6.6.06

Havia um tempo em que as cervejas eram todas iguais. Minto: em que nós, inocentes, julgávamos que as cervejas eram todas iguais. Eu recordo coisas simples, como essa. O gosto do primeiro golo de cerveja – o da primeira aventura como adolescentes. Era Verão. Tínhamos quinze anos. Dezasseis. Havia um brilho imbecil nas tardes de Verão, e um reflexo alaranjado no entardecer; nada que não venha na literatura. Romances de aventuras, policiais, séries de televisão, primeiros romances a sério, choupos à beira do rio, creme Nívea na praia, areal a perder de vista, pinhais, dunas. Posso mencionar o primeiro beijo? Posso. Essas coisas têm mais probabilidade de terem acontecido durante o Verão. Tal como a primeira cerveja. Nesse tempo havia marcas como Clock, Cergal, Marina, Cuca. Hoje, há mais marcas. Mas essas eram as dos Verões de há trinta anos, vinte anos. Seriam melhores do que hoje? Não sei. Não havia essas preocupações. Era apenas uma cerveja, uma transgressão. Outro dia, no supermercado, revi a Cergal. Vi-a em latas, verdinhas, com o complemento «Holland style» ou «Holland beer». Comprei duas latas, tal como já comprei, em alfarrabistas, livros escolares de há trinta anos – para rever um tempo. Lager clara, fria, sem ademanes. Procurei um sabor antigo mas não soube reconhecê-lo. Leve e ligeira, lembrou-me apenas que o tempo passava. Tinha um sabor simpático de lúpulo suave, trabalhado com cuidado. Era o nome da Cergal, com aquele rasto de cereal flutuante, filtrado com esmero (ah, que diferença em relação à antiga Cergal), um raio de luz na minha memória traiçoeira.

+ MARCA: Cergal
Origem: Portugal

Álcool: 4,5%

Avaliação: *