Brasil. Helena e Daniela são brasileiras, vivem em São Paulo, e a transparência daquilo que sentem e pensam, assume forma, verosimilmente, em português do Brasil.
É certo que há ocorrências lexicais e sintácticas desta variedade do português em capítulos que não dizem respeito a estas duas personagens. Quando assim é, essas ocorrências dão-se ou em discurso directo ou nos capítulos em que Jaime Ramos se desloca ao Brasil e não é de estranhar, então, a referenciação de instituições e locais que recebem designações específicas do sistema e modos de vida brasileiros: "delegacia"; "delegado"; "lanchonete".
Em todo o caso, são ocorrências lexicais esporádicas, ao passo que na construção das personagens Helena e Daniela as ocorrências são abundantes e diversificadas.
5. Variedade do português do Brasil
| Palavras denotativas de realidades específicas do Brasil | Contrastes preferenciais | Empréstimos | Etimologia |
| "o pampa" "gaúcho" (p.330 "a cuia de chimarrão" "bombachas" "estanceiro" (p.331) "boto" (p.309) | "ônibus" "quadras" "banheiro" "suco" (p. 63) "torcedora" (p. 64) "terno" "açougue" (p. 65) "chope" "caipira" "babás" (p. 70) "balanços" (p.90) "time" (p. 91) "fuscas" (p. 96) "aposentadoria" (p.99) "policial" (214) "xícara" "manobristas" (p. 221, 291) "engraxates"(293) "garoa" "sebo" (p. 294) "camiseta" "camelôs" (229) "dirigir" (carro) (p. 300) "babaca" "baseado" (p. 332) | "a box" (p. 63) "cavanhaque" (p. 215) (empréstimo a partir de um antropónimo Eugéne Cavaignac: general francês que usava barba crescida e aparada em ponta no queixo.) "maillot" (maiô) (p. 90) "garçom" (p. 295) "containers" (p.330) "suéter" (p. 96) | — do quimbundo: "maconha" (p. 95) " cacimba" (p.10) — do tupi: "cuia"(p. 331) "muriçocas" (espécie de mosquito( (p. 13) |
| Activação preferencial da próclise | Ausência de artigo | Preferência por formas não reflexas do verbo | Diferenças na selecção de preposição |
| "O seu pai a levara ..." "Se apaixonara por Raí" (p.64) "A princípio lhe emprestara livros... " (p. 105) "O pai lhe deixara..." (p. 213) | "Ela seguia suas jogadas..." (p. 64) "Suas perguntas eram delicadas..." (p. 215) | " lembrava da primeira vez..." (p. 105) "sentava na cozinha..." (p. 212) | "Olhou no espelho..." (p. 90) |
| Diferenças de género | Activação preferencial do gerúndio | Recursividade do diminutivo |
| "uma ducha" (p.63) "um misto quente" (p.63) "um gin tônica" (294) | "ele sorrindo e afastando a cadeira, preparado para se levantar mas esperando ainda qualquer coisa..." (p.220) "Daniela ficou vendo Walmir partir..." (p.398) | "barzinho" (p.71) "menininha" (p.91) "sacaninha" (p.97) |
| Grafia | Fonia |
| — uso do trema: "tranqüilidade" (p. 63) "tranqüilo" (p. 214) "freqüência" (p.293) — acento circunflexo a marcar fechamento de vogal: "ingênuas" (p.96) — afectação de sequência consonantais: "teto" (p. 95) "deceção" (p.104) "insetos" (p.11) "objetos" (p. 217) "ato" (p. 312) — outras grafias: "xampu" (p. 90) | — articulação "...dobrava até os erres quando falava..." (p. 70) — articulação e entoação: "Acento caipira, dobrando os erres, subindo e descendo como uma pauta de sinfonia..." (p. 90) |
6. Valorização manifesta da língua portuguesa
Percorrem o romance alguns "ralhetes" na medida em que se criticam más práticas no uso da língua por parte quer de advogados, quer de polícias.
"E tinha uma coisa rara, inspector: tinha boa gramática. Isso espanta-me muito hoje em dia." (p. 62)
"Jaime Ramos teria o caminho aberto, mas pouparia Portocarrero à humilhação de ser um advogado como os outros - podendo ser interrogado, ouvido nos autos, indicado como suspeito, ter de atender os telefonemas de agentes da polícia, cheios de má gramática (...)" (p. 113)
"Jaime Ramos admirava profundamente os advogados que falavam com uma gramática no cérebro, dispondo as palavras em camadas, organizadas por grau de dificuldade em função do fio da navalha em que se encontravam." (p.115)
"Meu português é bom, Daniela. Anotei sem erros" (...) "Ainda bem que seu português é bom, Walmir. Erro ortográfico é feio." (p. 220)
Mas também há a crítica a um uso pernicioso da língua no plano discursivo, a crítica à retórica balofa que tolhe o raciocínio e faz tropeçar a lógica.
"Este país é muito correto em tudo, é um país que gosta de falar e de ouvir-se. Frases cheias de advérbios. Verbos sonantes. Temos grandes poetas parnasianos, o nosso barroco é quase tão bom como o vosso, gastamos em gramática o que nos falta em verdade e clareza." (p. 277)
Para além da crítica, há a destacar a notação comovida da dimensão e diversidade da comunidade de falantes da língua portuguesa:
"Nessa noite relembraria o momento: ao olhar pela janela do avião reconheceu a mesma língua numa terra distante." (p.227)
"...e somente numa semana a sua língua mudara embora fosse a mesma. Essa língua mais sonora, cheia de vogas abertas e de alegrias desconhecidas, falada por africanos e por árabes, por homens como Padilha, brancos e pálidos, ou como Osmar, morenos e irónicos, sorridentes, ou pelo empregado oriental do bar do hotel." (p.362)
* Texto-base sobre o tema de emissão do programa Páginas de Português do dia 8 de Outubro de 2006.
Há barcos que têm o destino traçado
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“Há barcos que têm o destino traçado”, disse o homem mais alto – o de óculos escuros – para o outro, que seguia atrás, com o charuto pendente dos dedos. Imaginara-o mais atarracado e mais magro, mas quando ele apareceu, nessa manhã, surpreendeu-o também que ele falasse tão pouco e tivesse aquele ar cansado de quem atravessou o país, ou pelo menos o Alentejo, para lhe dizer que estávamos em Agosto e que isso era uma grande contrariedade. Não foi bem assim. Mas na altura pareceu-lhe.
“Agosto é o mês mais fodido.”
Ele olhou-o então, de frente e de baixo para cima (porque estava sentado e o outro de pé) e não pôde deixar escapar um sorriso.
“E Abril é o mês mais cruel”, disse Alexandre Monteiro, como se fosse a segunda parte de um diálogo, esperendo resposta. Mas o outro não respondeu ao sorriso. Não respondeu a nada, aliás, limitando-se a acender o pequeno charuto com um fósforo que retirou de uma caixa. Só então o olhou para recitar, como se estivesse numa esquadra:
“Homicídio qualificado, profanação e ocultação de cadáver, destruição de bens, ataque em alto mar, roubo, utilização de drogas.”
“Não foi em alto mar”, disse, mas o outro não ligou.
“O alto mar é onde os barcos andam.”
“Não é isso. Eles podiam tê-lo morto mais perto da terra e levá-lo depois para o alto mar.”
“Eu sei. Mas, para mim, foi já longe de terra. É onde já não tenho pé.”
“Não gosta do mar?”, Alexandre Monteiro olhando-o de novo, retomando aquela espécie de conversa.
“Não”, disse ele ao levantar-se. “Nem de algas, nem de rochas escuras, nem de Agosto. Nem de naufrágios. Muito menos de náufragos. Já há malucos suficientes em terra.”
“Estranho, muito estranho. Nunca gostou do mar?”, voltou Alexandre Monteiro.
“Já”, murmurou o outro. “Mas foi há muito tempo.”
“Então, que o interessa neste caso? Só o crime? Saber quem matou e porque matou?”
“Interesso-me pela vida dos outros. É a coisa que mais interessa um polícia. Os polícias interessam-se cada vez mais por sexo, informática, filosofia, direito, vidas obscuras, hábitos conjugais, esoterismo.”
“Uma espécie de enciclopedistas.”
“Uma espécie. Qualquer dia vamos para a Ilha da Páscoa estudar rongorongo. Quando posso ver o barco?”
“Amanhã, se quiser. Está selado à ordem do tribunal, e não vai encontrar nada. Tudo o que havia para descobrir está já descrito nos relatórios e no processo. Análises de DNA, inventário, mapas, tudo. Até a quantidade de provisões.”
“Isso interessa-me, as provisões.”
“Davam para um banquete.”
“Hoje em dia, com a cozinha de fusão, tudo se faz”, ouviu-o ainda comentar. Já lhe tinham falado de Jaime Ramos, mas supunha que era outra pessoa.
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“Havia três comboios depois dessa hora. Apanharam o que chegou a Olhão um pouco depois do meio-dia. Exactamente aqui, em Vila Real de Santo António.”
“De onde vieram antes?”, perguntou Jaime Ramos.
“De Espanha. Só se pode vir de Espanha, a menos que gostassem das vistas e tivessem ido fazer turismo. Nunca se sabe. Hoje em dia há surpresas em todo o lado.”
Alexandre Monteiro não gostava do fumo do charuto, nem apreciava o desleixo do outro. Qualquer investigador seria melhor do que este homem vestido de jeans, t-shirt, e um blusão azul cheio de vincos. Mas ele não era bem um investigador.
“Deixaram o carro aqui”, murmurou. Continuava sempre a murmurar, como tinha murmurado durante a viagem entre Faro e Vila Real de Sto. António, de vez em quando olhando à direita, como se estivesse à espera que o mar subisse terra dentro para engolir torres, aldeamentos, campos de golfe, sapatarias, bares de alterne e camiões carregados de materiais de construção. Quando chegaram a Vila Real saiu do carro e perguntou a que distância ficava Cádiz.
“Cádiz? Duas horas, mais ou menos.”
“E o carro, como apareceu aqui?”
“Foi descoberto a 4 de Setembro, três semanas depois. É normal aparecerem carros abandonados deste lado da fronteira. Até houve espanhóis que vinham cá deixar os carros velhos, os destroços que já não queriam.”
“E barcos?”
“Barcos nunca deixaram aqui.”
“Mas pode vir a acontecer. Têm-me dito que no Algarve tem acontecido um pouco de tudo.”
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Jaime Ramos encostou-se à janela do hotel para ver melhor como o dia ia nascendo. Uma luz ténue, azulada, luzes de carros, gargalhadas na rua, um zumbido. Desagradava-lhe aquele caso e todos os materiais que coleccionara. Ele chamava materiais de colecção às pastas meticulosas que Isaltino de Jesus lhe deixava na secretária, debaixo de um dos cinzeiros que não tinha sido atingido pelos seus charutos.
“Está aqui tudo, chefe.”
Estava, quase sempre. Fotocópias de jornais, fotografias, papéis minuciosamente procurados nos arquivos e, às vezes, ilegalmente retirados de processos que estavam a milhares de quilómetros. Como este, de Cádiz. Puerto Sherry. Playa de la Puntilla. Uma fotografia de um barco, um trimarã esperando que a praia-mar o devolvesse à ondulação.
“Como consegues tu isto, Isaltino?”
“Com sorte, chefe, com sorte.”
Mas Jaime Ramos sabia que não se tratava apenas de sorte. Havia um incêndio no olhar de Isaltino ao aproximar-se do gabinete: primeiro olhava para o rosto de Teofilo Cubillas, pendurado na parede – um velho poster quase descolorido do “Norte Desportivo” que Jaime Ramos arrastava consigo de gabinete em gabinete, em mudanças que lhe desorganizavam a secretária e a paciência; depois, olhava com ar de censura para a secretária desarrumada; finalmente, falava.
“Chefe. Ontem andei a abrir-lhe o caminho”, ajeitando a camisa de manga curta, puxando ligeiramente a perna das calças antes de se sentar. Jaime Ramos não lhe invejava nem a disciplina nem a arrumação – considerava ambas resultado de um talento providencial que tocara a nova pequena-burguesia dos subúrbios, gente que tinha subido a pulso em carreiras insignificantes e que não largava os velhos hábitos dos pais. Isaltino era parte do antigo Porto.
“Chamam-no ao Algarve, chefe, é melhor levar isto.”
“É a nossa internacionalização, Isaltino. Já vamos ao Algarve.”
“Algarve é Portugal, chefe.”
“Talvez, Isaltino, talvez. Para lá do mercado de Espinho e da ria de Aveiro é tudo uma grande incógnita.”
Jaime Ramos chegara nessa manhã e percorrera a costa do Algarve ouvindo o relato daquele homem diligente que o recebera e lhe passara as informações do processo. Alexandre Monteiro usava gravata e um fato que mostrava como a polícia, agora, se incomodava com a imagem que deixava nas fotografias dos jornais, à mistura com aquela linguagem dos novos bacharéis de Direito processual. Na viagem entre Campanhã e Faro lera todos os materiais de colecção reunidos por Isaltino de Jesus. À medida que se aproximava do Algarve sentia como era inexplicável aquela simplicidade de um crime cometido por gente inábil que tinha entrado num barco e matara o tripulante depois de o deixar amarrado e à deriva no mar. E, mentalmente, reconstituíra todo o guião preparado para explicar um crime simples e banal – um homem e uma mulher de um lado, um belga solitário do outro. Mas a solidão deste solitário não era a solidão dos simples, Jaime Ramos pressentia. Até que viu o sublinhado providencial de Isaltino, traçado sobre aquele nome: Cádiz.
E o que Cádiz lhe lembrava não vinha em nenhum dos processos e ainda não fora mencionado nos jornais. Muros fenícios, ruínas de Cartago, gregos e árabes, e o ruído do mar. Ele lembrava-se do ruído do mar porque Rosa gostava de camarões grelhados como se comiam em Puerto de Santa María, e um dia quiseram conhecer o Mediterrâneo.
“O mar é aquela quantidade de água azul”, ela, Rosa, mostrando-lhe o Mediterrâneo. Teria sido há dois, três anos, pela Páscoa. Mas o seu Mediterrâneo não era o daquele trimarã que parecia abandonado na Playa de la Puntilla, e que depois entrou em Puerto Sherry. Eles não sabiam isso. Ele sabia. Isaltino tinha descoberto sem entrar nesses delírios, conversa sobre naufrágios e sobre as aventuras no mar. Ele sabia que a história não se poderia reduzir a uma mulher e um homem entrando num barco para matar o dono, deixando-o amarrado e entregue à tempestade que havia de transformá-lo num náufrago. Era isso que o interessava: a onda que se elevava mais alto que as outras. Esse resumo podia facilitar as coisas. Mas a vida não é fácil.
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Três mulheres estiveram no barco naquela noite. Jaime Ramos está sentado num muro diante da penumbra da ilha da Armona e ouve o ruído de um pequeno barco que se afasta do cais, naquela noite de Agosto, levando dois passageiros e caixas de provisões. Um banquete. Ouve vozes e risos. Ouve a água batendo no casco do trimarã, fundeado ao largo, entre as sombras de Agosto. Brisas que volteiam nos pequenos golfos, baías, enseadas, entre ondulações. A meia-idade no Verão, pensa ele reparando nas fotografias daquele homem de sessenta anos que dois dias depois é retirado das águas, amarrado como num cerimonial erótico. Três mulheres, talvez dois homens apenas. Um velho funcionário público belga, retirado com as suas economias, fascinado pelo azul do Mediterrâneo, inútil longe de casa, do seu trabalho insignificante.
Cerimonial erótico, expressão que não quer dizer nada. Um atrevimento súbito no Mediterrâneo, em plena madrugada, em plena tontura da embriaguez. Os fantasmas do Mediterrâneo levantam-se das águas, naquela tepidez de Agosto.
“Não gosta do mar?”, Alexandre Monteiro perguntara-lhe.
“Não.” Mas não era realmente verdade, tratava-se apenas de uma defesa contra o perigo da melancolia.
Duas mulheres e um homem tinham atravessado aquele canal no dia seguinte, devolvidos a um aldeamento com açoteias pré-fabricadas e varrido pelo vento. O único rasto era o daquele casal que fora depois recolhido no alto mar. E Cádiz.
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A nota, deixada por Isaltino de Jesus, era uma notícia do “Diario de Cadiz”, de 12 de Agosto, que assinalava uma “rotura de la cadena del ancla que lo tenía fondeado frente a la playa de El Aculadero, en las proximidades de Puerto Sherry. Su único tripulante, un varón francés de mediana edad que hace un recorrido turístico por la costa española, dio aviso de socorro al no poder controlar la embarcación que minutos después embarrancaba en plena arena de La Puntilla”. Há barcos que têm o destino traçado. Nada se teria passado no mar que não fosse uma repetição de um encontro anterior em Cádiz. Um marinheiro enviou a mensagem: que “el timos y la elice no tienen buena pinta” e teria de ser reparado em Puerto Sherry, onde aquele homem que se recusava a ser velho conheceu o casal.
“Não tem provas disso”, comentou Alexandre Monteiro, que aproveitou a dúvida para ajeitar o alfinete dourado da gravata.
“Não tenho provas de nada. O mar não é bom para a cabeça das pessoas.” A vida que acaba de qualquer modo, sorriu Jaime Ramos, finalmente. Tudo o que diria um juiz, diante daquele relatório policial que menciona sevícias e tortura e um corpo amarrado. O velho era mau marinheiro e despedia-se da vida.
“O senhor imagina isso só por eles serem franceses. Eles mataram-no porque queriam o dinheiro dele. Não se iluda, eles sabiam o que queriam. Não vá em orgias. Quem quer dar uma foda tem bons hotéis em terra.”
Alexandre Monteiro não tinha a imaginação prodigiosa daqueles que temem o mar. Mas a vida ronda essa tepidez que tanto se sente em Cádiz como em Olhão, como nas sombras da Ilha da Armona.
Jaime Ramos concordou, acenando com a cabeça. O mundo estava cheio de maus marinheiros.
Entrevista Correio da Manhã: Francisco José Viegas
A Casa Fernando Pessoa estava cheia de pó
Francisco José Viegas director da casa Fernando Pessoa diz que quando chegou à Rua Coelho da Rocha em Fevereiro de 2006 encontrou a casa cheia de pó, sem actividades programadas. Em ano e meio de trabalho conseguiu trazer gente à Casa Fernando Pessoa, envolver as pessoas de Campo de Ourique e de Lisboa em muitas iniciativas, sempre com pouco dinheiro. E realça o facto dos funcionários da instituição terem abdicado de horas extraordinárias para manter a casa aberta à noite.
Correio da Manhã – A crise da Câmara de Lisboa afectou o trabalho da Casa Fernando Pessoa?
Francisco José Viegas – Afectou. A partir de Março, Abril, afectou. Tínhamos programado uma série de actividades, que se chamava “Lisboa, Cidade do Livro”, que iriam animar a cidade desde 22 de Abril até à abertura da Feira do Livro. Eram duzentas e tal actividades espalhadas pela cidade. As mais visíveis, como a vinda de escritores estrangeiros e três ou quatro ciclos de conferências, foram anuladas porque não havia verbas disponíveis.
- Não havia dinheiro.
- Não havia. No entanto, “Lisboa Cidade do Livro” decorreu e aconteceram cerca de cento e quarenta actividades. Com normalidade. Não foram as mais vistosas. Tínhamos previsto a vinda de dezasseis escritores estrangeiros, mas como não havia dinheiro foi tudo anulado.
- E desde a queda da Câmara em Maio até agora como tem sido a vida nesta casa?
- Mantivemos uma actividade absolutamente normal. Todas as iniciativas programadas, conferências, ciclos, debates, exposições, foram todas feitas. Sem um cêntimo. Tivemos aqui a semana de Cabo Verde só com o material da casa e o apoio da embaixada de Cabo Verde, para a vinda de escritores, para a música e exposições. Não gastámos um cêntimo. E para outras iniciativas recorremos a apoios externos, pontuais. Repare que em Maio tivemos, em média, uma iniciativa e meia por dia, o que é muito acima do normal e do que fizemos o ano passado.
- Como é que a Casa Fernando Pessoa conseguiu, no meio de uma crise financeira e política da Câmara, manter a sua actividade com um orçamento muito reduzido?
- Mesmo sendo reduzido teve um corte de 25 por cento, que foi o corte que abrangeu todos os serviços do pelouro da Cultura da Câmara.
- Esse corte foi em 2006 ou já este ano?
- Eu entrei em Fevereiro de 2006 e para 2007 houve um corte de 25 por cento em toda a direcção municipal de cultura. Mas eu não me queixo. Eu sabia ao que vinha. É muito fácil ser-se programador cultural ou ser-se gestor de bens culturais ou de instituições culturais com um orçamento grande. Aí há uma margem para se programar a nosso belo prazer, segundo uma política de gosto e de captação de público.
- E aqui, como é que ultrapassou a falta de dinheiro?
- O que nós fizemos foi, com os meios que tínhamos na casa e com o esforço empenhado do núcleo de pessoas desta instituição, trazer gente à Casa Fernando Pessoa. Foi uma estratégia definida com os responsáveis da Câmara. No primeiro ano, em 2006, era necessário reactivar a casa. A Casa Fernando Pessoa estava cheia de pó.
- Cheia de pó? A Casa Fernando Pessoa estava morta?
- Não havia actividades programadas.
- Estava morta?
- Era uma casa sem actividades programadas. Havia vários processos em curso, para iniciativas mais ou menos institucionais, colaborações, mas não havia nada programado. Logo em Fevereiro de 2006 tivemos logo várias iniciativas, apresentação de livros, debates, conferências e isso com o mínimo de custos. O objectivo nesse primeiro ano foi encher a casa. Fazer da Casa Fernando Pessoa um lugar marcante na geografia de Campo de Ourique e também na geografia da cidade.
- E com as escolas? Conseguiram dar a conhecer a casa aos jovens?
- Quando se fala em trazer novos públicos, em criar públicos, a primeira coisa que é preciso fazer é trazê-los, chamá-los. A casa tem uma biblioteca, um espólio de objectos pessoais de Fernando Pessoa, que é um incentivo às visitas tradicionais, de turistas, de escolas – temos quatro escolas por semana, as manhãs estão sempre cheias -, temos um grupo de investigadores estrangeiros, um auditório e um espaço para exposições. Tivemos que animar isto tudo. Mas sabíamos que no primeiro ano não tínhamos dinheiro para investir nas relações internacionais e em outros projectos muito importantes.
- Ficaram pela limpeza do pó?
- O que nós fizemos foi tirar o pó, limpar a casa, tirar o cheiro a vazio. E esse objectivo foi cumprido. Abrimos a casa. A programação não foi feita de dentro para fora, fomos perguntar às pessoas, como as universidades e as editoras, o que é que esta casa lhes poderia oferecer. E fizemos outra coisa. Ateliers de leitura e escrita para crianças, que repetimos este ano. Exactamente para criar novos públicos. E fizemos isto em colaboração com a Junta de Freguesia de Santo Contestável, aqui em Campo de Ourique. Este ano abrimos essa experiência a outras juntas.
- Para o ano vai repetir a essa experiência?
- Não só vamos repetir como vamos fazer uma coisa inovadora: ateliers de leitura e de escrita para adolescentes durante as férias escolares do Carnaval e da Páscoa. Uma altura em que os alunos se estão a preparar para os exames de português.
- Qual foi a adesão a esses ateliers?
- Sempre esgotados. As inscrições abriam e fechavam imediatamente. E foram feitos com pessoas da casa. Não houve recurso a meios exteriores. A Câmara apoiou-nos com os lanches para as crianças, por exemplo. E no fim desse trabalho o mais importante é o facto de cem crianças terem ficado a saber quem era Fernando Pessoa, que recitavam três, quatro, cinco quadras de cor, que escreviam versos do Pessoa e que fizeram as suas próprias quadras.
- Estou a ouvi-lo e a pensar no queixume permanente de muitos agentes culturais sobre a falta de dinheiro como justificação para tudo, principalmente para o que não se faz.
- Esse é um argumento para a conquista do poder. Quer dizer. É muito bom ter o poder de se decidir que programação é que se faz. O programador tem um poder imenso. Decide qual é a política de gosto de uma determinada instituição. O que nós fizemos foi abrir completamente a estrutura. Perguntar o que é que diversas entidades podiam fazer pela Casa Fernando Pessoa. E ao fim de três ou quatro meses tínhamos editores a propor-nos ciclos sobre isto ou aquilo. E aí vimos que era possível fazer muita coisa.
- Sem custos astronómicos e desculpas de falta de dinheiro.
- Exacto. Lembro-me de um debate aqui na casa, na presença da ministra da Cultura, sobre política cultural em que havia três, quatro participantes que se queixavam que as suas instituições ainda não tinham os dinheiros prometidos. Eu estava aqui como espectador e ouvia falar em duzentos, trezentos, quatrocentos mil euros, já tinha milhões de euros na cabeça, e disse-lhes que esse dinheiro todo correspondia ao orçamento anual, bienal da Casa Fernando Pessoa.
- Qual é o orçamento da Casa Fernando Pessoa este ano?
- Em 2007 não temos ainda ideia de qual é o orçamento. Houve um grande esforço para disciplinar os gastos na Câmara, nomeadamente na área cultural, o que foi muito bom. Mas no primeiro ano tivemos 250 mil euros, dos quais gastámos cerca de 60 mil. Só para ter uma ideia, de Abril até agora devemos ter gasto, no máximo, quatro a cinco mil euros.
- É extraordinário.
- Em programação. Não chegámos a cinco mil euros.
- Não acha que se poderia fazer muito mais com os muitos milhões que o Estado atribui à cultura a todos os níveis, seja ao nível do poder central ou do poder local?
- Sabe que há uma indústria cultural que vive necessariamente dos dinheiros do Estado.
- Mas é uma indústria muito fechada, só para alguns, que apanha tudo o que é subsídio estatal.
- É uma indústria que alimenta uma clientela.
- Clientela que vive do Estado e protesta muito.
- Eu desconfio sempre quando há protestos colectivos dos intelectuais contra o Ministério da Cultura, por exemplo. Há de certeza subsídios pelo meio. Eu desconfio sempre muito disso. Acho que é possível trabalhar de outra maneira. Não como nós fizemos, porque é esgotante.
- E teve a colaboração dos funcionários? Diz-se tão mal dos funcionários da Câmara.
- Deixe-me dar-lhe um exemplo. Se não fosse o esforço das pessoas da casa nós fecharíamos todos os dias às seis da tarde.
- Seis da tarde? Não há funcionários suficientes?
- Não havia pessoas. E como não estamos autorizados a pagar horas extraordinárias tivemos que encontrar uma solução de compromisso com as pessoas da casa, com os trabalhadores da casa a liderar.
- Quantos funcionários tem a Casa Fernando Pessoa?
- São dez pessoas, que abdicaram das horas extraordinárias para que pudéssemos ter iniciativas até às oito da noite ou até à meia-noite, com uma grande flexibilidade de horários. Eu percebi que era uma situação injusta, estar a pedir-lhes este sacrifício, mas a verdade é que sem essa disponibilidade a casa fechava às seis da tarde. Não tinha hipóteses.
- Essa foi uma boa surpresa quando aqui chegou?
- Foi. Eu sabia que a casa não tinha autonomia financeira, que havia problemas nos pagamentos a fornecedores, até porque as nossas verbas são insignificantes no universo da Câmara e por isso mesmo pensámos revitalizar a casa no primeiro ano e no segundo, que era este, estabelecer pontes para iniciativas internacionais. Fizemos isso com o Instituto Espanhol, fizemos isso em Buenos Aires, fizemos isso no Brasil.
- O Brasil adora Fernando Pessoa.
- Com o então prefeito Serra de São Paulo chegou a haver uma conversa muito informal sobre a possibilidade de se criar uma Casa Fernando Pessoa na cidade. Pessoa é mais lido no Brasil do que em Portugal.
- Custava muito dinheiro?
- Era um investimento mínimo porque quer o governo de São Paulo como a prefeitura estariam disponíveis para fazer isso.
- O projecto está a andar ou não?
- Não. Era impossível, Tínhamos necessidades elementares aqui na casa. E projectos, como a recuperação do jardim, do restaurante e da cafetaria, que traria muito mais público se estivessem abertos. As obras arrancariam até final deste ano, temos projectos executados, não são obras faraónicas e seria este ano também que lançaríamos uma obra fundamental, que era o anuário de Pessoa.
- Tudo com pouco dinheiro?
- Foi outra surpresa para mim. Na Casa Fernando Pessoa pode fazer-se muito com pouco dinheiro, menos do que eu próprio supunha.
- Falou da grande disponibilidade dos funcionários. Como é que isso foi possível aqui e não é possível na globalidade da Câmara?
- É uma questão de abertura às pessoas.
- De abertura?
- Da maneira como se tratam as pessoas. Da maneira como se responsabilizam as pessoas. Todos temos a ideia do monstro do funcionalismo público. Mas a verdade é que as pessoas são mal tratadas. Não são responsabilizadas. Não são chamadas a fazer propostas. Nós fazemos reuniões periódicas com todos. Fizemos uma festa no aniversário da casa com duas mil pessoas e foi tudo decidido por todos. Ao mínimo pormenor. A programação, a convocação dos meios, tudo.
- E tem o apoio de outros serviços da Câmara?
- A Câmara tem uma série de meios ao nosso dispor. Muito do que íamos fazer dependia em grande parte da colaboração da imprensa municipal. Independentemente do que podemos pensar sobre o peso, a falta de mobilidade desses departamentos, desde que as pessoas sejam motivadas é possível fazer muita coisa. E nós tivemos uma boa colaboração da imprensa municipal porque viam que nós estávamos interessados, que nos preocupávamos, que íamos lá. E tivemos sempre tudo pronto a horas. O que se faz aqui é possível fazer em outros departamentos. As pessoas estão sedentas de um pouco de organização.
- Só organização?
- As pessoas também estão a precisar de serem convocadas. De serem chamadas a participar nas iniciativas. Como aqui, em que todos fazemos de tudo um pouco, de uma forma de alguma maneira autogestionária.
- Essa disponibilidade dos funcionários surpreendeu-o?
- Foi uma surpresa para mim.
- Está a gostar desta experiência?
- Este ano e meio foi muito bom. Estou a gostar. E estou a gostar também pelo facto das pessoas de Campo de Ourique terem descoberto esta casa e gostam de ficar, de assistir e de ficar por aqui até às duas da manhã. Veja a festa do lançamento do livro de Agualusa. Estiveram aqui 500 pessoas, por todos os espaços, até às duas da manhã. Depois desta fase, de termos conquistado o público, gostaríamos de avançar para os projectos que já lhe referi, nomeadamente na área internacional.
- Com o Brasil na primeira linha.
- As relações internacionais. Temos hipóteses de assinar vários protocolos com universidades brasileiras. Felizmente temos um excelente embaixador, que é o Francisco Seixas da Costa, que mobilizou tudo e todos. Além disso temos um projecto de um kit móvel de uma exposição desenhado pelo Henrique Cayate em espanhol, inglês e português que é uma caixa e que pode ir pela mala diplomática para todo o mundo. Temos já pedidos da Venezuela, Argentina, Brasil, Marrocos, Angola, Moçambique, Uruguai, Estados Unidos. Tudo isto com meios muito reduzidos.
- Está a falar de quanto dinheiro?
- Nós fazemos isto por dez mil euros.
- Quer continuar aqui na Casa?
- Naturalmente que quando entrar a nova equipa da Câmara direi o que é que se está a fazer aqui na casa e fico à espera do que decidirem. Tenho um contrato anual, que é renovado todos os anos, que acaba em Fevereiro de 2008, mas aceito qualquer decisão. A minha vida nunca dependeu destes cargos.
- Mas pessoalmente gostaria de ficar.
- Eu fiquei fascinado com o projecto. E acho que é possível fazer muito mais coisas, as bases estão lançadas. E a base é a Casa Fernando Pessoa. Funciona. Tem gente. Tem ruído. Sabe que a nossa preocupação era a reacção dos vizinhos pelo facto de estarmos aqui até à uma da manhã. Com música, barulho, etc. E uma vez fui falar com um dos vizinhos e avisei-o que íamos ter uma iniciativa que deveria acabar tarde. E sabe qual foi a resposta dele? Finalmente há vida nessa casa.
- Há vida na Casa Fernando Pessoa. Mas Pessoa estava muito esquecido nesta casa?
- Temos de perceber a fortuna, a riqueza de termos uma coisa chamada Fernando Pessoa. Não serve só como um emblema. Serve como um motivo para uma coisa muito mais ampla. Um dos nossos projectos, que ainda não lançámos, é a “Lisboa, cidade Pessoa”. Uma iniciativa internacional.
- Pessoa é uma marca com enorme valor.
- Pessoa é uma marca fundamental. E se relacionarmos isso com Lisboa temos uma campanha notável. Não é preciso inventar nada. Temos tudo feito. Até temos a sorte de Pessoa rimar com Lisboa. E às vezes até digo a brincar que um dia vamos propor à Câmara que substitua os corvos por Pessoa.
- O escritor Francisco José Viegas está a escrever um novo romance, apesar do trabalho nesta casa?
- Vai sair um livro, provavelmente no fim da próxima Primavera, a continuação das aventuras de Jaime Ramos, um novo policial que em princípio se chamará “O Mar em Casablanca”. Estou a escrevê-lo de madrugada. Das quatro da manhã até as dez. Depois venho para aqui.
UM CIGARRO NA CONVERSA
Em primeiro lugar o indispensável registo de interesses. O jornalista do CM é amigo do jornalista e escritor Francisco José Viegas. Trabalhou com ele num semanário de curta duração, ‘O Liberal’, e esteve no mesmo grupo editorial durante alguns anos. Pelo caminho aconteceram muitos encontros. À volta da mesa, de uns copos, de boas conversas.
O director da Casa Fernando Pessoa gosta da vida. A cultura passa pela gastronomia, pelas viagens, pelos poemas, pelos romances e por essa figura notável do inspector Jaime Ramos que o acompanha em vários policiais. Mas também passa por umas cigarrilhas, uns charutos ou cigarros. Sempre. Ou não fosse Francisco José Viegas um admirador de Fernando Pessoa.
Na Casa, como lhe chama, há espaços para fumadores e não fumadores. Mas na entrevista não houve lugar para o politicamente correcto muito estúpido dos nossos dias. As fotografias revelam isso mesmo. A verdade de uma entrevista que acabou por ser uma boa conversa.
PERFIL
Francisco José Pereira de Almeida Viegas nasceu em Vila Nova de Foz Côa no dia 14 de Março de 1962. Pai de três filhos, viveu na aldeia de Pocinho, Alto Douro, até aos 8 anos. Fez o Secundário em Chaves e licenciou-se em Estudos Portugueses na Universidade Nova de Lisboa.
Jornalista e escritor, passou por diversos jornais e revistas e foi director de um desportivo. Publicou vários livros de poesia e romance. Em 2005, ganhou o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores com ‘Longe de Manaus’. É, desde 2006, director da Casa Fernando Pessoa em Lisboa.António Ribeiro Ferreira
"Os clássicos da literatura
têm de voltar à escola"

Viajante, gastrónomo, blogger e portista, Francisco José Viegas é, antes de mais, um cidadão do mundo que desfruta ao máximo do «lado prazenteiro» da vida. Para o director da Casa Fernando Pessoa, é a literatura que «forma gente culta» e esta pode também ser um importante veículo para afastar a «mania facilitadora» que se apoderou do ensino nacional. Sobre os portugueses, o autor de «Longe de Manaus» considera-nos «mesquinhos e invejosos», que desprezamos o património linguístico e que no «jornalismo existem demasiados ignorantes».
Pelas entrevistas que tem concedido, emerge que a escrita, as viagens e a gastronomia, compõem o triângulo de prazeres da sua vida. Como os definiria, isoladamente, utilizando uma escala própria de satisfação pessoal e explicando como estas actividades se podem fundir? Sente-se um privilegiado por ter prazer mesmo quando está a trabalhar?
Sinto-me um privilegiado por poder trabalhar. Essa é a primeira condição. Depois, por poder trabalhar em áreas que aprecio, que mobilizam mais energias pessoais, que me dão prazer. Não nego que houve, ao longo de vinte anos, uma certa insistência, uma teimosia – nem sempre foi fácil conseguir escrever sobre coisas que me dessem assim tanto prazer. Mas é preciso ser teimoso e insistente, foi uma das coisas que aprendi. De alguma maneira, o romance, ou seja, o tipo de ficção que escrevo, permite-me juntar algumas dessas áreas, como a viagem, alguma gastronomia – e um olhar mais prazenteiro sobre a vida. Geralmente, eu tenho receio de que as pessoas confundam aquilo que eu chamo «o lado prazenteiro» com uma busca do prazer a todo o custo, porque não é nada disso que se trata. O prazer de viver, o prazer em si, retira-se de coisas que não são excepcionais nem mobilizam grandes meios ou artifícios: uma pequena viagem, uma tarde, um livro, uma bebida, um fragmento da nossa vida. Nesse sentido não me considerarei nunca, por exemplo no campo da gastronomia, um gourmet. Um gourmet necessita de tempo, de dinheiro e de muitos conhecimentos – e de alguma abnegação. Eu gosto de ser uma pessoa assim, como sou, normal. Retirando prazer do que a vida me dá.
Define-se como «um viajante» e escreve mensalmente na revista «Volta ao Mundo». Qual o local do Globo que mais o marcou? E a viagem com que sempre sonhou mas nunca ousou fazer?
Acho que há dois lugares especiais na minha vida de viajante: toda a América Latina, do México ao Chile, passando pelo Brasil; e partes de África. O Brasil é, provavelmente, um dos lugares que mais me marcou, sobretudo pela sua diversidade. Acho que ninguém pode dizer «este é o verdadeiro Brasil», porque, justamente, não há verdadeiro Brasil. Apesar de ser um país que me desilude frequentemente, com uma classe política indigente e pobre de espírito, com desigualdades sociais gritantes, o Brasil é um país cativante e belíssimo. Depois, África. Mas África tem a ver com as minhas experiências pessoais e com a memória portuguesa de África. Há quem se sinta ligado a ela, e quem a recuse. Eu encontrei histórias fascinantes em África, são elas que me prendem a Moçambique, por exemplo.
Depois de «Longe de Manaus» e das aventuras do inspector Jaime Ramos, acaba de lançar um livro num registo diferente, intitulado «99 cervejas + 1 ou como não morrer de sede no inferno». Trata-se do primeiro guia do género em Portugal. Não é arrojado editar um livro sobre cerveja num país de tradição eminentemente vinícola? Como é que um «contador de histórias» se debruça sobre os vários tipos de cerveja?
A cerveja é uma bebida própria dos países que souberam transformar a agricultura em mais do que uma actividade ligada à sobrevivência, criando processos de fermentação e de transformação do cereal. Só as sociedades sem agricultura não têm cerveja, como os esquimós ou os aborígenes da Austrália. De resto, a cerveja é a bebida alcoólica mais antiga da Humanidade, anterior ao vinho, nascida na Suméria, espalhando-se pelo Mediterrâneo e pela Europa. A ideia de que a cerveja é uma bebida própria do norte da Europa – e que o vinho é do sul – é falsa. Na verdade, nós sabemos hoje que os lusitanos (e sabemo-lo com Estrabão, por exemplo) eram grandes produtores e bebedores de cerveja, reservando o vinho para os momentos especiais. De modo que o livro tem como intenção, igualmente, quebrar alguns mitos em redor da bebida. Diz-se que cerveja é menos nobre do que o vinho, mas a verdade é que a cerveja é ela e a sua circunstância, a sua companhia, a sua qualidade. E há cervejas tão diferentes e tão especiais, que achei que valia a pena tratar um pouco do assunto. De certa maneira, acho que todos nós somos uma espécie de pecadores do Renascimento… Quer dizer, temos interesses muito variados, muito diferentes – e não há mal nenhum em tratarmos cada um deles quando muito bem nos apetecer.
Não podia deixar de abordar uma das suas «paixões irracionais», o futebol. Tal como Miguel Sousa Tavares é portista e vive na capital. Primeiro, perguntava-lhe se o FC Porto vai revalidar o título de campeão em 2006/2007 e depois se acha, tal como Sousa Tavares, que «ser portista em Lisboa é como ser muçulmano na Bósnia»?
Acho que o FC Porto tem condições para ganhar o campeonato. O Sporting é a equipa que melhor joga até agora – mas o FC Porto tem uma equipa fantástica. Falta-lhe um goleador nato, um rebelde criativo. E acho que vamos ser campeões. Ser portista em Lisboa deixou de ser um perigo, como acontecia nos anos setenta e oitenta (não me lembro de ver mais portistas na minha faculdade…) para passar a ser uma curiosidade. E hoje é normal. Espero que seja normal. O futebol, sabe?, devia ser levado menos a sério. Eu comporto-me como hooligan no estádio: grito, entristeço, até insulto, se for preciso. Mas faz-nos falta esse lado selvagem, que deve ser divertido, deve ser até cómico. E deve ser exagerado. Todos precisamos de exagero, de excesso. De obsessões.
Assume ter uma «relação conflituosa» com Portugal, mas regressa sempre à pátria natal. Ouvimos falar em défice económico e de alma e o futebol é o único paliativo para a depressão. Acha que a identidade nacional tem sido beliscada pela conjuntura negativa? Resta-nos algo para além do futebol? Quando é que acha que a «poeira», uma das suas palavras favoritas, vai assentar?
Eu acho que os portugueses têm uma relação difícil com a pátria em tempos normais, quer dizer, em tempo de existência vulgar. A verdade é que ainda não perdemos várias ideias de grandeza e de excepcionalidade. Sentimo-nos bem em festa, durante as euforias do futebol, das exposições universais, por exemplo – mas achamos que o resto, o que vem a seguir, é triste e humilhante. Não devia ser assim. Devíamos, provavelmente, reconhecer que há uma certa grandeza na «aurea mediocritas», na vida de todos os dias – isso significa respeitar a vida quotidiana, enchê-la de referências de qualidade: bons transportes públicos (a questão dos transportes, da mobilidade, é essencial nas grandes cidades), honestidade na administração pública, critérios de exigência e de qualidade em tudo o que é serviço público, exemplos de poupança e de economia real na vida pública, prémios para a invenção e para a criatividade, severidade e muita disciplina em tudo o que é exemplo público. As pessoas gostavam de viver “como na Europa do Norte”, mas ignoram a outra face da moeda, ou seja, o que custa ser cidadão na Europa do Norte. Lá, e eu conheço relativamente esse mundo, as pessoas não vão jantar fora tão frequentemente como em Portugal, não faltam ao trabalho, não se queixam dos impostos, trabalham muito, os estudantes não têm a vida facilitada como aqui, há demasiada exigência. Ganham mais do que aqui. Mas não sei se as pessoas estão dispostas a pagar esse preço. Na nossa Europa do sul há uma maior informalidade, que não existe no norte da Europa; há mais liberdade e menos politicamente correcto. As pessoas têm de optar. Não podem querer o modelo de vida do sul e a remuneração do norte. São estilos de vida diferentes. São modelos económicos diferentes. E depois, deixe-me dizer isto, acho que a questão da auto-estima é falsa. Nós precisamos de esquecer essa coisa ridícula. E precisamos de deixar de nos mortificar, de obedecer ao temperamento oficial… Devemos viver a nossa vida como ela é. Olhe, quer um exemplo? Colombo. Cristóvão Colombo, por exemplo. Quantos historiadores estudam a importância de Colombo ser ou não ser português. Magalhães. Os Corte-Real. Temos uma tradição recente, que é a dos anos setenta, que assenta na ideia do remorso, muito semelhante à do «remorso do homem branco» – desvalorizámos a nossa presença em África, desvalorizámos o nosso carácter aventureiro, desvalorizámos os nossos heróis, os nossos mitos fundadores, as nossas pequenas glórias. Enquanto não dermos a volta a isso, não teremos respeito pela nossa alegria. Nenhuma engenharia financeira nos ajudará a sermos mais felizes. E precisamos de deixar de ser tão mesquinhos uns com os outros, tão invejosos. Precisamos de ser mais livres, mais soltos.
É acima de tudo um homem de comunicação. Também é jornalista, foi director da «Grande Reportagem» e escreve uma crónica semanal no «Jornal de Notícias». É mais um dos que se junta ao coro de desencantados pelo panorama actual do jornalismo nacional?
Não estou desencantado. Acho que há demasiados ignorantes no jornalismo, demasiada gente a escrever mal, muitos lugares-comuns, muita gente sem conhecimentos de história, de civilidade, de ortografia.
Pensa que a concentração dos títulos em grandes grupos económicos desvirtuou a forma de fazer jornalismo?
Os grandes grupos económicos cumprem o seu papel, tentando ganhar dinheiro fazendo jornais, mas precisam de compreender (e aos poucos compreendem-no) que não se podem perder critérios de qualidade.
Ser blogger, é outra das suas facetas. Primeiro o «Aviz», depois «A origem das espécies». Que virtudes e perigos encontra na blogosfera?
As mesmas da vida em geral. A blogosfera mudou a nossa forma de comunicar, de nos informarmos e de participarmos na discussão sobre a vida, a política e a cultura. Acho estranho que haja ainda receios da blogosfera, porque os blogs são fundamentais, hoje em dia, para perceber como pensam os portugueses que pensam. Além do mais, os opinadores dos jornais e das revistas são quase todos eles herdeiros do PREC e do regime – a blogosfera revelou gente que pensava de outra maneira, que escrevia melhor, que pensava melhor. E mostrou que o reino da opinião nos jornais, estava muito pobre.
Foi professsor universitário de estudos portugueses na Universidade Nova e desempenhou o cargo de director da revista «Ler» durante 14 anos. Acha que os portugueses estão sensíveis e despertos para as virtualidades da sua Língua, um dos maiores patrimónios nacionais aquém e além fronteiras?
Não. Não estão sensíveis e desrespeitam muito esse património. O português, aliás, já não nos pertence – já não somos os “donos da língua”. Os brasileiros são 180 milhões a falar a nossa língua. Juntemos os africanos. Temos um património linguístico e literário riquíssimo que andamos a desprezar. Enojam-me os erros ortográficos nas legendas e rodapés televisivos. A linguagem dos políticos, que é pobre e cheia de erros. Faz-me muita impressão a superficialidade com que tratamos a nossa língua.
No seu discurso aquando da entrega do «Prémio Romance e Novela 2006» da Associação Portuguesa de Escritores, alertou para a importância de se ensinar mais literatura nas escolas. Pensa que a Língua de Camões e os autores lusos têm sido desprezados em favor de programas e soluções educativas mais facilitadoras?
Penso exactamente isso e penso que a culpa não é dos professores, que se esforçam muitas vezes por corrigir aspectos degradantes dos programas de ensino do português. Muitos professores de português são autênticos heróis, quando põem as crianças e os adolescentes a ler. Mas o tom, os objectivos e os tiques ideológicos dos programas de Português ou de História, que é um resultado dos anos setenta, tem dificultado muito a vida dos melhores professores, tentando fazer deles personagens medíocres. Sempre separei as duas realidades: o Ministério da Educação e os professores. E acho que a literatura tem de voltar em força às escolas; não a literatura de hoje, apenas. Mas os clássicos. Os clássicos lidos com alegria e criatividade. Cesário, o barroco, Gil Vicente, Camilo, Camões. Tudo isso. Lidos, sem cartilha ideológica e sem preconceitos. Lidos por prazer. É assim que se forma gente culta, colocando-a em contacto com a cultura. Essa mania facilitadora tem vindo a transformar o ensino numa coisa classista e boa para as elites – que têm acesso aos autores e à cultura fora da escola.
A polémica em torno dos exames voltou a semear a discórdia na educação. Os resultado foram desastrosos. Os maus alunos de hoje serão os políticos e os gestores do amanhã. Teme que esta geração mantenha os tiques de «irresponsabilidade», como diz, que os sucessivos governantes têm patenteado nas últimas décadas?
Na verdade, temo um pouco. Basta comparar com os resultados do resto da Europa. As pessoas dizem-me que não interessam apenas os resultados – concordo, mas o que é que temos no final senão resultados? Acho que teremos de ser mais exigentes, mais responsáveis. Sou pela responsabilização dos professores e pela avaliação permanente e rigorosa dos técnicos ministeriais que transformaram os programas e métodos de ensino numa balbúrdia. Toda a gente culpa os professores, mas poucos apontam o dedo à ilustre geração de técnicos ministeriais que agiram em roda livre, espalhando mediocridade, irresponsabilidade e maus resultados por anos e anos de impunidade. Quem avalia essa gente? Quem os responsabiliza?
A ministra da Educação tem sido atacada por todos os lados. Concorda que quando alguém é impiedosamente criticado por tudo e por todos, é porque está a reformar conceitos e mentalidades e a mexer com os interesses instalados?
Acho que o princípio pode ser válido neste caso e acho que a ministra tem conseguido mexer com o que chama «interesses instalados». Falta agora melhorar a qualidade do ensino e a qualidade de vida dos professores, dignificar a profissão, incentivar a formação profissional, deixar de tratar os professores como profissionais de uma profissão qualquer. Mas é preciso que eles se comportem como tal. E não, não concordo em absoluto com a interferência dos pais no sistema de ensino e na avaliação dos professores. A escola pública deve ser, para os alunos, também um espaço de liberdade em relação à família e à sua intimidação. Na escola devem ser avaliados segundo os critérios da escola. Misturar escola e família deu sempre resultados pobres e acabou com a independência de critérios da escola e dos professores. Uma balbúrdia. Aliás, os pais nem sequer devem partilhar o mesmo espaço dos alunos na escola. É bom para os alunos e bom para os pais. Mas os critérios terão de ser mais exigentes.
Nuno Dias da Silva
PRÉ-PUBLICAÇÃO: As Mulheres do Meu Pai, de José Eduardo Agualusa.
(Capítulo 1) [parte ii]
Oncócua, Sul de Angola. [Leandro, a partir daqui começamos em página branca]
Domingo, 6 de novembro de 2005.
– De quantas verdades se faz uma mentira?
A luz, filtrada primeiro por uma rede muito fina, presa à janela, e uma outra vez pelo mosquiteiro, a envolver a cama, deslizava puríssima, numa torrente incrédula, contaminando a realidade com a sua própria descrença. Virei a cabeça e dei com o rosto de Karen. Dormia. A dormir Karen volta a ser jovem, como suponho que era antes da doença (da maldição).
Estamos em Oncócua, num pequeno posto médico gerido por uma organização não-governamental alemã. Oncócua, como tantas outras vilas de Angola, foi desenhada com largas avenidas, para ser no futuro uma grande cidade. O futuro, todavia, atrasou-se. Talvez nunca chegue. Levantei-me com cuidado e espreitei pela janela. Uma enorme montanha, com o formato de um cone perfeito, flutuava no horizonte. Duas mulheres mucubais avançavam sem ruído. A mulher mais alta não devia ter mais de 16 anos, cintura estreita, pulseiras coloridas nos finos pulsos dourados; lembrei-me, ao vê-la, de um verso de Ruy Duarte de Carvalho – os seios: frágeis acúleos na placa do peito. Ruy Duarte escreveu belos versos sobre os seios das meninas mucubais. Compreendo-o bem. Se eu fosse poeta não teria outro tema. A segunda mulher cobria o tronco com um pano verde e amarelo. Mancava um pouco.
– São bonitas, não são?...
Karen estava sentada na cama, o cabelo castanho em desalinho. Disse-lhe:
– Sonhei com a Laurentina...
– A sério? Isso é bom. As personagens começam a existir no momento em que nos aparecem em sonhos.
– No meu sonho ela era indiana. Uma rapariga de cabelo liso, olhos grandes, pele muito escura.
– Não pode ser. Talvez meio indiana, não te esqueças que o pai é português...
– O pai? Qual deles?...
– Boa pergunta. O Faustino Manso era luandense, mulato ou negro. O que a adoptou era português, e o biológico...
– Não pensámos nisso...
– Tens razão, não pensámos nisso. Quem diabo era o verdadeiro pai de Laurentina?...
(Mentiras primordiais.)
Fecho os olhos e no mesmo instante regresso à tarde em que a minha mãe morreu. O meu pai recebeu-me à porta do quarto:
– Ela está muito agitada – murmurou. Tenta acalmá-la.
Entrei. Vi-lhe os olhos acessos na penumbra:
– Filha.
Colocou-me na mão um envelope:
– Chamam-me. Tenho de ir. Isto é para ti, Laurentina. Perdoa-me...
Não voltou a falar. Mais tarde apareceu Mandume. Lembro-me de o ver ajoelhado aos pés da cama, segurando a mão da minha mãe. O meu pai, em pé, de costas para nós. O meu pai, ou melhor, o homem que até àquela tarde eu acreditava que fosse o meu pai. Está agora sentado diante de mim. Tem um rosto seco, anguloso, com as maçãs do rosto salientes. A cabeleira é farta, grisalha, penteada para trás. Deve ter ensaiado a pergunta noites a fio na solidão do seu quarto de viúvo:
– De quantas verdades se faz uma mentira?
Fica calado um momento, o olhar perdido em algum ponto atrás de mim, depois acrescenta com ênfase:
– Muitas, Laurentina, muitas! Uma mentira, para que funcione, há-de ser composta por muitas verdades.
Olhos brilhantes, húmidos. Sorri tristemente:
– Era uma boa mentira, a nossa, uma mentira composta por muitas verdades, e todas elas felizes. Por exemplo, o amor que Doroteia tinha por ti era realmente um amor de mãe. Tu sabes disso, não sabes?
Olho-o atordoada. Levanto-me e vou até à janela. Posso ver dali o pátio iluminado pelo sol. A figueira que salvei, há anos, tirando-a de uma pequena jarra quebrada, numa lixeira, e plantando-a num enorme vaso de barro, está a dar-se bem junto à enorme chaminé em tijolo que divide o pátio. Cresceu muito, e muito torta, como é próprio da natureza das figueiras. A buganvília, ao fundo, já perdeu todas as flores. Janeiro declina. Um mês mau para se morrer, mesmo em Lisboa, onde até no inverno surgem com frequência, desgarrados e sonolentos, como papoilas dispersas num campo de trigo, dois ou três esplêndidos dias de verão.
O meu pai teria gostado que eu fosse um rapaz. Até aos 12 anos, ignorando os protestos da minha mãe, comprava-me calções, e boinas, e jogava à bola comigo. Temos uma ligação muito forte. Tivemos sempre.
– A ilha, papá, como é o tempo em Moçambique, nesta época?
A pergunta não o surpreende. Julgo que se sente aliviado por poder mudar de assunto. Suspira. “Em Janeiro”, diz, “costuma fazer muito calor na ilha. O mar é de um verde luminoso, a água quente, filha, chega aos 35 graus, uma sopa de esmeraldas”. Tira uma moeda do bolso, “Lembras-te?”, eu lembro-me, claro. Seguro na moeda. Vinte reis. Está muito gasta, mas ainda assim consigo ler a data sem dificuldade: “
– Estou aqui a tentar compreender como é que vocês foram capazes de me esconder uma coisa dessas durante tantos anos! Podes explicar-me?...
[1] Choro muito. Choro no cinema, nos casamentos, choro a ler qualquer coisa, eu sei lá, O amor nos tempos da cólera. Comovem-me os desastres ou as alegrias de amor dos outros, mas não me lembro de ter chorado alguma vez em razão dos meus próprios desaires.

Apesar da polémica que a terminologia linguística tem suscitado, o Ministério da Educação não vai suspendê-la e quer vê-la definitivamente na vida das escolas. O director-geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular encara-a como medida para combater os maus resultados dos alunos. Precisa é de correcções.
Por Bárbara Wong
A Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS) - aprovada há dois anos e confirmada pelo actual Governo - tem como objectivo uniformizar os termos gramaticais usados no ensino. Professores, escritores e pais não lhe têm poupado críticas.
Francisco Seixas da Costa*
Sem os menores complexos ou remorsos, Portugal vive a sua história com uma imensa serenidade e um grande orgulho. O tempo ajudou-nos a arquivar os conflitos e a saber retribuir os afectos, muito para além das hipérboles da retórica. Brasil e Portugal, pelo que foram e pelo que são, podem hoje dar-se ao luxo de revisitar, num exercício de imaginário assente numa língua e em tantas outras coisas em comum, os dias da presença da Corte de um deles na bela cidade que, afinal, se tornaria a capital do outro. Estou certo que saberemos fazer essa festa com alegria e amizade sincera.
* Embaixador de Portugal no Brasil
POLICIER
Deux enquêteurs, la nostalgie portugaise et une écriture tissée de poésie
Les mots bleus de Francisco José Viegas
LES DEUX EAUX DE LA MER
de Francisco José Viegas
Traduit du portugais
par Séverine Rosset
Éditions Carré Jaune/Albin Michel,
416 p., 18 €.
Voici un de ces livres dont on peut dire qu’on ne l’espérait même plus, un de ces livres lestés, mais d’un alourdissement digne et juste, imposant, d’emblée, tout ce qu’il fallait pour que l’on s’attache – à l’auteur, ses manières d’écriture, ses personnages. C’est la récente collection d’Albin Michel qui nous emballe le tout, un joli Carré Jaune pour de nouveaux horizons vers « toutes les littératures policières, européennes surtout », et ces Deux Eaux de la mer, donc, envoûtantes et si fortement portugaises, de bout en bout et de mot en mot – la traduction proposée par Séverine Rosset est limpide et forte.
Il s’agit bien d’une enquête policière – deux corps sur deux plages, deux pays : Rui Pedro Martin assassiné par balles à Finisterra (Galice, Espagne), et Rita Calado Gomes retrouvée sans vie, simple noyade, sur les galets îliens des Açores. Vivants, ces deux morts furent amants. C’est ici qu’apparaissent, comparses doux de l’auteur, les deux enquêteurs dont les silhouettes uniques façonnent pour beaucoup l’attachement à ce roman (1) :
Filipe Castanheira est inspecteur exilé volontaire sur l’île de Sao Miguel, loin de Lisbonne, sa nostalgie, « ce genre de ville où il n’y a pas de place pour les souvenirs de ceux qui ne l’aimeraient pas ». Son ami et collègue, Jaime Ramos, exerce à Porto. Et c’est à ces deux drôles de bonshommes, trentenaires empreints d’une saudade, cette tristesse si locale qu’ils revendiquent à chaque geste ou choix de vie, à chaque dialogue, à chaque approche de leur métier, c’est à ces deux-là qu’échoit la double enquête. « Il y a une mer infinie qui se brise dans le sillage de la morgue, qui s’engouffre par les fenêtres, une mer infinie dans la voix d’une ville, à cette heure, à toutes les heures… » : la force de Francisco José Viegas est d’avoir réussi un livre qui, entre les lignes éparses du roman policier, n’est que lente, extrêmement lente digression poétique.
Ses deux héros n’avancent que par le doute, les yeux ouverts sur les lignes de fuite brumeuses d’un ciel, du tangent d’un bleu de mer vu d’un avion ; doute sur doute dans leur métier, dans leurs amours – et Isabel, qu’aime Filipe, n’est qu’un nom et n’apparaît qu’en tant que femme évaporée, ingrédient parmi d’autres de cette saudade générale mijotée à petit feu. Car Francisco José Viegas fait, de plus, de ses deux inspecteurs, de doux gourmets : cuisine à longueur de pages, cigares et vins fins. Montalban, Le Carré ne sont pas bien loin, mais, sous leurs auspices, cês Deux Eaux de la mer se referment sur la certitude d’avoir rencontré un univers à part, deux héros, une langue tissée d’îles et de ciels, une écriture solitaire : un auteur.
MICHAËLLE PETIT
(1) Premier volet d’une trilogie, à paraître intégralement chez Albin Michel.
In La Croix
O livro "Longe de Manaus", de Francisco José Viegas, é o vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 2005.
Trata-se de um mais importantes prémios literários portugueses, no valor de 15 mil euros, e foi atribuído por maioria por um júri constituído por José Correia Tavares, que presidiu, Liberto Cruz, Luis Mourão, Luiz Fagundes Duarte, Serafina Martins e Teresa Martins Marques, informou a Associação Portuguesa de Escritores (APE).
Segundo a APE, o número de livros admitidos ao concurso (90) foi o maior desde a primeira edição do prémio, há 24 anos.
Dois dos seis membros do júri do Grande Premio de Romance e Novela da APE votaram na obra "A Voz da Terra", de Miguel Real, indicou a instituição.
O prémio é patrocinado pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, Câmara de Grândola, Fundação Gulbenkian, Imprensa-Nacional Casa da Moeda, Instituto Camões e Sociedade Portuguesa de Autores.
Francisco José Viegas é actualmente director da Casa Fernando Pessoa, tendo exercido antes cargos de direcção em jornais e revistas.
Nascido em 1962 em Vila Nova de Foz Côa, viveu na aldeia de Pocinho até aos oito anos, mudando-se então com a família para Chaves, onde fez os estudos secundários. Formado em Letras pela Universidade de Lisboa, Viegas foi professor de Linguística na Universidade de Évora.
Jornalista, escreveu para jornais e revistas como o "Jornal de Notícias", "Diário de Notícias", "O Independente", "Visão", "Ler" e "Grande Reportagem". Actualmente, apresenta com periodicidade semanal programas culturais na rádio e na televisão.
Data de 1983 a sua estreia em livro, na Poesia, com "Olhos de água", a que se seguiram "As imagens", em 1987, o ano em que publicou o seu primeiro romance, "Regresso por um rio". A sua obra poética inclui ainda títulos como "Todas as coisas", de 1988, "O Medo do inverno seguido de poemas irlandeses", de 1994, e "O puro e o impuro", de 2004.
Na ficção, Viegas escreveu "Crime em Ponta Delgada", de 1989, "Morte no Estádio", de 1991, "As duas águas do mar", de 1992, "Um crime na exposição", de 1998, "Lourenço Marques", de 2002, e o agora premiado "Longe de Manaus", de 2005.
São ainda de sua autoria uma peça de teatro, "O segundo marinheiro", de 1988, e, publicado neste mesmo ano, um livro de viagens, "Comboios portugueses".
Várias das suas obras estão traduzidas na Alemanha e em França.
| Francisco José Viegas distinguido com Grande Prémio de Romance e Novela da APE | ||||||||
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| Francisco José Viegas, galardoado esta quarta-feira com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), é um dos mais jovens escritores a receber esta distinção, atribuída a autores portugueses desde 1982. |
Viegas tem 44 anos. Nasceu em 1962 em Vila Nova de Foz Côa, fez os estudos secundários em Chaves, formou-se em Letras na Universidade de Lisboa e desenvolve desde então, a par da escrita, actividades múltiplas de divulgação cultural, na rádio, nos jornais e na televisão.
Hoje, numa primeira reacção ao anúncio do prémio, disse à Lusa ter ficado "surpreendido e ao mesmo tempo contente" com a distinção, que considera "um estímulo".
Viegas estreou-se nas letras em 1983, aos 21 anos, com uma recolha poética a que deu o título de "Olhos de água".
Quatro anos depois, publicou um novo título poético, "As imagens", e lançou a sua primeira ficção, "Regresso por um rio".
"Excelente poeta", na opinião do também poeta e ficcionista Vasco Graça Moura, o anterior vencedor do prémio com o romance "Por detrás da magnólia", Viegas deu já à estampa, 23 anos volvidos sobre a sua estreia, seis livros de poesia e nove de ficção.
Graça Moura, como aliás outros dos autores contactados pela Lusa - casos de Jorge Saramago e Agustina Bessa-Luís - não leu o hoje premiado "Longe de Manaus", mas tem da obra anterior do autor opinião positiva.
São, em seu entender, livros com "um resultado muito bom" e "grande eficácia literária".
Para Lídia Jorge, distinguida com o Grande Prémio em 2002, com o romance "O vento assobiando nas gruas", "Longe de Manaus" é "o melhor livro" de Viegas.
"É - disse à Lusa - um livro estupendo, que tem um enredo policial, mas também uma natureza psicológica e mítica, e que junta dos perspectivas, a portuguesa e a brasileira".
Baptista-Bastos entende ter sido "mais do que merecido" o Prémio atribuído a Viegas, porque "Longe de Manaus" é "um belíssimo romance de um grande escritor da língua portuguesa".
"Escreve - disse o autor de "Cão velho entre flores" - um português admirável, coisa que vai sendo cada vez mais rara nos escritores e nos jornalistas portugueses".
A obra ficcional de Viegas inclui títulos como "Crime em Ponta Delgada", "Morte no estádio", "As duas águas do mar" e "Lourenço Marques", romances assentes em tramas policiais mas não se limitando a um desenvolvimento linear desse "esquema".
Escreveu ainda uma peça de teatro, "O segundo marinheiro", e um livro de viagens, Comboios portugueses".
Actualmente, é o director da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.
O Grande Prémio de Romance e Novela da APE registou na edição deste ano um número recorde de obras concorrentes, 90. O seu valor pecuniário é de 15.000 euros.
Nas anteriores edições foram distinguidos autores como José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, Saramago, Agustina Bessa-Luís, David Mourão Ferreira, Vergílio Ferreira, Mário Cláudio e António Lobo Antunes.
Agência LUSA
2006-06-07 20:32:02
A Sagres é a mais tradicional das cervejas portuguesas, nascida em 1940. Exactamente: durante a Exposição do Mundo Português e as comemorações do Império. Daí que, doravante, a sua história esteja, também, ligada à história do design de bebidas em Portugal e, na verdade, à história da própria cerveja entre nós. Durante anos criou-se a ideia, sem dúvida desmesurada e estranha, de que se tratava de uma cerveja pesada. Erro. A Sagres foi, quase sempre, uma cerveja bem feita, bem preparada e, enfim, razoável. Os seus apreciadores detectavam nela uma simplicidade atraente e natural que os bebedores mais jovens não conseguiram compreender. Cometeram-se algumas maldades contra a Sagres. De alguma maneira, a cerveja evoluiu e abriu mais o paladar e a sua cor. Na boca reconhece-se a suavidade do malte, um tom seco, e a presença do lúpulo. Tem algum corpo, reflexos dourados, e um tom amargo que se solta do último suspiro do bebedor; a espuma é muito aberta, o que é uma pena porque muitas vezes se perde – mas o bom apreciador sabe como obter uma espuma correcta e suculenta. Sedosa, textura bastante aceitável, nada que lembre uma cerveja aguada e sensaborona, própria para almas desinteressantes.
+MARCA: Sagres
Origem: Portugal
Álcool: 5,1%
Avaliação: ***
Aprecio nas cervejas escuras o seu apelo à contenção, o seu peso e a suavidade. Não são coisas contraditórias. Ao contrário das cervejas claras, lagers clássicas e pilseners de eleição, as cervejas escuras ou mais escuras (stouts, ales, dunkels, de ruivas a pretas) chamam por nós naquele momento em que a boca se desfaz do líquido e o deixa seguir caminho; ou seja, a cerveja vai, parte, mas nós ficamos cá do alto, vigiando a descida esófago abaixo, se é que ela desce alguma vez pelo esófago – coisa que, por elegância, acredito que não fará. A designação de cerveja preta quase nunca é muito precisa, pois abarca uma série de identidade e de categorias muito distintas. A Tagus, que é uma boa lager, lançou agora a Magna, que se junta às outras cervejas escuras portuguesas. Recomendo que se proceda à sua prova: em primeiro lugar, não se trata de uma stout, antes aparece como uma dunkel de estilo alemão, quase regulamentar e bávaro, embora com um tom mais doce ou caramelizado. Olhada à luz, faz-nos tremer ligeiramente: o copo, transparente, revela um tom rubi profundo e nada envergonhado. E, se é mediana no seu aroma (nada de profundo, de facto), o paladar compensa bastante, com uma evocação simpática de sabores em suspensão, volteando e rodopiando naquele final de boca acentuado. Só o facto de não trazer impresso «stout» no rótulo é já uma coisa honesta. De facto, é uma boa dunkel portuguesa.
Eu não vejo grande inconveniente em fazer-se cerveja com ananás, abóbora, rabanete, gasolina de avião, álcool etílico ou com ginja. O importante é haver quem a beba; não me apanharão em campanhas de rua a exigir a pureza absoluta da cerveja ou de qualquer outra coisa. Em África já me ofereceram vinho branco com Coca Cola e eu recusei – mas havia bastante gente à minha volta a segurar na mão o copo com a mistura. De volta à pátria real, descubro uma cerveja com aroma de limão e uma campanha publicitária que fala da sua leveza e dimensão angelical. Estranhei que não a tivessem feito antes – à mistura, porque a publicidade nem era má. Nada disso me incomoda, nem acho criminoso desde que não me obriguem a bebê-la em doses normais. Basta cheirá-la. Há quem invoque o hábito mexicano de tingir a claridade radical das suas cervejas com umas gotas de limão ou, mesmo, de nela mergulhar um quarto de lima para lhe transformar o sabor, tornando-a ligeiramente doce; nem isso me parece uma exclusiva mexicanização: na Europa há cervejas com um leve toque cítrico que não desconhecem de todo o caminho do pódio – pelo contrário, são muito agradáveis. Não são aquela cerveja. Não. Mas não erguerei o cadafalso para penalizar os seus autores. Ora, por falar em campanhas publicitárias de cerveja em Portugal há uma que gostaria de recordar; diz: «É boa.» Voltar à pátria a espaços tem destas vantagens: eu já conhecia a cerveja mas tinha-me passado a campanha. Não é despropositada – a Tagus é uma cerveja muito apreciável, claramente lager, seca e com um tom colorido bastante apetitoso, cerealífero. Herdeira da tradição das pequenas indústrias locais (que produziram em Portugal marcas como a Marina, Clock, Cergal ou Topázio), é necessário saber aprender a beber a Tagus: não é vulgar nem excessivamente gaseificada, como acho que pede o gosto português; tem um aroma quase perfeito e um sabor que ronda o limão, frutos frescos e um final de noz. É boa. Quer dizer: a campanha não mente. É boa e pronto. Malte puro, água pura, lúpulo – com isso se faz uma cerveja.
Nas cervejas, como em muitas outras coisas da nossa vida, há obsessões e hábitos adquiridos com a prática. A Super Bock é um dos selos da identidade do malte & lúpulo português – e, convém esclarecer, não tem nada a ver com a designação bock, que diz respeito a uma cerveja de sabor intenso, de teor alcoólico mais elevado (chega aos 16 e, no caso das Dopplebock, aos 18%), ligeiramente mais doce, originária de Einbeck (Baixa Saxónia) e que depois adquiriu diferentes significados – todos eles relacionados com a “qualidade do fabrico”. Durante muitos anos, o principal argumento do bebedor de cerveja em favor da Super Bock tinha a ver com a sua leveza de carácter. Era um ponto a seu favor, admito: transparência mais admirável no copo, uma espuma aceitável (ainda que sem muita densidade) que protegia o borbulhar, cor mais apetitosa em meses de canícula. Na verdade, era a lager portuguesa mais fácil de beber. Essa característica não se alterou muito: a Super Bock mantém um tom de frescura, ligeiramente afrutado e que tem vindo a melhorar. Na boca, começa por ter um vigor intenso que depois passa a amargo. Os seus apreciadores detectam esse final muito equilibrado que não lhe retira peso como uma cerveja que cumpre a sua função – dessedentar, refrescar, ser uma pale lager de referência, seca de paladar e limpa quando vista diante da luz. Há cervejas que têm apenas essa característica e não vem daí mal ao mundo.
+ MARCA: Super Bock
Origem: Portugal
Álcool: 5,6%
Avaliação: ***
A cerveja brasileira tem os seus admiradores pelo mundo fora – e os portugueses aceitam, de bom grado e com santa ingenuidade, que se trata, em geral, de uma cerveja superlativa. Na verdade, há casos. Mas convém relembrar que uma cerveja é o modo como ela é construída e a circunstância em que é bebida. Portanto, num cenário idílico em que as poeiras dos trópicos transformam o nosso carácter e nos conferem uma certa dose de perturbação dos sentidos, até uma Antárctica pode parecer uma boa cerveja. Mas não é. Ora, ao contrário do que se pensa, é cada vez mais difícil fabricar más cervejas. Depois de passar dois anos a escrever sobre o assunto, semanalmente, raramente encontrei más cervejas – em todo o mundo. A Sagres, que lançou uma razoável cerveja ruiva há um ano (seguida pela Super Bock, que lançou a Abadia), acaba de disparar para o mercado com a Sagres Chopp, tentando vender a imagem de uma «cerveja brasileira», leve e suave. Não conseguiu. Não tem espessura de «chopp» (que só se obtém verdadeiramente, em todo o seu esplendor, em barril), não tem a sua gloriosa espuma, não tem o seu sabor de coração frio. O rótulo é feio e desagradável, de design cavernícola – e a “carica” nem a marca leva impressa. Aroma, quase nenhum; sabor, amargo demais mas sem personalidade. Experimentei seis garrafas em copos diferentes e foi sempre desilusão. Não tem sabor, não é – ao contrário do que a sua publicidade afirma – leve e possui uma densidade que até na cor se manifesta. Um falhanço.
Regresso à pátria depois de uma viagem pelo sul do mundo, e encontro-a cheia de novidades; não me refiro ao futebol, à política ou à meteorologia. Falo da cerveja. Tinham-me já escapado a viseense Tagus Magna, uma dunkel que não me arrependo de gabar, e a madeirense Coral Tónica, uma aproximação ligeira à dunkel. Mas eu não queria que me fugisse a Bohemia, a nova experiência da Sagres. O leitor já sabe que essas cervejas avermelhadas me caem no goto. Aliás, caem bem sobretudo no estômago (já aqui mencionei a Murphy’s Red), são ligeiramente digestivas, afrutadas e, quando servidas de acordo com as regras, a sua espuma flutua como os pássaros num poema de Yeats. A imagem é exagerada, mas é para que o leitor compreenda. É preciso dizer, antes de mais, que não se deve beber uma red do mesmo modo como se bebe uma lager simples. Há horas para tudo. Com certeza, a Bohemia não é a cerveja indicada para refeições substanciais, pois o seu açúcar pode confundir-nos o paladar – o aroma é intenso, solta-se em vagas que nos transportam até outras latitudes. Deve beber-se com concentração e desprendimento. A Bohemia cumpre as indicações (faltando-lhe aquele tom de manteiga que a fecharia mais um pouco) e seria uma pena que passasse despercebida; devemos felicitá-la pela cor e pelo aroma, que tem um final muito apreciável, que evoca maçã e frutos em maturação. Ao servi-la, atenção!, provoque-lhe uma espuma substancial. E já sabeis, leitores, qual é a minha divisa nessas circunstâncias: «Vinde a mim, ruivas!» Já é obsessão.
Para festejar o início da produção na Cervejaria da Trindade, apareceu a Sagres Bohemia 1835, uma variante mínima da Sagres Bohemia anterior. Na verdade, trata-se de uma correcção da nova marca, com um ligeiro toque de fruto no seu carácter – mais aveludada, menos amarga no seu final de boca, e mais intensa no aroma. É uma homenagem ao interessante mito dos bons frades que amavam a cerveja e a fabricavam para prazer dos homens e glória do Divino. Não me parece mal. Se fizerem a experiência, num copo adequado, a Bohemia 1835 produz uma espuma mais densa do que Bohemia normal, o que leva a pensar que é uma pena tratar-se apenas de uma série limitada. Há uns tons (mas isso depende da imaginação do provador) de cereja e frutos maduros, muito mais indicados para uma cerveja deste género – e que a afasta definitivamente do gosto popular (o que é bom), dando-lhe notas de requinte e de exotismo, conferindo-lhe densidade e tornando-a mais apetitosa. Por instantes, num final de Primavera, pode mesmo parecer uma cerveja de bar, bebida ao balcão em copo de pint (a meu ver mais adequado, para esta Bohemia 1835, do que o formato belga) uma vez que não precisa tanto de respirar nem de correr o risco de oxidar. Pelo contrário: é uma cerveja que deve beber-se em goles cheios, fustigando as papilas e mostrando-lhes que é possível produzir uma ruiva aceitável, muito aceitável, com as cores nacionais. O bebedor não sabe como se consegue isso, mas dá-se conta de que há uma melhoria. E isso é bastante. E já é muito.
Várias vezes me têm perguntado quais são as melhores cervejas portuguesas – é um risco necessário e natural. Por sorte, mais do que por aquela natural sapiência que um cronista devia ter (e não tem), tenho podido evitar respostas. Tenho a minha lista. No topo, silenciosas, seguem as minhas três de eleição. De duas delas já escrevi há tempos, ambas lager – uma de travo agudíssimo, pilsener lusitana, leve e ligeira, como uma daquelas canções cujo ritmo não engana ninguém, é uma cerveja fácil (lembra muito aquela canção Esquece Tudo o que te Disse). A outra, lager de lei, loira intensa, perfumada de lúpulo e nada mais, com o tom amargo de quem não aparece para enganar incautos ou iniciados (e que lembra o grande hit de Tony de Matos, «o vendaval passou/ nada mais resta…»). Desta vez, porém, menciono outra lager muito apropriada, a Coral, madeirense (relembro que apareceu recentemente no mercado a Coral Tónica, que é a aventura funchalense no domínio das stout). Bebê-la a copo ou em garrafa traduz uma distinção apreciável, sobretudo se o barman sabe tirar correctamente a cerveja. No continente, para pena minha, não se encontra em barril – mas as garrafas estão por aí, e não desmerecem a tradição de uma cerveja leve, de baixíssima fermentação, refrescante e de «coração frio» (à semelhança de muitas brasileiras, por exemplo – refiro-me à cerveja), mas que não se envergonha do seu piquinho que eu atribuo ao desejo de agradar ao gosto médio nacional. E aquele tom de frescura que acalma as papilas não é um acaso.
Havia um tempo em que as cervejas eram todas iguais. Minto: em que nós, inocentes, julgávamos que as cervejas eram todas iguais. Eu recordo coisas simples, como essa. O gosto do primeiro golo de cerveja – o da primeira aventura como adolescentes. Era Verão. Tínhamos quinze anos. Dezasseis. Havia um brilho imbecil nas tardes de Verão, e um reflexo alaranjado no entardecer; nada que não venha na literatura. Romances de aventuras, policiais, séries de televisão, primeiros romances a sério, choupos à beira do rio, creme Nívea na praia, areal a perder de vista, pinhais, dunas. Posso mencionar o primeiro beijo? Posso. Essas coisas têm mais probabilidade de terem acontecido durante o Verão. Tal como a primeira cerveja. Nesse tempo havia marcas como Clock, Cergal, Marina, Cuca. Hoje, há mais marcas. Mas essas eram as dos Verões de há trinta anos, vinte anos. Seriam melhores do que hoje? Não sei. Não havia essas preocupações. Era apenas uma cerveja, uma transgressão. Outro dia, no supermercado, revi a Cergal. Vi-a em latas, verdinhas, com o complemento «Holland style» ou «Holland beer». Comprei duas latas, tal como já comprei, em alfarrabistas, livros escolares de há trinta anos – para rever um tempo. Lager clara, fria, sem ademanes. Procurei um sabor antigo mas não soube reconhecê-lo. Leve e ligeira, lembrou-me apenas que o tempo passava. Tinha um sabor simpático de lúpulo suave, trabalhado com cuidado. Era o nome da Cergal, com aquele rasto de cereal flutuante, filtrado com esmero (ah, que diferença em relação à antiga Cergal), um raio de luz na minha memória traiçoeira.O passado é negro, mas a culpa não é, seguramente, dos professores. Os que resistiram a todos estes erros da responsabilidade do Ministério que tutela são quase heróis. Que mereciam ser estimados e bem pagos para permanecer na profissão.
Sucedem-se os ataques violentíssimos aos professores como únicos responsáveis pelo desaire do ensino público (note-se, público, não privado, como se eles não fossem os mesmos...).Após um fim de semana de violentos ataques a esquadras da polícia, dos bombeiros, autocarros, metro e civis, revoltas em inúmeras prisões, a chegada da segunda-feira e a necessidade dos cidadãos terem de ir trabalhar, levou a que este dia São Paulo tenha assistido ao pior dia da sua história. Nunca os cidadãos desta cidade se tinham sentido reféns do terror, do medo como nesta segunda-feira. De madrugada inúmeros autocarros e carros foram incendiados, agências bancárias destruídas e havia manchas de sangue espalhadas por muitas partes da cidade. Quando os cidadãos mais pobres se dirigem à paragens de autocarros para irem trabalhar deparam-se com a inexistência de circulação de autocarros. Até ao momento tinham sido destruídos mais de 50 e as empresas não arriscaram enviar mais veículos para as ruas. Devido a isto, o rodízio municipal foi anulado (sistema de circulação de viaturas, por número de matrícula), permitindo que circulasse quem quisesse, independentemente da matrícula do carro. Depois do almoço, numa entrevista na TV, Marcola, chefe do PCC, diz ao director do DEIC, da polícia, que vai matá-lo, que ele pode entrar na sua delegacia para matá-lo, mas este não pode entrar na prisão e fazer-lhe o mesmo. A tensão atinge então a sua máxima amplitude. Ninguém se sente seguro. Os estabelecimentos comerciais fecham suas portas às 3 e meia da tarde. Os serviços públicos também param; os funcionários são enviados para casa. O metro, que de madrugada tinha sido alvo de explosões, deixa de trabalhar. Neste recolher obrigatório informal a casa, São Paulo assiste ao record máximo de fila de carros: 212 km de fila de carros, às 4 da tarde. 212! O método usado pelo PCC nos seus ataques é, fundamentalmente, através de motoqueiros; muitos deles são devedores de dívidas de droga, e se não fizerem esses ataques, morrem. Entre morrer às mãos dos traficantes ou às balas dos policiais, preferem a última hipótese, pois ela ainda pode representar uma esperança, unto do PCC. Outros ataques, são ataques mais cirúrgicos: um dos comandos se aproxima de um policial em particular e dispara a arma na sua nuca, ou nos seus familiares. Em frente a uma padaria, na zona sul da cidade, um policial, com sua mulher ao lado, ajoelhou-se diante de dois comandos e foi executado. Os bandidos comunicam as suas instruções por telemóvel; a maioria vem de dentro dos presídios. Um telemóvel mata mais que um revólver ou que uma AK.
Às 7 da tarde as ruas estão desertas e, a essa mesma hora, o comandante da polícia militar de São Paulo, Sancler, dá uma conferência de imprensa onde acusa os órgãos de comunicação social de exagerar o que estava a acontecer; acusa também os comerciantes de se precipitarem a fechar os estabelecimentos mais cedo e acusa ainda os responsáveis pelas escolas e faculdades de terem tomado a decisão de enviar os alunos para casa e fecharem as portas. Às 9 da noite a cidade está mergulhada num escuro inimaginável. Um escuro que a cidade de São Paulo desconhecia que tinha dentro dela. Na zona norte da cidade, um condomínio onde vivem vários familiares de policiais começa a ser atacados. A troca de tiros continua, as mortes aumentam Na zona oeste, onde vivo, um homem é baleado neste mesmo instante, não se sabe se policia ou bandido. Numa das zonas mais ricas da cidade, aqui perto, dois bandidos são baleados. São 185 ataques até ao momento. Até ao fim, até ao acordo que o Governo de São Paulo não admite ter feito, serão 200 ataques 200 ataque, mais de 60 autocarros queimados, 52 criminosos mortos, 43 policiais e civis mortos. Os canais de TV mantêm helicópteros a sobrevoar a cidade toda noite, em comunicação com comandantes da polícia, vamos assistindo à noite, a uma imensa noite desconhecida. Um homem, ao fim do dia, de regresso a casa, dizia “estou com medo dessa bandidagem; ninguém sabe quem é quem, essa é que é a verdade”. Num programa de debate, num dos canais, o presidente dos juízes de São Paulo diz que a legislação deve mudar, deve ser mais severa; é a favor da pena de morte. “A nossa democracia não é mais desenvolvida do que a dos EUA.” Por seu lado, o responsável máximo pela investigação policial, Rebouças, diz que “quando o bandido sente que o governo é fraco, fica forte” Oiço o apresentador do programa dizer: FORAM CONVIDADOS PARA O PROGRAMA O SECRETÁRIO DA DEFESA DO GOVERNO DE SÃO PAULO, O GOVERNADOR DE SÃO PAULO E A RESPOSTA FOI “NÃO VAMOS ENVIAR NINGUÉM!” Perante isto, não sei o que dizer disto, sinceramente. O apresentador, profundamente comovido e indignado, diz: ISTO NÃO É CRIME ORGANIZADO É QUADRILHA ORGANIZADA. Julgo excelente esta contra-posição; esta é a diferença entre as cidades de Istambul ou de Hong Kong e a de São Paulo; quadrilha organizada não poderia funcionar num estado organizado, embora crime organizado exista em estados organizados; quadrilha organizada só pode funcionar em estados desorganizados (não identificar estado organizado com país desenvolvido). Não defendo o crime organizado, mas, apesar de tudo ele é um mal menor, menor do que o das quadrilhas organizadas. O crime organizado não afecta o cidadão comum, nem os policiais. O crime organizado é organizado. “Nós temos as leis mais brandas do mundo” , acrescenta o Juiz..Termino com um curioso episódio. No dia das mães, dia 14 de Maio, no fim de semana dos motins, foram liberados 2000 presidiários para visitarem suas mães. Sei que parece piada, mas é verdade. As prisões estão caóticas, a cidade sitiada e 2000 presos vão festejar este dia especial com as mães. Assim que saíram dos estabelecimentos prisionais onde se encontravam, foram directamente ao PCC buscar armas para poderem combater. Dos 39 bandidos mortos, no fim de semana, 15 eram parte desses visitantes de mães. Por conseguinte, 15 só no domingo. Perante tudo isto, entre comedia e tragédia, o problema é que os pensamentos de direita e de esquerda mais radicais começam a emergir, parecendo fazer sentido a que os escuta. Perante tudo isto, entre comedia e tragédia, é muito difícil pensar contrariá-los, quer á direita, quer à esquerda. A segunda-feira de São Paulo.
NOTA: PCC começou na prisão como time de futebol e chamava-se Comando da Capital. Mais tarde, passaram a ser uma organização de defesa dos direitos dos presos e das usas famílias. Por fim, já enquanto quadrilha, adicionaram o Primeiro, tornando-se o PCC.
Paulo José Miranda
São Paulo, 16 de Maio de 2006
A Skol tem algumas raízes portuguesas – foi mão portuguesa que a criou no Brasil. Desde a década de setenta que a Skol é, além do mais, uma marca de referência – as suas campanhas publicitárias ajudam. Há uns anos, a Skol lançou a ideia de que é a única cerveja que desce redondo; as imagens do anúncio mostravam as outras cervejas descendo como um cubo pela garganta dos bebedores; só a Skol se apresentava como uma bebida redondinha, baixando com facilidade até ao estômago. Há uns Verões, há uns anos, a Ambev (o fabricante brasileiro) lançou a Skol Beats, uma cerveja «para público jovem». Eu desconfiei: as coisas «para público jovem» são todas hip-hop e de baixa qualidade ou, pelo menos, de qualidade adulterada pelo «gosto jovem» que é, geralmente, fácil e superficial. O lema da campanha era «a cerveja que desce redondo, rodopiando». Daí que a garrafa fosse, também ela, rodopiante, como se vê pela imagem. A desconfiança transformou-se em surpresa porque a Skol Beats, tirando o ar hip-hop (que nem era fundamental…), era saborosa e, ao contrário do que fazia crer a ideia «para público jovem», não se tratava apenas de uma «cerveja leve». Mantinha uma percentagem alcoólica, digamos, sustentável (5,3%) – e era uma lager, evidentemente, e de «coração frio». Ao bebê-la, depois de a boca a saborear, ficava uma sensação de geladinha bem aceitável. A sua garrafa totalmente transparente, ondulada, com mais aderência à mão, também facilitava. Utilizei várias vezes o radical «fácil»; também não me arrependo. A Skol Beats é uma cerveja fácil de beber, elegante, sem necessidade de muita preparação (como a existência de um salgadinho prévio) e pode beber-se pela garrafa, ao contrário das cervejas «sérias» (isto não é uma vantagem mas apenas uma constatação). O Verão brasileiro, mesmo quando ainda mal começou, também é um factor importante para apreciar convenientemente esta cerveja. Ela deixa um rasto de condensação do ar, um ligeiro travo cítrico e uma paleta de cores muito aceitável enquanto rodopia. Como na campanha publicitária, ela desce redondo, rodopiando. É mesmo verdade.
A viagem entre Porto Alegre e Pelotas é coisa para três horas, mas quando tem na outra ponta do fio um convite para feijoada nesse fim de tarde ou noite e para um churrasquinho no dia seguinte ao final da manhã, o tempo de viagem é amenizado. A meio da viagem, inclusive, há uma paragem para provar croquetes superlativos, coxinhas bem temperadas e até bolinho de aipim que faz inveja. Luís Fernando Veríssimo fez várias viagens para encontrar o «pastel perfeito» e encontrou-o num shopping de Gramado, como conta num dos seus livros. Eu encontro bolinho de aipim em vários lugares e ainda não me decidi pela tabela classificativa. Seja como for, a velha Pelotas aguardava-me depois de percorrer a estrada que acompanha, ao longe, as lagoas originais do Rio Grande do Sul, onde açorianos antiquíssimos pensavam que estava o paraíso na terra. Uma feijoada (mais a promessa de churrasquinho gaúcho no dia seguinte) pede contenção àquela hora. Mesa resplandecente: a comidinha tinha sido preparada num fogão de lenha, temperada e apurada pelo tempo. Mas há aquele tempo de espera que uma feijoada sempre necessita – e que foi ocupado com libações exageradas com a Polar. Bênção dos céus. Tinham-me dito que era uma pilsener (embora a marca tenha acabado de lançar uma Polar Bock, mais forte e substancial), coisa que eu ignorei: fresquíssima, leve o suficiente para evocar a grande noite do Inverno austral, mas sem desmerecer de um final seco e sem o amargor das suas congéneres europeias, a Polar manteve-se até ao fim como companheira adestrada. Bebi demais, confesso. Mas nada me toldou naquela mesa familiar, cheia de riso e de noites antigas. Três vezes me servi de feijoada, umas doze de Polar. Não me arrependi, mas devo ter causado má impressão. No dia seguinte, a tranquilidade do sistema digestivo manteve-se e o churrasquinho foi recebido com mais pilsener. Saí de Pelotas com a impressão de que tinha descoberto uma cerveja muito, mas muito agradável. Sem contar com o resto.
Encontro muitas vezes, nas minhas andanças, cervejas más. Creio que, ao longo de um ano de crónicas, ainda não mencionei nenhuma delas, o que se explica facilmente: com tantas cervejas boas espalhadas pelo atlas, não há razão para começar pelas que caíram no saco das reprovadas. Muitas vezes, são más por causa da água que fornece as suas cubas; ou pela sua alta fermentação; ou pela sua baixa fermentação; ou pelo excesso de levedura que não filtrou; ou porque – vamos lá – me sabe mal. É certo que, para a apreciação da cerveja, não contam apenas as suas características orgânicas, o seu sabor a frio; há outros factores. Só assim se explica que eu goste de algumas cervejas absolutamente medianas, mas que evocam uma paisagem, um destino, uma hora, uma conversa que de alguma maneira está associada ao gesto de abrir uma garrafa gelada (ou não…) e de provar o líquido. Passeando pelo globo, ao acaso, encontram-se revelações e deparamos com desilusões. É a vida.
Foi uma excepção durante as comemorações da instalação da Cervejaria Bohemia sob o clima fresco e verdejante de Petrópolis, mal se sobe do Rio de Janeiro: nessa altura, e numa série de milhares de garrafas, apareceu no mercado a Bohemia Weiss, uma cerveja turva, de boa e acentuada fermentação, com sabor a trigo. Devemos-lhe algum destaque, uma vez que a tradição cervejeira portuguesa em terras brasileiras não é inócua ou distante: foram mãos portuguesas que criaram a Skol brasileira, e que a impuseram como a primeira cerveja vendida em lata. Hoje, é provavelmente a terceira melhor de todas as loirinhas pilsener e maisntream no mercado do lado de lá do mar. E porquê? Porque há muitas razões e eu voltarei a elas. Pois houve reivindicações e exigências do mercado: e a Bohemia Weiss regressou. Pode encontrar-se na sua garrafa de 550 ml, dose cabal e interessante para apreciadores: a sua cabeleira loira e turva ondula dentro da garrafa e cai em cascata para o copo, deixando na boca um tom amargo (para quem já consumiu a Franziskaner, por exemplo, sabe ao que me refiro) que, em princípio, não seria admissível nos trópicos do Atlântico Sul. Pois é essa surpresa que é importante distinguir: o que parece uma cerveja europeia (e é) acaba por se transformar num sabor muito apetecível. Numa das últimas vezes bebi-a nos arredores de Porto Alegre, em Nova Petrópolis, no restaurante Colina Verde. Meu Deus. O garçom avançou por entre as mesas, segurando a garrafinha de Bohemia Weiss numa das mãos, os copos na outra; serviu um bom pedaço – fez espuma. Agitou em seguida a garrafa, para que não assentassem lá dentro nenhumas matérias flutuantes, e tudo se parecesse com aquele vasto mar de sargaços de que falava Jean Rhys. Depois, completou o copo com aquela espuma turva, especiosa, danada, safada, gostosa. Enfim, cheia de libido. O preço é incomparável. O sabor, esse, não tem preço. É boa.
Os fabricantes da La Brunette, que também são responsáveis por uma ale nada negligenciável (a Schmitt Ale), advertem que o lúpulo utilizado na preparação desta cerveja é importado para o Brasil directamente da Nova Zelândia – esse é um pormenor na sua construção muito cuidadosa. Eu situá-la-ia na zona das dunkel mas a sua espuma volumosa e densa lembra-me quase uma stout. Na verdade, vista à luz, ela aproxima-se das grandes cervejas escuras alemãs ou vienenses (talvez um pouco mais), com reverberações de chocolate quando o brilho do sol incide sobre ela directamente. Chamar a uma cerveja assim La Brunette é um risco substancial que se corre – estamos no Brasil e la brunette deve ser traduzido por morena, e morena deve ser traduzido com o acréscimo colaborante de qualquer outra palavra que designe a sensualidade, a concupiscência, essas coisas. Uma cerveja assim deve ser assinalada: o sabor é acidentalmente adocicado mas, mal se afasta o copo, a boca dá-se conta de ter sido invadida por aquele tom amargo que faz as delícias do bebedor, que gosta de uma espuma prolongada e, quando está para aí virado, de uma boa densidade. Há uma certa harmonia entre a carbonatação moderada e a sensação de suavidade proporcionada pelos açúcares da fermentação e pelo amargor do lúpulo neo-zelandês. Como o Rio Grande do Sul tem Outonos temperados e tépidos, acho uma pena não ser mais fácil encontrá-la nas lojas, uma vez que é a cerveja ideal para sobremesas.